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Bulletin

Les nouvelles relations avec les laïcs -
Le jubilé de la vie bénédictine

130

Bulletin

O Capítulo Geral OCSO -
O jubileu da vida beneditina

129

Bulletin

As comunidades em zona de conflitos

128

Bulletin

Lei e Vida

127

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Transição

126

Bulletin

Vida monástica hoje

125

Bulletin

“Toda a vida como liturgia”

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Bulletin

Capítulos Gerais cistercienses
(OCSO e OCist, Set. e Out. 2022)

123

Bulletin

Vida monástica e sinodalidade

122

Bulletin

A gestão da Casa comum

O Capítulo Geral OCSO -
O jubileu da vida beneditina

Boletim da AIM • 2026 - No 130

Índice

Editorial

Dom Bernard Lorent Tayart, OSB, Presidente da AIM


Sobre a AIM

• Os novos estatutos da AIM

Dom Abade B. Lorent Tayart, OSB


• Relatório sobre as ajudas financeiras

Dom Charbel Pazat de Lys, OSB


In Memoriam

Padre Martin Neyt, antigo presidente da AIM

A Redação


Lectio divina

Homilia sobre a cura da sogra de Pedro (Lc 4, 38-44)

Dom Bernardus Peeters, OCSO


Perspectivas

• «O amor da partilha e a partilha do amor»

Dom Bernardus Peeters, OCSO


• O carisma cisterciense no mundo de hoje

Dom Mauro-Giuseppe Lepori, OCist


• Intervenção sobre o carisma cisterciense no Capítulo Geral OCSO

Madre Elizabeth Mary Mann, OCBE


• Intervenção sobre o carisma cisterciense no Capítulo Geral OCSO

Madre N. Ghijs, Bernard. Oudenaarde


529-2029: o jubileu da vida beneditina

• O jubileu beneditino

Abade Primaz Jeremias Schröder, OSB


• Tornar-se peregrinos através do tempo

Dom Abade Antonio Luca Fallica, OSB


• Apresentação do livro do jubileu

Sr. Adam Simon, Coordenador


• «Despertai-vos!»

Dom Abade Benedetto Nivakoff, OSB


Grandes figuras da vida monástica

• Dame Hilda Wood, 1934-2025

Beneditinas de Stanbrook


• Padre Augustin Baker

Irmã Laurentia Johns, OSB


Notícias

• O Ano Santo em São Paulo Fora dos Muros

Dom Ludovico Torrisi, OSB


• 13º Encontro do BEAO

Segundo a ata do Ir. Koss, OSB


• 13º Encontro do EMLA

Irmã Cristina Lavinhati, OSB


• 1300 anos da Abadia de Novalesa

Dom Michael-Davide Semeraro, OSB


• O mosteiro Morne-Saint-Benoît

Dom Jacques Montfort, OSB


• As Filipinas nas tempestades tropicais

Irmãs Beneditinas de Tutzing


• A situação em Kiribati

Irmã Megan Kahler, OSB

Sommaire

Editorial

Muitos artigos neste número! Muitas riquezas partilhadas que manifestam a vitalidade das nossas comunidades e da nossa família beneditina.

Este número abre-se com a apresentação de algumas novidades relativas à estrutura da AIM, que continua a evoluir para aprofundar a comunhão e a ajuda mútua entre as comunidades da Confederação Beneditina, da CIB, da OCSO e da OCist. Segue-se o relatório do Secretário-Geral sobre as finanças da AIM, apresentado durante a Assembleia da AIM em novembro de 2025, na Abadia de Maredsous (Bélgica).

Apresentamos a seguir um eco do último Capítulo Geral da Ordem Cisterciense da Estrita Observância (OCSO). A expressão do carisma cisterciense levanta questões que as comunidades beneditinas também podem partilhar sob muitos aspectos.

A partir da presente edição, apresentamos uma seção que continuará ao longo de vários anos. O Boletim compromete-se, de fato, a repercutir a atualidade do jubileu de Monte Cassino (1500 anos em 2029), que deseja tornar-se um jubileu da vida beneditina, das nossas três Ordens, animado pela preocupação de despertar, escutar, crescer e florescer. Temas que se desenvolverão a partir de 2026 ao longo dos anos que nos separam do jubileu de 2029.

Além disso, é desejável que este jubileu não seja um tempo fechado sobre si mesmo, mas amplamente aberto para além dos anos “jubilares”, em vista de um futuro fiel e, se Deus quiser, próspero para as nossas comunidades.

As outras seções são abundantes: grandes figuras monásticas, ecos dos diferentes encontros monásticos internacionais, o aniversário dos 1300 anos da fundação da Abadia de Novalesa, algumas notícias de comunidades que atravessam momentos difíceis e muitos outros assuntos de interesse.

Os tempos que se abrem diante de nós convidam-nos à profundidade, à paciência, à criatividade e sobretudo à docilidade às inspirações do Espírito. Quaisquer que sejam a nossa idade, o nosso contexto, o nosso número ou as nossas preocupações, o Senhor nos chama: “chegou a hora de sair do sono e abrir-nos à luz divina”, segundo a bela proposta do Prólogo da Regra Beneditina. Assim poderemos ser cada vez mais testemunhas da paz que Deus quer para o mundo e à qual os homens colocam, tantas vezes, tantos obstáculos.

Bom despertar, boa escuta, bom crescimento e bom florescimento para todos, “sob a guia do Evangelho”.

Artigos

Apresentação dos novos estatutos da AIM

1

Sobre a AIM

Dom Bernard Lorent Tayart, osb

Presidente da AIM

 

Apresentação dos novos estatutos da AIM

 

A AIM foi fundada em 1961 no contexto das numerosas fundações monásticas das décadas de 1960, 1970 e 1980, do Ocidente para os países de missão. O seu primeiro nome foi «Ajuda à Implantação Monástica». Em seguida, AIM passou a significar «Ajuda intermosteiros», mostrando assim uma outra orientação, na qual a importância era dada à solidariedade, mas também à formação. A partir de 1996, AIM passou a significar «Aliança InterMosteiros» e mesmo «Aliança para o Monaquismo Internacional», indicando que cada mosteiro é autônomo e, ao mesmo tempo, unido a todas as comunidades que, no mundo inteiro, seguem a Regra de São Bento, seja na Ordem Beneditina, na Confederação e na CIB, seja nas duas Ordens cistercienses.

Durante o Conselho anual da AIM em Poblet, em novembro de 2024, e em continuidade com o sínodo sobre a sinodalidade, refletimos sobre uma nova maneira de compreender o papel da AIM a serviço das comunidades monásticas. Uma comissão debruçou-se sobre este tema e propõe novos estatutos, em continuidade com os antigos, mas com o desejo de uma melhor representatividade das três ordens monásticas e das regiões do mundo. Proponho-vos uma breve apresentação.

 

1. Natureza e finalidade

A AIM deseja ser uma aliança efetiva e uma plataforma comum entre as quatro estruturas representativas do mundo beneditino: a Confederação Beneditina, a CIB para as beneditinas, a Ordem Cisterciense e a Ordem Cisterciense da Estrita Observância. A AIM é a única organização que reúne as famílias beneditinas, e deseja-se manifestar isso claramente.

A AIM quer promover:

– a compreensão da vida monástica através da formação e da organização de lugares de formação, quaisquer que sejam;

– a vida monástica no contexto da sociedade, da Igreja e das outras tradições monásticas;

– uma solidariedade concreta entre os mosteiros para o desenvolvimento humano, cultural e religioso das comunidades monásticas e da população circundante.

 

2. Estruturas: órgãos sinodais

É sobretudo no âmbito da estrutura que os novos estatutos introduzem mudanças.

Conselho Moderador. À frente da Aliança, encontra-se agora o Conselho Moderador, composto pelos quatro responsáveis da Confederação Beneditina, da CIB, dos Cistercienses e dos Trapistas. O presidente da AIM é geralmente convidado para os seus encontros.

Assembleia da Aliança. É o órgão consultivo que liga a AIM às famílias monásticas: nela se partilham informações, ideias, e propõem-se desenvolvimentos e projetos. Fazem parte dela: os quatro moderadores; o presidente e o secretário-geral da AIM; a direção da AIM-USA; os presidentes das congregações de Subiaco-Montecassino, Sankt Ottilien, Anunciação e Tutzing; um delegado da Ordem Cisterciense; um delegado da OCSO; um delegado eleito das organizações regionais BEAO, ISBF, EMLA e um delegado da África; o secretário-geral do DIM-MID; os representantes dos comitês da AIM para os projetos, as finanças, a comunicação e a formação.

Comitês. São criados quatro comitês: finanças, projetos, comunicação e formação.

Outras estruturas: Fundação Benedictus e possibilidade de possuir escritórios regionais.

Responsáveis:

O presidente: responsável pela AIM. Nomeado por cinco anos pelo Conselho Moderador.

O secretário-geral: nomeado pelo presidente da AIM por cinco anos, após consulta ao Conselho Moderador. Dirige o secretariado, coordena os comitês, convoca as reuniões e estabelece as ordens do dia.

Office manager: funcionamento do escritório de Vanves.

Agente de desenvolvimento: coleta de fundos.

Redator do boletim.

Responsável pelo site web.

Coordenador da formação.

Representantes regionais.

Padre Martin Neyt (1939-2025)

3

In memoriam

A Redação do Boletim

 

Padre Martin Neyt (1939-2025)

Antigo Presidente da AIM

 

 

O Padre Martin Neyt, monge do mosteiro de Clerlande (Bélgica, Congregação da Anunciação), faleceu na noite de 25 de novembro de 2025. Monge desde 1963, foi presidente da AIM de 1997 a 2013.

 

O padre Martin foi nomeado presidente da AIM em 1997, quando o novo Abade Primaz, Marcel Rooney, reestruturava a AIM, para melhor adaptá-la ao serviço internacional que este organismo era chamado a prestar. Teve como secretário-geral o padre Jacques Côté (Saint-Benoît-du-Lac, Quebec), depois a Ir. Gisela Happ (Abadia de Santa Hildegarda, Eibingen, Alemanha, 2001-2016); a Ir. Placid Dolores Luz (Filipinas) juntou-se ao Secretariado em 2005 (2005-2020).

O Secretariado desenvolveu-se progressivamente, tornando-se um instrumento eficaz a serviço das fundações que continuavam a surgir e a consolidar-se. Sob o impulso do padre Martin, a AIM, acompanhando as comunidades fundadas nos diversos continentes, contribuiu de maneira significativa para o surgimento e o fortalecimento de encontros regionais, nacionais e internacionais. Por vezes, esteve na origem dessas iniciativas, promovendo reflexões sobre valores comuns e disponibilizando especialistas e conferencistas; em outras ocasiões, participou por meio do apoio financeiro, tornando possível a realização desses encontros. Além disso, colaborou com centros de formação e de estudos que permitiam a irmãs e monges de diferentes continentes viver, estudar e partilhar experiências em comum durante determinados períodos. Em duas ocasiões, a AIM organizou peregrinações de monges e monjas ao Egito, proporcionando-lhes a oportunidade de conhecer os mosteiros coptas e de aí encontrar uma nova inspiração para a vida das suas próprias comunidades. Ao mesmo tempo, a AIM procurou manter-se atenta aos acontecimentos mundiais, partilhando as preocupações e os desafios enfrentados pelas comunidades afetadas por catástrofes naturais, conflitos fratricidas e profundas mudanças econômicas e financeiras. Dessa forma, procurou oferecer apoio solidário e respostas concretas às necessidades surgidas em contextos frequentemente marcados pela instabilidade e pela adversidade.


Visita à Índia do padre Martin Neyt, acompanhado pelo padre Mark Butlin (Equipe Internacional da AIM).
Visita à Índia do padre Martin Neyt, acompanhado pelo padre Mark Butlin (Equipe Internacional da AIM).

O padre Martin teve a alegria de organizar o 50º aniversário da AIM em 2011. Desejou que acontecesse na abadia de Ligugé, onde este organismo havia nascido durante a reunião dos abades beneditinos e cistercienses por ocasião do 16º centenário da fundação do mosteiro por São Martinho. Foi um feliz tempo de encontro, partilha e reflexão.


Durante todo o período em que esteve à frente da AIM, o padre Martin dedicou especial atenção ao Boletim. A partir das edições do ano 2000, a publicação passou a incluir artigos de reflexão sobre diversos temas da vida monástica, redigidos por diferentes autores. Entre os assuntos abordados figuravam a lectio divina, o governo e a formação, além de crônicas provenientes dos mosteiros e de numerosas notícias relacionadas com a vida monástica, bem como com a vida da Igreja e do mundo.

O site da AIM foi criado sob a presidência do padre Martin. O Centro João XXIII, fundado em 2005 no mosteiro de Vanves e hoje encerrado, acolheu durante muito tempo monjas para os seus estudos teológicos em Paris. A AIM deve, portanto, muito ao padre Martin. Por ocasião do 50º aniversário da AIM, ele escrevia:

«“Amarra tua barca aos navios de teus Padres”, repetia um Padre do Egito que vivia em Gaza. Os desafios do nosso tempo fazem com que cada monge e cada monja, bem como cada comunidade, tenha de atravessar provações profundas, inerentes à condição humana e frequentemente amplificadas pelos meios de comunicação contemporâneos. Entre elas encontram-se os abusos sexuais e a pedofilia, a violência que pode chegar ao genocídio, a crescente desigualdade entre pobres e ricos, a transferência de jovens vocações para outros continentes, a tentação de utilizar os mosteiros como instrumento de realização pessoal por meio dos estudos ou de outras atividades, bem como a atração exercida pelo estado religioso. Todos estes desafios vêm, de certo modo, acrescentar novas formas às antigas fragilidades humanas já evocadas pela tradição ao falar dos pecados capitais.” Existem processos de vida destinados a afastar-se da agitação do mundo, a acolher de modo justo e respeitoso, a ultrapassar perspectivas fechadas de identidade social ou cultural. As provações das comunidades dos nossos dias são tão temíveis quanto as de outrora, embora muito diferentes.

“É pelo amor que tiverdes uns pelos outros que reconhecerão que sois meus discípulos.” Constituir juntos o Corpo de Cristo, fazer do amor mútuo uma escola do serviço do Senhor são sinais que não enganam. Mas o caminho é longo e a AIM, talvez como o bom samaritano, acompanha, discerne, assume riscos e recorda incessantemente o coração da tradição monástica. As comunidades precisam assegurar o seu sustento quotidiano, beneficiar do acompanhamento e do aconselhamento de pessoas competentes e unir esforços para a comercialização dos produtos monásticos. São numerosos os desafios a enfrentar e as novas tarefas a assumir: o longo caminho do autoconhecimento, a construção de relações equilibradas e fraternas com os outros, a realização de obras e edifícios à escala humana — evitando projetos excessivamente ambiciosos e dispendiosos —, o acolhimento dos pobres e necessitados, bem como o apoio ao desenvolvimento das populações que vivem ao redor dos mosteiros.

Assim, humildemente, a AIM foi criada e continua a desenvolver-se num mundo em evolução, onde cada comunidade não escolhe o seu contexto, mas procura nele forjar da melhor maneira possível a sua identidade. Ela está aí para contribuir para a construção de um mundo novo. Multiplicando os contatos de proximidade, ela assume como suas as primeiras palavras da Regra Beneditina: “Escuta, ó filho, os preceitos…”.

A escuta continua a ser fundamental: ela conduz à descoberta do outro, dissipa ambiguidades e mal-entendidos, favorece um diálogo autêntico e procura, no respeito pela autonomia de cada um, construir uma verdadeira aliança.

 

Da esquerda para a direita: Irmã Gisela Happ, Secretária geral; Irmã Mary Placid Dolores, Secretária; Pe. Martin Neyt.
Da esquerda para a direita: Irmã Gisela Happ, Secretária geral; Irmã Mary Placid Dolores, Secretária; Pe. Martin Neyt.

Contribuição de um amigo do padre Martin

François Neyt nasceu a 17 de julho de 1939 no hospital das irmãs da Caridade em Jadotville, hoje denominada Likasi (RDC). Ali passou uma infância feliz, rodeado por uma família amorosa junto dos seus pais, da sua irmã mais velha e do seu irmão mais novo. A vida desenrolava-se de maneira simples, bela e sobretudo livre. Frequentou durante toda a sua escolaridade a escola dos irmãos Xaverianos, escola que ficava ao lado da paróquia mantida pelos beneditinos missionários do mosteiro de Santo André de Bruges, comumente chamado “Zeven Kerken”. Quando a família teve de regressar à Bélgica, entrou para o colégio Saint-Michel, dos jesuítas, em Bruxelas, onde terminou os estudos secundários.

As semanas passavam entre os estudos, o esporte (tênis, futebol, ciclismo...) e o escotismo todos os sábados com o padre Martin de Wilde, capelão beneditino dos escoteiros de Jadotville e professor de religião na escola dos Xaverianos.

Todos os domingos, a família participava da missa celebrada pelos beneditinos; François e o seu irmão eram acólitos. A biblioteca ficava então acessível após a celebração, e François não deixava de levar numerosos livros para a semana, pois já naquela época era apaixonado por literatura e poesia. Foi por volta dos seus 15 anos que nasceu o seu chamado para servir o Senhor. Bastante reticente no início, dirigiu-se assim ao Senhor: “Cabe a Ti lutar, se queres que eu me torne monge.” Por volta dos 18 anos, a vocação confirmou-se. Uma dolorosa situação familiar, com a perda da sua irmã gravemente doente, levou-o a decidir adiar a entrada no noviciado. Prosseguiu os estudos de filologia em línguas clássicas e, depois de obter o diploma e a habilitação para o ensino, foi acolhido como noviço no mosteiro beneditino de Bruges, em 11 de novembro de 1961.

Ali recebeu o nome de Martin, em ligação direta com a fundação em Ligugé daquilo que mais tarde se tornaria a AIM. Inicialmente decepcionado por não poder conservar o seu próprio nome, como havia pedido, foi somente cinquenta anos depois, celebrando os 50 anos da AIM em Ligugé como presidente dessa mesma Fundação, que compreenderia como o Senhor o havia acompanhado misteriosamente ao longo de toda a sua vocação.

Homilia na abertura do Capítulo Geral trapista

4

Lectio divina

Dom Bernardus Peeters, ocso

Abade Geral

 

 

Homilia na abertura do Capítulo Geral trapista


Leituras da Eucaristia de 3 de setembro  de 2025:

Colossenses 1, 1-8; Lucas 4, 38-44

 

 

Irmãos e irmãs,

Aqueles que chamaram Jesus por causa da sogra de Simão, prostrada por uma forte febre, eram certamente movidos pela esperança. Tinham constatado a gravidade do seu estado e sentiam-se impotentes diante da doença. A esperança de uma cura parecia ser a única âncora que lhes restava. Mas onde lançar essa âncora?

Eles escolheram Jesus, provavelmente depois de terem consultado o médico local e muitos outros tipos de curandeiros. “A esperança não é a convicção de que algo terminará bem, mas a certeza de que isso vale a pena”, afirma um teólogo contemporâneo. Eles esperavam algo de Jesus. Vale a pena lançar n’Ele a âncora da sua esperança. E nessa esperança, eles não foram decepcionados.

Aqueles que pediram a ajuda de Jesus permanecem anônimos. Como os amigos do homem paralítico que foi levado até Jesus por eles. Aqueles que chamaram Jesus, movidos pela esperança. Irmãos e irmãs, não seria esta uma magnífica descrição da missão que é a nossa como contemplativos na Igreja e no mundo de hoje? (O carisma cisterciense no mundo atual como sinal de esperança.)

Neste momento da história da nossa Ordem, somos confrontados com um profundo sentimento de vulnerabilidade. Não somente na Ordem, mas também no nosso mundo: violência, fome, refugiados e consequências das mudanças climáticas. Levamos essa vulnerabilidade a Jesus, ou à “esperança que nos está reservada nos céus” (Col 1,4)? Ou cedemos à tentação de negar a realidade e desviar o olhar? Ou deixamo-nos paralisar pela tristeza e pelo medo? Talvez o temor da morte se apodere de nós. Ou tentamos, com todas as nossas forças, fugir das questões mais profundas que a nossa vulnerabilidade nos obriga a enfrentar? Levar a nossa vulnerabilidade a Jesus parece tão simples, mas como é difícil!

