Capítulos Gerais cistercienses
(OCSO e OCist, Set. e Out. 2022)
Boletim da AIM • 2023 - No 124
Índice
Editorial
Dom Jean-Pierre Longeat, OSB, Presidente da AIM
Lectio Divina
Lc 17,15-16
Dom Mauro-Giuseppe Lepori, Abade Geral OCist
Perspectivas
• Conferência de Abertura do Capítulo Geral dos Trapistas Dom Bernardus Peeters, Abade Geral
• Discurso aos participantes no Capítulo geral da OCSO
Papa Francisco
• O que tem mais vida na Ordem hoje
Irmã Ainzane Juanicotena, OCSO
• Discurso de abertura do Capítulo Geral da Ordem cisterciense
Dom M-G Lepori, Abade Geral
Meditação
O carácter exemplar da vida monástica na história
Papa Bento XVI
Questões actuais
Prevenir os abusos nas comunidades de mulheres
Isabelle Jonveaux, Socióloga
Testemunho
A graça de uma fundação e a experiência do retorno
Dom Robert Igo, OSB
Grandes figuras da vida monástica
• Irmã Josephine Mary Miller
Irmã Marie-Paule, OCBE
• O Bem-aventurado Dom Columba Marmion
Pe. Réginald-Ferdinand Poswick, OSB
História e patrimônio
O Mosteiro de Tautra
Irmã Hanne-Marie Berentzen, OCSO
Meditação
Homilia pela Memória de Santo Elredo
Dom Henry Wansbrough, OSB
Notícias
• Relatório sobre a sessão Ananie 2022 a partir das crônicas de Ananie
• O DIMMID
Pe. William Skudlarek, OSB
• A associação AMTM
Secretaria da AIM
• Alguns projetos apoiados pela AIM
Secretaria da AIM
Editorial
A Família Beneditina tem a riqueza de ter 3 entidades com múltiplas facetas: a Confederação beneditina com suas 80 congregações, masculinas e femininas, a Ordem Cisterciense (O Cist) que tem várias Congregações, e a Ordem Trapista (OCSO). Como acontece em todas as famílias religiosas, estas três entidades têm suas reuniões gerais: Congresso dos Abades e Simpósio da CIB (para a primeira), Capítulos Gerais para as duas outras. São momentos importantes em que todos os Superiores e Superioras, e eventualmente delegados (as) das regiões e comunidades se encontram para tempos intensos de partilha.
Depois de terem sido adiados por causa do confinamento do Covid, os Capítulos Gerais das duas Ordens Cistercienses aconteceram no Outono do ano passado. Este número do Boletim é o eco de suas reflexões, projetos e perspetivas.
Quisemos também dar a palavra a uma socióloga sobre o fenómeno tão grave dos abusos sofridos na vida religiosa feminina. Estes casos, denunciados há tanto tempo, não foram suficientemente levados em conta. Talvez esta palavra suscite comentários, ou permita que as pessoas possam se exprimir mais livremente. A AIM quer estar atenta a isto, e acompanhar, tanto quanto possível, tudo o que está sendo posto em ação para enfrentar tais comportamentos.
O Padre Robert Igo, por sua vez, partilha sua experiência do que é, depois de muitos anos no Zimbabwe, ter se tornado abade de Ampleforth, a casa fundadora, num contexto bem diferente do da África. O Abade Robert tira desta reconversão muitos ensinamentos úteis para cada um de nós.
A rubrica “Grandes testemunhas da vida monástica” poe em relevo a grande figura do bem-aventurado Columba Marmion, que desde a sua beatificação é de novo admirado na Igreja e no monaquismo. Também a Madre Josephine Mary Miller, antiga prioresa geral das Bernardinas de Esquermes, e que durante tantos anos participou do Conselho e do Comité executivo da AIM, pode ser reconhecida como uma grande figura, que deu toda a sua vida a serviço da causa evangélica e monástica.
Também queremos fazer descobrir a bela história e a notável arquitetura do mosteiro de Tautra, na Noruega. Finalmente da mos notícias do DIM, da sessão de formação Ananias e de alguns projetos ajudados pela AIM.
Que todas estas propostas nos ajudem a caminhar para a frente.
Dom Jean-Pierre Longeat, OSB
Presidente da AIM
Artigos
O Cenobitismo, equilíbrios comunitários
1
Dom Jean-Pierre Longeat, OSB Presidente da AIM
O Cenobitismo
Equilíbrios comunitários
Uma das principais características da nossa vida é o ser cenobítica. Vivemos em comunidade e damos testemunho, juntos, da realidade do Corpo de Cristo. Há, aqui, algo de profundamente misterioso, pois mesmo que o homem seja um animal social, temos que reconhecer que a vida comum não é fácil. São Bento fala disto a que dá muita importância.
“Os cenobitas são os que vivem em comum, num mosteiro, e combatem sob uma Regra e um abade; através de provação diuturna no mosteiro, instruídos na companhia de muitos, aprendem a lutar contra o demónio. São bem adestrados nas fileiras fraternas. São livres diante dos costumes do mundo e de sua conduta. Não estão encerrados nos seus próprios apriscos, mas nos do Senhor. A satisfação dos desejos não é para eles lei” (RB 1).
Passam a vida num lugar estável, com sua comunidade e, salvo por razão especial, no próprio mosteiro. É assim que se pode fazer um primeiro retrato do projeto cenobítico, segundo São Bento, e segundo o cap. 1 da Regra.
No começo da Regra, a preocupação de São Bento é a da conversão pessoal. A comunidade seria como um meio para esta conversão, para fazer a experiência do caminho da caridade. Mas ao longo da Regra, e sobretudo no fim, percebe-se uma abertura para a dimensão propriamente comunitária, como um bem em si. Se este projeto comunitário é tão importante, precisamos de alguns meios para caminhar e sobretudo para conseguir viver os equilíbrios difíceis, que fazem que cada um possa se sentir no seu lugar nesta comunidade, segundo sua personalidade.
As funções e as pessoas
Numa comunidade o abade tem uma função quase impossível. É como o vigário de Cristo. Isto quer dizer que ele deve apontar aquele que é o abade verdadeiro, o Cristo, que se dá como Palavra de Deus, por meio do seu ensinamento e por seu exemplo. É a mesma coisa para outros que exercem responsabilidades na comunidade. Uma das dificuldades da nossa vida comunitária, está em confundir a função com a pessoa. E isto a tal ponto que os que não têm um cargo grande sentem-se complexados e vivem, conscientemente ou inconscientemente, uma verdadeira inveja; como se não existissem aos olhos dos outros, pois a tentação de acreditar que só têm valor pelo que fazem, é muito grande. Mas pode haver a tentação oposta: querer existir pelo que se é, sem coincidir com a função que se deve exercer. Quer dizer, querer sentir-se realizado primeiro, e depois exercer uma responsabilidade. Este é o melhor modo de atribuir a si mesmo um poder subjetivo, chegando à sedução. É uma grande ilusão situar-se diante do abade e da comunidade neste registro. Parece-me que uma das qualidades mais importantes dos responsáveis seja a honestidade em assumir sua responsabilidade, sem negar o que se é, mas pondo-o a serviço do que se deve realizar. A atitude do abade deve continuamente apontar ao Cristo. Por causa desta honestidade o abade pode agir segundo a natureza que o Senhor lhe deu, sem se preocupar demais com os comentários de todo o tipo, que inevitavelmente são feitos à sua atuação ou comportamento. Assim pode não haver desequilíbrio entre as aspirações pessoais de quem assume o cargo, e as aspirações legítimas dos outros membros da comunidade, porque todos são chamados a se pôr a serviço uns dos outros, sem se esconderem atrás da função, ou sem impor o peso de sua subjetividade.
Precisa definir em que consiste a honestidade; São Bento aponta alguns aspetos: alimentar um duplo ensinamento mais por atos do que por palavras. Aliás São Bento diz que o abade deve ser o primeiro a aplicar a Regra na sua totalidade. Que seja casto, sóbrio, misericordioso: terá sempre diante dos olhos sua própria fraqueza, e se lembrará de não quebrar a cana já rachada. Não seja turbulento, nem inquieto; não seja excessivo nem obstinado; não seja ciumento, nem muito desconfiado. Assim, poderá talvez não fazer aceção de pessoas, nem amar mais o nascido livre, do que o originário de condição servil, ou de outras categorias sociais ou culturais: porque servos ou livres somos todos um em Cristo e sob um só Senhor caminhamos submissos na mesma milícia de servidão… Mostrará a todos a mesma caridade. E saiba que coisa difícil e árdua recebeu: reger almas e servir aos temperamentos de muitos. Na distribuição dos cargos se conduzirá com discernimento e moderação, lembrando-se da discrição do Santo Jacó, que dizia: se fizer meus rebanhos trabalhar andando demais, morrerão todos num só dia. (cf RB 64 e 2)
Esta vida honesta é um projeto difícil, mas é também a chave de uma vida livre segundo a vontade de Deus. Se, como abade, me acontecer sentir algumas dificuldades nesta liberdade, é porque o enraizamento não é bastante “honesto”. Esta palavra honestidade pode parecer insuficiente, mas vem de São Bento, no cap. 73.
