A vida e a morte no ideal monástico
Boletim da AIM • 2020 - No 118
Índice
Editorial
Dom Jean-Pierre Longeat, OSB
Presidente da AIM
Lectio Divina
Eucaristia e serviço (Jo 13,1-15)
Dom Humberto Rincón Fernandez, OSB
Meditação
“Ele olhava como amigos os anjos que vinham a ele”. A morte de Santo Antão
Santo Atanásio
Testemunhos
• O cemitério do mosteiro beneditino de Thiên Binh
Nathalie Raymond
• O cemitério dos sete monges de Tibhirine
Monique Hébrard
• Koningsakker, o cemitério natural de uma comunidade monástica
Madre Pascale Fourmentin, OCSO
• A empresa de caixões de New Melleray
Dom Jean-Pierre Longeat, OSB
Abertura ao mundo
As lições de vida de Paulo diante da doença e da morte
Pr Roger Gil, neurologista
Liturgia
Liturgia dos mortos: Tradições do Vietnã e ritos monásticos
Irmã Marie-Pierre Nhu Ý, OSB
Meditação
Renunciar ao sono da morte
Irmão Ireneu Jonnart, OSB
Uma página de história
Anglicanos e beneditinos
Padre Nicolas Stebbing, OSB anglicano
Trabalho e vida monástica
Orar com as mãos
Irmão Bernard Guékam, OSB
Monges e monjas testemunhas para o nosso tempo
• Dom Ambrose Southey
Dom Armand Veilleux, OCSO
• Madre Anna Maria Cànopi
Irmã Maria Maddalena Magni, OSB
• Madre Teresita D’Silva
Madre Nirmala Narikunnel, OSB
Notícias
• Ser úteis a todos. A propósito da Carta Caritatis
Dom Mauro-Giuseppe Lepori, OCIST
• Carta Caritatis. Colóquio internacional
Éric Delaissé, Responsável pelo CERCCIS
• Apresentação do 12º Encontro Monástico Latino-Americano (EMLA)
Padre Enrique Contreras, OSB
• Viagem à Argentina
Dom Jean-Pierre Longeat, OSB
Editorial
Este número do Boletim da AIM é sobre o tema da vida e da morte no ideal monástico. Isto faz referência ao mistério pascal de Cristo, em geral, e a todos os tipos de costumes que o tornam presente no cotidiano.
Falaremos de dois exemplos originais de cemitérios monásticos, da confecção de caixões na Abadia de New Melleray (EUA); e dos ritos funerários para os monges e monjas defuntos no Vietnã. São assuntos que nos fazem refletir tanto do ponto de vista espiritual, como cultural, ou simplesmente humano.
Um médico neurologista, diretor de um centro ético e amigo de vários mosteiros, partilha, como testemunho, a vitória da vida sobre o sofrimento e sobre a morte.
Outras rubricas completam este número: a história dos monges anglicanos na Inglaterra, uma reflexão sobre “Trabalho e Economia” por um monge de Keur Moussa (Senegal), a evocação de grandes figuras monásticas: Dom Ambrose Southey que marcou tanto a Ordem dos Trapistas, a Madre Anna Maria Cànopi, fundadora do mosteiro da Ilha San Giulio, e a Madre Teresita D’Silva, fundadora do Mosteiro de Shanti Nilayam. Finalmente, este número dará notícias recentes da nossa família beneditina. Entre estas teremos um eco do 9º Centenário da Carta Caritatis da Ordem de Cister.
Dom Jean-Pierre Longeat, OSB
Presidente da AIM
Artigos
Morte e vida na Regra de São Bento
1
Padre Jean-Pierre Longeat, OSB
Presidente dell’AIM
Morte e vida na Regra de São Bento
No livro do Deuteronômio, Moisés fala ao povo de Deus, de modo muito decisivo no momento em que ele mesmo ia morrer, sem ter visto a Terra Prometida:
“Eu te proponho hoje a vida ou a morte, escolhe a vida e viverás”! (Deut 30,19).