“A esperança não é a convicção de que algo terminará bem, mas a certeza de que isso vale a pena.”

Será que Jesus é, para nós, suficientemente importante para que depositemos n’Ele toda a nossa esperança e Lhe confiemos a nossa vulnerabilidade? E por que desejaríamos fazê-lo? Porque Ele pode tocar e curar as nossas feridas, dirigir-nos a sua palavra de salvação e restituir-nos a vida. Mas há ainda uma razão mais profunda: para que, transformados pelo seu amor e pela sua graça, possamos colocar-nos ao serviço dos outros. A cura que Jesus oferece não nos fecha sobre nós mesmos; ela liberta-nos para o serviço, para a comunhão e para a doação de nós mesmos.

A sogra levantou-se e começou a servi-los. Ela conduz Jesus até as pessoas. Não é esta a nossa missão enquanto contemplativos? Animados pela esperança, levamos a nossa própria vulnerabilidade, a da Igreja e a do mundo, até Jesus. Neste encontro realiza-se uma maravilhosa troca. A nossa vulnerabilidade torna-se a d’Ele, a nossa esperança torna-se a d’Ele. (Não é este o papel da Eucaristia na nossa vida monástica?)

Irmãos e irmãs, que este Capítulo Geral seja para todos nós a ocasião de levar a nossa vulnerabilidade a Jesus. Que seja também o momento em que levamos a vulnerabilidade dos outros a Jesus, porque é somente n’Ele que podemos fixar a âncora da nossa esperança. Possamos assim caminhar juntos para Ele como peregrinos da esperança. Então Ele nos tocará e nos levantará com as suas mãos curadoras, para que possamos novamente estar a serviço da Igreja e do mundo.

Que este Capítulo Geral seja como o quarto da sogra de Simão. Possamos aí experimentar a presença de Jesus, Ele que, na nossa fraqueza, é a nossa única esperança. Que a nossa fraqueza se torne sua, para que, transformada pela sua graça, se converta em força para vivermos hoje a nossa missão na Igreja e no mundo como sinal de esperança.

“O amor da partilha e a partilha do amor”

5

Perspectivas

Dom Bernardus Peeters, OCSO

Abade Geral

 

 

“O amor da partilha e a partilha do amor”[1]

Cooperar como sinal cisterciense de esperança

na Igreja e no mundo de hoje

Conferência inaugural no

Capítulo Geral da OCSO (3 de setembro de 2025)

 


“Nenhum de nós vive para si mesmo, e ninguém morre para si mesmo. Se vivemos, vivemos para o Senhor; se morremos, morremos para o Senhor. Portanto, quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor.”

(Rm 14, 7-8)

 


Recentemente li a recensão da História da Ordem escrita por Emilia Jamroziak. O que mais me impressionou foi sua conclusão: “Foi a capacidade dos Cistercienses de se adaptarem e responderem a condições sociais e econômicas muito diferentes que garantiu o seu sucesso.”[2]

Constato isso e experimento-o pessoalmente repetidas vezes durante minhas visitas às nossas comunidades através do mundo: em muitos mosteiros, a capacidade de adaptação é verdadeiramente notável. Algumas pessoas podem franzir a testa diante da palavra “adaptação”, ou até prender a respiração. Gostaria, contudo, de recordar as palavras do professor David N. Bell (1943-2025), recentemente falecido:

“A adaptação não é necessariamente sinônimo de decadência, embora aqueles que procuram avidamente exemplos de decadência certamente os encontrarão.”[3]

Hoje, porém, gostaria de me concentrar não na adaptabilidade, mas em outro sinal de esperança que, especialmente em nosso tempo, representa um desafio particular à maneira como vivemos nosso carisma cisterciense na Igreja e no mundo. Este sinal de esperança exige frequentemente um espírito de flexibilidade, não apenas por parte dos monges e monjas, mas também dos superiores, das comunidades, das reuniões regionais, do Abade Geral e até mesmo do Capítulo Geral.

Refiro-me à colaboração como sinal de esperança. Se falo dela como sinal de esperança em nossa Igreja e em nosso mundo profundamente polarizados, é porque a tendência dos indivíduos e das comunidades a se fecharem sobre si mesmos é muito difundida[4]. Estou profundamente convencido de que somente através de uma colaboração autêntica nossa Ordem inteira poderá responder de maneira significativa às realidades que enfrentamos hoje. Assim, seremos não apenas capazes de aprofundar nossa vida vocacional, mas também de nos tornarmos um sinal visível de esperança, tanto na Igreja e em nossa Ordem quanto na sociedade em geral. Como escreve o Papa Francisco em Fratelli tutti:

“Sonhemos como uma única humanidade, como viajantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma terra que nos abriga a todos, cada um com a riqueza de sua fé ou de suas convicções, cada um com sua própria voz, todos irmãos.”[5]

Nesta conferência inaugural, gostaria de mostrar que a colaboração é o sinal cisterciense da esperança para o nosso tempo e que a celebração do Capítulo Geral é uma excelente ocasião para tornar essa esperança visível.


A Ordem está doente ou em crise?

Durante minhas viagens e visitas às diversas comunidades, encontro regularmente irmãos e irmãs que me perguntam sobre o estado da Ordem. Perguntas como: A Ordem está desaparecendo? A Ordem está em crise? A Ordem está doente? Para onde vai a Ordem? Quando lhes pergunto por que pensam assim, ouço frequentemente respostas como: há poucas vocações em muitos lugares, cada vez mais mosteiros fecham, muitos irmãos e irmãs deixam a Ordem e existem numerosos escândalos. Embora essas questões e preocupações possam ser justificadas, tenho dificuldade com essa atitude. Não porque eu queira negar a realidade, mas precisamente porque essa maneira de pensar mostra claramente por que a Ordem está em crise e por que está doente.

Os irmãos e irmãs que pensam assim — e sim, há alguns entre nós nesta sala — abordam a Ordem como se não fizessem parte dela. Colocam-se a uma distância confortável, de onde julgam criticamente a Ordem, as outras comunidades, seus confrades e coirmãs ou os monges e monjas individualmente, sem se envolverem. Isso se torna ainda mais doloroso quando começam a apontar o dedo. Parece que todas as dificuldades estão exclusivamente fora de sua própria comunidade ou de sua própria vida monástica e pessoal.

O que particularmente me incomoda nessa forma de pensar é que as pessoas sempre colocam a culpa nos outros e esquecem de olhar criticamente para si mesmas. Com isso, colocam-se acima dos demais. Tal atitude não tem lugar numa comunidade cristã.

O Papa Francisco recordou-nos muitas vezes: quando apontas alguém com o dedo, três dedos apontam de volta para ti. As Sagradas Escrituras exortam-nos a: “Considerar os outros superiores a nós mesmos” (Fl 2,3). No capítulo 72 da Regra, São Bento sublinha o zelo que deve caracterizar-nos: “Honrem-se mutuamente com solicitude; suportem-se pacientissimamente as suas fraquezas, tanto físicas quanto morais; obedeçam uns aos outros; ninguém procure o que julga útil para si, mas antes o que o é para os outros; tenham entre si um casto amor fraterno.”[6] À luz disso, tornam-se ainda mais marcantes as palavras de São Paulo: “Se um só membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se um membro é honrado, todos se alegram com ele.” (1 Cor 12,26) Os irmãos e irmãs que raciocinam dessa maneira não percebem que fazem parte desse Corpo único que é a Igreja, ao qual pertence também a Ordem, à qual pertence cada comunidade, cada monge e cada monja. Vale a pena citar aqui integralmente as palavras de São Paulo:

“Tomemos uma comparação: o corpo é um só, embora tenha muitos membros; e todos os membros, apesar de numerosos, formam um só corpo. Assim acontece com Cristo...” (1 Cor 12,12-22)

Todos fazemos parte do mesmo Corpo, quer se trate da Ordem inteira, de nossa própria comunidade ou de cada um de nós individualmente. Como posso colocar-me fora disso e pensar que sou mais do que outro? Como posso afirmar que não preciso dos outros, ou dizer que não quero ter nada a ver com eles? Não é precisamente essa a atitude do fariseu no templo, enquanto Jesus e São Bento nos chamam a seguir a humildade do publicano? Sim, acredito sinceramente que a Ordem está doente e que todas as comunidades sofrem dessa doença. Sim, estou convencido de que todos nós — eu em primeiro lugar — somos atingidos por essa enfermidade. Felizmente! Porque Jesus não veio para os sãos e os justos, mas para os doentes e pecadores que precisam de médico.[7] O problema de que sofremos gira em torno do fato de que constantemente julgamos e condenamos a nós mesmos e aos outros, colocando-nos fora, acima ou separados dos demais, da comunidade ou mesmo da Ordem. A polarização está sempre presente quando permanecemos fechados na visão de mundo que nós mesmos nos impusemos.

O que vemos hoje por toda parte, tanto na sociedade quanto na Igreja, é que se tornou perfeitamente normal culpar os outros. Os políticos de direita acusam a esquerda de ser a causa dos problemas; os de esquerda fazem o mesmo com a direita. No Sul, aponta-se o dedo para o Norte; no Norte, pensa-se que o Sul é incapaz de qualquer coisa. Sempre nos colocamos fora da situação ou do problema para não precisarmos assumir responsabilidades. O problema é sempre o outro. Essa mentalidade, tão difundida no mundo, infiltrou-se também na Igreja, na Ordem e em nossas comunidades. Tornou-se infelizmente muito comum. O verdadeiro problema não é que haja poucas vocações em certas partes do mundo ou que irmãos e irmãs em algumas comunidades não observem seus votos. O problema é que todos nós, sem exceção, fomos afetados por uma mentalidade mundana na qual coisas como realização pessoal, liberdade individual e afirmação de direitos foram elevadas à categoria de ídolos.

Só podemos chegar a essa conclusão quando ousamos olhar honestamente para nosso próprio coração, nossa comunidade e a Ordem, recolocando-nos no centro da Igreja. Somente aí o amor pode florescer, e não à margem, fora ou acima.

Como escreveu tão bem Thomas Merton:

“O amor começa permitindo que aqueles que amamos sejam eles mesmos, sem tentar transformá-los à nossa própria imagem.”[8]

Em todo o mundo, constato que irmãos e irmãs, mas também comunidades e Regiões, tendem cada vez mais a concentrar-se em si mesmos, em seu próprio grupo ou em sua própria Região, fechando-se aos outros. Isso cria o risco de que os demais deixem de ser considerados importantes, sejam apresentados como inferiores ou até como “sem doutrina correta”. Vejo que a liberdade pessoal às vezes se tornou tão importante que um valor monástico essencial como a obediência é vivido principalmente como limitação — não apenas para o indivíduo, mas também para a autonomia de uma comunidade ou até de uma Região. Cada vez mais frequentemente vejo irmãos e irmãs, comunidades e Regiões reivindicarem seus direitos, muitas vezes em detrimento dos outros, como se houvesse apenas direitos e não deveres.

A maior ameaça talvez seja que nos tornemos indiferentes uns aos outros e ao coração do Evangelho: dar a própria vida por amor. Trata-se de uma mentalidade mundana que lentamente se enraizou em nossos corações, em nossas comunidades, em nossas Regiões e em nossa Ordem. Certamente, a liberdade individual, a realização pessoal e os direitos são coisas boas em si mesmas; mas, se as transformamos em valores absolutos e as idolatramos, fazemos exatamente como o mundo e deixamos de nos distinguir como cristãos, como monges e monjas. O mesmo acontece com realidades como o poder, o dinheiro e a sexualidade. É precisamente ao professarmos os nossos votos que queremos fazer ouvir uma voz diferente, viver uma diferença fundada no Evangelho e no exemplo de Jesus. Mas, se transformamos essas boas realidades em ídolos, o «sal» perde o seu sabor (Mt 5,13) e, como comunidade, deixamos de cumprir a nossa missão.

O Papa Leão XIV dirigiu-se recentemente a um milhão de jovens reunidos em Roma:

“Nós também, queridos amigos, fomos feitos assim: fomos feitos para isso. Não para uma vida em que tudo esteja adquirido e imóvel, mas para uma existência que se regenera constantemente na entrega, no amor.” E acrescentou: “Aspiramos continuamente a um ‘mais’ que nenhuma realidade criada pode nos dar; sentimos uma sede tão grande e ardente que nenhuma bebida deste mundo pode saciar.”[9]

Experimentamos verdadeiramente esse desejo de um “mais”? Os jovens de hoje, que têm fome e sede desse “mais”, encontram lugar em nossas comunidades? Sim, a Ordem está realmente doente! Sim, a Ordem está verdadeiramente em crise, porque tu e eu estamos doentes, porque tu e eu estamos em crise, porque todos somos influenciados pelo espírito do mundo.

E mesmo que — Deus me livre — eu pensasse não estar afetado por essa mentalidade mundana, ainda assim estaria doente ou em crise, porque faço parte de um todo: estou doente com a Igreja, em crise com a Ordem.

 

O remédio

Durante as minhas visitas a diferentes comunidades, impressiona-me sempre constatar que, apesar da doença e da crise, existem muitas coisas boas e que há irmãos, irmãs e comunidades em toda a nossa Ordem que são verdadeiras fontes de esperança. Eles demonstram que existe realmente um remédio para o espírito mundano que leva ao fechamento sobre si mesmo e à polarização: a cooperação. Mas o que significa, de fato, “cooperar”?

A cooperação está intrinsecamente ligada ao carisma cisterciense. A Carta Caritatis lançou as bases da cooperação entre as diferentes comunidades, pois os nossos predecessores sabiam, por experiência, que a tendência para dominar e as relações de poder entre mestre e discípulo se enraízam mais facilmente do que o apelo evangélico a servir-se mutuamente no amor. Em vez de um modelo hierárquico ou monárquico, os cistercienses escolheram conscientemente a cooperação, na qual o amor é o ponto de partida para a mudança e a renovação.[10] Somente pelo amor, tornado visível numa cooperação concreta, o monge, a monja, a comunidade e a Ordem podiam reformar-se e renovar-se continuamente.

O Capítulo Geral recorreu regularmente à cooperação como meio de promover a renovação e a mudança no seio da Ordem. Pensemos em estruturas como a filiação-paternidade, o Padre Imediato e as Visitas Regulares. Mais tarde, a cooperação foi igualmente favorecida pelo reconhecimento das congregações em colaboração com o Capítulo Geral, sobretudo em tempos de crise, para abrir espaço à renovação em situações específicas. O Capítulo Geral mostrou-se particularmente sábio ao aplicar sempre o remédio da cooperação de modo adaptado, evitando a formação de grupos fechados que criassem um “nós” em oposição aos outros.

Repetidas vezes, o Capítulo Geral soube responder às necessidades locais, adaptando constantemente a sua maneira de promover a cooperação. Ao longo do século XIX, essa atitude aberta desapareceu progressivamente em razão do desejo de uniformidade. Em muitos casos, tal uniformidade teve um efeito sufocante. Felizmente, uma saudável unidade na diversidade foi restabelecida em 1969 com o Estatuto Unidade e Pluralismo. Contudo, cabe a todos nós interiorizar mais profundamente o espírito desse estatuto. É precisamente aqui que a encíclica Fratelli tutti, do Papa Francisco, pode ajudar-nos:

“Como a nossa família humana precisa aprender a viver em conjunto na harmonia e na paz, sem que todos tenhamos de ser iguais!”[11]

 

Cooperar no Corpo de Cristo

Cooperar não é apenas uma atividade; antes de tudo, significa ocupar o próprio lugar como membro batizado do Corpo de Cristo, ao qual pertencem você, a sua comunidade, a sua Região e a Ordem inteira, num espírito de responsabilidade e liberdade. Como afirma o Catecismo da Igreja Católica:

“O Batismo faz de nós membros do Corpo de Cristo. ‘Não somos nós membros uns dos outros?’ (Ef 4,25). O Batismo incorpora-nos à Igreja. Das fontes batismais nasce o único Povo de Deus da Nova Aliança, que ultrapassa todos os limites naturais ou humanos de nações, culturas, raças e sexos: ‘Pois todos nós fomos batizados num só Espírito para formarmos um só corpo’ (1Cor 12,13).”

Pelo Batismo, tornamo-nos participantes da cooperação amorosa do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Jesus diz em João 14,10: “O Pai que permanece em mim realiza as suas obras”. E acrescenta: “Crede-me: Eu estou no Pai e o Pai está em mim; se não acreditais por causa da minha palavra, acreditai ao menos por causa das obras. Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas, porque vou para o Pai” (Jo 14,11-12). A cooperação conduz-nos ao coração da Trindade divina e da sua “caridade incompreensível”, uma generosidade que deseja amar e ser amada infinitamente, tudo partilhar e tudo receber.[12] Como cistercienses, somos inevitavelmente conduzidos ao Tratado XV de Balduíno de Ford (1125-1190) sobre a vida cenobítica. Para ele, “a partilha é o fundamento da vida comum”, tanto na natureza, quanto no pecado, na graça e na glória.[13] Esse texto cisterciense oferece-nos um remédio contra o espírito mundano da polarização, provocado pela idolatria do desenvolvimento pessoal, da liberdade individual e da busca exclusiva dos próprios direitos.

Balduíno fala do “amor da partilha e da partilha do amor”.[14] Embora a expressão possa soar poética e a sua referência à Trindade, aos coros angélicos, aos Apóstolos e à primeira comunidade cristã possa parecer idealista, numa comunidade cenobítica trata-se, antes de tudo, de partilhar o amor e de viver a partilha do amor precisamente no cotidiano, nas pequenas coisas. O que mais me impressiona nesse texto é a sua explicação teológica da partilha da graça. Cada pessoa batizada — portanto cada monge ou monja, cada comunidade e toda a Ordem — recebeu a graça não para guardá-la para si, mas para partilhá-la. Em vez de querer conservar tudo para si, dominar ou criticar, essa visão convida-nos a reconhecer o bem presente nos outros e a descobrir aquilo que eles podem trazer para a minha vida, e vice-versa. Essa contribuição não é mérito nosso, mas pura graça. É uma troca a serviço do Corpo — da comunidade e da Igreja.  Balduíno escreve:

“Se prestardes atenção, vereis como as qualidades próprias de cada membro servem ao bem comum. O olho não vê apenas para si mesmo, mas guia os nossos passos e as nossas mãos no trabalho. A boca não come apenas para si, nem o estômago digere apenas para si mesmo; ambos realizam uma obra comum. Tudo aquilo de que o corpo necessita para alimentar-se, satisfazer as suas necessidades e crescer é recebido pela boca e digerido pelo estômago. Se uma parte do corpo sofre, a língua não sofre também? Como se ela própria estivesse ferida, toma a voz daquele que sofre e clama àquele que causou a ferida: ‘Por que me fazes mal?’”[15]

E conclui:

“Caríssimos irmãos em Cristo, para onde nos conduzem estes exemplos? Não será para a paciência mútua, a humildade mútua e o amor mútuo? Deus não inscreveu em nós uma lei de amor capaz de nos ensinar quem somos? Se Aquele que nos deu a lei também nos concedesse a sua bênção, nos alimentasse na inocência dos nossos corações e nos conduzisse com mão segura pelo caminho da paz, então conservaríamos a unidade do Espírito pelo vínculo da paz e o amor de Deus no amor ao próximo. Quando amamos a Deus com um só coração e um só espírito, conforme a pureza da nossa profissão, o amor de Deus é derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo, e o Espírito de Deus nos vivifica como se fôssemos um único Corpo, para que nenhum de nós viva para si mesmo, mas para Deus; e para que todos vivamos juntos na unidade do Espírito, pelo único Espírito que habita em nós.”[16]

Esse princípio teológico, que está no coração da fé na Communio Sanctorum, encontra-se também nos documentos recentes da Igreja sobre a sinodalidade. O Instrumentum Laboris da segunda sessão do Sínodo sobre a Sinodalidade refere-se ao princípio da “troca de dons”. O sínodo coloca essa troca de graça no coração da Igreja sinodal:

“Caminhar juntos como batizados na diversidade dos carismas, vocações e ministérios, bem como na troca de dons entre as Igrejas, é um importante sinal sacramental para o mundo de hoje, que, por um lado, conhece formas de conexão cada vez mais intensas e, por outro, está mergulhado numa cultura mercantil que marginaliza a gratuidade.”[17]

Além disso, os autores do documento desejam que os dons sejam partilhados concretamente na solidariedade entre as Igrejas, sem qualquer desejo de dominação:

«As Conferências Episcopais desejam que os bens sejam partilhados num espírito de solidariedade entre as Igrejas que compõem a única Igreja Católica, sem qualquer desejo de dominação nem pretensão de superioridade. A existência de Igrejas ricas e de Igrejas que vivem em grande precariedade constitui um escândalo. Por isso, sugere-se a adoção de medidas que promovam os vínculos recíprocos e a formação de redes de apoio, inclusive no âmbito de agrupamentos de Igrejas. Todas as Igrejas locais recebem e oferecem dons na comunhão da Igreja Una. Algumas Igrejas necessitam de apoio financeiro e material; outras são enriquecidas pelo testemunho de uma fé viva e por um serviço amoroso aos mais pobres; outras ainda têm sobretudo necessidade da ajuda de evangelizadores que dedicam a sua vida ao anúncio do Evangelho a outros povos. De modo particular, reconhece-se e solicita-se a generosidade dos sacerdotes, dos diáconos, das pessoas consagradas e dos leigos comprometidos na missão ad gentes.»[18]

Isso sublinha que a troca de dons não é um ideal abstrato, mas algo muito concreto, como destacou São João Paulo II na encíclica Ut unum sint: “O diálogo não é apenas uma troca de ideias. De certo modo, ele é sempre uma ‘troca de dons’.”[19]

A sinodalidade é, portanto, muito mais do que tornar a Igreja ou a Ordem mais democráticas. Significa levar a sério o nosso Batismo e reconhecer, apesar da nossa vulnerabilidade e dos nossos pecados, a graça e os dons que Deus nos concedeu e que partilhamos uns com os outros para além das fronteiras de raça, sexo, cultura e tantas outras.