“Escrevemos esta Regra para demonstrar que os que a observamos nos mosteiros, temos alguma honestidade de costumes ou de início de vida monástica… Tu, porém, quem quer que sejas, que te apressas para a Pátria celeste, realiza com a auxílio de Cristo esta mínima regra de iniciação, e, então, chegarás, com a proteção de Deus aos maiores cumes de doutrina e das virtudes de que falamos acima. Amém.”
O Diálogo
São Bento quer que cada um encontre seu lugar na comunidade, podendo falar. É este o sentido do cap. 3 “Da Convocação dos irmãos a Conselho”. Dissemos que todos fossem chamados a conselho, porque muitas vezes o Senhor revela ao mais moço o que é melhor. Mas esta fala deve ser feita com muita sabedoria: “Deem pois os irmãos o seu conselho com toda a submissão da humildade”. De fato, isto nem sempre é fácil. Por um lado as questões que dizem respeito à vida do mosteiro são numerosas, e nem todas podem ser objeto de debate; aliás é por isso que existe um conselho. Por outro lado, infelizmente, é raro encontrar uma comunidade em que todos saibam escutar-se mutuamente. Já se sabe de antemão o que pensar das palavras de tal ou tal. A tal ponto que certas palavras não são levadas suficientemente em conta.
E no entanto, no mosteiro, cada um tem um lugar único. Cada um tem uma inteligência única alimentada por sua experiência particular. Um é perfeitamente natural e sem complexos, e fala como lhe vem à ideia, sem se interrogar muito. Um outro é capaz de trazer uma reflexão sobre os princípios abstratos de uma ação; outro, ao contrário, falará sobre o modo prático de pôr a coisa em ação. Esta escuta mútua é capital para se viver em comunidade, e não acontece só em reuniões do capítulo, deve estar presente em todos os momentos da nossa vida. Percebe-se muitas vezes que alguns se afastam da vida comunitária porque não se leva em conta o que dizem. Cada um quer expressar alguma coisa, isso está mesmo na originalidade da natureza humana; se não pode fazê-lo no grupo em que vive, definha, e às vezes procura noutro lugar um espaço mais propício. Aqueles que pensam ter algo mais interessante a dizer que os outros, façam um esforço de paciência para escutar. Pode parecer menos apropriado, e no entanto é útil. Assim cada um poderá existir neste diálogo, que é uma componente essencial do amor. Tudo se faça, porém, com discrição, discernimento. Não se trata de dizer qualquer coisa, seja de que modo for, ou seja a quem for, sob o pretexto que se precisa falar.
Obediência
Como consequência da escuta mútua, vem a obediência, essa qualidade de atenção uns aos outros.
“Não só ao abade deve ser tributado por todos o bem da obediência, mas da mesma forma, obedeçam também os irmãos uns aos outros, sabendo que por este caminho da obediência irão a Deus” (RB 71).
Que há de mais belo do que uma comunidade em que os irmãos, as irmãs, independentemente de sua idade, de sua função, de sua origem e de sua formação, se obedecem uns aos outros! Em vez de se picarem uns aos outros, exercendo essa tentação de poder que só leva a incompreensões, conflitos, injustiças profundas! Como é maravilhoso fazer tudo para se compreenderem, em todo o sentido do termo, de se servirem, de se encontrarem num verdadeiro serviço mútuo!
É triste que muitas vezes nossa maneira de olhar o outro leve marcas de inveja. Todos temos dons diferentes, por que querer ter os dons dos outros em vez de fazer frutificar os nossos, que são sempre infinitamente preciosos para todos? Um sabe acolher magnificamente. Outro sabe contar ou organizar. Outro sabe cantar, ou ensinar. Outro sabe acompanhar os outros em caminhos difíceis. Outro sabe viver um silêncio frutuoso, ou ainda suportar santamente a doença, ou dizer uma boa palavra, guiar um trator, consertar um carro, ou dirigir na perfeição. Alguns sabem escrever livros, outros cozinhar admiravelmente, ou manter um lugar numa ordem perfeita, ou perfeitamente limpa! Que mais? Não há ninguém sem dons ou qualidades, mas só estão verdadeiramente a serviço da comunidade, se a pessoa aceitar pô-los a serviço e desenvolvê-los, e a comunidade os acolhe e obedece a eles.
Isto significa que não pode haver ideias feitas sobre os outros na vida comum. Escutam-se muitas vezes julgamentos sobre os outros, até mesmo rejeições; quanto mais se rejeita, mais o outro se sente incapaz. O amor é a esperança imensa da confiança, apesar de todas as tentações de rejeição que se pode sentir dentro de si mesmo.
Assim pode-se obedecer positivamente, acolher-se mutuamente, amar-se, reconhecer-se, perdoar-se, construir-se, edificar-se mutuamente, e encontrar aquele equilíbrio bom numa comunidade aberta, onde o impossível pode tornar-se testemunho para uma difusão da Boa Nova: Cristo quebrou o muro do ódio.
Eis a verdadeira alegria na conversão do coração.
“Quando um deles viu que tinha sido curado,…” (Lc 17,15-16)
2
Lectio divina
Dom Mauro-Giuseppe Lepori
Abade Geral OCist
“Quando um deles viu que tinha sido curado, voltou, louvando a Deus em voz alta, e prostrou-se diante de Jesus, aos seus pés, para lhe agradecer”
(Lc 17,15-16)[1]
Talvez seja esta frase que possa sugerir com qual espírito somos chamados a iniciar o nosso Capítulo Geral, sete anos após o último, enquanto o mundo sofreu e sofre uma grave pandemia, uma guerra fratricida que põe em perigo o mundo inteiro, e uma grande instabilidade política e econômica. Todos terão razões diferentes, todos terão a sua “doença incurável”, a sua “lepra”, o seu “espinho na carne”, não importa o quê. O que nos deve unir é que cada um de nós tem razões para voltar para Jesus, para o adorar e agradecer. E é isto que nos une.
Voltar, adorar, agradecer. Aprendemos com o leproso curado estas três grandes dimensões da vida e da fé na Salvação. Jesus, no fim, lhe diz: “Levanta-te e vai; a tua fé te salvou!” (Lc 17,19). É como se dissesse que o retorno a Ele, a adoração e a gratidão são as dimensões de uma fé que nos salva, que recebe de Cristo não só a saúde, a que antes ou depois, se perde de novo, não só a solução dos nossos problemas imediatos, mas a salvação da vida, a salvação para sempre.
Ao leproso curado, não basta a saúde: compreendeu que o milagre era um sinal de algo muito maior e mais precioso: era sinal de Cristo Salvador, era sinal de que o Salvador estava presente e o amava. Por isso que voltou a Ele. A saúde não era suficiente: desejava Cristo, desejava encontrar de novo e cada vez mais o Senhor e Salvador da vida.
Os outros nove leprosos curados regressaram às suas vidas normais, certamente com alegria. Mas será este o único sentido da vida? Vale a pena ser saudável só para sobreviver à doença e à morte por algum tempo? Cristo nos oferece muito mais. Cristo nos oferece não só a saúde, só a solução para os nossos problemas, as nossas dificuldades e sofrimentos. Cristo se oferece!
Por isso a fé nos salva, porque a fé nos leva a aderir a Cristo, a regressar sempre a Ele, à sua presença, ao seu amor; a reconhecê-lo nosso Deus na adoração; a reconhecê-lo como fonte inesgotável da nossa alegria, aquilo que nos faz louvar e agradecer a Deus sempre e por tudo.
Voltar a Cristo, recomeçar de Cristo, significa também reconhecer que a sua presença que nos cura e salva, está associada a um lugar, e que se queremos realmente encontrá-lo, temos que ir onde Ele está. Até Naamã, o comandante pagão que Deus curou da lepra através da intervenção do profeta Eliseu, compreende que deve levar consigo a terra de Israel, sobre a qual deve rezar ao verdadeiro Deus.
Esta terra é para nós símbolo da Igreja, da comunidade de pessoas e comunidades nas quais regressar para nos encontrarmos, adorarmos e louvarmos o Senhor. Esta terra santa é o lugar da nossa vocação, é a nossa comunidade, é a Ordem. Os nossos pais cistercienses compreenderam desde o início que o carisma cisterciense, alimentado pelo carisma de São Bento, estaria sempre associado à terra santa da comunhão entre os mosteiros que nasceram do novo mosteiro de Cîteaux. E que a principal forma de regressar a Cristo nesta terra, era a reunião do Capítulo Geral.
Por isso que não devemos voltar a reunir o Capítulo Geral como se estivéssemos reunindo um parlamento ou organizando um congresso, mas com a consciência de estarmos juntos na terra sagrada do encontro com o Senhor Jesus que nos salva, que nos dá o seu Espírito Santo e nos renova na fraternidade universal dos filhos de Deus Pai.
[1] Missa votiva do Espírito Santo na abertura do Capítulo Geral da Ordem Cisterciense (9 de octubre 2022).