A vida monástica levou a sério este apelo. Desde o começo da Regra São Bento retoma o apelo do Senhor:
“E procurando o Senhor o seu operário na multidão, ao qual clama, retomando o salmo 33: “Quem quer a vida? Quem deseja dias felizes?”diz ainda : “ Se, ouvindo, responderes: “Eu”, dir-te-á Deus “Se queres a verdadeira vida, a vida com Deus para sempre… Então procura a paz e segue-a” (Pról. 14-16).
E também no fim do Prólogo:
“De modo que não nos separando nunca do seu magistério e perseverando no mosteiro, sob sua doutrina, até a morte, participemos pela paciência, dos sofrimentos do Cristo a fim de também merecermos ser co-herdeiros do seu Reino” (Prol. 50)
No cap. 4 sobre os instrumentos das boas obras, São Bento volta ao tema da morte e da vida na existência de um monge: “Ter diariamente diante dos olhos a morte a surpreendê-lo” (RB 4, 46). Não há nada de mórbido nisso, é simplesmente sublinhar que a vida nesta terra, por mais importante que seja, é uma passagem e que agarrar-se a ela não dá a chave da existência. É, ao mesmo tempo, uma questão de orientação do desejo para a verdadeira vida e de vigilância sobre o cotidiano das palavras e dos atos.
Concretamente isto traduz-se por uma atenção na escuta obediente, para que o amor circule livremente entre nós. Assim no capítulo sobre a humildade, São Bento diz : “O terceiro grau da humildade consiste em que, por amor de Deus, se submeta o monge, com inteira obediência ao superior, imitando o Senhor, de quem disse o apóstolo: Fez-se obediente até à morte” (RB 7, 34). Mais uma vez é questão do mistério pascal. O quarto grau completa o anterior, mostrando como isso exige paciência e perseverança ; trata-se de “não se entregar, nem ir embora” até ao fim, para saborear a vida verdadeira.
Isto se vive sobretudo no quadro da liturgia, em que a alternância regular do dia e da noite reatualiza na nossa vida o mistério pascal de Cristo: ao pôr do sol com as Vésperas, em que Cristo morre na cruz, na noite escura das Vigílias com o combate que se passa nos salmos, ao nascer do sol com as Laudes, manhã da ressurreição, e ao longo das Horas Menores seguindo o caminho do sol e a paixão do Filho do Homem.
Isto também interfere igualmente no comportamento para com os doentes. Estes nos lembram a fragilidade da existência e a proximidade da última passagem. São Bento diz para reconhecer neles o Cristo, o Cristo sofredor e moribundo, e, no entanto mesmo nessas circunstâncias, testemunha constante da vida que está em Deus.
Do mesmo modo, São Bento pede que se tenha cuidado com as crianças, os hóspedes, os peregrinos, os pobres; neles reconhece-se o Cristo pobre, confrontado com a fragilidade da existência.
Para mostrar ainda mais esta relação com Cristo no seu mistério da Páscoa, a Regra prevê em diversas circunstâncias o rito do lava-pés. Na acolhida dos hóspedes, e também cada semana, quando os monges entram no serviço do refeitório e da cozinha, mesmo se esse rito não se faz mais hoje. Esta dimensão do serviço manifesta a participação na morte e na ressurreição de Cristo. O rito do lava-pés tem todo o sentido em ligação com a refeição eucarística, como Jesus fez na véspera da sua paixão.