 

Conclusão

Irmãos e irmãs, como disse anteriormente, a Ordem está doente, mas, nessa vulnerabilidade, vejo numerosas formas de colaboração dentro das comunidades e entre elas. Uma colaboração que é troca de graça e de dons no meio de uma realidade frágil e que, por isso mesmo, constitui um sinal de esperança. É precisamente essa cooperação, enraizada no nosso Batismo, que representa o sinal de esperança que nós, cistercienses, podemos oferecer diante de uma visão fechada do mundo e de uma Igreja e de um mundo polarizados.

À semelhança do tratado de Balduíno, tudo isso pode parecer nobre e poético. No entanto, trata-se de algo muito concreto. Compreendo muito bem a reação da irmã Maria Gonzales, de Crozet, que escreveu após uma primeira leitura do texto de Balduíno: «Este texto é como tentar consertar uma torneira com uma chave inglesa numa mão e um livro de poesia na outra.»[20] Mas, juntamente com ela, vejo cada vez mais o valor e a utilidade deste conceito da partilha da graça e da graça da partilha como fundamento da nossa vida comum, inclusive ao nível da Ordem.

Isso exige uma conversão de nossa parte: uma passagem do “eu” para o “nós”. Como escreve o padre Chukwuka John Ife, monge de Awhum, no seu livro Conversão Autêntica: “A conversão é uma mudança radical na vida da pessoa, que passa do egocentrismo para Deus e de si mesma para o serviço dos outros.”[21] Sem essa conversão, não podemos reconhecer os sinais de esperança.

Vejo esse sinal de esperança onde as comunidades trabalham juntas na formação, onde as irmãs ajudam os irmãos na sua formação. Vejo-o em Tre Fontane e em Acque Salvie, onde irmãos e irmãs testemunham juntos a vida cisterciense no coração da Cidade Eterna. Vejo-o na Irlanda, onde três comunidades se uniram numa só. Vejo-o no oeste da França, onde comunidades procuram organizar conjuntamente a sua economia. Vejo-o em Mokoto, onde, apesar da violência, se abrem as portas a milhares de refugiados e a cooperação transforma a hospitalidade monástica em sinal de esperança. Vejo-o nos nossos mosteiros da Síria, de Israel e em tantos outros lugares marcados pela violência. Vejo sinais de esperança quando superiores de culturas diferentes ajudam comunidades em dificuldade. Vejo esperança porque cada vez mais comunidades se abrem à multiculturalidade. Nos Estados Unidos, no Japão e na Espanha, vejo igualmente tentativas prudentes de cooperação entre comunidades. Se olhardes atentamente e, sobretudo, se tiverdes a coragem de olhar, vereis sinais de esperança por toda parte.

Podemos tornar tudo isso ainda mais concreto, prestando atenção a essa troca de dons durante o Capítulo Geral, especialmente ao estudarmos os relatórios das Casas. Podemos fazê-lo olhando para além dos nossos próprios interesses nas nomeações, eleições e demais decisões. Podemos fazê-lo voltando primeiro o olhar para nós mesmos e, depois, para aqueles que se encontram em situações difíceis, ajudando-nos mutuamente em vez de nos julgarmos ou evitarmos. Podemos fazê-lo permanecendo atentos às diferenças saudáveis que enriquecem a vida comum. Podemos fazê-lo estando verdadeiramente abertos e comprometidos com a troca de dons entre os diversos mundos e culturas que compõem a Ordem e este Capítulo Geral. Que este Capítulo Geral nos ajude a partilhar por amor e a amar a partilha, para que ela se torne um exercício de caridade e um crescimento em nossa conversão permanente, ajudando-nos a reconhecer os sinais de esperança que Deus nos oferece hoje, em meio à nossa vulnerabilidade.

A Ordem está doente? Sim. E deve continuar assim, porque somente dessa forma compreendemos que precisamos uns dos outros, que necessitamos dos dons e das graças dos outros para viver. São Bernardo convida-nos a permanecer peregrinos da esperança à sombra do Altíssimo.[22] Essa peregrinação é, por vezes, difícil, mas todo peregrino sabe que necessita dos seus companheiros de caminho para manter viva a chama da esperança. Trabalhemos, portanto, juntos, de forma muito concreta, em nossas comunidades, entre as nossas comunidades e, sobretudo, aqui, neste Capítulo Geral. Que ninguém diga: “Eu não conto” ou “Tu não contas”. Cada um possui um dom, uma graça, para a edificação do conjunto. Descobre esse dom! Descobre essa graça!

 

[1] Baudouin de Ford, Spiritual Tractates, volume two, Cistercian Fathers Series, 41, Kalamazoo, 1986, p. 159.

[2] E. Jamroziak, L’Ordre Cistercien dans l’Europe médiévale. 1090-1500. Routledge, 2013.

[3] David Bell, Printed books in English Cistercian Monasteries, Citeaux : Commentarii Cistercienses 53 (2002) p. 138.

[4] Para uma descrição detalhada desta realidade, ver Papa Francisco, Fratelli tutti, 9-55.

[5] Papa Francisco, Fratelli tutti, 8.

[6] RB 72, 4-8.

[7] « Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores. » (Mc 2,17)

[8] Thomas Merton, No man is an island, Harcourt Brace, New York, 1955. p. 149.

[9] Papa Leão XIV, Homilia de 3 de outubro de 2025.

[10] Cf. Monika Dihsmaier, Entscheidungsfindung und die versionen der Carta Caritatis, in : E. Delaissé, La Charte de charité 1119-2019. Un document pour préserver l’unité entre les communautés. Paris, 2020, pp. 69-109.

[11] Papa Francisco, Fratelli Tutti, 100.

[12] Cf. https://cistercian-mentors.webnode.es/materials/baldwin/?utm_source

[13] Baldwin of Ford, Spiritual Tractates, volume two, Cistercian Fathers Series, 41, Kalamazoo, 1986, p. 165.

[14] Ibid., 159.

[15] Idem.

[16] Ibid., p. 179.

[17] Instrumentum laboris para a Segunda Sessão da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos (outubro de 2024), n.º 42.

[18] Ibid., 44-45.

[19] São João Paulo II, Ut unum sint, 28.

[20] https://cistercian-mentors.webnode.es/materials/baldwin/

[21] Ife, Chukwuka John ocso, Authentic conversion, p. 55-56.

[22] Cf. Bernard de Clairvaux, Sermons sur le psaume 90 (91).



Intervenção sobre o carisma cisterciense no Capítulo Geral OCSO

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Perspectivas

Madre Elisabeth Mary Mann, OCBE

Prioresa Geral das Monjas Cistercienses

Bernardinas de Esquermes

 

Intervenção sobre o carisma cisterciense no Capítulo Geral OCSO

 

 

Entre os numerosos elementos do nosso carisma cisterciense que considero como um sinal de esperança para o mundo atual, escolhi partilhar precisamente o do acolhimento, um acolhimento que tem suas raízes no Cristo, um acolhimento alimentado pelo nosso voto de estabilidade e, como seu fruto, um acolhimento gratuito, sincero e generoso.

Nossa estabilidade faz de nós “peregrinos enraizados no ano jubilar” (Monastic Practices: Charles Cummings).

As nossas Constituições dizem: “A estabilidade monástica é para nós um modo de responder à fidelidade imutável de Deus, por meio da nossa própria fidelidade, vivida naquele lugar onde Ele quer que o procuremos” (Const. 12)  Gosto de pensar que isso significa simplesmente “estar ali para Deus”. Nossa estabilidade monástica ajuda-nos a encontrar o nosso lugar e a nossa paz em Deus, a pertencer a Ele. “Permanecei em mim, como eu permaneço em vós” (Jo 15, 4).

Thomas Merton sublinhou os aspectos comunitários do voto de estabilidade quando escreveu:

“O verdadeiro segredo da estabilidade monástica está na aceitação total do plano de Deus, por meio do qual o monge/a monja toma consciência de estar integrado(a) no mistério de Cristo através desta família particular e não daquela. É a aceitação definitiva de sua comunhão, no tempo e na eternidade, com estes irmãos/irmãs particulares escolhidos por Deus para ele…é tomar consciência de que todos aqueles que foram chamados (como ele / como ela) trabalharão para sua salvação na comunhão e se ajudarão mutuamente a encontrar Deus mais facilmente, pois fomos destinados a ligar-nos a Ele por meio de nosso amor, nossa paciência, nossa indulgência e nossos esforços para nos entendermos mutuamente” (O Percurso Monástico).

São Bernardo diz que “quando a beleza e a luminosidade encherem mais profundamente o coração, devem tornar-se visíveis no exterior” (Cant. dos Cant. 85,11) Quais são os sinais visíveis da nossa estabilidade? Entre outros talvez mais evidentes, creio que a nossa estabilidade manifesta-se exteriormente pela qualidade do nosso acolhimento. A estabilidade enraíza-se em Deus, em Deus que é imutável, sempre fiel, que é nosso rochedo e nossa força. Nosso voto de estabilidade firma nossos pés no amor incondicional e inabalável, que liberta nossos corações e nossos braços para acolher. Como a “árvore plantada à beira da água” (Sl 1), “que dá seus frutos a seu tempo, e cujas folhas nunca murcham”, a seiva sobe do nosso enraizamento em Deus, e dá abertura, gentileza e energia ao nosso acolhimento. O acolhimento é um processo dinâmico em sentido duplo: acolhemos e somos acolhidos. Todo o ministério de Jesus foi um ministério de acolhimento. Acolheu as crianças (Mc 10, 13-16), acolheu os publicanos à sua mesa (Mt 9, 10-13), acolheu o ladrão arrependido, que estava morrendo, no paraíso (Lc 23, 39-43)… O próprio Jesus foi acolhido: na barca, quando os discípulos estavam apavorados com a tempestade (Mc 6, 45-47), foi acolhido na casa de Zaqueu (Lc 19, 1-10), na casa de Maria, Marta e Lázaro (Lc 10, 38-42).

Nossa vida monástica deveria ser caracterizada por uma atitude de acolhimento: uma atitude libertadora e não possessiva, desconfiada ou dominadora, uma atitude que nos abre à graça do momento presente, em vez de nos fechar sobre nós mesmos, uma atitude que constrói e não destrói, que encoraja e dá vida, em vez de abafar e de matar, uma atitude de aceitação e não de rejeição, um modo de viver altruísta e não egoísta.

Cada dia, por meio de nossa lectio, colocamo-nos diante de Deus para acolher Sua Palavra. D. André Louf escreveu que “o acolhimento da Palavra é a chave da existência de um monge / uma monja”. Na nossa celebração da Eucaristia acolhemos a presença sacramental de Cristo. Desejando que nada seja preferido à Palavra de Deus, acolhemos o serviço da oração e do louvor que nos foi confiado pela Igreja e graças à orientação contemplativa da nossa vida, tão plena de sentido, acolhemos conscientemente a presença do Senhor, permanecendo na escuta, atenta ao murmúrio do Espírito.

Acolhemo-nos a nós mesmos, criados à imagem e semelhança de Deus, com nossos dons, nossa personalidade, nossos limites, nossos medos. Acolhemos cada dia a beleza da nossa vocação.

Acolhemo-nos uns aos outros: construímos nossas comunidades com esse “amor que é uma esperança ativa de que a outra possa vir a ser com nossa ajuda fraterna” (Const. 59) e permitimos que os outros nos acolham. Somos animados por um sorriso, uma boa resposta, um gesto de gentileza gratuita. “Aqui estamos, eu e você, espero um terceiro, o Cristo entre nós”, escrevia Santo Elredo (Amizade Espiritual).

Acolhemos humildemente os desafios que vêm da situação das nossas comunidades e das nossas Ordens. Nossas Constituições lembram-nos que “a estabilidade exige de cada irmã uma ligação profunda à Ordem e à sua comunidade. Assume as qualidades e os defeitos, as necessidades e as aspirações, a realidade presente e a evolução futura” das duas. (Const. 11) É por isso que acolhemos, normalmente com luta interior,  as iniciativas e as respostas criativas sobre o nosso futuro, permanecendo disponíveis e prontas para participar. Acolhemos  a mudança, em vez de a ver como uma ameaça. Pois conforme as palavras de São John Henry Newman “viver é mudar”. Temos confiança de que, vivendo plenamente nosso voto de conversão, “o Espírito nos transformará cada vez mais à imagem do Cristo ressuscitado” (Const.8).

Acolhemos as necessidades da nossa diocese, da Igreja universal e do nosso mundo conturbado em nossa oração de intercessão.

Acolhemos cada dia com fé, os altos e baixos da nossa vida, com serenidade confiante, certas da promessa de Deus repetida ao longo das Escrituras “Não tenham medo, Eu estou convosco”.Acolhemos os que são atraídos por nossos mosteiros, aceitando os fardos que trazem, partilhando as alegrias, as complexidades, os desafios e as dificuldades de sua vida.

As pessoas, em número sempre maior, que visitam nossos mosteiros desejam encontrar alguma coisa de imutável no meio da incerteza, da agitação, da inquietação e das perturbações que caracterizam a experiência cotidiana do mundo atual. Vindo aos nossos mosteiros, procuram o que não muda, que é seguro, um modo de vida que atravessou séculos, uma paisagem imutável, um lugar que respira beleza com sua simplicidade. Querem achar na intemporalidade de nossa vida monástica, um momento para “respirar”, um momento para “ser” simplesmente e poder deixar de lado as pressões e o stress de sua vida cotidiana.

São Bento estava bem consciente de que os hóspedes nunca faltam no mosteiro, e insiste que todos sejam acolhidos “com delicadeza, respeito e sincera deferência”. Redigiu cuidadosamente o cap. 53 que confirma a importância do acolhimento para a comunidade.

Je voudrais partager deux moments d’accueil dans nos propres communautés qui m’ont profondément touchée cette année.

Le premier a eu lieu fin janvier 2025 pour notre communauté de Goma, dans l’est de la République démocratique du Congo. Après plusieurs jours de combats intenses, la population a osé retourner dans les rues, et nos sœurs étaient toutes là, prêtes à les accueillir à la messe dominicale. Pour beaucoup, ce fut un moment très émouvant.

Queria partilhar dois momentos de acolhimento nas nossas comunidades, que me tocaram profundamente este ano. O primeiro aconteceu no final de janeiro em Goma, no Leste da República Democrática do Congo. Depois de vários dias de combates intensos, a população ousou voltar à rua e nossas irmãs estavam  prontas para os acolher na missa dominical. Para muitos foi um momento demasiado impactante. O segundo aconteceu na nossa comunidade na França. Uma tarde acolhemos uma família sofrida, na celebração da missa com Vésperas. O filho de 15 anos, sem ter dado nenhum sinal de que isso poderia acontecer, tinha-se suicidado nessa manhã. Durante a hora que se seguiu, sucessivas ondas de jovens — muitas vezes acompanhados pelo pai, por um irmão ou por uma irmã mais velha — foram enchendo nossa igreja. A notícia da missa tinha circulado nas redes sociais. O choque de todos era palpável, muitos choravam e ficaram mais de uma hora depois da missa, simplesmente para estarem juntos, tentar consolar-se mutuamente ou achar um sentido para o que tinha acontecido. Por que vieram? Nosso acolhimento silencioso e profundamente recolhido permitiu-lhes partilhar o sofrimento em um lugar até então desconhecido, mas onde se sentiram acolhidos e em paz.

Vous avez sans doute vécu des expériences similaires. Notre stabilité, notre simple présence attirent les gens, les accueillent, créent une communauté autour de la communauté monastique, engendrent un sentiment d’appartenance, créent un espace où les autres peuvent se sentir « chez eux ». Nous avons de nombreux bénévoles qui souhaitent découvrir et vivre un peu l’essence de notre vie monastique... et nombreux sont ceux qui considèrent comme un privilège de laver la voiture de la communauté, d’aider à repasser, de désherber le jardin...


Todos vós, certamente, já vivestes experiências semelhantes. Nossa estabilidade, nossa simples presença atraem as pessoas, acolhem-nas, criam uma comunidade à volta da comunidade monástica, geram um sentimento de pertença, criam um espaço em que os outros podem sentir-se “em casa”. Temos muitos colaboradores que desejam descobrir e viver um pouco a essência da nossa vida monástica… e são muitos os que consideram um privilégio lavar o nosso carro, ajudar a passar a ferro, limpar o jardim…

Na semana passada, conversei com uma amiga que, há mais de 20 anos, organiza viagens para grupos que visitam nossas comunidades na Inglaterra. Quando lhe perguntei que elemento do carisma cisterciense era sinal de esperança no mundo de hoje, ela respondeu imediatamente: “É a vossa estabilidade e o vosso acolhimento”! Isso me animou e comecei a preparar esta conferência e pedi-lhe que escrevesse algumas frases. Partilho-as convosco:

“Um carisma central dos cistercienses é a estabilidade, a “presença”. Num mundo em que muitos sofrem mudanças, uma educação sempre interrompida, dependências, deslocamentos incessantes, o conceito de “estabilidade” é indispensável, uma experiência cultural e um espaço de cura, onde as pessoas podem refugiar-se. Essa estabilidade favorece um belo acolhimento, que se torna concreto e perceptível quando os hóspedes entram no espaço de um mosteiro e são recebidos com gentileza, calor humano e espírito de convivialidade. As pessoas sabem imediatamente que são bem-vindas e reconhecem imediatamente a gentileza. E os efeitos são profundos: favorecem o sentimento de poder relaxar e de bem-estar. Fala-se cada vez menos de virtudes na sociedade atual, mas estas virtudes essenciais encarnadas e vividas na experiência cisterciense contribuem para pacificar, tornar a vida melhor, e são vitais no mundo de hoje” (DW).

Oferecendo acolhimento, doamos. Sendo acolhidos, recebemos. Dar e receber, acolher e ser acolhidos: tal é a dinâmica que constrói as relações e faz de nós irmãos e irmãs no Corpo de Cristo. O acolhimento exige abertura, generosidade, escuta, humildade, confiança; favorece a unidade, a paz, a compreensão, a comunhão, dons que o nosso mundo tanto precisa.

Poderia ainda concluir com uma palavra de agradecimento pelo acolhimento que une vossos irmãos de Mokoto e vossas irmãs de Clarté-Dieu com nossas irmãs de Goma, sobretudo nestes últimos anos marcados pela insegurança e instabilidade de que tanto sofre essa região.