Conferência de Abertura do Capítulo Geral dos Trapistas
3
Perspectivas
Dom Bernardus Peeters, OCSO
Abade Geral
Conferência de Abertura do Capítulo Geral dos Trapistas
(Assis, 2 de fevereiro de 2022)
Após a primeira parte do Capítulo Geral da OCSO, o novo Abade Geral pediu aos abades e abadessas da Ordem que expressassem seus sonhos de uma vida monástica como a que o Papa pede. Em resposta, 138 sonhos de superiores e comunidades chegaram à Casa Geral, provenientes de 157 mosteiros da Ordem. Isto representa uma taxa de participação de 87%, o que é muito notável. Dom Bernardus abriu a segunda parte do Capítulo Geral com uma apresentação dessas respostas. Eis um grande extrato. Trata-se, em primeiro lugar, da Ordem Trapista, mas, mais amplamente, pode ser aplicada à família beneditina em geral.
[…]
Depois de ter lido todos os sonhos de vocês, senti-me como São Bento na torre de Monte Cassino, procurando e à espera do que a voz de Deus, na sua bondade, quer nos dizer: o caminho da vida! (RB Prol. 19-20) Ao olhar todos os lugares do mundo, penso: o Senhor abriu quatro janelas para nós. Estas 4 janelas nos ajudarão a realizar os nossos sonhos.
Tentei reler os sonhos de vocês a partir das três palavras do Sínodo dos Bispos: comunhão, participação e missão. Acrescentei uma quarta: formação. Esta última vou explicá-la mais tarde, por agora mostra simplesmente que a sinodalidade pertence à essência da vida religiosa e que esta obediência à palavra de Deus, e uns aos outros, não somente funda a comunh ão, convida à participação e leva à missão, e pede também uma conversão contínua, mas exige uma formação sólida permanente. Estes sonhos foram um pequeno começo do processo sinodal na nossa Ordem. Contudo a sinodalidade não é um acontecimento pontual, mas um estilo de vida.
Um de vocês desejou “sem demasiadas ilusões” que na próxima parte do Capítulo Geral a palavra “sinodalidade” não apareça a cada frase nos relatórios e nas intervenções. Uma coisa me parece importante: na vida concreta das nossas comunidades a tal sinodalidade não vai abafar o que ainda resta da obediência beneditina nas nossas comunidades?” De fato, cuidemos para que a sinodalidade não se torne uma palavra na moda, sem nenhuma substância. Diz o cardeal Grech:
“Falar de estilo sinodal é tomar consciência que a renovação eclesial de que se fala tanto…toca as profundezas da experiência da Igreja e não se limita a intervenções que parecem uma maquilhagem eclesiástica…Trata-se da expressão da necessidade de uma reforma profunda na Igreja, da nossa maneira de ser e de viver, como Igreja, face a uma verdadeira mudança de época para o cristianismo e para o mundo inteiro”[1].
Esta reforma profunda não pode fazer-se sem uma conversão permanente fundamentada na nossa obediência a Deus e aos outros.
Antes de olhar as janelas destes quatro sonhos, quero sublinhar que nenhuma torre pode ser construída sem um bom alicerce. Sobre este alicerce estamos todos de acordo. Ninguém deseja um outro fundamento. Graças a Deus! Um superior expressa muito justamente que alicerce é este:
“Sonho com uma Ordem Cristocêntrica, apaixonada pelo absoluto de Cristo. Uma Ordem que se mexa e desinstale seguindo o Cristo” (América Latina).
A torre da nossa Ordem está construída sobre este alicerce, e as quatro janelas abrem-se e por elas entra a luz na qual podemos ver irradiar a luz de Deus. Sobre este fundamento repousam 4 sonhos, que resumo aqui e que desenvolverei depois:
1. Sonhamos com uma Ordem em que os monges e as monjas, de diversas culturas, partilhem uma visão comum da identidade contemplativa, “cooperem entre si e ajudem-se mutuamente, de diversos modos, respeitando as diferenças sadias e a complementaridade dos dons. Amamos a unidade na diversidade.
2. Sonhamos com uma Ordem na qual todos sejam capazes e desejosos de participar, que seja flexível na sua estrutura, com uma comunicação aberta e transparente a todos os níveis, e com um grande respeito pela vocação batismal dos irmãos e das irmãs, das comunidades locais, e das Regiões, sem perder de vista o conjunto.
3. Sonhamos com uma Ordem na qual todos os seus membros, e todas as suas comunidades, sejam pessoas e lugares onde há um compromisso generoso para com Deus, a Igreja e o Mundo, e que torne verdadeira “essa fecundidade apostólica secreta”. E que se expresse num humilde respeito pelos dons da criação de Deus. Assim, em tudo Deus será glorificado (1Pe 4,11).
4. Sonhamos com uma Ordem que seja capaz de formar seus membros com entusiasmo para a filosofia de Cristo (Ratio Institutionis) e para a linguagem de Cristo, e lhes dê meios adequados para realizarem plenamente sua vocação.
Sonho de Comunhão
“A forma de vida cisterciense é cenobítica” (Cst 3, 1). Chamados juntos pela voz de Deus, vivemos esta comunhão na forma concreta da vida comum, na qual a procura da união com Deus e com tudo o que vive e respira é central. Cada membro da Ordem é importante! Cada irmão e irmã é portador do mesmo selo batismal recebido e confirmado na profissão monástica. Em virtude deste dom, somos todos, sem exceção coresponsáveis pela comunhão com Deus e entre nós. Olhando por esta janela, escutamos os sonhos sobre relações mútuas nas comunidades, nas Regiões, entre os homens e as mulheres da nossa Ordem, e também sobre relações entre anciãos e jovens, entre o Norte e o Sul, o Este e o Oeste.
* “Sonho com uma comunidade em que ninguém condene o outro, mas todos sejam escutados. Sonho com uma comunidade em que todos nos estimemos uns aos outros pelo que somos – filhos de Deus – mais do que usarmo-nos uns aos outros para nós mesmos ou para a sobrevivência das estruturas.” (Europa)
* “Sonhamos que haja mais relações entre os mosteiros para que a Ordem se pareça com uma grande família. Desde há alguns anos fazemos a experiência de enviar um, ou outro de nós para o Mosteiro fundador, e gostaríamos de continuar esta experiência, talvez com outras comunidades? E em forma de trocas: um de nós vai viver um ano, e um ancião vem viver conosco alguns meses para ajudar na formação.” (Africa)
* “A questão é saber como transmitir este desejo pessoal à comunidade, à Ordem. Reconheço que é um desafio, pois somos pessoas de culturas diferentes e de formação diferente. Mas temos uma força comum, nossa identidade cisterciense, ou carisma, que não é uma peça de museu, mas uma realidade viva. Uma realidade que nos interpela de vários lados, e para citar só alguns: envelhecimento, diminuição de vocações, fechamento de casas. O sonho nos ultrapassa, nos surpreende, e sem cair em falsas ilusões, somos chamados a criar comunidades em que a simplicidade, a fraternidade alegre, a alegria da oração viva, o encontro com o Senhor na sua Palavra e nos sacramentos, nos fazem sentir e viver em plenitude a misericórdia de Deus, à maneira de Maria, rainha e mãe de misericórdia.” (América Latina)
* “Uma Ordem: Fiquei impressionado, desde o começo, como os monges e as monjas colaboravam, agora, com um só Capítulo Geral, o modo único como a nossa Ordem funciona.. É algo que devemos agradecer, que é preciso manter e desenvolver, tanto para nós, como talvez para a Igreja.” (América do Norte)
* “Meu sonho: relações evangélicas. A nível do ministério da AG para a Ordem haveria uma comissão de anciãos (sempectae RB 27) que seria nomeada pela AG para o aconselhar sobre questões pastorais mais complicadas, que chegam à nossa mesa. Esta comissão não residiria em Roma, mas se reuniria regularmente on line. Seriam escolhidos para este serviço e sua resposta criativa sobre numerosas questões pastorais e poderia ser composta por superiores em atividade, ou aposentados. O fim principal da Casa Generalícia seria facilitar e oferecer recursos às comissões pastorais das Regiões. Nos casos mais difíceis, essas comissões poderiam fazer apelo à comissão dos anciãos. O movimento de consulta, de autoridade e de responsabilidade se tornaria menos linear e mais circular (Obediência mútua RB 71) fazendo apelo aos membros da Ordem para a pastoral das comunidades que têm necessidades particulares.” (América do Norte)
* “Sonho com uma grande atenção pastoral mútua. Reagimos como casas autónomas. Não podemos nos ajudar, ou não estamos dispostos a nos ajudar mutuamente. Não pedimos ajuda. Quando há um verdadeiro problema, é-nos difícil ajudar.” (Ásia)
Sonho de participação
Todos temos o direito de participar na vida das comunidades, das Regiões e na vida da Ordem com suas diversas estruturas (cf. Cst 16, 1). Uma participação enraizada na tradição beneditina do voto de obediência. As estruturas foram-nos dadas ao longo da tradição, não como peças de museu, mas para permitirem estar a serviço da vida do povo de Deus (cf. Evangelii gaudium 95). Temos de ter a coragem de nos escutarmos realmente uns aos outros para discernir o que o Espírito nos diz. É só desta maneira que pode nascer a coragem de agir segundo o Espírito.
Olhando por esta janela, escutamos os sonhos sobre o funcionamento das comunidades, das Regiões e do Capítulo Geral. Às vezes são sonhos criativos sobre novas formas de fazer, que querem ficar fiéis ao antigo e ao mesmo tempo ser inteiramente novas.