O monge torna-se pobre de qualquer pertença pessoal. No dia de sua profissão, faz doação de tudo o que possui; sobretudo de si mesmo, pois está dito que a “partir desse dia nem sobre o próprio corpo tem poder” (RB 53, 25). É por isso que em certas épocas, a liturgia da profissão simbolizava a morte espiritual do novo candidato, que, prostrado, ficava coberto com um pano preto. Ou então, o professo ficava coberto com um capuz durante três ou oito dias, antes de se descobrir e aparecer como testemunha da ressurreição, segundo o modelo da liturgia do batismo. Lembremos também o “encorajamento” que outrora os monges trapistas faziam quando se encontravam “Irmão, caminhemos para a morte”, ou então, aqueles monges que, cada dia, cavavam o seu túmulo para experimentarem a vaidade das coisas que passam. Estes costumes já não se praticam hoje, pois o colocou-se o polo da vida e da ressurreição no seu devido lugar. Mas a vida monástica tem que vigiar para manter o equilíbrio das duas dimensões do mistério pascal. Uma nunca vai sem a outra.
No fim da Regra São Bento, resume-se assim a vida dos monges:
“Nada absolutamente anteponham a Cristo, que nos conduza juntos para a vida eterna” (RB 72, 11-12).
A morte e a vida só se compreendem bem, na vida monástica, à luz do mistério pascal de Cristo.

Eucaristia e serviço, missão de acolhimento nos nossos mosteiros
2
Lectio divina
Humberto Rincón Fernandez, OSB
Abade do mosteiro da Epifania, Guatapé (Colômbia)
Eucaristia e serviço, missão de acolhimento nos nossos mosteiros
Jn 13, 1-15
“Amou-nos até ao fim” (Jo 13,1)
O relato do lava-pés não evoca nada do que costumamos chamar de “Eucaristia”, resumido no gesto e nas palavras de Jesus sobre o pão e o vinho. No entanto no 4º Evangelho, a última Ceia, portanto a Eucaristia, é o lava-pés.
Dponto aos especialistas o cuidado de aprofundar o debate sobre o que aconteceu, realmente, durante a Ceia : ato sacramental sobre o pão e o vinho, ou ato profético do lava-pés, como o faziam os escravos? Li que parece que no começo da vida da Igreja os dois gestos estavam ligados, e que foi, pouco a pouco, por razões de facilidade que se privilegiou o do pão e do vinho.
O 1º versículo do cap. 13 do Evangelho de João é muito solene e muito profundo.
(13,1) “Antes da festa da Páscoa sabendo Jesus que chegara a sua hora, de passar deste mundo para o Pai, ele que amou os seus que estão no mundo, amou-os até ao fim.”
Estamos antes da festa da Páscoa, e Jesus prepara a celebração da sua Páscoa. Ele sabe que chegou a hora de passar deste mundo para o Pai, quer dizer a hora da sua glorificação, a hora de se manifestar definitivamente, de manifestar totalmente o Pai, de manifestar sua glória, seu ser, sua essência.
Jesus tinha mostrado ao longo de sua vida o seu amor pelos seus, mas agora, nesta hora, leva o amor até ao extremo, até ao fim, até às últimas consequências (até à morte, a morte de cruz, até à morte de um escravo crucificado).
(13,2) “Durante a refeição… (13,4) Jesus levanta- se da mesa, tira o manto, toma uma toalha com que se cinge (13,5) derrama água numa bacia e começa a lavar os pés de seus discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido.”
“Levanta-se da mesa”, quer dizer abandona o lugar que é o seu, o lugar de honra. Já tinha dito isso num outro texto do Evangelho. Quem é o maior? O que está à mesa, ou aquele que serve? Não é o que está à mesa? Ora eu estou no meio de vós como aquele que serve. (Luc 22, 27)
“Tira o manto”. São Paulo em Fil. 2, 6 e seguintes explica assim:
”Ele que tinha a condição divina, não considerou o ser igual a Deus como algo a que se apegar ciosamente. Mas esvaziou-se a si mesmo, assumiu a condição de servo, tornando-se semelhante aos homens; E achado em figura de homem, humilhou-se e foi obediente até à morte e morte de cruz.”
“Começa a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido” o que significa que faz um trabalho próprio de escravo e dos servidores da casa, ou das mulheres, nessa sociedade patriarcal em que os homens ocupam o primeiro lugar. E na lógica do hino dos Filipenses, é este abaixamento que o faz Senhor, que o leva a ser exaltado, a receber o Nome, que está acima de todo o nome. Quer dizer que o leva a ser reconhecido como Filho de Deus, que Deus age assim com os homens, e que tal é o amor de Deus pelos seus.