Obrigada às regiões CNE/CAN e às Ilhas pelo vosso acolhimento caloroso de nossas irmãs e de mim mesma, quando das visitas regionais, vossas partilhas pastorais, vossas celebrações. É sempre um prazer imenso estarmos juntos. Obrigada a Dom Bernardus e aos membros do Generalato por vossa ajuda e amizade.

Para finalizar, deixarei esta palavra de São Paulo do capítulo 15 aos Romanos:

“Acolhei-vos uns aos outros para glória de Deus, como Cristo vos acolheu (v. 7)… Que o Deus da esperança vos cumule de toda a alegria e paz na vossa fé, para que, por meio do Espírito Santo sejais ricos na esperança. (v. 13)”

Sobre o carisma cisterciense no Capítulo Geral OCSO

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Perspectivas

Madre Noëlla Ghijs

Prioresa Geral das Irmãs Bernardinas de Oudenaarde

 

Sobre o carisma cisterciense no Capítulo Geral OCSO

 

 

Nos seus discursos aos religiosos e às religiosas, o Papa Francisco, muitas vezes, lançou o apelo para sonhar com o futuro. Não parar na aceitação da realidade tal como ela é, não se fechar no passado com saudades, pelo contrário: ousar sonhar o futuro. O que é, em si, um ato de fé e de esperança.

Isto não nos impede de fazer perguntas sobre este assunto. Nossa confiança e nossa fé no Espírito de Deus estão impregnadas de incertezas e às vezes de medo. Então a pergunta é se temos guias fiáveis para “sonhar o futuro”.

Num encontro a nível de nossos dois conselhos provinciais – a província flamenga/belga e a província africana – em maio de 2024, no Ruanda, fomos confirmadas na nossa convicção que nosso carisma nos guiará para o futuro.

Há alguns anos formulamos o nosso carisma, no qual nos reconhecemos e através do qual participamos do carisma cisterciense, nesta pequena frase: “Procurar a Deus e acolher as pessoas, imagem de Deus”. Como encarnar isso hoje, olhando para o futuro? Vou tentar responder em dois pontos.

1. Nosso carisma mostra-nos o caminho, porque nos leva às raízes da nossa vida religiosa bernardina. Leva-nos ao essencial da nossa vida, aquilo que aspiramos, que nos chama e engaja.

A procura de Deus através da escuta da Palavra, da liturgia, da meditação pessoal e da oração comunitária. É esta corrente monástica que marca a nossa vida e que tentamos dar testemunho no meio de uma sociedade muito secularizada na Bélgica; no meio de muitas seitas no Ruanda, no meio de uma sociedade muçulmana no Chade e no Burkina.

Mesmo se constatamos um envelhecimento nas nossas irmãs, continuamos a escolher conscientemente viver a nossa fé cristã em comunhão com os outros cristãos. É um compromisso que dá sopro à nossa própria vida cristã e religiosa. E com aqueles e aquelas que encontramos na fé, por exemplo na missa dominical, somos chamados a viver uma verdadeira fraternidade: um “nós” que nos enriquece e fortalece mutuamente.

As palavras de Sto Agostinho citadas pelo Papa Leão – “convosco sou cristão” -,  são muito significativas nos contextos concretos de nossas sociedades.

A procura de Deus com toda a sua riqueza de formas e de momentos, convida-nos a esta vida nova, que entrou na história humana com Jesus, o Cristo Ressuscitado. Ancora-se na esperança e nos orienta para o além do hoje, pois é Ele próprio, o Deus Trindade, que é o futuro que frequentamos, é Ele o primeiro que nos oferece este futuro.

2. A segunda parte do nosso carisma: “acolher a pessoa humana, imagem de Deus”. O acolhimento está na origem da nossa Congregação. No final do século 12, um pequeno grupo de homens e de mulheres acolhia – fora das muralhas da cidade de Oudenaarde, na Flandres – peregrinos, pobres que, sobretudo à noite, não tinham mais acesso à cidade. Depressa este acolhimento se tornou um hospital onde se cuidava dos doentes pobres. Isto durante séculos. No ano passado, fez 800 anos que essa pequena comunidade recebeu sua primeira Regra de Vida (1224), em que o bispo de Tournai apreciava pelo modo como – e cito – “se servia Deus e os pobres”.


Acolher o outro, reconhecendo que ele/ela foi criado à imagem de Deus, leva-nos ao sentido profundo da comunhão que tentamos viver tanto em comunidade, como com tantas outras pessoas. Uma comunhão com o coração aberto, com os olhos abertos e com as portas abertas. A fragilidade que se instalou sobretudo nas nossas comunidades na Flandres, ensina-nos a viver umas com as outras com mais atenção, mais escuta e mais proximidade.  Se a ajuda mútua é necessária, cria-se ao mesmo tempo uma ocasião de encontro, de uma troca de olhares e de mãos. A fragilidade torna-se um caminho de conversão pessoal e comunitária, peregrinação de esperança do “eu” para o “nós”.

O acolhimento do outro tem formas diferentes, coloridas pelas situações diferentes. Às vezes, são pessoas que encontramos e que nos confiam seus sofrimentos. Precisam de ser escutadas; pedem-nos uma oração; ficam tocados porque nos lembramos do que nos confiaram há tempo. Chamamos a isso “apostolado do encontro”, quase invisível, mas benéfico para os que disso se beneficiaram.

O acolhimento do outro chama-se hoje “inclusão”, respeito, cooperação, integração, solidariedade, fraternidade. Aceitamos que uma mulher muçulmana, com véu, venha trabalhar na nossa casa? Criamos espaço nas nossas escolas para crianças de origens estrangeiras? Como integramos o mundo multicultural a que pertencemos? Uma das nossas comunidades no Ruanda organiza, há vários anos, um ensino inclusivo que acolhe crianças com deficiências. A presença de uma criança surda-muda na sala de aula, leva as outras crianças a aprenderem a linguagem dos sinais. No sul do Chade, nossas coirmãs ruandesas têm uma escola para meninas, que nesse meio e nessa cultura são muitas vezes excluídas do ensino. Em Oudenaarde, começamos o acolhimento de mulheres indianas que vêm completar os estudos de enfermagem.

Ao promover a inclusão contribuímos para o processo de humanização, traçado pelo mistério da encarnação. A  vida de Jesus, seus atos, palavras, dão testemunho de que o amor não é limitado por barreiras, que inventamos por causa de interesses próprios ou por medo dos outros. A esperança conecta-nos ao projeto do nosso Deus Criador, que é o primeiro a acolher-nos e a vir ao nosso encontro. Criados à sua imagem temos o dever de nos deixar transformar por essa imagem, tal como Jesus a encarnou. Deixar-nos transformar – vivendo juntos na “escola da caridade”, respeitando a diferença do outro como fonte de um “nós” enriquecido.

O acolhimento do outro, para concluir, concretiza-se na interculturalidade e na comunhão que queremos salvaguardar e promover no seio da Congregação. O Papa Francisco na sua Encíclica Fratelli Tutti, chama a interculturalidade de “profecia para o nosso tempo”. Nós nos fizemos esta pergunta: como podemos continuar a concretizar esta interculturalidade/comunhão agora que temos uma só irmã flamenga no Ruanda e que tem quase 100 anos? Como fazê-lo no respeito mútuo, também no seio da África, sem que nenhum grupo domine o outro? Também nas nossas comunidades na Flandres: promover o “nós” da comunhão, do respeito mútuo, sem que um grupo de idade domine o outro.

Nosso carisma nos mostrará o caminho, o carisma cisterciense nos mostrará o caminho, insistindo no “nós” – do encontro, da cooperação e da partilha, chamando-nos à conversão pessoal, comunitária e mesmo congregacional. Este caminho fazemo-lo hoje, juntos, mas está diante de nós como um “caminho de esperança”, na fé de que o Espírito Santo nos guiará e nos ajudará a “sonhar o futuro”.

Que a exortação de São Paulo aos Efésios “Aplicai-vos a guardar a unidade de Espírito pelo vínculo da paz” (Ef 2,3), nos convide a ir sempre à fonte da espiritualidade cisterciense. Ela nos mostrará o caminho do futuro.

O jubileu beneditino “Lugares de esperança desde 529”

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529-2029: O jubileu da vida beneditina


Abade Jeremias Schröder, OSB

Abade Primaz da Confederação Beneditina

 

O jubileu beneditino

“Lugares de esperança

desde 529”

 

 

A Decisão

Em setembro de 2024, o Congresso dos Abades tomou diversas decisões importantes e elegeu um novo Abade Primaz. Entre essas decisões, uma em particular trouxe grande alegria ao novo Primaz: a celebração do ano de 2029 como jubileu para toda a família beneditina. Como a maioria já sabe, segundo a cronologia tradicional, São Bento fundou o Monte Cassino em 529. Os 1500 anos desse acontecimento constituem um motivo especial de celebração para o mosteiro de Monte Cassino, frequentemente chamado, em italiano, de “arquicenóbio”, por ser considerado a comunidade-mãe de todos os mosteiros da nossa Ordem. Os abades reunidos, porém, decidiram ampliar essa celebração para toda a família de São Bento. A decisão foi tomada e o jubileu inscrito em nosso calendário. Depois disso, cada abade retornou à sua comunidade. Eu permaneci entusiasmado, mas, pouco a pouco, fui me dando conta da amplitude dessa tarefa. Organizar um jubileu mundial, celebrado em diferentes países e culturas, não é algo simples que meus secretários e eu possamos realizar paralelamente às nossas outras responsabilidades. Isso exigirá energia, tempo e uma dedicação constante e sem falhas.

 

Preparativos

No início de 2025, começamos os preparativos de maneira mais intensa e organizada. Pedimos a cerca de quarenta pensadores e escritores do nosso mundo monástico que refletissem sobre o jubileu e partilhassem conosco suas considerações. Recebemos contribuições extraordinárias, atualmente reunidas em uma obra que, espero, será publicada em breve. Ela certamente inspirará todos aqueles que participarão das celebrações jubilares.

À medida que a ideia do jubileu foi tomando forma, tornou-se evidente a necessidade de envolver mais pessoas para que o projeto pudesse ser realizado da melhor maneira possível. Criamos, então, uma comissão de coordenação e, mais recentemente, uma comissão científica encarregada de acompanhar as atividades que exigem maior rigor e seriedade acadêmica.

Mais importante ainda, encontramos alguém disposto a assumir a missão de coordenador internacional do jubileu: o senhor Adam Simon, que vive nas proximidades de Londres. Adam Simon sentiu desde cedo uma vocação beneditina. Mais tarde, casou-se, constituiu família e construiu uma brilhante carreira no mundo dos negócios, sem jamais perder o amor por São Bento e pela vida monástica. Atualmente, faz parte da “Comunidade Leiga de São Bento”, iniciativa nascida na Abadia de Worth e posteriormente tornada independente. Esse grupo dinâmico reúne várias centenas de leigos beneditinos, e Adam Simon é hoje seu principal responsável. Ele une ao seu profundo conhecimento e amor pela vida beneditina um notável espírito de organização, uma ampla rede de contatos e um entusiasmo verdadeiramente contagiante.

Precisávamos também de apoio profissional. A agência londrina “Peter’s House”, especializada no desenvolvimento eficaz de ministérios católicos, revelou-se uma colaboração preciosa. Foi ela que auxiliou os bispos ingleses durante a canonização de John Henry Newman, um acontecimento de grande repercussão popular, e agora comprometeu-se a ajudar-nos a alcançar um resultado semelhante.

Mas basta falar de organização.

 

Os princípios do Jubileu

Desde o início, ficou claro que este jubileu não deveria ser uma celebração voltada para si mesma, mas antes um tempo de gratidão, reflexão e interiorização, como alguns o definiram. Deveria também tornar-se um jubileu para toda a família beneditina, e não apenas para nós, na Itália.

Por isso, o jubileu será descentralizado. A proposta é incentivar mosteiros, congregações, regiões e países a organizarem suas próprias iniciativas, utilizando de modo criativo os recursos colocados à sua disposição, sem a intervenção de uma autoridade central que determine o que deve ou não ser feito. Em resumo, será algo profundamente beneditino: uma semente lançada à terra, capaz de produzir frutos diversos, em lugares diversos e de maneiras diversas.

O jubileu é concebido também como um convite. Desejamos que ele alcance não apenas nossos monges e monjas, mas igualmente os oblatos, os leigos beneditinos, os buscadores espirituais, os peregrinos, a Igreja universal, os jovens, os amigos ecumênicos, os parceiros inter-religiosos e também os responsáveis políticos e culturais.

Como aconteceu nos jubileus anteriores, este também deverá deixar um legado duradouro. Voltarei mais adiante a essa questão. Estamos preparando publicações e traduções de alto nível, tanto acadêmicas quanto voltadas ao grande público. Esperamos oferecer novos recursos digitais, obras de arte, filmes, música e talvez até produções teatrais.

Já se percebe claramente que este jubileu fortalecerá os laços entre as comunidades. Uma plataforma digital, conectando nossos mosteiros, monges, monjas, iniciativas jubilares e todos os demais participantes, contribuirá para tornar ainda mais forte a família beneditina.

Tudo isso não acontecerá apenas em 2029 para depois desaparecer. Haverá um caminho — ou melhor, uma preparação progressiva — rumo ao ano jubilar. Estruturamos essa preparação de maneira simples, seguindo as etapas da vida de São Bento de Núrsia:

• 2026 — o ano de Núrsia, com o tema: “Despertar”

• 2027 — o ano de Roma, com o tema: “Escutar”

• 2028 — o ano de Subiaco, com o tema: “Crescer”

• 2029 — o ano de Monte Cassino, com o tema: “Desabrochar”

Serão disponibilizados diversos recursos — textos, orações, meditações, gravações em áudio e vídeo — para aprofundar cada um desses anos e seus respectivos temas, permitindo assim que nossas comunidades possam trabalhar, rezar e preparar-se adequadamente para o ano jubilar.

 

Lugares de esperança desde 529

O subtítulo do jubileu beneditino é: “Lugares de esperança desde 529”. Essas palavras são particularmente ricas de significado.

O termo “lugares” refere-se, antes de tudo, aos mosteiros. Na origem de tudo está o Monte Cassino, o lugar escolhido por São Bento de Núrsia para estabelecer um modo de vida que contribuiria profundamente para transformar o cristianismo ocidental. Pelo voto de estabilidade, nós, beneditinos, nos ligamos a uma comunidade concreta, situada em um lugar concreto, e não a um ideal abstrato ou a uma organização internacional.

Neste número do boletim encontra-se também um tocante artigo de Dom Luca Fallica, abade de Monte Cassino, sobre o significado histórico e espiritual que Monte Cassino representa para todos nós.

A Igreja Católica organiza-se, tradicionalmente, de maneira territorial: conferências episcopais nacionais, províncias eclesiásticas, dioceses, decanatos e paróquias. Contudo, em muitos lugares, essa organização territorial já não responde plenamente às necessidades atuais. Os fiéis — e cada vez mais as pessoas em busca espiritual — vinculam sua experiência religiosa a lugares concretos: santuários, mosteiros, casas de retiro. Os beneditinos oferecem justamente esses lugares. Cultivam, inclusive, um verdadeiro “amor pelo lugar”, como escreveu Michael Casey em um de seus livros.

São Bento escreveu sua Regra como um verdadeiro documento de esperança. A Regra possui inúmeras facetas inspiradoras. “Nunca desesperar da misericórdia de Deus”, escreve ele ao final do capítulo 4. Toda a Regra é um convite à esperança de uma vida que nos aproxima de Deus. Assim, numerosos mosteiros tornam-se lugares de esperança para visitantes, hóspedes e peregrinos.

Desde 529, essa experiência conheceu altos e baixos: tempos de sobrevivência, períodos de declínio e até de morte aparente, mas sempre seguidos de renascimento. A antiga divisa beneditina não oficial — Succisa virescit — resume admiravelmente essa esperança: “o que foi cortado, renasce”.

 

Jubileus passados

Não é a primeira vez que os beneditinos se preparam para celebrar um jubileu. Recordamos especialmente os jubileus de 1880, 1929 e 1980.

O primeiro contribuiu para uma dinâmica que levaria posteriormente à fundação de Sant'Anselmo e da nossa Confederação Beneditina. Já a grande herança de 1980 foi a publicação da “RB 1980”, tradução comentada da Regra de São Bento que permanece, até hoje, uma das versões mais utilizadas no mundo anglófono.

Esperamos que 2029 nos deixe igualmente um legado precioso: laços mais fortes entre nossas comunidades e uma compreensão mais profunda da nossa identidade beneditina.

 

Reflexão pessoal

Nos últimos tempos, procurei compreender melhor o século VI. O monaquismo beneditino nasceu em uma época de profundas transformações: a queda do Império Romano do Ocidente, as invasões bárbaras e o declínio do mundo clássico marcaram profundamente aquele período.

Foi também no ano de 529 que o imperador Justiniano I fechou a antiga academia platônica de Atenas, considerando-a supérflua. E justamente nesse contexto surgiu um novo modo de vida, oferecendo um espaço protegido e uma forma inédita de aprendizagem, ao mesmo tempo cristã e monástica.

Os últimos anos também foram marcados por mudanças em escala mundial, e outras tantas já se anunciam no horizonte. Talvez estejamos entrando em uma nova era de turbulências, em uma verdadeira mudança de época. Um jubileu bem preparado poderá ajudar-nos a enfrentar tempos difíceis, levando-nos a redescobrir a profundidade da nossa tradição monástica e a oferecer ao mundo um cristianismo humilde, enraizado na humildade, na estabilidade e na resiliência.

O Monte Cassino simboliza tudo isso. Mais do que um símbolo, porém, é uma realidade viva. É motivo de grande alegria constatar um renovado vigor nessa casa ancestral do nosso Pai São Bento. Estou convencido de que este jubileu fará muito bem não apenas ao arquicenóbio, mas também a todas as nossas comunidades — e a muitas outras além delas.

 

Para saber mais, consulte: jubilee.osb.org

529-2029: Tornar-se peregrinos através do tempo para saborear dias felizes

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529-2029 : O jubileu da vida beneditina


Dom Antonio Luca Fallica, OSB

Abade do Monte Cassino – Itália

 

529-2029: Tornar-se peregrinos através do tempo para saborear dias felizes

 

 

“Qual é o homem que quer a vida e deseja ver dias felizes?” (RB Prólogo 14-15) São Bento de Núrsia nos interpela por meio dessa pergunta que ressoa no Prólogo de sua Regra: desejar a vida autêntica é saber acolher e saborear o lento desenrolar dos nossos dias. Nosso desejo é posto à prova: o que deseja verdadeiramente o nosso coração? A etimologia da palavra “desejar” está ligada ao termo latino sidera — “estrelas” — e, portanto, a um mundo que nos ultrapassa, que não pode ser plenamente conhecido nem aprisionado pelos nossos sentidos. É como a promessa feita por Deus a Abraão: tua descendência será numerosa como as estrelas do céu, se fores capaz de contá-las.

Outra interpretação etimológica do verbo “desejar” destaca a preposição de, colocada antes de sidera. Esse de pode indicar uma falta, algo ausente que desperta em nós a procura. Aspiramos às estrelas porque elas nos faltam. Mas de também pode significar afastamento. Nesse sentido, desejar seria deixar de erguer os olhos apenas para o céu e cessar de procurar fora de nós aquilo que pode ser encontrado no mais íntimo da nossa existência.

O desejo pode, assim, seguir dois caminhos: buscar incessantemente aquilo que nos falta ou descobrir, dentro de nós mesmos, aquilo que verdadeiramente procuramos. A Regra de São Bento parece indicar esse segundo caminho.

“E se fizerdes isso — isto é, se disserdes e praticardes o bem — meus olhos estarão sobre vós e meus ouvidos atentos às vossas súplicas; e antes mesmo que me invoqueis, direi: ‘Eis-me aqui’.” (RB Prólogo 18)

O encontro com o Senhor realiza o desejo de uma vida feliz. Aquilo que nos falta não precisa ser procurado numa estrela longínqua, mas no bem que dizemos e fazemos aqui e agora. É nesse espaço concreto da existência que Deus se torna presente, oferecendo seu dom e a felicidade que promete.