* “Penso que a nível do Capítulo, se seguiria um dialogo mais pensado sobre os assuntos, cada um tendo escutado as opiniões de muitos outros, e assim poderíamos escutar melhor o que o Espírito diz ás Igrejas.” (Ásia)
* “Sonho que o Capítulo Geral se torne um fórum com clima pastoral e teológico.” (Europa)
* “Poderíamos confiar a aprovação das leis às Regiões mais do que passar tempo a fazer isso no Capítulo Geral? Será que um sínodo de representantes das regiões poderia aprovar coisas que as regiões trataram? As decisões importantes que dizem respeito às casas da Região não poderiam ser tratadas em nível local?” (África)
* “Gostaria que nossas reuniões regionais e nossos Capítulos Gerais se centrassem menos em questões legislativas e práticas, e mais sobre a partilha das nossas experiências, das nossas lutas, das nossas esperanças, da nossa visão e dos nossos desejos – tentando em tudo isso ver os sinais dos tempos.” (América Latina)
* “Sonho que seja possível rever o funcionamento do Capítulo Geral, para que se torne verdadeiramente um aqueduto para o Espírito Santo e um veículo vivificante para revitalizar a nossa Ordem Cisterciense e permitir-lhe viver sua vocação e sua função dadas por Deus, no seio da Igreja e, ao mesmo tempo, dar esperança ao nosso mundo que luta e sofre.” (América Latina)
* “Sonho com uma Ordem que se inscreva numa tal imagem da Igreja e que opte radicalmente pela igualdade entre monges e monjas, e que de forma coerente, vá neste sentido e procure novas formas (Matres immediatae), denuncie a desigualdade (conseguirá chegar à legislação dos monges, sem nenhuma isenção de Cor Orans, serão eles solidários?) e que isso seja um ponto de atenção permanente no Capítulo Geral… Sonho com encontros regionais como santuários para partilhar juntos, para pensar, para sonhar com a vida monástica, com honestidade e vulnerabilidade… com atenção e tempo para este processo…” (Europa).
Sonho da Missão
A missão da nossa vida cisterciense está descrita nas Constituições como “fecundidade apostólica escondida”. “O seu modo de participar na missão de Cristo e da sua Igreja, assim como da inserção numa Igreja local, é a própria vida contemplativa” (Cst 31).
Olhando por esta janela, escutamos os desejos de um sentido renovado da nossa vida para a Igreja e para o mundo. Sonho que está centrado na preocupação pela casa comum (Laudato Si’) e por todos os irmãos e irmãs, “peregrinos que partilham a mesma carne” (Fratelli tutti, 8).
* “Sonhos que as abadias se tornem pioneiras no campo da durabilidade e da vida ecológica e que escolhas audaciosas sejam feitas neste domínio.” (Europa)
* “A nível ecológico, o meio rural em que vivemos, oferece um quadro propício para este processo de conversão ecológica, que é urgente, e para o qual devemos encontrar meios concretos para o realizar nos nossos comportamentos. Encorajamentos e sugestões práticas são bem-vindos, agora que a pandemia parece (?) ter passado, o que nos permitirá rever detalhes nas práticas comunitárias e nas hospedarias, onde os nossos hóspedes sejam também motivados para este campo. É preciso implicar-se pessoalmente e sem dúvida junto com o serviço diocesano de ecologia integral nesta abertura, correndo o risco de mudanças, de ser desalojado, de aceitar novidades, quer dizer de fazer confiança à obra do Espírito Santo no ‘Sim’ de cada dia.” (Europa)
* “Uma Igreja em saída, de que nos fala o Papa Francisco, evitando ser auto referência. Penso que nós, cistercienses, podemos traduzir isto assim: que antes de mais o nosso olhar, a nossa atenção, o nosso pensamento estejam voltados para Deus, para o mistério pascal de Cristo e tudo o que isso implica (lectio, oração, contemplação) e depois para as pessoas, para a humanidade (desejo intercessão). Também não ser autoreferenciais como comunidade. Temos tendência de nos concentrarmos na nossa comunidade, e de consagrar mais tempo e energia para nos vermos ao espelho, e isso, às vezes, é encorajado por certas estruturas, por exemplo pelas visitas regulares a cada dois anos.” (América Latina)
A ecologia, no entanto, é mais do que o cuidado pela criação. É também o cuidado pelo ecossistema, totalmente diferente, que é a nossa vida cisterciense. O silêncio e a solidão da nossa vida cisterciense são uma característica totalmente diferente, e muitos sentem a pressão que os meios de comunicação modernos exercem sobre este ecossistema. Sonham tornar-se mais conscientes e melhor usar desses meios, para proteger e preservar o ecosistema da casa comum, que é a nossa vida cisterciense.
* “Sonho com um mosteiro eco digital; um mosteiro em que haja um equilíbrio entre abertura e a solidão; um eco sistema de silêncio, de imagens e de palavras; um mosteiro com um ambiente monástico sem más influências do excesso de sons, de palavras e de imagens. Sonho com uma reflexão sincera, na Ordem, sobre a influência da Internet nas nossas vidas. Que nos ponhamos de acordo para enfrentar a dependência. Sonho com uma vida contemplativa no mundo, mas não do mundo.” (Europa)
Sonho de formação
Embora a formação não seja uma palavra chave do próximo sínodo, acrescento este tema. Muitos sonhos abordaram este assunto e também nos relatórios da síntese da fase diocesana do processo sinodal, que as conferências episcopais do mundo inteiro enviaram ao secretariado do sínodo. É impressionante constatar como o desejo de formação no seio do povo de Deus é grande. A transmissão da fé entre as gerações numa família, ou numa comunidade religiosa não é mais uma coisa evidente. Falta-nos discernimento, vocabulário, formação e mesmo fé para transmitir a vida. Isto afeta igualmente a transmissão do carisma cisterciense.
O papel da comunidade, da Região e da Ordem no processo de formação é ajudar cada irmão, cada irmã “a integrar os elementos essenciais da vida cisterciense” (Cst 45,3) Devemos ser generosos em oferecer uma ajuda mútua para tornar esta formação uma realidade para todos (cf Cst 45.3.B).
Olhando por esta janela escutamos os desejos de uma boa formação para todos na Ordem, não somente para os que estão na formação inicial, mas para todos, incluindo os superiores. Uma formação que seja mais do que a filosofia e a teologia, mas que ajude também as comunidades em nível material e económico.
* “Uma boa formação monástica desenvolve-se na, ou nas comunidades, que valorizam a tradição e o diálogo com a nossa sociedade atual. Isto pode, certamente, acontecer no quadro da cooperação entre as comunidades da Ordem ou com outras instituições, religiosas, ou não.” (Europa)
* “Lembro-me de um programa de formação entre uma comunidade de monjas e de monges. Sonho que isso possa acontecer de novo. Uma partilha das nossas experiências – como o programa . Duas ou várias comunidades podem enviar-se mutuamente suas experiências por correio, ou por mail. Desejo um programa comum de formação para todas as comunidades da Ordem. Desejo aprofundar meu conhecimento do carisma cisterciense.” (Asia)
* “Temos acesso à história e ao património da Ordem como nenhuma geração anterior. Uma grande parte do trabalho de base que torna isto possível é o resultado de uma colaboração no seio da família cisterciense e com especialistas leigos. A riqueza de material disponível hoje, para a educação/formação é admirável. Uma certa atitude anti-intelectual, que encontrei quando entrei na Ordem, diminuiu. Apesar de tudo existe ainda uma tendência para considerar o interesse neste campo como secundário em relação às necessidades da vida cotidiana.” (América do Norte)
* “Falamos de uma crise de liderança na Ordem. Meu sonho é que continuemos a explorar os meios para desenvolver as qualidades da liderança por meio de programas de formação, qualidades de consciência de si mesmo, de co responsabilidade, de continuidade, de bom zelo, de sacrifício de si mesmo e de competências em comunicação que deem vida. Os padres do deserto eram especialistas nisto. Meu sonho é que cada membro da Ordem seja entusiasta e desejoso de uma formação inicial e contínua, dinâmica para reforçar a nossa visão comum para dar vida às nossas comunidades e à Igreja.” (América do Norte)
* “Na nossa Ordem Cisterciense conhecemos, hoje, duas formas grandes de precaridade: A falta de vocações e o envelhecimento no Ocidente, e a falta de pessoal bem formado sobre as raízes cistercienses na África onde as vocações para a vida monástica crescem. Estas duas realidades ameaçam a existência e a fidelidade da nossa Ordem; por outras palavras, favorecem a extinção e o enfraquecimento da nossa Ordem. A solução para esta precaridade é a formação de uma sinergia entre o Ocidente e a África… Reconheço a importância da sinergia para a sobrevivência e o crescimento da nossa Ordem no processo sinodal no seio de cada comunidade, nas comunidades intermonásticas e entre o ocidente e a África. O Ocidente deveria poder ajudar para a formação pessoal na Africa e os africanos deveriam poder alimentar as vocações no Ocidente, apesar das deceções de certos africanos, que foram enviados para estudos, ou para cumular falta de vocações no passado. Não devemos desanimar. A formação da sinergia… pressupõe o que Luke Timothy Johnson chama a ‘comunicação’ em oposição ao ‘fechamento’ quando um mundo simbólico interage com um outro numa sociedade pluralista, em que a identidade própria de cada grupo é respeitada. A comunidade monástica que se fecha, morrerá.” (Africa)
* “Ajudar as comunidades da Africa. Formação contínua e inicial. Conseguir professores locais de outras congregações que estimularão a nossa vida cristã e portanto integrar a nossa vida monástica. Podemos ter uma escola (padres cistercienses, padres beneditinos e outros estudos?) Isso permitiria o processo sinodal.” (Africa)
* “Que os cursos e as conferências e outras fontes de formação na Ordem sejam traduzidos nas diferentes línguas e oferecidos às diferentes regiões.” (América Latina)
* “Sonho com a criação de uma mesma mentalidade favorecendo cursos, troca de professores e de formandos nas diferentes comunidades. Sonho com a criação de uma escola monástica – on line – acessível a todos os monges e monjas, para reforçar a nossa formação permanente.” (América Latina)
Conclusões
Mais uma vez, isto é apenas uma amostra de todos os nossos sonhos! Não mostra a riqueza do conteúdo, mas me mostra a mim, pessoalmente, aonde a voz de Deus se faz ouvir. No final desta conferência, permitam-me que trace algumas linhas para o futuro. O sonho era necessário para ouvir a voz de Deus, para fazer a experiência de para onde Deus quer nos levar. Depois de ter visto, discernido, vem o tempo da ação.