(13,8) “Pedro diz-lhe: jamais me lavarás os pés”! Jesus respondeu-lhe: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo” (13,9). Simão Pedro respondeu-lhe: “Senhor não apenas os meus pés, mas também as mãos e a cabeça”.
Pedro, por respeito pelo mestre, ou talvez por falsa humildade, ou talvez por um cálculo premeditado (se me deixar lavar, ele vai-me pedir para fazer a mesma coisa), recusa o gesto de Jesus. É muito engajamento! Mas diante da ameaça de Jesus, anunciando-lhe que, sem isso, não terá parte com ele, quer dizer não teria sua amizade e perderia a relação de mestre-discípulo, reage e pede para ser todo lavado. Este gesto amoroso do Senhor parece tocá-lo profundamente.
(13,12) “Depois que lhes lavou os pés, retomou o seu manto, voltou à mesa novamente e lhes disse: “Compreendeis o que vos fiz? Vós me chamais de Mestre e de Senhor, e dizeis bem, pois eu o sou (13,13). Se, portanto, eu, o Mestre e o Senhor vos lavei os pés, também deveis lavar-vos os pés uns aos outros (13,14). Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, também vós o façais” (13,15).
Detalhe notável: Jesus retoma o manto, mas sem tirar a toalha com que se tinha cingido. Mesmo à mesa, continua servo, escravo. O fato de ser Senhor e Mestre, não o dispensa de continuar servo.
Depois vem a ordem que corresponde ao relato do pão e do vinho: “Fazei isto em memória de mim”. Esta expressão é utilizada ao mesmo tempo para o lava-pés e para a refeição da Ceia, a Eucaristia.
(13,14) Se vos lavei os pés, eu o Senhor e o Mestre, vós também deveis lavar os pés uns aos outros, pois é um exemplo que vos dou: o que eu fiz, fazei-o vós também.
Lavar os pés uns dos outros. Tal é o mandamento. Fazermo-nos escravos e servos do próximo, decorre da participação da Ceia do Senhor. Dar a vida, como ele fez, até às últimas consequências.
O capítulo continua com o anúncio da traição de Judas e da negação de Pedro. Desde o começo está bem presente a possibilidade de que aqueles que participam da Ceia possam trair e negar o Mestre. Para o Senhor, pouco importa o que possa acontecer; ele continua a convidar-nos para a sua mesa, a mesa do seu amor e do não se admirar com nada.
Quero voltar ao outro gesto que nos é mais familiar: o do pão e do vinho. Jesus faz uma declaração sobre esses dois elementos. Identifica-se com eles: esse pão sou eu, que me dou por vós. Faço-me pão para ser rompido, partilhado, distribuído. Sou a vida entregue, partilhada. O vinho deste cálice é meu sangue que vai ser derramado para celebrar uma nova aliança. Este vinho é meu sangue derramado, para dar uma vida nova.
E depois encontramos a mesma ordem do capítulo 13 “Fazei isto em memória de mim”. A realização deste ato sacramental em cada Eucaristia nos compromete tanto como o lava-pés. Comer o corpo do Cristo e beber o seu sangue compromete-nos a ser, uns para os outros, um corpo dado, sem nada reter, totalmente; ser sangue derramado engaja-nos a dar a nossa vida, gota a gota, pelos outros.
Estes dois gestos têm relação com a vida monástica. A participação na Eucaristia deve traduzir-se na vida concreta de cada monge e de cada monja, no serviço do lava-pés, simbolicamente não somente no acolhimento e serviço dos hóspedes, o que é mais fácil, mas no de qualquer irmão ou irmã com quem partilhamos o mesmo ideal de vida.