Quando Bento deixou Subiaco para dirigir-se a Monte Cassino — lugar que hoje guarda seu corpo e também o de sua irmã Santa Escolástica — o que inspirou e sustentou sua caminhada não foram as dificuldades e decepções causadas pelo padre Florêncio, mas o desejo de Deus e a busca de sua presença. Ao saber da morte de Florêncio, Bento chorou por seu inimigo e rezou por ele, mas não voltou atrás. Prosseguiu seu caminho, porque se tratava de uma peregrinação espiritual, independente das circunstâncias históricas, ainda que estas fossem dolorosas.

A primeira coisa que fez ao chegar à montanha foi combater a idolatria, destruindo os templos e altares pagãos que ali encontrou. No lugar deles construiu um oratório dedicado a São Martinho de Tours e, no alto da colina, uma capela dedicada a São João Batista, onde mais tarde seria sepultado ao lado de Santa Escolástica. Ainda hoje, a luta contra a idolatria — contra os numerosos ídolos que ameaçam nossa fé — deve ocupar um lugar central na vida monástica e na busca do verdadeiro rosto de Deus. É profundamente significativo que São Bento tenha confiado essa busca à proteção e intercessão de São Martinho e de São João Batista. São Martinho foi aquele que viveu o dom total de si mesmo, desde o gesto de repartir seu manto com os pobres até a disposição, narrada por Sulpício Severo, de continuar servindo o povo de Deus mesmo na fraqueza extrema da morte iminente. São João Batista, por sua vez, é aquele que aponta para o Senhor e nos ajuda a reconhecer sua presença entre nós, por meio de um caminho de despojamento e renúncia. “É preciso que Ele cresça e eu diminua” — afirma o quarto Evangelho. Trata-se de uma lógica totalmente oposta à lógica idolátrica, que nos leva a buscar apenas o próprio interesse e a exaltação de nós mesmos. Bento viveu essa peregrinação na fé, na esperança e na caridade, provavelmente no ano de 529.

Preparamo-nos agora para celebrar, dentro de três anos, os 1500 anos da fundação do Monte Cassino. Foi ali que Bento viveu e morreu, depois de escrever a Regra que continua guiando monges e monjas em todo o mundo. Por esse motivo, o jubileu de 2029 não diz respeito apenas à abadia de Monte Cassino e à comunidade que ali vive, nem somente à região circundante ou às centenas de milhares de peregrinos que chegam de toda parte. Esse jubileu concerne a todo o mundo monástico, a todas as famílias espirituais que encontram na Regra de São Bento uma referência essencial para a vida comunitária e para o caminho espiritual de cada um de seus membros.

Ao longo da história, Montecassino desempenhou um papel fundamental não apenas no que diz respeito à vida monástica e à busca espiritual de Deus, mas também em muitos outros aspectos da vida humana: do trabalho à cultura, da arte à história, da organização social à estruturação econômica. São Paulo VI, ao proclamar São Bento padroeiro da Europa aqui mesmo em Montecassino, em 20 de outubro de 1964, recorreu, na carta apostólica Pacis nuntius, a três imagens para resumir a contribuição insubstituível do monaquismo beneditino para a edificação da civilização europeia e, além dela, uma vez que seu raio de ação alcançou todos os cantos da terra. A cruz, o livro e o arado são, para o papa do Concílio, as três figuras emblemáticas que narram o que o monaquismo, que se irradiou originalmente a partir de Montecassino, representou e pode continuar a representar para a vida humana e suas múltiplas expressões.  Na lógica do “e… e…” própria de São Bento, também aqui o que é fundamental não são as imagens individuais nem o que elas representam, e muito menos o fato de que elas coexistem. A cruz, ou seja, a fé, se torna livro e, portanto, cultura, e a cultura, por sua vez, se encarna no trabalho e, portanto, em um compromisso solidário na história para a transformação do mundo. Por outro lado, o compromisso histórico é inspirado pela fé e animado por uma visão cultural; a própria cultura não separa Deus e o homem, a imanência e a transcendência; a vida espiritual é uma fuga da mundanidade, mas não do mundo, e não apenas dá alma ao trabalho, mas se alimenta do próprio trabalho e o assume como lugar de crescimento humano e espiritual. O padre Bartolomeo Sorge, em um discurso proferido em Montecassino em 1980, por ocasião do XV centenário do nascimento de São Bento, afirmava: “É nessa síntese entre fé, cultura e trabalho que reside a essência da mensagem de São Bento, a originalidade da instituição beneditina. É também nessa síntese entre a cruz, o livro e o arado que reside a inspiração, a própria ideia da Europa”, e não apenas da Europa, podemos acrescentar, mas de toda comunidade humana autêntica, em qualquer parte do mundo.

Por essas razões e muitas outras ainda, que não temos tempo nem espaço para aprofundar aqui, o Jubileu de 2029, em que comemoraremos os 1.500 anos de existência de Montecassino, com suas quatro destruições e outros tantos renascimentos, não se resume apenas à lembrança da construção de um mosteiro, mas a uma memória que deve permanecer viva e vital ainda hoje, para dar sentido ao nosso presente e abri-lo a um horizonte de esperança. Ela pode e deve tornar-se uma memória profética. Em hebraico, a raiz zakar designa tanto a memória quanto o elemento masculino que fecunda o feminino para gerar uma nova vida. Essa é a memória autêntica: ela fecunda o nosso presente e gera um futuro diferente.



ós, monges de Montecassino, conscientes dessa herança que desejamos não apenas celebrar, mas sobretudo viver e tornar viva, desejamos que todo o mundo monástico, que puder reunir-se, pelo menos idealmente, em Montecassino por ocasião deste Jubileu, possa partir daqui para se espalhar por todos os cantos da terra, onde quer que vivam, rezem, trabalhem, estudem e acolham as comunidades beneditinas masculinas e femininas, colocando-se esta questão: de que forma a história que recordamos nos lança um desafio para hoje e para o amanhã? O que podem e devem significar para o nosso mundo, nossas culturas, nossos povos, nosso encontro com outras tradições religiosas e culturais, a cruz, o livro, o arado? Como manter viva, para os homens e mulheres de nosso tempo, a pergunta com a qual São Bento continua a nos interpelar: “Quem é o homem que deseja a vida e anseia por dias felizes?”. Como podemos ajudar hoje nosso povo, e todos aqueles que, por uma razão ou outra, se aproximam de nossas comunidades, a não negligenciar essa indagação e a buscar respostas sábias e concretas?

Monte Cassino nasceu de uma peregrinação: a peregrinação de São Bento saindo de Subiaco. Uma peregrinação não apenas geográfica, mas também espiritual. Como a memória do caminho percorrido por Bento há 1500 anos pode ajudar-nos hoje a sermos peregrinos na busca de Deus, da verdadeira humanidade, da justiça e da paz, da verdade e da bondade? Desejar a vida é desejar dias felizes. Mas a vida e sua felicidade precisam encarnar-se no tempo e no espaço; precisam tornar-se concretas na história humana.

Desejamos recordar aquilo que aconteceu há 1500 anos e tudo o que se desenrolou ao longo desses quinze séculos para compreender, com a graça de Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, e à luz do Espírito Santo, que tipo de espaço e de tempo devemos construir hoje para que a vida humana encontre sentido e possa alegrar-se na plenitude de suas aspirações.

Lugares de esperança: apresentação do livro do jubileu

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529-2029: O jubileu da vida beneditina


Adam Simon, Oblato da Abadia de Worth

Coordenador do projeto do jubileu de 2029

 

Lugares de esperança: apresentação do livro do jubileu para o aniversário

de 1500 anos

da vida beneditina

 

 

“Celebremos 1500 anos de jubileu!” Assim começa, com um espanto quase desarmante, Myrèse Dupagne, osb, do Mosteiro Notre-Dame de Hurtebise. Quinze séculos parecem algo vertiginoso; e, no entanto, precisamente porque a nossa época é marcada pelo efêmero e pela fragilidade, o jubileu torna-se um convite à reflexão. Se alguma coisa consegue durar tanto tempo, talvez nossa esperança não seja vã.

O novo livro jubilar, “Lugares de esperança, desde 529”, reúne testemunhos provenientes do mundo beneditino — e até para além dele — em diferentes línguas e contextos culturais, todos em torno da pergunta proposta por Jeremias Schröder, Abade Primaz da Confederação Beneditina:

“A expressão ‘Lugares de esperança’ lhe diz alguma coisa? Que esperança pode emergir dos 1500 anos da fundação de Monte Cassino por São Bento?”

As respostas são ricas, variadas e profundamente humanas. O livro será publicado em 2026 como um convite à preparação do jubileu. Seus autores não pretendem apresentar os mosteiros como lugares perfeitos, nem idealizar a história. Pelo contrário: falam de uma esperança que sobreviveu às ruínas das guerras, às mudanças culturais, ao desgaste interior e ao lento luto do declínio.

Eles nos convidam a compreender a esperança não como simples otimismo, mas como um modo de viver: uma harmonia entre oração e trabalho, comunidade e conversão, hospitalidade e perseverança.

 

Um refrão universal: Gana como “lugar de esperança”

Para ilustrar a dimensão verdadeiramente universal deste livro, um dos testemunhos mais tocantes é o do padre Luis Kwadwo Odei, osb, de Kristo Buase, em Gana.

Ele sublinha um aspecto essencial: a esperança irradiada pelo Monte Cassino não permanece confinada àquela colina italiana. Ela atravessou culturas, línguas e continentes, enraizando-se em novos povos sem perder sua essência.

Kristo Buase aparece como um verdadeiro lugar de esperança beneditina na África Ocidental, profundamente integrado à realidade local. A tradição ali permanece viva. A Regra é vivida em solo africano, traduzida nas expressões da língua, da música e da vida comunitária. Embora distante geograficamente de Monte Cassino, Kristo Buase participa do mesmo espírito: compromisso com a oração, o trabalho, a hospitalidade e a paz.

 

O “vazio” no centro: abrir espaço para Aquele que dá esperança

Irmã Myrèse propõe uma imagem particularmente sugestiva da fonte da esperança beneditina: o espaço vazio no coração da arquitetura monástica — o claustro aberto, o vazio do coro, a recusa de preencher cada espaço com conforto, funcionalidade ou eficiência. Não seria esse vazio um testemunho de que não somos o centro de nós mesmos — “de que o nosso mundo é habitado por Alguém maior do que ele”?

Trata-se de uma pergunta profundamente beneditina precisamente porque é concreta. Ela não parte de teorias abstratas sobre a esperança, mas da própria forma de um lugar construído para deixar espaço: espaço para Deus, para a comunidade, para o hóspede e para o futuro que não controlamos. Nesse vazio, sugere ela, deixamos manifestar-se a presença de Deus — sua esperança para o nosso mundo — e redescobrimos o paradoxo fecundo de uma vida de despojamento.

 

A esperança que renasce das ruínas

O livro retorna frequentemente ao Monte Cassino: fundado, destruído, reconstruído; abatido e novamente erguido; símbolo não de invulnerabilidade, mas de renascimento. Os textos recordam-nos que a esperança não ignora a devastação: ela aprende a recomeçar. Ninguém talvez exprima isso melhor do que Dom Luca Fallica, abade de Monte Cassino:

“Desde minha chegada, em 2023, apego-me especialmente a um lugar da abadia: a cela de São Bento, situada na torre romana, mencionada por São Gregório Magno no II Livro dos Diálogos. Após a reconstrução realizada depois da destruição de 1944, foram pintados afrescos representando cenas da vida de São Bento descritas por São Gregório nesse mesmo lugar. Duas delas me tocam particularmente. Na parede esquerda, São Bento prediz a primeira destruição de Monte Cassino pelos lombardos, em 577. Na parede oposta, contempla a alma de sua irmã Escolástica entrando no céu em forma de pomba. Frente a frente, essas imagens convidam-nos a reler as tragédias da história — simbolizadas pela destruição da abadia — à luz da promessa de Deus. A esperança necessita desse duplo olhar, reunido no olhar de São Bento, ‘que viu o mundo inteiro reunido sob um único raio de sol’.”

 

A esperança num mundo esgotado: acompanhamento e “desfile de esperança”

Se o mundo contemporâneo muitas vezes parece dominado por um fluxo incessante de más notícias, Christopher Jamison, osb, abade-presidente da Congregação Beneditina Inglesa, descreve esse fenômeno como um “desfile de ansiedades”. Ele contrapõe a isso o ritmo cotidiano do mosteiro, onde a liturgia e a Escritura constituem uma espécie de “desfile de esperança”: um retorno paciente, dia após dia, à Boa Nova que não muda diante das transformações da atualidade.

Dom Jamison relaciona essa visão ao apelo do Papa Francisco à arte do acompanhamento: caminhar com o outro reconhecendo nele um espaço sagrado. Nessa perspectiva, o mosteiro não é apenas um refúgio; torna-se uma verdadeira escola de atenção, formando corações capazes de escutar, esperar e confiar na ação do Espírito. Em uma cultura obcecada pela rapidez, o mosteiro oferece uma alternativa: a perseverança paciente da fraternidade.

 

A era digital: renovar sem perder a alma

Alguns textos abordam com grande sinceridade o declínio, o cansaço e as dificuldades da vida monástica contemporânea. O padre Jaechan Anselmo Park, osb, da Abadia de São Bento de Waegwan, começa evocando a dor de ver comunidades envelhecerem e o temor de que a esperança se apague. Ainda assim, ele recusa o desespero, apoiando-se numa observação provocadora de Thomas Merton: a esperança perfeita encontra-se à beira do desespero, quando o poder de Deus se revela na fraqueza humana.

A partir dessa convicção, Dom Park afirma que uma esperança credível na era digital exige uma renovação lúcida: vida comunitária baseada na confiança; liderança participativa; formação que inclua reflexão sobre ética digital; integração responsável das tecnologias; e práticas capazes de restaurar o silêncio e a atenção interior.

O objetivo não é correr atrás das novidades, mas preservar a dimensão contemplativa da vida monástica para que ela continue sendo um dom para o mundo.

 

Um serviço que revele a distância entre o Evangelho e o mundo

Joan Chittister, osb, do Mosteiro Mount Saint Benedict, nos Estados Unidos, mostra-se, como sempre, simultaneamente profética e prática. Ela insiste que, após 1500 anos de história, os mosteiros devem irradiar vida, tornando-se centros de contemplação, consciência social, desenvolvimento espiritual e vida comunitária.

Ao refletir sobre o serviço monástico, convida as comunidades a evidenciarem “a distância entre o mundo em que vivemos e o Evangelho que pregamos”. Seu olhar missionário é igualmente agudo: as pessoas de hoje vivem “on-line”, e é justamente ali que os mosteiros devem estar — fazendo ressoar os sinos monásticos de maneira nova.

 

Outras vozes reconhecidas

Além dos autores já mencionados, o livro reúne contribuições de diversas personalidades de destaque:

• Dom Christian Temu, osb — Abadia de Ndanda

• Irmã Lynn McKenzie, osb — Moderadora da CIB, Estados Unidos

• Padre Michael Casey, ocso — Abadia de Tarrawarra, Austrália

• Rowan Williams — Reino Unido

• Irmã Mary John Mananzan, osb — Academia Santa Escolástica, Filipinas

• Irmão Matthew Thorpe — Prior de Comunidade de Taizé

• Gianfranco Ravasi — Itália

• Irmã Asha Thayyil, osb — Prioresa das Irmãs Beneditinas Santa Lioba, Índia

• Padre Anselm Grün, osb — Abadia de Münsterschwarzach

 

Por que este livro — e por que agora?

Jean Pateau, osb, abade da Abadia de Fontgombault, convida-nos a cultivar uma liberdade nova. Aproximando-se o jubileu, exorta toda a Ordem a reencontrar-se com seu fundador e com sua Regra. Ele conclui retomando as palavras de São Bento sobre o último instrumento da esperança: “Nunca desesperar da misericórdia de Deus”.

O jubileu deve ser um tempo de renovação e de esperança para o futuro. Trata-se de redescobrir aquilo que Mauro-Giuseppe Lepori chama de “fonte” do Monte Cassino. Um lugar torna-se portador de esperança quando permanece uma fonte inesgotável de vida e de paz, porque nele corre continuamente uma água viva impregnada do carisma que encarna. Para Dom Lepori, essa água viva é o amor que brota do Coração transpassado de Cristo. Um mosteiro torna-se verdadeiramente “fonte” quando a comunidade fraterna bebe da comunhão filial com o Pai, de modo que “o amor de Deus e o amor do próximo caminhem juntos”. O “vazio” evocado por Irmã Myrèse torna-se, então, um convite final: o centro não nos pertence; pertence a Deus.

Se soubermos preservar esse espaço aberto — arquitetonicamente, espiritualmente e comunitariamente — então nossos mosteiros e as redes de amizade que os rodeiam poderão continuar sendo aquilo que este livro proclama silenciosamente: lugares onde a esperança não apenas se explica, mas se vive.

“Despertar!”

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529-2029: O jubileu da vida beneditina


Abade Benedetto Nivakoff, OSB

Abadia de Norcia (Itália)

 

“Despertar!”

 

O grande Jubileu Beneditino de 2029 começa este ano em Norcia com o tema: “Despertar!”. Por isso, pensei que poderia ser útil partilhar a história de outro despertar que teve lugar há alguns anos.

A 24 de agosto de 2016, um terremoto abalou a antiga cidade de Norcia e o mosteiro com quase 2000 anos que se ergue na sua praça central. Eram pouco mais de quatro horas da manhã, e os monges preparavam-se para recitar as Matinas. “Despertai!”

Embora os danos causados ao edifício fossem visíveis, foi somente cerca de dois meses depois, a 30 de outubro, às 7h30 — mais uma vez, “despertai!” — que um terremoto muito mais forte, de magnitude 6,8 na escala de Richter, fez desabar a torre do século XV sobre a nave da basílica do século XII, atingindo a cripta onde os santos gêmeos nasceram em 480.

Naquele dia, alguns dos nossos monges encontravam-se ao lado da igreja, prontos para celebrar a Missa na loja de recordações para os poucos fiéis que tinham permanecido no centro histórico. Por milagre, eles e muitos outros foram poupados. Era o dia da mudança da hora e, graças a esse acaso, a maioria das pessoas ainda dormia, em vez de se dedicar às suas habituais ocupações matinais.

Assim, os monges de Norcia seguiram os passos dos mosteiros de todo o mundo que já enfrentaram todo o tipo de tragédias. Quantas vezes lemos no refeitório a história de abadias famosas destruídas por incêndios, inundações ou invasores? Basta ler a Vida do próprio São Bento e a visão que ele teve — segundo a qual Monte Cassino seria arrasada e apenas os monges sobreviveriam — para nos lembrarmos de onde nos situávamos nessa sequência. Não estávamos sozinhos.

E, no entanto, quando um acontecimento deste tipo ocorre, não se vê imediatamente o seu lugar nos livros de história. Veem-se, antes, necessidades urgentes por toda a parte. Naquela fresca manhã de outubro, vimos uma nuvem de poeira em forma de cogumelo elevar-se da cidade a partir do nosso miradouro na encosta da montanha, e soubemos que a primeira necessidade, a mais urgente, era a dos últimos sacramentos.

“Despertai!” Os irmãos da abadia receberam ordens para se ajoelharem e rezarem pelos mortos; os padres correram para o centro da cidade, com estolas e óleos sagrados nas mãos. A devastação era enorme e os escombros cobriam o chão por toda a parte. Encontramos feridos, mas, para nossa grande surpresa, nenhum morto. Guiamos os bombeiros através dos escombros e das ruas perigosas até às casas de idosos que conhecíamos e que provavelmente não tinham conseguido fugir. Tivemos de insistir para que os bombeiros arrombassem a porta do convento das irmãs Clarissas, pois sabíamos que elas só sairiam à força. Os primeiros socorristas estavam convencidos de que as religiosas tinham abandonado o local. Nós, porém, estávamos certos de que elas ainda estavam lá. Quando a porta foi finalmente arrombada e as irmãs foram encontradas a rezar em torno do altar, não foi tanto um momento de satisfação, mas sobretudo de espanto e alegria para todos. Mas não havia tempo a perder: outras casas tinham de ser visitadas — e rapidamente.