Os sonhos de vocês são um desafio para o tempo futuro:
– dar prioridade à revitalização da dimensão contemplativa do nosso carisma. Tudo nas nossas vidas deveria ser expressão desta dimensão, incluindo mesmo uma estrutura como o Capítulo Geral. Esta dimensão contemplativa deveria levar a consequências na comunhão, na participação, na missão e na formação. (Vou examinar as propostas sobre o funcionamento do Capítulo Geral. Uma reflexão renovada sobre a separação do mundo, o uso dos meios de comunicação, o uso do dinheiro e dos bens etc.)
– dar prioridade à promoção da comunhão entre nós por meio de uma comunicação aberta e transparente a todos os níveis, usando os meios de comunicação modernos. (Propostas relativas à partilha on line de informações, à vida espiritual, ao trabalho, à estre ajuda, à ecologia etc.)
– dar prioridade à promoção da participação de todos os membros da Ordem. Encontrar, com fidelidade criativa à tradição, novos caminhos que tornarão as estruturas de governo na Ordem mais abertas e flexíveis, buscando uma melhor representação e mais igual de todas as partes do mundo e entre monges e monjas. (Propostas relativas ao Abade Geral e a seu Conselho, às Mães Imediatas, ao estatuto para acompanhamento das comunidades frágeis, para o funcionamento das reuniões regionais, para a comissão central, para o conselho dos anciãos etc.)
- dar prioridade a uma melhor compreensão da nossa missão na Igreja e no mundo. (Propostas de partilha de informações sobre as melhores práticas; promover o estudo da nossa tradição cisterciense e seu significado para hoje; procurar o laço com a Igreja universal e local).
– dar prioridade ao aprofundamento da formação integral no conjunto da Ordem, reavivar a chama do nosso primeiro amor, dar mais atenção às necessidades das diferentes regiões. Uma cooperação estreita entre o Abade Geral, seu Conselho e o Secretário Geral para a Formação é de grande importância (propostas para uma escola on line da vida cisterciense, oferecendo cursos on line, uma formação específica para os superiores, os celeireiros, os mestres de noviços, os capelães mais atenção à formação sobre os abusos, as dependências etc.).
Lá, na torre, com São Bento, aproveitando deste único raio de luz, para onde convergiam todos os sonhos do mundo, gemi: “a messe é grande, mas os operários são poucos”. Mas não vou desanimar e peço a todos que trabalhem comigo, para realizarem estas prioridades. Como disse, é tempo de agir e de ver como podemos transformar as prioridades em ações concretas. Conto com a ajuda de todos, na oração e na ação.
O sonho de vocês, como superiores, foi um pequeno começo do caminho sinodal na Ordem. O processo continua e deve tornar-se um estilo de vida a todos os níveis. Alguns responderam ao meu pedido de sonhar nas próprias comunidades. Espero que muitos sigam este caminho. Deixem vossos irmãos e irmãs sonhar! Que sonhem sobre sua própria vida, sobre a vida da comunidade e sobre a vida da Ordem. Sonhem para ouvir a voz de Deus para poderem discernir o importante e o que vos pedem para fazer.
Mas o que é mais importante ainda, – e é afinal o objetivo do processo sinodal – são as palavras de São Bernardo:
“Fizemos, caros irmãos uma reunião, ou sínodo dos corpos (synodum corporum) mas resta-nos formar um sínodo maior: a união das almas (Coniunctio animarum). De fato não é louvável estar unidos de corpo, se estivermos divididos de espírito; é inútil reunir-se num lugar se estamos em desacordo nas nossas almas… ‘Quando dois ou três estão reunidos em meu nome, estou no meio deles’ (Mat 18, 20); se estiverem bem reunidos em nome de Jesus, quer dizer com o amor de Deus e do próximo, então com eles é bom habitar juntos” (sal 132, 1)[2].
Possamos nós fazê-lo sob a proteção de Maria, a Rainha de Cister!
[1] Mario Cardinal Grech, La synodalité comme style. In : Sequela Christi, XLVII 2021/02, p. 72-73.
[2] Bernard de Clarivaux, Sententiæ III, 108 (para esta citação, agradeço a D. Yvon-Joseph, de Val Notre-Dame, que me chamou a atenção para ela!).
Discurso aos participantes no Capítulo geral da OCSO
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Perspectivas
Papa Francisco
Discurso aos participantes
no Capítulo geral da OCSO
16 de setembro de 2022
Estimados irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!
Agradeço ao Abade-Geral as suas palavras de saudação e introdução. Sei que estais a realizar a segunda parte do vosso Capítulo Geral, na Porciúncula de Santa Maria dos Anjos: um lugar tão rico de graça que certamente terá ajudado a inspirar os vossos dias.
Regozijo-me convosco pelo sucesso da primeira parte do Capítulo, realizada no mesmo lugar, durante a qual também foi eleito o novo Abade-Geral. O Senhor, Padre, pôs-se imediatamente a caminho para visitar as doze regiões nas quais se encontram os vossos mosteiros. Apraz-me pensar que esta “visitação” teve lugar com o cuidado sagrado que a Virgem Maria nos mostra no Evangelho. “Levantou-se e foi apressadamente”, diz Lucas (1, 39), e esta expressão merece sempre ser contemplada, para que possamos imitá-la, com a graça do Espírito Santo. Gosto de rezar a Nossa Senhora que está “com pressa”: “Senhora, vós estais com pressa, não é?”. E Ela compreende esta linguagem.
O Padre Abade diz que nesta viagem “recolheu os sonhos dos superiores”. Fiquei impressionado com esta forma de expressão, e partilho-a de todo o coração. Quer porque, como sabeis, também eu entendo o “sonhar” neste sentido positivo, não utópico, mas projetual; quer porque aqui não se trata dos sonhos de um indivíduo, mesmo que seja o superior-geral, mas de uma partilha, de uma “coleta” de sonhos que emergem das comunidades, e que imagino sejam objeto de discernimento nesta segunda parte do Capítulo.
Eles resumem-se da seguinte forma: sonho de comunhão, sonho de participação, sonho de missão e sonho de formação. Gostaria de vos propor algumas reflexões sobre estas quatro “estradas”.
Antes de mais, gostaria de fazer uma nota, por assim dizer, sobre o método. É uma indicação que me vem da abordagem inaciana, mas que, no fundo, penso que tenho em comum convosco, homens chamados à contemplação na escola de São Bento e de São Bernardo. Ou seja, trata-se de interpretar todos estes “sonhos” através de Cristo, identificando-nos com Ele através do Evangelho e imaginando – num sentido objetivo, contemplativo – como sonhou Jesus estas realidades: a comunhão, a participação, a missão e a formação. De facto, estes sonhos constroem-nos como pessoas e como comunidade, na medida em que não são nossos, mas os seus, e nós assimilamo-los no Espírito Santo. Os seus sonhos.
E aqui abre-se então o espaço para uma bela e gratificante busca espiritual: a busca dos “sonhos de Jesus”, ou seja, dos seus maiores desejos, que o Pai suscitava no seu coração divino-humano. Eis, nesta chave de contemplação evangélica, gostaria de me pôr em “ressonância” com os vossos quatro grandes sonhos.
O Evangelho de João entrega-nos esta oração de Jesus ao Pai: “Dei-lhes a glória que me deste, para que sejam um, como nós somos um: eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que me enviaste e os amaste, como amaste a mim” (17, 22-23). Esta Palavra santa permite-nos sonhar com Jesus a comunhão dos seus discípulos, a nossa comunhão enquanto “seus” (cf. Exort. ap. Gaudete et exsultate, 146). Esta comunhão – é importante esclarecer – não consiste numa nossa uniformidade, homogeneidade, compatibilidade, mais ou menos espontânea ou forçada, não; consiste na nossa relação comum com Cristo, e n’Ele com o Pai no Espírito. Jesus não teve medo da diversidade que existia entre os Doze, e por isso também não devemos temer a diversidade, porque o Espírito Santo gosta de despertar as diferenças e de fazer delas harmonia. Em vez disso, devemos temer os nossos particularismos, os nossos exclusivismos, esses sim, porque provocam divisões (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 131). Portanto, o sonho de comunhão de Jesus liberta-nos da uniformidade e das divisões, que são ambas aspetos negativos.