Esta coerência entre Eucaristia e vida, que nos é pedida no acolhimento dos outros, deve ser total, a começar no nosso mosteiro, na comunidade. Não pode haver acolhimento autêntico do hóspede, sem uma vida fraterna verdadeira e autêntica no interior da comunidade monástica. Quer queiramos ou não, os hóspedes percebem isso quando visitam nossos mosteiros. Muitas vezes só têm contato com o porteiro, o hospedeiro, ou eventualmente um acompanhante espiritual, mas deixam nas mensagens escritas que fazem a gratidão para com todos os monges pelo testemunho de vida que dão, sua atenção, a comunhão fraterna, e também, mais fundamentalmente a relação com o Senhor, que perceberam nas celebrações e nas atenções discretas que receberam. Quando acontece serem testemunhas de divisão, de inveja, de maledicência, de incoerência de vida, percebem-no também. Não ousam expressar isso por escrito, mas falam e guardam um sabor amargo. É um contra testemunho.
Quando falamos de Eucaristia, falamos de comunidade. É a comunidade que celebra a Eucaristia. Uma pessoa sozinha, mesmo sendo padre, não pode celebrar uma Eucaristia (de fato a Apresentação Geral do Missal Romano (nº 252) exige que haja pelo menos um ministro para assistir o padre; somente em casos excepcionais e justificados que se pode celebrar sem um ministro, ou sem um fiel (nº 254). O Ite missa est é um envio no plural; isto significa que a missão que decorre da participação na Eucaristia, não é uma missão privada. Isto aplicado ao nosso tema significa que o hospedeiro ou a hospedeira que representa a comunidade não age como se o cargo fosse coisa sua. Isto quer dizer, aquele que está de serviço, que age em nome da comunidade, e não à margem, ou pior contra a comunidade. Em consequência, há também uma exigência para todos os monges e monjas: como assistem ao hospedeiro (a), atentos ao que fazem e disponíveis para dar uma ajuda?
O serviço da hospedaria é uma missão dada pelo superior ou superiora da comunidade. O hospedeiro (a) deve estar em comunhão com eles e mantê-los a par do que se passa na hospedaria.
São Bento, quando fala do acolhimento dos hóspedes, no cap.53 da Regra, nos envia ao primeiro gesto que comentamos: o do lava-pés. No Evangelho, o Cristo, o Mestre, lava os pés dos seus discípulos,seus irmãos, e convida-nos a lavar os pés mutuamente, como irmãos, a fazermo-nos escravos e servos do próximo, como ele fez. Na suaRegra, São Bento sublinha um ponto muito interessante: o hóspede não é somente um irmão, mas o Cristo em pessoa, que vem nos visitar.
“Que se recebam todos os hóspedes, que se apresentam, como ao próprio Cristo, pois ele mesmo disse: fui hóspede e me recebestes.”
É uma referência ao cap. 25 do Evangelho de São Mateus (Mt 25, 31-46) sobre o Juízo Final, aonde está dito: “Em verdade vos digo, cada vez que o fizestes a um destes irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (v. 40).
Isto significa para São Bento, que não é somente o sacramento do Corpo e do Sangue que envia para a missão do serviço do acolhimento no mosteiro, mas também o sacramento do irmão. Este tema volta muitas vezes na Regra : o irmão não somente representa o Cristo, mas é o próprio Cristo que nos vem visitar; é por isso que se deve ter o maior cuidado.
Creio que todos nós fazemos esta experiência: os hóspedes não são perturbadores, uma coisa que atrapalha e que devemos suportar na nossa vida monástica. São verdadeiras testemunhas do que fazemos e do modo como o fazemos, testemunhas da autenticidade do que fazemos, às vezes distraidamente ou como uma rotina. Eles mesmos nos dão o testemunho da força de sua fé e do esforço de coerência que tentam ter nas suas vidas, do modo como lutam na sua vida para ficarem fiéis, levando uma vida corajosa, lutando para ganhar o pão de cada dia, para gerirem bem sua casa, para serem responsáveis no trabalho, que não abandonam por qualquer motivo, etc.