Foi necessário recorrer a bulldozers (trator de esteira) para desobstruir os caminhos, a fim de resgatar as cerca de 150 pessoas que se tinham reunido no único espaço aberto que restava: a praça central. Uma imagem que se tornou “viral” mostra um monge fotografado de joelhos, guiando os fiéis na oração. Os outros monges ajudaram a organizar as saídas. Conduzimos equipes de apoio ao longo do Corso central juntamente com os serviços de emergência, depois de o túnel medieval de evacuação ter sido considerado inacessível e perigoso. A dificuldade com os terremotos, ao contrário de outras catástrofes, é que nunca se sabe quando vão parar. Tudo pode parecer calmo, sem mais nenhum abalo, e, um segundo depois, tudo volta a tremer e a desmoronar-se.

Os dias, semanas, meses e anos que se seguiram trouxeram o seu quinhão de desafios. Com a ajuda de Deus, tantas coisas que pareciam impossíveis tornaram-se possíveis. Aos monges e monjas de todo o mundo que possam ler estas palavras, gostaria de recordar que o nosso voto de Conversatio é frequentemente posto à prova da forma mais inesperada. No dia da nossa profissão, cada monge ouve as palavras: “Levanta-te, tu que dormes! Acorda!” E, claro, nesse dia, pensamos que nos levantamos verdadeiramente. Mas Deus tem em mente tantos outros momentos, tantos outros “chamados ao despertar”. Teríamos aceitado este caminho se soubéssemos o que nos esperava? Talvez não.

Na sabedoria de Deus, muitas vezes dizemos “sim” a Ele quando ainda somos muito jovens e tudo parece fácil. E, tal como no matrimônio, podem passar anos — ou mesmo décadas — antes que o apelo ao despertar (ou à escuta, como dizem as primeiras palavras do Prólogo) seja finalmente ouvido de verdade.

Nesse momento, serão os pequenos “sins” pronunciados ao longo de toda a nossa vida, muitas vezes em assuntos aparentemente insignificantes, que nos ajudarão a dizer “sim” a um grande “sim”. Ou então será a primeira vez que tantos “nãos” pronunciados anteriormente se transformarão no nosso primeiro verdadeiro “sim”.

Dame Hilda Wood

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Grandes figuras da vida monástica

Monjas beneditinas da Abadia de Stanbrook

Inglaterra

 

Dame Hilda Wood

1934-2025

 

A irmã Hilda foi religiosa em Stanbrook (Reino Unido) durante quase 70 anos. A Congregação Beneditina Inglesa, da qual Stanbrook faz parte, é historicamente uma congregação missionária. Enquanto monges e irmãs partiam em missão, a irmã Hilda, a partir do recinto do mosteiro, trabalhava com dedicação e amor pelas comunidades de todo o mundo que vivem segundo a Regra de São Bento. Fez parte da AIM desde os seus primórdios e dizia frequentemente o quanto apreciava trabalhar com Dom Marie-Bernard de Soos, que se tornou presidente da AIM em 1984. A partir do seu “pombal” — a sua pequena cela escura no quinto andar do mosteiro de Worcester — distribuía donativos aos mosteiros necessitados, recolhia livros monásticos e espirituais em segunda mão e enviava-os por via terrestre para todo o mundo, surpreendendo-se sempre com a lentidão das respostas.

Traduziu para inglês, a partir do francês, o curso de espiritualidade monástica de Dom Luc Bresard, OCSO, e participou na publicação da coleção Témoins du Christ (Testemunho de Cristo), uma série de textos paleocristãos, patrísticos e monásticos.

Trabalhava principalmente na edição inglesa do Boletim, traduzindo os artigos do francês quando necessário e preparando-os para impressão. Era sem dúvida o seu trabalho mais estressante, como podem testemunhar os membros da sua comunidade, pois, durante o período que antecedia cada publicação, ficava um pouco irritadiça. Recuperava-se, porém, rapidamente e sentia-se sempre orgulhosa — com toda a razão — do resultado final. Conhecia o nome e a história de quase todos os mosteiros apoiados pela AIM. De vez em quando, deslocava-se a Vanves para reuniões, saboreando o fato de ser a primeira irmã de Stanbrook a viajar no novíssimo Eurostar.

Fez apenas uma longa viagem: a Nova Orleães, estadia que apreciou imensamente. Ao regressar, tentou — sem sucesso e para grande diversão de muitos — imitar o sotaque tão característico da cidade.

A liturgia e a lectio eram toda a sua vida. Enquanto pôde, celebrou o Ofício na igreja com a comunidade. Austera, frugal e de uma meticulosidade quase obsessiva, deixava apenas um único livro na sua cela durante todo o dia: a sua Bíblia, aberta sobre a escrivaninha durante a lectio diária. Na sequência de uma queda que lhe fraturou os quadris, a irmã Hilda passou os últimos dias da sua vida num lar de idosos. Corajosa até ao fim, começou até mesmo a repreender Deus por tê-la mantido viva por tanto tempo; ansiava por estar junto d’Ele.

Nas primeiras horas do dia 3 de setembro de 2025, festa de São Gregório Magno — o papa que iniciou a conversão dos ingleses — ela faleceu, pronta para viver eternamente na presença de Deus. Quase se podia ouvi-la dizer a Deus: “Finalmente!”

Padre Agostinho Baker: um guia beneditino para o século XXI?

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Grandes figuras da vida monástica

Irmã Laurentia Johns, osb

Abadia de Stanbrook, Inglaterra

 

Padre Agostinho Baker (1575-1641): um guia beneditino para o século XXI?

 

«… Devo resumir em uma palavra o caminho que leva ao Paraíso? É a vossa Regra, observai-a bem; ela salvará as vossas almas do Inferno.»

Augustin Baker, Tratado espiritual

intitulado A.B.C. (por volta de 1627)


Quem foi o padre Agostinho Baker?

Agostino (DAVID) Baker foi um monge e padre beneditino britânico, nascido no País de Gales numa família que, aparentemente, se tinha convertido à Igreja Anglicana. Advogado de formação, após uma profunda conversão aos vinte e cinco anos, tornou-se católico, monge e depois padre. Baker foi um dos Padres fundadores da congregação beneditina inglesa “moderna” ou “restaurada”. A sua obra jurídica está na origem do Apostolatus Benedictinorum in Anglia (1626), uma obra imponente que visa demonstrar a continuidade entre os beneditinos de antes e depois da Reforma na Inglaterra. Ele identifica quatro dons (carismas) que caracterizam a vida beneditina na Inglaterra desde o início da Idade Média: a celebração solene do Ofício Divino, a hospitalidade, a clausura e o estudo. Monge-sacerdote beneditino inglês radicado na França numa época em que era ilegal exercer o sacerdócio na Grã-Bretanha, dedicou vários anos à perigosa missão de servir a população católica da Inglaterra. Morreu de febre em 1641, na cidade de Londres devastada pela peste.

Os anos mais produtivos para a sua obra espiritual escrita foram aqueles que passou no mosteiro beneditino recém-fundado em Cambrai, em Flandres (hoje a Abadia de Stanbrook, em Inglaterra). Foi para lá enviado em 1624 pelo Abade Presidente Rudesind Barlow, em resposta a um pedido das monjas que desejavam um guia para as iniciar na oração contemplativa. Entre 1624 e 1633, redigiu cerca de quarenta tratados destinados à jovem comunidade, explicando como levar uma vida de oração num contexto beneditino. Tornar-se, nas suas próprias palavras, “seres interiores”. Frequentemente compilações de ensinamentos orais, estes tratados são geralmente curtos e práticos, abordando temas como o discernimento, a confissão e as instruções para a contemplação. No entanto, a sua tradução e comentário da Regra de São Bento, oferecidos à abadessa Catherine Gascoigne de Cambrai em 1633, contam com cerca de 500 páginas. Baker foi também um colecionador, tradutor e compilador prolífico de obras destinadas a alimentar o espírito e o coração das suas jovens protegidas: os Apóstolos, os Padres do Deserto, Cassiano, os Padres da Igreja e contemporâneos mais próximos, como Ludovicus Blosius (1506-1566), bem como numerosos autores espirituais medievais.

O que pode seu ensinamento oferecer aos monges e monjas de hoje? Augustin Baker escreveu os seus tratados originais para monjas beneditinas com pouca experiência – iniciantes, como nos lembra São Bento. Diz-se que suas obras contêm cerca de um milhão de palavras, mas, como mostra a passagem no início deste artigo, o seu ensinamento é essencialmente simples: Sigam a Regra! No entanto, como qualquer intérprete, ele tem uma abordagem particular da Regra de São Bento que este artigo procura esboçar.


Visão geral:

“A contemplação, ou (o que é o mesmo) a oração espiritual e o seu aperfeiçoamento, são a finalidade da nossa Regra e da nossa profissão.”[1]

Embora a Regra de São Bento dedique apenas um breve capítulo à oração, para Baker, ela visa conduzir os seus adeptos à união com Deus, uma união que só será completa na vida após a morte, mas que pode começar já nesta vida e que dá energia e direção à vida monástica. Não se trata de uma ideia nova. Mais de um milênio antes, João Cassiano escrevia:

“Todo o objetivo da vida monástica, e até mesmo a perfeição do seu coração, resume-se a essa dedicação total e ininterrupta à oração.”[2]

A busca monástica sempre foi a desse contato ininterrupto com Deus, prefiguração da vida eterna. E isto, não como uma exceção reservada aos monges e monjas, mas para todos aqueles que levam a sério o seu dom batismal de cristãos. São Paulo exorta os Tessalonicenses a “rezar sem cessar” (1 Ts 5, 17), ou seja, orientar inteiramente a sua vida para o reino de Deus. Assim, para Baker, a oração é um prisma através do qual se pode contemplar toda a Regra. Ele identifica sete passagens da Regra onde a união com Deus é mais fortemente sugerida (RB: Prólogo 2; 7, 67-70; 58, 7; 62, 4; 64, 17-19; 71; 72). Esta abordagem da finalidade, ou telos em grego, da Regra é valiosa: lembra-nos por que razão viemos para o mosteiro – idealmente, para procurar Deus. E evita que nos percamos nos detalhes, nas rubricas ou nos costumes. Não que estes sejam sem importância…


Os meios – o caminho para a união com Deus

Para Baker, os meios para alcançar este fim – a união com Deus – são precisamente tudo o que a Regra prescreve aos seus praticantes, o que se pode incluir no voto de conversatio morum. Ele enumera:

“Obediência, sofrimentos, silêncio, solidão, leitura, trabalho, abnegação da vontade própria, jejum, abstinência…”[3].

E, claro, a prática constante da humildade e da caridade.

A oração, também ela, é simultaneamente um meio e o fim, ou o telos, da Regra, quer se trate da oração vocal do Ofício Divino ou da oração pessoal. Baker recomendava dois períodos de trinta minutos por dia dedicados à oração silenciosa e contemplativa, na espera de Deus. O essencial é a fidelidade a esta prática contra ventos e marés, tentando deixar que se eleve a capacidade interior dada por Deus. Ele encorajava as jovens monjas, especialmente no início da sua formação espiritual, a criarem um repertório de frases curtas, talvez versículos de um salmo ou de um livro espiritual, para ajudar a alimentar o seu desejo e a manterem-se concentradas na “única coisa necessária”. Ouvimos aqui, mais uma vez, o eco do ensinamento de Cassiano, segundo o qual os monges deveriam repetir frequentemente: “Ó Deus, vem em meu auxílio, Senhor, apressai-vos em me socorrer” (Salmo 69/70, v. 2).

Pessoalmente, achei esta abordagem — que consiste em recolocar os detalhes quotidianos da vida numa perspetiva mais ampla — útil para integrar as práticas exteriores da vida monástica e a vida interior do espírito, à semelhança do que manifesta o monge de São Bento no décimo segundo grau da humildade (RB 7, 62-70). Num mundo fragmentado, onde os monges e as monjas são tão frequentemente puxados em todas as direções, tal integração pode ser das mais benéficas, conduzindo a uma certa simplicidade e a uma certa plenitude.


Liberdade de espírito

É interessante notar que Thomas Merton apresentou aos seus noviços os escritos do padre Baker e de Dame Gertrude More, mais precisamente sobre este ponto: a santificação pelo Espírito Santo que a vida monástica (conversatio) opera no monge ou na monja. Embora a afirmação de Merton de que as monjas teriam “abolido o exame de consciência diário”[4] seja exagerada, Baker desaconselhava as confissões demasiado frequentes e repetidas, bem como a escrupulosidade, que considerava «um dos maiores flagelos da perfeição espiritual» e que impediam “essa alegre liberdade de espírito que uma alma deveria ter para conversar com Deus na oração”. Em vez disso, preconizava “uma humilde purificação de todos os defeitos [do penitente] de uma só vez, no fogo celestial… do amor de Deus” (STABC, p. 3-4).

A liberdade interior que o ensinamento de Baker ajudava a cultivar naqueles que seguiam o seu caminho espiritual ressoa com as aspirações contemporâneas a uma obediência madura e à responsabilidade pessoal. Aprender a ouvir profundamente as inspirações do Espírito Santo, estando sempre pronto para as examinar com um ancião experiente, se necessário, desenvolve uma força interior que permite discernir os riscos de abusos espirituais, infelizmente presentes no mundo monástico, e, esperemos, combatê-los. Como sublinha a epístola aos Efésios:

“Fortaleçam-se no Senhor, na sua força todo-poderosa… para que possam resistir às artimanhas do diabo… Pois não temos de lutar contra homens, mas contra… as potências do mal que estão nos lugares celestiais… Perseverai na oração e na súplica; orai em toda a ocasião, com a força do Espírito…” (Ef 6, 11-18)

A oração contemplativa é um apoio precioso para respeitar o nosso voto de estabilidade.


Uma influência crescente

“A felicidade do homem reside na felicidade da sua alma. E a alma só pode encontrar a felicidade na união com Deus, para quem foi criada…”[5]

Figura sempre controversa, Augustin Baker nunca deixou de suscitar interesse. Um colóquio internacional, organizado em Abergavenny, a sua cidade natal, para comemorar o 400.º aniversário da sua conversão em 2000, atraiu muitos participantes, entre os quais os monges e as monjas eram minoria[6]. Fato significativo, o colóquio, organizado por um leigo, realizou-se num colégio e não num mosteiro: o ensinamento de Baker sobre a oração irradiou-se muito além das paredes de um mosteiro e atravessou os séculos, pois dirige-se a esse vazio interior, a essa necessidade de Deus, criada para Deus apenas. Foi em parte porque Baker incitava os seus discípulos a ouvir a voz do Espírito Santo dentro de si — a «considerar a sua vocação», como ele dizia — que o seu ensinamento foi controverso na sua época, pois a heresia do “iluminismo” estava então disseminada. No entanto, o fascínio duradouro dos escritos de Baker é igualmente surpreendente.

Embora contemporâneo de William Shakespeare (1564-1616), o nosso autor não dominava o inglês tão bem quanto o dramaturgo: não era a sua língua materna. Muitas das suas obras, reunidas e habilmente editadas por outro monge da congregação beneditina inglesa, D. Serenus Cressy (1605-1674), foram publicadas sob o título de Sancta Sophia em 1657. Esta obra, sempre volumosa (cerca de 20 mil palavras) e de leitura árdua, contribuiu, no entanto, para consolidar a reputação de  Baker como guia espiritual e não deixou de circular desde então. Ao fazer preceder a obra pela versão do monge beneditino da Parábola do Peregrino, retirada de A Escada da Perfeição de Hilton (século XIV), Cressy forneceu uma chave para a compreensão do ensinamento de Baker: “Não sou nada, não possuo nada, não procuro nada além do amor de Jesus”. Trata-se dessa oração do coração (“oração da vontade” na Idade Média), desse desejo de responder ao amor de Deus: a própria essência do seu ensinamento sobre a oração.

Ao longo dos últimos 40 anos, graças ao trabalho dedicado do reverendo John Clark e à edição esclarecida de James Hogg e dos seus colaboradores, editores da coleção Analecta Cartusiana, surgiram edições críticas dos tratados originais de Baker, oferecendo assim acesso à sua própria voz. No entanto, ainda há muito a fazer para tornar estes tesouros acessíveis ao público do século XXI.

Uma vantagem imediata reside no fato de, tal como mencionado anteriormente, as obras originais serem, na sua maioria, bastante breves e centradas num tema específico. De um modo geral, o Baker que se destaca destes textos originais é mais humano, mais bem-humorado e mais pragmático. Por exemplo, ele preconiza, no âmbito de um dia monástico típico, um período de “descanso e inatividade” para a serenidade do corpo e da mente (STABC, parte “C”; cf. RB 48, 5) e sugere às monjas que coloquem lembretes escritos de preceitos espirituais em locais onde possam consultá-los ao longo das suas atividades diárias.

Seu ensinamento continua a ter influência ainda hoje. Recentemente, um oblato beneditino americano publicou uma edição acessível de alguns escritos de Dame Gertrude More, sem dúvida a discípula e colaboradora mais conhecida e prolífica do padre Baker.[7] Deixemos que Dame Gertrude conclua com uma oração que ela compôs e que testemunha a importância da leitura atenta dos Padres da Igreja, encorajada pelo seu mentor. Essa leitura alimentou a sua devoção e a sua oração e sustentou-a nos momentos difíceis:

“Tu és o Deus da paz. Dá-me o teu amor verdadeiro, fonte de paz. Minha querida Senhora, [que todos os anjos e santos rezem por nós] … e também o meu amado pai e mestre, Santo Agostinho, que me concedeste… para me socorrer nas minhas dúvidas e receios, para me encorajar, através dos seus livros, a esperar o perdão de Deus pelos meus inúmeros pecados, e para inflamar a minha alma com as suas palavras, a fim de que eu procure e anseie pelo teu amor divino… Amém.” (Extrato da 18.ª Confissão, publicada em Paris em 1658)

Uma leitura tão séria, como a preconizada por São Bento no RB 73, e outro pilar do ensinamento do Padre Baker, é um apoio precioso para todos aqueles que hoje seguem o caminho beneditino.

Leitura recomendada: Para além das obras acima mencionadas, “Frontières de l’Esprit”, de Victor de Waal, é uma breve introdução acessível ao padre Augustin Baker. ISBN 978-0-7283-0181-8.


[1] Augustin Baker, La vie et la mort de Dame Gertrude More, éd. Wekking, p. 147.

[2] Abertura da Conferência IX, Sur la prière.

[3] The Substance of the Rule of St Bennet, SAP, 1981, p. 1.

[4] Thomas Merton, Mystics and Zen Masters, New York, 1967, p. 164.

[5] The Substance of the Rule of St Bennet, p. 11.

[6] Os anais deste colóquio continuam sendo um dos guias mais completos e úteis sobre o padre Baker e sua obra: That Mysterious Man: Essays on Augustine Baker OSB. Ed. Michael Woodward; Three Peaks Press, 2001.

[7] Cf. Poems and Counsels on Prayer and Contemplation by Dame Gertrude More, ed. Jacob Riyeff, Gracewing, 2020.

O Ano Santo na Basílica de São Paulo Fora dos Muros

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Nouvelles

Père Ludovico Torrisi, OSB

Saint-Paul-hors-les-murs, Rome (Italie)

 

O Ano Santo na Basílica

de São Paulo Fora dos Muros

 

 

Em 28 de dezembro de 2025, com o rito solene de encerramento da Porta Santa da Basílica Papal Maior de São Paulo Fora dos Muros, presidido pelo cardeal arcipreste Michael James Harvey, chegou ao fim o Ano Santo Ordinário de 2025, o jubileu proclamado pelo Papa Francisco com a bula de indicação Spes non confundit.

Ao longo do Ano Santo, fiéis vindos de todo o mundo dirigiram-se a Roma para expressar a sua proximidade com o Santo Padre e com a Igreja de Roma, berço do cristianismo. Esta comunhão manifestou-se de forma particular através da peregrinação às quatro basílicas papais, e em especial às basílicas dos santos apóstolos Pedro e Paulo, locais privilegiados de oração, de conversão e de profissão de fé renovada.