Outra palavra que tiramos do Evangelho de Mateus. Em controvérsia com os escribas e fariseus, Jesus diz aos seus discípulos: “Mas vós não vos façais chamar rabi, porque um só é o vosso mestre, e vós sois todos irmãos. E a ninguém chameis pai sobre a terra, pois um só é vosso Pai, aquele que está nos céus. Nem vos façais chamar mestres, porque só tendes um Mestre, Cristo” (23, 8-10). Aqui podemos contemplar o sonho de Jesus de uma comunidade fraterna, onde todos participam na base de uma relação filial comum com o Pai e como discípulos de Jesus. Em particular, uma comunidade de vida consagrada pode ser um sinal do Reino de Deus dando testemunho de um estilo de fraternidade participativa entre pessoas reais e concretas que, com as suas limitações, escolhem cada dia, confiando na graça de Cristo, viver juntas. Também hoje os instrumentos de comunicação podem e devem estar ao serviço da participação real – não apenas virtual – na vida concreta da comunidade (cf. Evangelii gaudium, 87).
O Evangelho também nos entrega o sonho de Jesus de uma Igreja toda missionária: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a observar tudo o que vos prescrevi” (Mt 28, 19-20). Este mandato diz respeito a todos os membros da Igreja. Não há carismas missionários e outros que não o são. Todos os carismas, na medida em que são dados à Igreja, são para a evangelização do povo, ou seja, missionários; naturalmente de modos diferentes, muito diferentes, de acordo com a “fantasia” de Deus. Um monge que reza no seu mosteiro contribui para levar o Evangelho àquela terra, para ensinar às pessoas que lá vivem que temos um Pai que nos ama e que neste mundo estamos a caminho do Céu. Então, a questão é: como se pode ser Cisterciense de estrita observância e fazer parte de “uma Igreja em saída” (Evangelii gaudium, 20)? A caminho, mas é um caminho de saída. Como viveis a “doce e reconfortante alegria de evangelizar” (São Paulo VI, Exort. ap. Evangelii nuntiandi, 75)? Seria bom ouvi-lo de vós, contemplativos. Por enquanto, basta lembrar que “em qualquer forma de evangelização a primazia é sempre de Deus” e que “em toda a vida da Igreja se deve manifestar sempre que a iniciativa é de Deus, que ‘foi Ele que nos amou’ (1 Jo 4, 10)” (Evangelii gaudium, 12).
Por fim, os Evangelhos mostram-nos Jesus que cuida dos seus discípulos, educando-os com paciência, explicando-lhes, separadamente, o significado de algumas parábolas; e iluminando com palavras o testemunho do seu modo de viver, dos seus gestos. Por exemplo, quando Jesus, depois de ter lavado os pés dos discípulos, lhes diz: “Dei-vos um exemplo para que também vós façais como eu vos fiz” (Jo 13, 15), o Mestre sonha com a formação dos seus amigos segundo o caminho de Deus, que é a humildade e o serviço. E quando, mais tarde, ele diz: “Muitas coisas tenho ainda para vos dizer, mas de momento não sois capazes de suportar o fardo delas” (Jo 16, 12), Jesus deixa claro que os discípulos têm um caminho a fazer, uma formação a receber; e promete que o Formador será o Espírito Santo: “Quando ele, o Espírito da verdade, vier, guiarvos- á para toda a verdade” (v. 13). E poderia haver muitas referências evangélicas que atestam o sonho de formação no coração do Senhor. Gosto de os resumir como um sonho de santidade, renovando este convite: “Deixa que a graça do teu Batismo frutifique num caminho de santidade. Deixa que tudo esteja aberto a Deus e, para isso, opta por Ele, escolhe Deus sem cessar. Não desanimes, porque tens a força do Espírito Santo para tornar possível a santidade e, no fundo, esta é o fruto do Espírito Santo na tua vida (cf. Gl 5, 22-23)” (Exort. ap. Gaudete et exsultate, 15).
Prezados irmãos e irmãs, agradeço-vos por terdes vindo e desejo-vos que a conclusão do vosso Capítulo seja realizada do melhor modo. Que Nossa Senhora vos acompanhe. De coração abençoo-vos e a todos os vossos confrades em todo o mundo. E peço-vos, por favor, que rezeis por mim!
O que tem mais vida na Ordem hoje
5
Perspectivas
Irmã Ainzane Juanicotena, OCSO
Mosteiro de Quilvo (Chile)
O que tem mais vida na Ordem hoje
“Recebemos o Espírito de filhos,
e dizemos Abba, Pai”
(Rom. 8, 15)
Tudo o que é vivificante é um presente imerecido, e o maior presente que recebi da Ordem, o mais vivificante, é o dom da filiação.
Como todo o dom que vem da mão de Deus, saboreamo-lo com a consciência de que somos pecadores, pobres, perdoados e resgatados. Somos acolhidos como o filho pródigo, quando volta para o Pai (Luc 15, 11-32), ou como a menina a quem ele disse “Talitha Kumi” (Mat 5, 41, ou como Lázaro saído do túmulo (Jo 11, 44). O Pai acolhe-nos por meio do Filho que, nos seus dias mortais exclamou: “Ninguém me tira a vida, eu a dou livremente” e que aprendeu a obediência pelo sofrimento (cf 10, 18; Heb 5, 8).
Ora vivemos no centro de uma crise global em que a vida é arrastada quase de forma impercetível para uma desolação terrível: um mundo de guerra, de pandemia, de fome, de morte, de ódio, um mundo de egoísmo extremo, desintegrado e desintegrante.
O mundo da comunicação tecnológica também abriu suas asas e atrai instantaneamente, a informação é rápida, abundante e variada. Ainda não tivemos tempo para cuidar de tudo o que é oferecido, e já outras propostas chegam; e entramos pouco a pouco num modo pré-estabelecido de comportamento na sociedade. Deixamos de pensar, de nos interrogar sobre o além, sobre o porquê das coisas, tornamo-nos como que anestesiados, deixamo-nos entrar na sociedade cansados, tornamo-nos indiferentes, perdemos o gosto pela vida, preferimos não ter problemas, não arriscar, e fechamo-nos à ideia de que a vida é algo que se recebe. E no entanto, ao mesmo tempo há no coração humano um desejo que aspira ardentemente e que grita, procurando o encontro com Deus. Um desejo que reconhece que recebemos a vida, e que por causa disso podemos transmiti-la, pois ninguém pode dar o que não tem, e é somente transmitindo a vida que ela se mantém em nós e passa para os outros. Porque somos à imagem e semelhança de Deus (cf. Gen 1, 26) temos em nós uma marca que grita, desejando o encontro com o seu Criador, um movimento contínuo nos habita que caminha para o encontro entre Deus e eu, através de uma relação entre um Tu e um Eu. Por isso a nossa vida é feita para os outros, e é somente através dos outros que podemos nos encontrar.
Concretamente somos chamados a olhar, a lutar pela vida de Deus e a servi-la nos outros, em cada irmão da comunidade, com esse otimismo antropológico cisterciense, que afirma energicamente que a última palavra sobre o homem nunca será o pecado, mas o dom de Deus, o fato de ser feito à sua imagem e semelhança.
Quer tenhamos consciência, ou não, cada ser humano tem em si a marca daquilo para que Deus o criou, e que somos seus filhos. Pois o desejo mais profundo do coração humano é ficar diante da face de Deus, aderir a ele com toda a liberdade.
A vida começada por um desejo lancinante, situada num espaço e num tempo concretos, no hoje, começa a tomar forma por meio do despertar da íntima relação com Deus, do dom da filiação que temos com Ele. A filiação recebida por meio do Filho Jesus Cristo, que deixou sua marca em nós, impressa em cada átomo do nosso ser e em toda a criação. Uma marca que procura o seu Criador e nos faz filhos para sempre.

Somos filhos de Deus, marca que não se apaga, mas a relação que temos com Deus, o dom da filiação, forma-se através da relação com pessoas concretas, e num lugar concreto. A contemplação de Cristo, a relação direta com Ele na escuta, como no encontro com a Palavra viva é a base para poder viver com fé e obediência a relação com a comunidade, o abade e a Ordem. Apoiados sobre a tradição da Ordem, os costumes da casa na continuidade da vida, sobre testemunhas concretas que deram sua vida por nós, e que a dão hoje, vivemos o dom de dar a nossa vida a Deus na relação com os outros. Minha vida dada a Deus concretiza-se amando minhas irmãs e o dom que recebo de Deus recebe-se das mãos delas. Minha relação com os outros reflete a minha relação com Deus e vice-versa.
A gratuidade do dom recebido, o fato de me saber amada é a minha garantia, nada se perde quando tudo é oferecido; é somente por meio da ação de graças que minha vida tem gosto e côr. Reconhecer- me como filha amada, livre, pobre, pecadora que precisa de perdão e de amor.
A vida comunitária, com os olhos fixos num fim único, Cristo, é uma escola de sabedoria e de energia poderosa, e a nova resposta ao individualismo que tanto nos afeta hoje. É a expressão mais autêntica do fato que somos criados para a relação: é somente através dos outros que posso ver quem sou e caminhar assim para Cristo; o espelho dos outros permite-me reconhecer-me, situar-me numa realidade, ver meu caminho para saber onde estou, ter a luz que preciso para viver a conversão que Deus me pede, e que não consigo sem os outros.
A força para este elan de conversão está em reconhecer-me miserável e me saber objeto de misericórdia, sustentada pelo Cristo através de minhas irmãs de comunidade, reconhecê-lo no concreto da vida, que serve de trampolim para me levar a viver o dom da obediência, como resposta ao amor recebido.
Este caminho da obediência cristifica-me, pois é o modo de ser do Filho Jesus Cristo. É o nosso modo de amar, a condição da realização plena. A obediência é a nossa oração, e para que isso seja possível é necessário ajoelhar-se diante do mistério de Cristo feito carne, quer vivendo-o no Ofício, quer escutando-o na lectio, quer ficando em silêncio, quer no serviço que me é pedido cada dia. É o caminho, o sustentáculo, a fonte da nossa fé no Filho de Deus que se fez homem.
Para que isso seja possível, é necessário que a obediência seja acompanhada pela alegria, uma alegria nem artificial, nem fingida, me mostrando feliz mas machucada por dentro, ou isenta de sofrimento. Mas uma alegria que seja sempre pascal, feita da cruz e da glória de cada dia. Se a obediência não for vivida com alegria, não é verdadeira obediência; deve partir da raiz de ser filhos, herdeiros e amados; e como filhos somos livres, felizes e desejosos de responder a este amor da forma mais plena, como Cristo o fez e nos ensinou com sua obediência.
A confiança, a certeza de ser filha de Deus, vivendo num tempo e num espaço concretos, em que cada segundo é um novo nascimento para a vida plena com Cristo. Isto é a respiração do nosso organismo, a batida do nosso coração. É viver na sua presença, alegrar-se com o desenrolar do dia e com a comunidade que Deus me deu. É cultivar a alegria em nós e naqueles que vêm, ajudando-os a reconhecer o desejo pessoal e comunitário de felicidade e de verdade, e isto não está nas observâncias nem num número maior de irmãs. Mas vai mais longe, está na procura e na qualidade e na profundidade da relação com Cristo, fruto do modo comum do sentir e da vontade para andar no caminho da plenitude presente, e assim ir todas juntas para a vida eterna (RB 72, 12).
Não se trata de alcançar ou de depender dos frutos espirituais do caminho da comunidade, nem da morte ou da vida da comunidade, mas da perfeita conformidade com a vontade de Deus. Sem esta consciência da alegria de viver com Deus, tornamo-nos áridas, sem gosto e sem entusiasmo. Perdemos a chama que nos fez querer a vida e viver como verdadeiros cristãos; enchemo-nos de amargura, que é a inimiga da vida. Quem vive verdadeiramente está pronto para dar a vida. Quantas vezes nos agarramos às nossas seguranças, aos nossos esquemas para não dar a vida, e esquecemo-nos de viver? Devemos viver com o desejo de acompanhar o Cristo na sua paixão até à ressurreição.
Devia haver nos nossos corações uma alegria pronta para jorrar para a vida aberta para a novidade, para nos reconhecermos livres e abertas para receber e dar o perdão. Devia me abrir a formas novas, objetivos novos, devia examinar-me e ver que coisas outrora davam vida e agora não dão. Devia eliminar preconceitos, arriscar, ousar, inovar, nunca me limitar, identificar-me com os outros, ser jovem com os jovens, criança com as crianças, venerar os anciãos. Procurar sempre a vida… deixar que os outros nos atrapalhem!
Quantas vezes nos agarramos aos nossos critérios e não deixamos entrar a graça nova que Deus nos oferece a cada instante? Quantas vezes nos agarramos a nós mesmos e não sabemos reconhecer o bem nas ações dos outros? Quantas vezes nos agarramos às estruturas e esquecemos que as estruturas devem estar a serviço da vida nova dada pelo Espírito Santo no nosso caminho? Há tanto sofrimento no mundo… e eu não sou capaz de ter compaixão pela irmã que está a meu lado?
Devemos aprender (como o Filho aprendeu cf. Heb 5, 8-9) de cada acontecimento, e dos outros, com toda a novidade e particularidade que o distingue, que o outro traz algo à minha vida. Devo ser uma fonte disponível para todos, ser recetiva e receber, vivendo aberta aos outros, amando-os a cada instante, sem essas fantasias românticas sobre o bem, que canonizam o nosso mal, e dissimulam a necessidade de conversão, mas com realismo. Para amar e aceitar plenamente como são, aqueles que Deus pôs perto de mim, sem criticar, sem queixas, nem resistências, mas com uma misericórdia lúcida, valorizando-os, sem me deixar levar pelo mal que cometeram, mas acreditando na boa vontade e no bem que se encontra em cada um.
Assim me deixo fazer e formar pelos outros. É somente por meio de pessoas concretas, com nomes e rostos concretos que posso me deixar formar por Deus. É somente por meio da mediação humana dos outros que posso deixar Deus agir em mim e encarnar em mim. O outro é o sacramento da vontade de Deus na minha vida.
A regra de vida nos nossos mosteiros é viver na obediência filial, de modo concreto e segundo o carisma da nossa Ordem, numa comunidade, sob uma regra e um abade, com o olhar fixo na vida eterna e com o condimento saboroso da fé. A filiação divina faz-se carne graças a estes três pilares fundamentais:
– Comunidade: é o lugar aonde me posso deixar fazer por meio do Senhor através dos outros. É o Corpo-Igreja aonde acontece o encontro com Deus, aonde todos somos membros e o Cristo é a cabeça. Nossa comunidade é o Corpo de Cristo, é uma Igreja monástica que vive em comunhão com a Igreja universal.
É o lugar aonde recebo o perdão e a vida cotidiana, é o lugar aonde aparece a minha miséria, aonde faço a experiência das minhas fraquezas, dos meus limites, dos meus pecados, e aonde sou carregada, me reconhecendo amada apesar da minha pobreza. É o lugar onde posso abrir minhas asas e ir para Cristo através do serviço aos outros, pelo trabalho e pelo dom de mim mesma.
– Abade / abadessa: é a pessoa que faz as vezes de Cristo no mosteiro, é o abade, a abadessa da comunidade que vive para a servir; e a comunidade forma o seu abade, sua abadessa. A pureza de coração é fundamental na minha relação com meu abade / abadessa, a verdade comigo mesma para viver essa relação, reconhecer minhas amarguras, minhas obscuridades, minhas inconsequências, minha luzes e meus sucessos, poder ser transparente com ele, saber-me filho / filha dessa pessoa concreta, que representa a Cristo.
– A Regra: é a estrutura vital da nossa vida; sua forma é cristocêntrica e dá-nos a maneira concreta para viver o evangelho. Viver, não realizar. Porque todas as nossas ações têm irradiação no mundo inteiro. Irradiação que não depende do nosso mérito, ou falta de mérito, mas do encontro com Cristo, como diz o Sal 33, 5 “olhai para ele e sereis irradiantes”.
A radicalidade da nossa vida para viver o encontro com Cristo a partir de uma humanidade, num tempo e num mundo concretos, faz o encontro com nossos irmãos concretos. No aqui e no hoje que olham para a eternidade. Todos os elementos da nossa vida se encontram nesta realidade do hoje. Fazer o que tenho que fazer, estar aonde devo estar, é a nossa oferenda, é a nossa oração.
Podemos encontrar estes aspetos na nossa Ordem. A paternidade e a maternidade espirituais são vividas e ajudam-nos nos gerando mutuamente. Mas são sempre um desafio.
A filiação que devemos oferecer a Cristo, a cada momento, é um testemunho vivo no interior da Ordem, a relação com o Abade Geral, a Casa Mãe, o Pai Imediato, as casas filhas e irmãs, a interdependência mútua, aonde a respiração e do coração comum são o Cristo. Somos filhos numa comunidade concreta, que pertence a uma Ordem concreta, regida por uma estrutura sólida, onde o que domina sempre é esta união filial de amor que temos entre nós. Isto expressa o fato real de ser gerado, de receber uma identidade, um rosto, das mãos de um outro que faz o lugar de Cristo. Esta filiação não é sentimental, mas evangélica; por isso é um caminho de fé, muito mais profundo do que as aparências.
O amor de Cristo por cada um de nós, reconhecer-se amado por Deus e reconhecer o amor de Deus nos outros, viver o eterno presente da realidade cotidiana, é o dom mais precioso que podemos experimentar, é a própria Vida. É viver enraizados na realidade presente, com a consciência de estar imersos numa vida transitória, cujo destino final é Deus.
Viemos para viver com Cristo, a morte a si mesmo é a condição para viver; a vida borbulha, renova-se, é sempre um presente que temos de agradecer, porque o maior dom de Deus é a vida, e a capacidade de a saborear dá paz para assumir conscientemente e com alegria o sentimento do nosso destino livremente escolhido, como resposta a um amor que nos ama e nos escolheu por primeiro (1 Jo 4, 19).
É somente crescendo que podemos ajudar os outros a crescer em Cristo e desenvolver uma paternidade ou maternidades espirituais, em resposta ao fato de sermos filhas e filhos de Deus.