A Basílica de São Paulo Fora dos Muros, devido à sua localização na cidade de Roma e às suas dimensões imponentes, que lhe permitem acolher até 8 mil fiéis, esteve particularmente envolvida na vida do jubileu que acaba de terminar. O fluxo de peregrinos foi constante e numeroso ao longo do ano, com uma ligeira diminuição no mês de agosto, marcado pelas elevadas temperaturas de verão em Roma. Vimos entrar na Basílica, fiéis de todas as línguas e de todas as nações: homens e mulheres que se detiveram em oração diante do túmulo do Apóstolo dos Gentios, que celebraram com fé os sacramentos da reconciliação e da Eucaristia, muitas vezes na companhia dos seus pastores, padres e bispos.



A Basílica de São Paulo acolheu igualmente vários eventos jubilares previstos no calendário oficial: entre os quais o jubileu dos catequistas, dos guardas que trabalham em estabelecimentos penitenciários, de várias ordens cavaleirescas (como a Ordem Soberana Militar de Malta), dos militares e de certas nações que, por intermédio das suas dioceses e paróquias, organizaram verdadeiras peregrinações a Roma, como no caso da Croácia. Não se tratou de simples viagens turísticas, mas de autênticos caminhos de fé. Contemplamos os rostos de numerosos peregrinos que atravessavam a Porta Santa, cheios de alegria e esperança, sobretudo após o longo e doloroso período marcado pela pandemia da Covid-19 e pelas guerras que ainda afligem diversas partes do mundo.

O Ano Santo revelou-se, mais uma vez, um dom precioso do Senhor à sua Igreja: um tempo favorável de graça, oferecido através do ministério do Santo Padre, para todos aqueles que desejam empreender ou renovar um caminho de conversão e de fé. Nós também, guardiões da Basílica de São Paulo Fora dos Muros, pudemos regozijar-nos com o serviço prestado de diversas formas: a escuta das confissões, o acompanhamento de grupos, a assistência aos peregrinos. Tudo decorreu num clima de grande serenidade e sem incidentes de particular destaque.

Damos graças ao Senhor por esta experiência de graça, pelas forças que nos foram concedidas no serviço diário e pelos numerosos fiéis que, ao visitarem a Basílica de São Paulo, regressaram às suas comunidades enriquecidos pelo testemunho de fé do apóstolo Paulo, anunciado na Palavra e vivido na caridade evangélica.

13.º Encontro dos beneditinos da Ásia Oriental e da Oceânia

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Notícias

13-17 de outubro de 2025, Mosteiro de Thien Binh (Vietnã)

segundo o relato do irmão Nicholas Koss, OSB

 

13.º Encontro dos beneditinos da Ásia Oriental e da Oceânia(BEAO)



 

O 13.º Encontro dos Beneditinos da Ásia Oriental e da Oceania realizou-se no Mosteiro de Thien Binh, de 13 a 17 de outubro de 2025. Este mosteiro está situado a leste de Ho Chi Minh, e pertence à congregação de Subiaco-Monte Cassino. A 12.ª reunião da BEAO aconteceu em Taiwan em 2018.

Ao todo, 47 pessoas participaram na reunião da BEAO em 2025. Entre as que não eram originárias da Ásia Oriental ou da Oceania, contavam-se vários responsáveis beneditinos, incluindo o Abade Primaz Jeremias Schröder, e o seu secretário, P. Patrick Carter; o abade Bernard Lorent Tayart, presidente da AIM (Aliança Intermonástica); o padre Cyprian Consiglio, secretário-geral do DIM-MID (Diálogo Inter-religioso Monástico); o Abade Presidente da Congregação Beneditina de Sankt Ottilien Javier Aparicio Suárez; e o Abade Presidente da Congregação de Subiaco-Monte-Cassino, Ignasi Fossas.

Dos 41 representantes das comunidades beneditinas da BEAO — entre superiores e delegados por eles designados —, os participantes provinham dos seguintes países: Austrália (1), China/Taiwan (5), Japão (3), Coreia (8), Filipinas (17) e Vietname (7).



O P. Philippe Minh Vu Ngoc Tuy, Prior do Mosteiro de Thien Binh, e o Fr. Nicholas Koss, do Priorado de Wimmer em Taiwan, foram os principais organizadores do encontro. As celebrações religiosas e a Eucaristia foram celebradas com a comunidade beneditina de Thien Binh.

Após os discursos de boas-vindas, teve início a apresentação das comunidades, que se prolongou pelos dias seguintes.

O padre Cyprian Consiglio, secretário-geral do DIM-MID, apresentou o trabalho desenvolvido por esta organização e evocou uma conversa mantida com o Sr. La Bella, responsável pela Comunidade de Sant’Egidio, em Roma, sobre o papel do monaquismo no mundo atual. Na sua perspetiva, o Sr. La Bella identificava quatro contributos essenciais que o monaquismo pode oferecer à sociedade contemporânea, confrontada com aquilo que qualificou como «materialismo e perda do sentido da transcendência».

1. A austeridade, um modo de vida não consumista.

2. Um testemunho da unidade do gênero humano.

3. Um modo de vida que combina ora, labora, studia.

4. A paz interior que conduz à paz exterior.

O padre Cyprian interessou-se pelo quarto ponto: Como podemos nós, enquanto monges e monjas, semear as sementes da paz, em particular através do diálogo inter-religioso?

O padre Cyprian destacou os quatro tipos de diálogo que o Dicastério para o Diálogo Inter-religioso promove: o diálogo da vida, o diálogo da ação, o diálogo do intercâmbio teológico e o diálogo da experiência religiosa. Está em preparação no Dicastério um novo documento sobre a espiritualidade cristã do diálogo inter-religioso.

Nesta terça-feira, 14 de outubro, a Eucaristia foi celebrada pelo arcebispo Mons. Marek Zalewski, núncio em Singapura e residente no Vietnã.

À tarde, o Abade Primaz Jeremias Schröder apresentou as novidades da Confederação Beneditina: os numerosos estudantes em Sant’Anselmo, os novos meios de comunicação (Nexus, a circular aos presidentes, Facebook); a reunião dos quatro responsáveis da OSB, CIB, OCSO e OCist; o próximo Catalogus e o novo atlas da OSB; os desenvolvimentos da AIM; o recente sínodo dos presidentes em Montserrat, em reunião conjunta com a conferência das delegadas da CIB; a nova plataforma de comunicação entre a Confederação e a CIB; a residência para as religiosas estudantes em Roma.

O Abade Primaz Jeremias apresentou os desafios do Jubileu Beneditino de 2029, cuja implementação e preparação começam já em 2026, e para o qual cada comunidade em todo o mundo é convidada a empenhar-se. O Abade Primaz propôs uma cooperação mais estreita entre as comunidades da BEAO, nomeadamente através da criação de módulos de formação, de uma casa de estudos, etc. Foi levantada a questão de alargar o BEAO às comunidades OCSO, primeiramente convidando-as para a próxima assembleia.

Na quarta-feira, 15 de outubro, o Comitê Internacional do BEAO foi reestruturado como Comitê Diretivo, com um presidente. Os membros da reunião elegeram a Ir. Megan Kahler (Congregação das Irmãs Beneditinas do Bom Samaritano) como nova presidente. Os membros agradeceram calorosamente ao Ir. Nicholas Koss pela sua dedicação e pelo seu trabalho incansável ao longo de muitos anos no seio do BEAO.

Continuaram as reflexões sobre as propostas do Abade Primaz relativas à formação e ao estabelecimento de percursos de formação e de casas de estudos.

Após uma pausa, o Padre Abade Bernard Lorent Tayart, presidente da AIM, apresentou as evoluções e perspectivas da Associação: os novos estatutos, o Conselho Moderador, os quatro novos Comitês (finanças, projetos, formação, comunicação), a Assembleia, que se reúne uma vez por ano e reúne o Conselho Moderador, os presidentes das congregações internacionais, os delegados das grandes organizações regionais (BEAO, ISBF, EMLA, África), os delegados dos cistercienses e dos trapistas, o secretário do DIM, o diretor da AIM-USA e os membros dos Comitês. O Padre Abade Bernard apresentou as ajudas financeiras concedidas às comunidades em 2025, seguidas do Boletim da AIM, publicado em seis línguas e enviado às comunidades em todo o mundo. O Comitê Diretivo do BEAO deverá eleger um delegado para a assembleia da AIM.

A Eucaristia foi presidida pelo Abade Primaz Jeremias. À tarde, tiveram início as discussões em grupos sobre três temas importantes: a vida e os problemas de uma comunidade contemplativa (relação com as redes sociais, envolvimento na comunidade e ritmos diferentes entre os religiosos e religiosas, a distância entre as gerações – nomeadamente no que diz respeito à sensibilidade e à obediência), as crises da quarentena (formas de ultrapassar as crises) e o apoio à Igreja na China.

O padre Nguyen Van Am, salesiano de Dom Bosco, proferiu uma palestra sobre a Igreja do Vietnâ: “A Igreja do Vietnã: nas turbulências da história e na construção do reino de Deus”.

Os grupos de discussão retomaram à noite com dois outros temas: os oblatos beneditinos e a possível cooperação entre as comunidades beneditinas da Ásia Oriental e da Oceania.


Cada mosteiro apresentou a situação atual da sua comunidade de oblatos e os seus programas de formação em curso. Os relatórios destacaram os meios desenvolvidos para acompanhar os oblatos no seu crescimento espiritual, no seu empenho na oração e na sua participação ativa no apostolado. A reunião afirmou a importância de reforçar a formação dos oblatos para que possam viver mais profundamente os valores beneditinos da oração, do trabalho e da vida comunitária nas suas respectivas circunstâncias. Ficou acordado que uma comunicação e uma colaboração contínuas entre os mosteiros e as suas comunidades de oblatos garantirão que a missão da Ordem seja levada a cabo com renovado zelo e fidelidade.

Ir. Megan Kahler apresentou algumas orientações possíveis para a cooperação entre as comunidades: retiros anuais conjuntos, experiências comunitárias, estudos na Europa, aulas de inglês com tutor, módulos partilhados online, inculturação de recursos (tradução de textos fundamentais), intercâmbios monásticos, como visitas às comunidades.

Na quinta-feira, 16 de outubro, devido à partida às 7 horas para a visita a Ho Chi Minh, a missa foi celebrada às 5h. O abade Ignasi, presidente da Congregação de Subiaco-Monte Cassino, presidiu à celebração. No final da missa, agradeceu à comunidade de Thien Binh, em inglês e em francês, pela sua maravilhosa acolhida beneditina.

Os membros da BEAO visitaram o Centro Pastoral João Paulo II, antigo seminário diocesano requisitado pelos comunistas em 1975 e devolvido à Igreja em 1990. Lá, o padre Peter Nguyen Van Hien, responsável pela Comissão Catequética da Diocese, e depois o padre Xavier Bao Loc, responsável pela Comissão de Diálogo Inter-religioso, expuseram ao grupo a situação e as perspectivas destas comissões. Após a visita ao museu da cidade e um excelente almoço no restaurante, a visita terminou na catedral, que se encontra em obras. Embora estivesse fechada ao público, o grupo do BEAO obteve autorização para entrar.

O dia e a assembleia do BEAO terminaram com uma noite em que cada país representado foi convidado a cantar, dançar ou apresentar um espetáculo relacionado com a sua cultura.

Sexta-feira, 17 de outubro, foi o dia da partida, após estes momentos intensos, repletos de partilhas fraternas e construtivas.

XIII Encontro Monástico Latino-Americano

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Notícias

Irmã Cristina Lavinhati, osb,

por Secretaria do XIII EMLA


XIII Encontro Monástico Latino-Americano (EMLA)

Comunidades fraternas

para um mundo fraterno

 

 

Entre os dias 3 e 10 de novembro de 2025, o Brasil acolheu, na cidade de Salvador, estado da Bahia, o XIII Encontro Monástico Latino-Americano (EMLA), promovido pela UMLA – União Monástica Latino-Americana. Vindos de diversos países da América Latina e do Caribe, monges e monjas beneditinos, cistercienses e trapistas reuniram-se na capital baiana trazendo consigo a riqueza de suas tradições, línguas e experiências. Durante uma semana, Salvador tornou-se lugar de encontro, escuta e comunhão profunda, acolhendo comunidades que vivem segundo a Regra de São Bento. A missa de abertura foi presidida por D.Emanuel D´Able do Amaral,OSB, Abade Presidente da Congregação Beneditina do Brasil.

Inspirado pelo tema “Comunidades fraternas para um mundo fraterno” e guiado pelo lema evangélico “Que todos sejam um, para que o mundo creia” (Jo 17,21), o encontro aconteceu no Centro de Formação de Líderes (CTL) da Arquidiocese de São Salvador da Bahia, situado na região de Itapuã, área praiana da capital baiana, que marcada pela beleza de suas praias e pela presença da natureza, acompanhou de modo simbólico a vivência do encontro. Em um ambiente simples e fraterno, 101 participantes — entre abades, abadessas, priores, prioresas, monges e monjas — partilharam oração, reflexão e convivência cotidiana. A organização esteve a cargo da Conferência de Intercâmbio Monástico do Brasil (CIMBRA), que acolheu com cuidado, marcado pelo espírito de comunhão, os representantes das associações monásticas do continente: ABECCA (Associação Beneditina e Cisterciense da América Central e Caribe), UBC (União Beneditina e Cisterciense - México), SURCO (Associação Monástica do Cone Sul) e a própria CIMBRA (Brasil).

Desde 1972, o Encontro Monástico Latino-Americano reúne periodicamente as comunidades monásticas do continente (antigamente realizava-se a cada 4 anos, agora a cada seis anos), afirmando-se como um espaço privilegiado de encontro, formação e discernimento comum. Após a última edição, realizada em 2019 na cidade de Córdoba, na Argentina, o EMLA voltou a acontecer em solo brasileiro, retomando um caminho já trilhado anteriormente: em 1982, Salvador foi sede do III EMLA, cuja memória, assim como os outros encontros realizados ao longo deste período, permanece como herança espiritual e inspiração para as gerações atuais.

 


A fraternidade vivida e refletida

Ao longo da semana, a fraternidade não foi apenas tema de estudo, mas realidade concretamente vivida no cotidiano do encontro. Conferências, réplicas, trabalhos em grupo e celebrações litúrgicas entrelaçaram-se de modo harmonioso, favorecendo um aprofundamento dos fundamentos da vida fraterna na Regra de São Bento, dos caminhos de reconciliação e perdão e do testemunho da comunhão monástica em um mundo marcado por divisões e conflitos.

As reflexões foram enriquecidas pela contribuição qualificada de conferencistas provenientes das diversas expressões da família beneditina. Dom Gregório Paixão, osb, Arcebispo de Fortaleza, evidenciou as comunidades monásticas como lugares privilegiados de geração e cultivo da fraternidade cristã. Dom Jeremias Schröder, osb, Abade Primaz, refletiu sobre a força e a relevância do testemunho monástico em um mundo marcado pela fragmentação e, em sua intervenção, apresentou a Confederação Beneditina, oferecendo também esclarecimentos sobre o caminho de preparação para o Jubileu de Montecassino, a ser celebrado em 2029. Dom Mauro-Giuseppe Lepori, ocist, Abade Geral da Ordem Cisterciense, aprofundou a temática da comunhão fraterna como via de conversão pessoal e comunitária. Por sua vez, Dom Bernard Lorent Tayart, OSB, Presidente da Aliança Inter-Monástica (AIM), sublinhou a importância da cooperação entre os mosteiros e do apoio mútuo em âmbito continental, além de partilhar o testemunho de suas recentes visitas a regiões duramente provadas pela guerra, como a Terra Santa. 

Também contribuíram para o aprofundamento do tema o Pe. Rafael Osoria, ocso, da República Dominicana, ao tratar dos fundamentos da vida fraterna à luz da Regra de São Bento; o Pe. Damián Ortega, osb, do México, ao abordar os desafios do perdão e da reconciliação nas comunidades de hoje; e a Irmã Timotea Kronschnabl, osb, da Argentina, ao apresentar a vida monástica como sinal de esperança para a Igreja e para o mundo.

Houve, também, ainda que à distância, a contribuição da Ir. Lynn McKenzie, osb, Moderadora da CIB – Communio Internationalis Benedictinarum, que participou via plataforma digital. Em sua apresentação, Ir. Lynn ofereceu uma visão da estrutura, da missão e do funcionamento da CIB, organismo internacional que promove a comunhão, a cooperação e o apoio mútuo entre os mosteiros de monjas beneditinas em todo o mundo. Sua intervenção permitiu aos participantes situar o EMLA no horizonte mais amplo da vida monástica feminina em nível global, reforçando os laços de pertença e corresponsabilidade dentro da família beneditina.

Um momento significativo foi a apresentação do Movimento Manquehue, do Chile, que partilhou sua experiência laical inspirada na espiritualidade beneditina. A reflexão evidenciou como os valores da Regra de São Bento — oração, fraternidade, estabilidade e busca de Deus — podem fecundar também a vida das famílias e das comunidades leigas, ampliando o horizonte do testemunho monástico na Igreja e na sociedade.

 

Oásis de comunhão em meio ao mundo

Em um tempo marcado pela pressa e pelo excesso de ruído, o EMLA ofereceu um verdadeiro oásis de comunhão. A vida monástica, apresentada ao longo do encontro, revelou-se como sinal profético de unidade: uma vida simples, estruturada pela oração, pelo silêncio, pelo trabalho e pela fraternidade, capaz de falar com clareza ao coração do mundo contemporâneo.

 


Liturgia, canto e espiritualidade jubilar

A liturgia diária, cuidadosamente preparada pela Schola Cantorum do Encontro, constituiu um dos eixos espirituais do EMLA 2025. O esmero na escolha dos textos, dos salmos e dos cantos favoreceu uma participação orante e recolhida, ajudando os participantes a viverem cada dia como verdadeira escola do serviço do Senhor.

A escuta orante da Palavra de Deus e os momentos de convivência informal fortaleceram os laços espirituais e culturais entre os participantes. Em sintonia com o tempo jubilar vivido pela Igreja, uma estrofe do Hino do Jubileu da Esperança 2025 foi entoada por todos os participantes, tornando-se expressão orante da comunhão, da esperança partilhada e do caminho comum percorrido ao longo da semana. O canto comum reforçou o sentido de peregrinação, unidade e esperança, situando o encontro no horizonte mais amplo da Igreja universal.

Chama viva da minha esperança,

este canto suba para Ti!

Seio eterno de infinita vida,

no caminho eu confio em Ti!

No sábado, 8 de novembro, essa comunhão encontrou expressão também em um tempo de convivência mais descontraída. Os participantes realizaram um passeio por Salvador, visitando o Mosteiro de São Bento, dos monges - primeiro mosteiro beneditino das Américas, e o Mosteiro do Salvador, das monjas beneditinas, cuja presença orante enriquece de modo singular a tradição monástica na cidade. Na ocasião, foi partilhado um almoço típico da culinária baiana. O itinerário incluiu ainda a Obra Social Santa Dulce dos Pobres, a Igreja do Senhor do Bonfim e outros pontos significativos da cidade, favorecendo um contato mais próximo com a história, a fé e a cultura do povo baiano.

 

Um envio em esperança

O XIII EMLA foi concluído no dia 10 de novembro com a Missa Solene de encerramento, presidida por Dom Edmilson Caetano, ocist, Bispo da Diocese de Guarulhos (SP), que recordou também sua experiência como Presidente da CIMBRA em 2006, quando acolheu o EMLA na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais. A celebração final coroou a semana vivida, expressando gratidão pelo caminho percorrido e renovando o compromisso comum com a missão recebida.

Ao retornarem às suas comunidades, os participantes levaram consigo não apenas reflexões e apontamentos, mas sobretudo a experiência viva de uma fraternidade partilhada. Confiados à ação do Espírito Santo, seguem chamados a aprofundar, com fidelidade criativa e esperança perseverante, sua vocação monástica, testemunhando — em meio aos desafios do mundo contemporâneo — que a comunhão, a reconciliação e o amor em Cristo são não apenas possíveis, mas necessários.