Devemos viver num mundo do além, em que os sonhos se tornam realidade, e ver já no presente a luz do amor de Deus, que será a vida futura. Isso é viver unida a Cristo, com os olhos fixos nele, enfrentando o cotidiano à essa luz, com o olhar voltado para a cristificação total nele, com tudo e com todos.
Sejamos agradecidos pelo que não merecemos, perdoando o que já nos foi perdoado, e acima de tudo amemos sempre e a cada instante com o amor que só um filho de Deus pode entender, o de Cristo.
Que a Virgem Maria nos guie com seu amor de Mãe, para esta união íntima, ousada, viva, reconhecida, com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Amém.
Discurso de abertura do Capítulo Geral da Ordem cisterciense
6
Perspectivas
Dom Mauro-Giuseppe Lepori, OCist
Abade Geral OCist
Discurso de abertura do Capítulo Geral
da Ordem cisterciense
Nos encontramos depois de 7 anos desde o último Capítulo Geral. Não foram anos fáceis de atravessar, marcados pela pandemia do Covid-19, pela crescente fragilidade das nossas comunidades, por algumas demissões de superiores em seguida a graves irregularidades e abusos de poder.
Muitos rostos mudaram na formação do nosso Capítulo Geral: 7 Abades Presidentes mudaram, e temos mais uma Congregação, a de Santa Gertrudes Magna. O Abade Presidente Eugenio Romagnuolo, de Casamari, infelizmente nos deixou, vítima do Covid, já em abril de 2020. Há cerca de 43 novos superiores e superioras (a metade dos membros do Capítulo Geral), entre os quais 7 administradores. 13 comunidades perderam seu status de sui juris por vários motivos. Há apenas um superior de um novo mosteiro sui juris, o de Phuoc Hiep, no Vietnã. Grandes figuras de Superiores da Ordem terminaram seu fiel serviço. Madre Gemma Punk de Regina Mundi, renunciou após 75 anos como superiora. Agora sabemos que ela “reinou” por mais tempo que a rainha Elizabeth! Madre Rosaria Saccol, de S. Giacomo di Veglia, deixou o ofício abacial depois de 51 anos e retornou santamente ao Pai em 23 de novembro de 2021. Madre Irmengard Senoner de Mariengarten terminou há pouco o seu serviço depois de 39 anos de abaciado.
Costumo mencionar os superiores que, além dos mencionados, retornaram à Casa do Pai nos últimos anos: o abade presidente emérito da Congregação de Maria Mediadora de Todas as Graças, Dom Gerardus Hopstaken; o abade presidente emérito da Congregação da Sagrada Família, Dom Jean Lam; o abade presidente emérito da Congregação de São Bernardo na Itália, Dom Ambrogio Luigi Rottini; Madre Consolata de Frauenthal, Madre Assunta de S. Susanna, Dom Bao de My Ca, Abade Christian de Rein, Abade Denis de Dallas, Madre Presentación Muro de Santo Domingo de la Calzada, Madre Agnes de Kismaros. Outra perda dolorosa para a Ordem foi a morte prematura do Padre Sebastiano Paciolla, ocorrida em 22 de junho de 2021.
Os membros do Capítulo Geral com direito a voto em 7 anos diminuíram de 100 para 87. Os membros da Ordem, não obstante os países como o Vietnã e algumas comunidades na Europa e Estados Unidos que tem bastante vocações, diminuíram de cerca de 2500 para 2217.
Como dizia ao Santo Padre encontrando-o no dia 13 de junho passado: “Temos mais dificuldade para caminhar, mas caminhamos mais juntos”. Francisco respondeu-me citando um ditado africano: “Se queres caminhar rápido, caminha sozinho, mas se queres caminhar seguro, caminha junto com os outros”.
Sim, penso que caminhamos mais juntos, mas nem sempre e nem com todos. No fundo, veremos com este Capítulo Geral se ao Papa eu disse a verdade ou uma mentira. Espero que não me obrigueis a ir confessar-me! Para que deve servir um Capítulo Geral? A Carta Caritatis nos repete há 903 anos: “Tratamos da salvação de suas almas; damos disposições quanto à observância da santa Regra ou da Ordem, se houvesse qualquer coisa a corrigir ou a incrementar; restaurem entre si o bem da paz e da caridade” (CC VII, 2).
Nisto, ela retoma tantas exortações apostólicas, como aquela que São Paulo dirige aos Efésios:
“Exorto-vos, pois, que leveis uma vida digna da vocação à qual fostes chamados, com toda a humildade e amabilidade, com grandeza de alma, suportando-vos mutuamente com caridade. Sede solícitos em conservar a unidade do Espírito no vínculo da paz. Sede um só corpo e um só espírito, assim como fostes chamados pela vossa vocação a uma só esperança. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Há um só Deus e Pai de todos, que atua acima de todos, por todos e em todos (...).
Mas, pela prática sincera da caridade, cresçamos em todos os sentidos, naquele que é a Cabeça, Cristo. É por ele que todo o corpo – coordenado e unido por conexões que estão ao seu dispor, trabalhando cada um conforme a atividade que lhe é própria – efetua esse crescimento, visando à sua plena edificação na caridade” (Ef 4,1-6.15-16).
O Papa Francisco, em todas as suas exortações destinadas a reavivar a natureza sinodal da Igreja, ajuda-nos a redescobrir o nosso carisma cisterciense, próprio como um «caminhar juntos» de comunidades reunidas por uma mesma vocação, por uma única esperança, uma única fé, uma única caridade. Em minhas cartas e em algumas conferências destes últimos 4 anos, procurei estimular entre nós esta consciência sinodal de nossa vocação e missão, independentemente das diferenças de observância e estilo que vivemos em nossas comunidades individuais ou Congregações. Nisto me ajudou muito o reencontrar-me para participar em vários encontros da Igreja: o Sínodo dos Bispos de 2018 dedicado aos jovens, o encontro no Vaticano em fevereiro de 2019 sobre o tema dos abusos na Igreja, depois o início do caminho sinodal de toda a Igreja nos dias 9 e 10 de outubro de 2021, caminho que culminará com o Sínodo dos Bispos do próximo ano. Também me estimulou nisto a surpresa de ser eleito para o Conselho executivo da União dos Superiores Gerais e a surpresa ainda maior de ser eleito vice-presidente desta União. Não é um serviço que me requer muito trabalho, felizmente, mas que me ajuda a estar mais atento ao que pulsa na Igreja universal e no mundo. Procurei tornar a Ordem participante desta consciência. Me dei conta de quanto as outras Ordens religiosas estão atentas a nossa experiência e sensibilidade monástica no enfrentar os problemas e sobretudo no viver a missão da Igreja. É importante que sejamos conscientes disso, porque não é tanto o papel de abade geral que me habilita para esta tarefa, quanto a vocação que partilho com cada um de vós.
Dizia o Papa no seu discurso por ocasião do início do caminho sinodal, exatamente há um ano, em 9 de outubro de 2021:
“Comunhão e missão correm o risco de permanecer termos meio abstratos, se não se cultiva uma práxis eclesial que se exprima em ações concretas de sinodalidade em cada etapa do caminho e da atividade, promovendo o efetivo envolvimento de todos e cada um. Naturalmente celebrar um Sínodo é sempre bom e importante, mas só é verdadeiramente fecundo se se tornar expressão viva do ser Igreja, dum agir caraterizado por verdadeira participação.
E isto, não por exigências de estilo, mas de fé. A participação é uma exigência da fé batismal. De facto – como afirma o apóstolo Paulo – ‘num só Espírito, fomos todos batizados para formar um só corpo’ (1 Cor 12, 13). O ponto de partida, no corpo eclesial, é este e mais nenhum: o Batismo. Dele, nossa fonte de vida, deriva a igual dignidade dos filhos de Deus, embora na diferença de ministérios e carismas. Por isso, todos somos chamados a participar na vida da Igreja e na sua missão. Se falta uma participação real de todo o Povo de Deus, os discursos sobre a comunhão arriscam-se a não passar de pias intenções.” (Momento de reflexão para o início do percurso sinodal, Discurso do Santo Padre Francisco, 9.10.2021).
Participar na missão da Igreja
“Todos somos chamados a participar na vida da Igreja e na sua missão”, disse Papa Francisco. Gostaria de sublinhar esta frase, porque nos torna conscientes que encontrar-nos e trabalhar juntos não é uma tarefa só para nós mesmos, mas deve ser animado por um sopro universal. Certo, devemos, como nos pede a Carta Caritatis, tratar da salvação de nossas almas, dar disposições acerca da observância da santa Regra ou da Ordem, corrigir ou incrementar a vida de nossas comunidades e restaurar entre nós o bem da paz e da caridade (cf. CC VII,2). Mas se em tudo isso não pensamos na missão de toda a Igreja, isto é, se não pensamos na salvação de todo o mundo, todo o trabalho sobre nós mesmos será narcísico, estéril, não dará frutos, nem mesmo para nós mesmos. Porque desde o início nossa Ordem permaneceu unida e trabalha para sua própria conversão “desejando beneficiar aos membros da Ordem e a todos os filhos da santa Igreja - prodesse illis omnibusque sanctae Ecclesiae filiis cupientes