Novalesa : 726-2026

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Notícias

Padre Michael-Davide Semeraro, OSB,

Priorado da Abadia de Novalesa (Itália)


Novalesa 726-2026

Treze séculos de “laboratório” da humanidade


 

Em 30 de janeiro de 726 foi fundada a Abadia de Novalesa, colocada sob a proteção dos apóstolos-irmãos: Pedro e André! Talvez o inverno de treze séculos atrás não fosse assim tão frio e nevado para se pensar em fundar um mosteiro a dois passos do Passo do Mont-Cenis na estação menos propícia. Treze séculos de história… e todos eles são visíveis! A Abadia de Novalesa não esconde as rugas da sua longa história, mas deixa-as entrever como as gloriosas cicatrizes de antigas feridas, sabiamente suportadas e bem cuidadas. As cicatrizes da história são sinais de vida e provas de perseverança nos sucessivos acontecimentos dos dias, dos anos, dos séculos.

Incrustada como uma pedra preciosa nas montanhas do vale “Cenischia”, a abadia parece uma novilha deitada no meio dos prados e bosques tranquilos que a rodeiam, ocupada a ruminar – pacificamente – os fatos e os acontecimentos para que sejam uma mensagem de esperança para todos aqueles que, ainda hoje, passam, por motivos tão diversos, por este lugar.

A longa história repleta de vicissitudes, como toda a história que se preze, não faz de Novalesa um vestígio, mas um monumento. Um monumento que se apresenta como um testemunho da humanidade, capaz não só de falar do passado, mas também de iluminar o presente e de abrir caminho para o futuro. Fazer memória não significa fechar-se no passado – mais ou menos glorioso –, mas olhar para um futuro repleto de surpresas, enfrentando os desafios do presente – aqui e agora – como uma oportunidade para dar o melhor de si e deixar para trás um rasto perfumado: a vida oferecida e a esperança cultivada com tenacidade.

A história de Novalesa é como um tecido cuja trama são os nomes famosos de todos aqueles que por aqui passaram, deixando-nos um sinal, e a multidão de anônimos que permanecem na sombra. Nomes, certamente, conhecidos por todos, como Carlos Magno e Napoleão, mas também rostos talvez desconhecidos, como o monge Eldrado, cuja memória ganha vida nas cores milenares dos afrescos da capela medieval que guardou as suas relíquias. Os tempos gloriosos cruzam-se com momentos de infortúnios ou de decadência. Ficar, partir, regressar, partir novamente são verbos que, na história de Novalesa, se entrelaçam com as de tantos homens e mulheres do passado e do presente. De tal forma que, na galeria de retratos de pessoas ilustres, há tantos espaços em branco nos quais podemos imaginar colocar os nomes e os rostos desconhecidos da crônica do mosteiro, mas que são os fios necessários à tecelagem para que a trama se mantenha.

As pedras, as cores, os edifícios ligados aos horizontes de Novalesa tranquilizam-nos: a história vive-se sem perder a paz, e isso ontem, hoje e amanhã. A vida deve ser acolhida como uma dádiva e cultivada como um desafio: viver sem nunca se resignar a sobreviver, sem nunca perder a coragem de sonhar com grandes coisas, debruçando-se sobre as pequenas coisas de cada dia, de cada hora, de cada instante que passa, para que deixem de fugir. Os novos começos, por enquanto impostos pelo infortúnio, revelam-se frequentemente indícios de novas possibilidades.

Visitar um mosteiro que atravessou os séculos não pode deixar de suscitar a nostalgia do futuro. Para cada mosteiro e para cada um dos monges e monjas que nele habitam, ressoa o apelo do Papa Francisco no início do seu ministério petrino como bispo de Roma: “Nos mosteiros, espera-se o amanhã de Deus?” Para tornar possível um amanhã para a humanidade, não se deve esquecer, mas é necessário recordar. É por isso que queremos celebrar os 1300 anos do aniversário da fundação de Novalesa com uma solenidade sóbria e uma paixão profunda. Não se trata simplesmente de dar um salto ao passado, trata-se de oferecer os primeiros frutos de um futuro impensável sem um surto de humanidade vivido e partilhado.

Novalesa é, há treze séculos, um “lab-oratório” de humanidade onde, precisamente a oração – Ora et labora – e o compromisso de habitar este lugar e de o fazer viver foram e, esperemos, ainda possam ser, as coordenadas, entre as quais se pode crescer e fazer crescer a sensibilidade para o Belo, o Bom e o Verdadeiro. Após várias vicissitudes e períodos de abandono, há meio século que uma comunidade de monges beneditinos da congregação de Subiaco-Monte Cassino cuida da abadia, vivendo na oração, no trabalho, na vida fraterna e no acolhimento.


A abadia de Novalesa não é apenas um monumento histórico, é também um lugar de espiritualidade ao serviço do crescimento em humanidade. Na verdade, se tivéssemos de resumir numa única palavra a Regra de São Bento, essa palavra seria: humanitas (RB 53, 9). A fórmula agora clássica de Ora et labora está ao serviço de um crescimento em humanidade através da humilitas (RB 7), entendida como a capacidade de assumir a própria realidade, tal como ela é, sem nunca perder a esperança de poder transfigurá-la.

O maior dom que podemos trocar entre nós para o oferecer às novas gerações é a memória das coisas belas que soubemos conceber e realizar, aceitando não leva-las conosco para a sepultura, mas deixá-las como um dom que nos precede e nos ultrapassa. É válida, mesmo para a Abadia de Novalesa, a palavra do Senhor Jesus: “Do que vedes, não ficará pedra sobre pedra, tudo será destruído” (Lc 21, 6). Esta palavra é digna de fé. A história da abadia é uma sucessão de mortes e ressurreições, de tempos de vitalidade alternando com tempos de decadência abismal. “Não há nada de novo debaixo do sol” (Ecl 1, 9). No entanto, a dedicação e o cuidado com que ali se cumpre a própria tarefa da humanidade tornam-se uma herança que, embora mortal, já tem um aroma de eternidade.

A tarefa de uma comunidade de monges que vive na abadia plurissecular de Novalesa é esta: “guardar um tesouro para transmitir o tesouro”. A Abadia de Novalesa é um tesouro que remete para a beleza e a transcendência e, por isso, é um dom a partilhar com todos os homens e mulheres do nosso tempo. A comunidade monástica cumpre esta “missão de humanidade” através do cuidado deste sinal de beleza que é o mosteiro de Novalesa, com toda a sua história e as suas histórias. Sem esquecer, porém, que o melhor e o mais belo não está no passado, mas está diante de nós e é maior do que nós; numa palavra: é divino. Passar, mesmo que apenas para uma visita a um lugar como Novalesa, é como ser introduzido na antecâmara da transcendência e da espiritualidade que se experimenta no íntimo do coração.

Preservar um tesouro como a abadia de Novalesa exige a paixão por transmitir o amor pelas coisas belas, que devem necessariamente ser também boas e verdadeiras: isto é, vivas e portadoras de vida. A longa tradição monástica caracteriza-se pela capacidade, após uma destruição ou um fracasso, de recomeçar sem amargura e com um entusiasmo renovado pelo sentido profundo que reside no seu fim último. Até a destruição passa a fazer parte integrante da construção que, bem pensada, é sempre uma reconstrução a partir do que a natureza permite e oferece. Assim, Novalesa entra no terceiro milênio não só como um monumento, mas como um “lab - oratório”. Há meio século que este “milagre” é possível graças à benevolência e à paixão da Cidade Metropolitana de Turim, proprietária da abadia, que dedicou energia e competência não só para conservar este local histórico, mas também para lhe dar vida. Ainda durante estes meses, uma grande obra procura dar um ar de frescura e vitalidade à fachada da abadia para celebrar os seus 1300 anos de história com uma juventude renovada.

O desejo é que o cuidado partilhado da abadia de Novalesa possa ser um laboratório de humanidade. É esta a essência da regra de São Bento: humanitas como fruto da humilitas! É este o tesouro que se pretende transmitir através da guarda e do cuidado de um tesouro como Novalesa. Tal tarefa não pode ser cumprida sem a mediação de uma “conspiração” entre entidades, instituições, associações e pessoas. Para ser autêntica e fecunda, esta «conspiração» deve realizar-se sem separações nem confusões: na ordem e na harmonia da beleza não só estética, mas sobretudo da ética das relações e do dinamismo da aliança. Não resta outra coisa a fazer senão cuidar deste lugar destinado a desaparecer, tal como as estrelas mais belas das galáxias mais distantes, cuja luz, no entanto, alegra o coração de quem é por ela iluminado a anos-luz de distância. Queremos esperar que o lema da abadia não seja desmentido: Nova Lux, fruto da Nova Lex do Evangelho de Cristo. As diversas e complementares atividades que se desenrolam em Novalesa podem ser, para muitos, um laboratório de humanidade para uma esperança partilhada e serenamente transmitida como dom e responsabilidade.

O Mosteiro de Morne Saint-Benoît, no Haiti

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Padre Jacques Montfort, OSB,

Priorado de Morne Saint-Benoît


O Mosteiro de Morne Saint-Benoît, no Haiti,

“de recomeço em recomeço…”


 

 

Conhecemos os belos começos de Gregório de Nissa: o Morne Saint-Benoît, minúsculo mosteiro beneditino do Haiti, segue também o seu caminho, mas de recomeço em recomeço.

Já a sua fundação, no final dos anos 70, foi um recomeço: pois os primeiros a chegar, olivetanos expulsos de Beirute pela guerra em 1975, tendo perdido tudo nas cinzas, escolheram o Haiti para recomeçar. Estabeleceram-se perto de Jérémie e, poucos anos depois – com os ciclones e o afastamento da capital –, mudaram-se e recomeçaram em Port-au-Prince. Depois, Landévennec, Congregação de Subiaco, assumiu o testemunho: os três novos fundadores, os irmãos Simon, Anselme e Patrick, recomeçaram de fato e instalaram-se perto de Carriès, onde ainda hoje estamos, um local bem escolhido, bonito, isolado e silencioso, bastante central, não muito longe da capital (65 km). A terra é pobre, um monte de pedras, mas uma boa nascente, captada mais acima nas colinas, torna a vida possível: e os irmãos reflorestam, mais um recomeço, já que a Pérola das Antilhas outrora estava coberta de árvores.

Primeiro edifício simples, um pouco rudimentar, e alguns anos mais tarde, recomeçamos mais acima no terreno, para doze monges, além de alojamento para hóspedes e oficinas. Nos anos 90, um novo abade em Landévennec, um novo prior em Le Morne, e este, profundamente influenciado por Charles de Foucauld, sonha com um recomeço nesse espírito. Os irmãos não aderem muito à ideia e, após dois anos, voltamos ao primeiro prior; continuaremos beneditinos de coração e de espírito.

Problemas do país: os ditadores sucedem-se, promessas seguidas de corrupção e violência. Recomeçamos com um antigo padre como presidente da República, mais tarde um antigo cantor, depois um antigo neurologista, mas é a miséria que, de cada vez, recomeça, e para o mosteiro, acompanhar da melhor forma, com o pouco que temos, aguentar firme. Mas muitos jovens irmãos haitianos tendo apenas passado por aqui, deixam-nos, levados mais ou menos por estas tempestades, após 1, 2, 10, 20 anos de vida em comum.


Os terremotos pouparam-nos, as gangues também, até agora. Bastaria um pormenor na natureza (trajetória de um ciclone, falha entre placas tectônicas), ou o capricho de um chefe local, para que tudo desmoronasse e fosse preciso recomeçar. Estamos pendurados num fio, mas esse fio está na mão firme e suave do Senhor.

Não sabemos o que contará mais para Ele, para o seu Reino: a humilde confissão do fracasso, que nos colocaria ao lado do Crucificado, ou a promessa do fermento na massa, da dracma perdida e reencontrada, imagens desse recomeço que vivemos agora com novos jovens irmãos haitianos. São três, o que, comigo, um prior francês já idoso, dá um total de quatro: um professo solene, um professo temporário e um noviço, os irmãos Johnès, Acnert e Emmanuel.

Para prover às necessidades da comunidade, foi criada uma tipografia, iniciativa do irmão Simon. Embora tenha sido posteriormente encerrada em uma visita canônica — por recomendação oral que, contudo, não ficou registada no relatório da visita —, a atividade foi retomada após o terremoto. Atualmente, a tipografia é uma obra próspera e de grande utilidade para as escolas da região.

E a liturgia? Em crioulo, e sempre cantada, mesmo quando somos apenas dois irmãos, solista contra solista, uníssono garantido.

“Recomeçar” não ressoa com a nota alegre de “começar”; nisso adivinhamos uma conotação de sofrimento e outra de esperança obstinada. Landévennec, a abadia-mãe, já passou por outras ao longo dos séculos! Mas aprendemos a paciência, a confiança e a não nos deixarmos levar pelo pânico perante as tempestades, nem mesmo perante os ciclones. De longe, da França, talvez de Roma, o fardo parece pesado; na verdade, é leve, e monges e cristãos sabem por que e por quem.

“Se corres com peões e eles te cansam, como poderás competir com cavalos? Se precisas de um país em paz para te sentires seguro, o que farás na selva do Jordão?” (Jr 12, 5)

As Filipinas em meio a tempestades tropicais

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As Filipinas em meio a tempestades tropicais


Após as devastadoras tempestades tropicais de julho de 2025, durante as quais as Irmãs Beneditinas de Tutzing distribuíram refeições quentes, roupas e kits de higiene à população mais carente e afetada por estas calamidades, a série de tufões dos meses seguintes, de novembro e dezembro, provocou novas inundações e a destruição de casas, deixando a população mais uma vez em situação de angústia.


A SSA-B presta ajuda às comunidades afetadas pelo tufão Tino[1] (por Mairi Mahilum, Marie Gen Malacad, Gabrielle Peñalosa e Chloe Gensolin)

Em 23 de novembro de 2025, a St. Scholastica’s Academy of Bacolod City Inc. (SSA-B), sob a direção da nossa diretora, a Ir. Maria Ezechiel Fernandez, da diretora da escola, a Sra. Claude Feliza Ganaban, e do presidente da Associação de Pais de Alunos, Rhett Poyogao, lançou um apelo por doações e uma operação de socorro para as comunidades da região da ilha de Negros que foram devastadas pelo tufão Tino.

O tufão Tino (conhecido localmente como Kalmaegi) atingiu as Filipinas em 2 de novembro de 2025, provocando chuvas torrenciais, ventos violentos e inundações catastróficas. A tempestade causou danos significativos em toda a região de Visayas, em particular nas cidades de Bago e La Carlota, bem como no município de La Castellana.

Lançamos um apelo à doação de bens de primeira necessidade e à contribuição financeira. Graças à gestão criteriosa da associação de pais e do pessoal da SSA-B, foi possível garantir que a ajuda fosse distribuída de forma eficaz, chegando àqueles que dela mais necessitavam.

Um morador do bairro de Barangay Robles, em La Castellana, contou que a subida repentina do nível do rio o obrigou a fugir com a filha, deixando todo o resto para trás. Esta experiência traumática é apenas um exemplo entre tantos outros, enquanto as famílias continuam a enfrentar a perda, a incerteza e o longo caminho para a reconstrução.


Muitos dos habitantes afetados continuam sem poder regressar a casa devido ao colapso total das estruturas e à ameaça persistente de novas chuvas e inundações. Sem o tempo nem os recursos necessários para iniciar a reconstrução, a deslocação tornou-se parte integrante da vida quotidiana. As perturbações estendem-se às escolas, que permanecem instáveis, atrasando o reinício das aulas regulares e privando os alunos do seu direito à educação. Esta experiência humilhante lembrou-nos dos nossos próprios privilégios, da segurança dos nossos lares, da estabilidade do nosso campus e da continuidade das nossas rotinas.

Testemunhar em primeira mão as consequências da catástrofe foi ao mesmo tempo desanimador e revelador. Isso lembrou-nos do poder imprevisível da natureza e da necessidade urgente de uma liderança competente e transparente na gestão de catástrofes. No entanto, fomos recebidos com esperança em cada comunidade que visitamos. Cada beneficiário de uma doação expressou a sua sincera gratidão e ofereceu-nos um sorriso caloroso, testemunhando a resiliência inabalável do espírito filipino. Em resposta, permanecemos fiéis aos valores beneditinos de gestão responsável, hospitalidade, comunidade e humildade, enquanto o nosso país continua a sofrer múltiplas calamidades.


Comunidade de Tabunok: Irmãs levam esperança aos sobreviventes do tufão Tino em Mananga, Cebu (por Irmã Constance Tecson, OSB)

Como peregrinas da esperança, as irmãs beneditinas e os seus parceiros leigos estenderam a mão às famílias gravemente afetadas pelo tufão Tino no Campo 4, em Mananga, Cebu, em dezembro de 2025.

A comunidade está situada ao longo do rio Mananga, outrora fonte de vida, hoje fonte de perigo durante as chuvas fortes. Para chegar à zona, é necessário descer 12 a 15 metros a partir da estrada principal, um caminho precário e muito exposto a deslizamentos de terra e cheias repentinas. Apesar dos riscos, a equipe perseverou, guiada pela compaixão e pela solidariedade. Quando lhe perguntaram por que razão as famílias permaneciam num local tão perigoso, uma mãe expressou a sua dolorosa realidade: «O local de realojamento fornecido pelo governo era um aterro sanitário, muito distante dos nossos meios de subsistência e sobrevivência».

Comovidas por estas histórias, as irmãs beneditinas missionárias reagiram rapidamente. Graças ao generoso apoio da AIM-USA, foi prestada ajuda de emergência imediata às famílias afetadas. Este apoio transformou-se rapidamente numa fase de reabilitação centrada no restabelecimento da estabilidade e da dignidade. Graças a este esforço colaborativo, as casas de cerca de 35 famílias da região de Mananga, incluindo as situadas perto da comunidade de Tabunok e das cidades vizinhas, foram reconstruídas ou reparadas. Foram fornecidos materiais de construção e ajuda financeira, permitindo às famílias começar a reconstruir as suas vidas com dignidade e esperança renovadas.


[1] Trechos do boletim informativo das irmãs beneditinas de Tutzing nas Filipinas, outubro-dezembro de 2025, p. 11-14.

A situação em Kiribati

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Irmã Megan Kahler, osb,

Congregação das Irmãs do Bom Samaritano (Sisters of Good Samaritan)

Presidente da BEAO


A situação em Kiribati


 

A República de Kiribati é composta por 33 ilhas distribuídas ao longo do equador. Estas ilhas são, na sua maioria, atóis de coral que se têm deslocado ao longo de muitos anos. Acredita-se que as ilhas tenham sido povoadas pela primeira vez há mais de 600 anos e os seus habitantes reivindicam a sua herança asiática e melanésia. No século XVII, as ilhas foram visitadas pelos europeus e Kiribati acabou por se tornar um protetorado do Império Britânico sob o nome de Ilhas Gilbert. A República de Kiribati acabou por conquistar a sua independência em 1979.

É uma pequena nação composta por numerosas ilhas, com apenas 800 quilômetros quadrados de terra distribuídos por cerca de 3,5 milhões de quilômetros quadrados de água e uma população de apenas 120 mil habitantes.

Kiribati enfrenta enormes desafios. Dispõe de poucos recursos para lidar com as alterações climáticas e as inundações. O seu abastecimento de água doce corre um risco significativo, uma vez que a água salgada se infiltra no lençol freático pouco profundo. O ponto mais alto de Kiribati situa-se a dois metros acima do nível do mar, razão qual o aumento do nível do oceano ameaça o país diariamente. Outro desafio é representado pelo vasto oceano que envolve o país: as comunicações, os transportes e as infraestruturas exigem frequentemente muita paciência e criatividade. É um dos países menos desenvolvidos do mundo e a sua economia depende fortemente da ajuda internacional. A população de Kiribati sofre de taxas elevadas de diabetes, tabagismo e mortalidade infantil e a sua esperança de vida é uma das mais baixas do Pacífico. Muitos projetos de ajuda têm-se concentrado na melhoria da habitação e da educação, no acesso à água potável, na melhoria do saneamento e, mais recentemente, na criação de instalações de dessalinização da água.


As Irmãs do Bom Samaritano têm duas comunidades em ilhas diferentes, depois de terem sido convidadas pelo bispo de Tarawa e Nauru para ajudar na educação em 1988. Oito irmãs trabalham na educação, na formação pastoral, na capelania prisional e no apoio a pessoas com deficiência.


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