Para concluir, gostaria ainda de citar São Bento. Nesse mesmo cap. 53, ele dá indicações sobre a escolha do hospedeiro. Como em todas as coisas no mosteiro, este serviço vive-se no temor de Deus, quer dizer na presença de Deus. Na fé, eu sei que minha vida está sempre presente a seus olhos. Não para me vigiar e ver minha falha, para me castigar, mas para me amar com seu olhar e seu amor miseri- cordioso. Sou amado por Deus e minha vida irradia esse amor nas minhas relações com os outros.
Vivemos tempos difíceis na Igreja, com o problema dos abusos sexuais sobre menores. Não vou abordar aqui essa questão, que não é do meu campo, mas gostaria de aproveitar o que o Papa desenvolve a esse respeito em várias de suas intervenções: o abuso sexual é precedido por abuso de poder e abuso de consciência.
O monge ou a monja representam uma realidade muito especial aos olhos dos fiéis e das pessoas que vêm ao mosteiro. Consideram-nos mais ou menos como santos. E isto cria em nós, inconscientemente a ideia que somos superiores aos outros. Isso significa ter poder. E a partir daí podemos cair facilmente no abuso de poder. Podemos aproveitar dos outros, especialmente dos hóspedes: para cumular carências afetivas, para ter amigos cheios de solicitude fora do mosteiro, para conseguir, de maneira indelicada, vantagens econômicas para o mosteiro, para que nos façam presentes, ou que nos venerem, ou o que é pior ainda, para desviar, em nosso proveito, os dons que os hóspedes deixam para o mosteiro.
Em tudo isto, cegos sobre o abuso de consciência, achamos facilmente razões para motivar nosso comportamento. Sou hospedeiro (a), tenho de ser amável com nossos visitantes, não posso ser frio, ou seco com eles… Não faço nada de mal (e nada de bem também)… Eu também preciso de compensações… Trabalho bastante para merecer uma recompensa, etc.
Lembremo-nos do que disse: nosso serviço de acolhimento está fundamentado na Eucaristia. Acolhemos e servimos aqueles que vêm ao mosteiro, pois queremos oferecer-lhes o humilde serviço de Cristo na última ceia, queremos dar nossa vida, como Ele. Nós acolhemos o hóspede e todos os visitantes, pois é a pessoa mesmo de Cristo que vem a nós. E tudo isto o fazemos com o coração puro, sem outras intenções, pois trata-se do próprio Cristo, nosso Senhor, que deu sua vida por nós, morrendo e ressuscitando.
A morte de Santo Antão
3
Meditação
“Ele olhava como amigos os anjos que vinham a ele”
A morte de Santo Antão
Santo Atanásio
Antão tinha ido como seu costume, visitar os mosteiros da montanha que está além do deserto; tendo sido avisado pela Providência que seu fim estava próximo, disse aos irmãos: “É a última visita que vos faço, ficaria muito admirado que pudéssemos nos ver ainda neste mundo. O tempo da minha partida chegou, pois que tenho quase 105 anos”. Seus discípulos ouvindo isto puseram-se a chorar; abraçaram o ancião nos seus braços e cobriram-no de beijos; ele, semelhante a alguém que parte de uma cidade estrangeira para ir para a sua pátria, falou-lhes com voz alegre; exortou-os a nunca relaxar o trabalho de ascese, a nunca desanimar nos exercícios de piedade, a viver como se cada dia fosse o último de suas vidas.
Os irmãos queriam forçá-lo a ficar com eles e aí consumar seu martírio, mas ele não consentiu; voltou à montanha do deserto onde morava e poucos meses depois ficou doente. Chamou os dois discípulos que moravam com ele, para o servirem na sua velhice e disse-lhes: “Vou seguir o caminho de meus pais, como diz a Escritura, pois vejo que o Senhor me chama; enterrai meu corpo, escondei-o debaixo da terra e guardem fielmente esta recomendação; que ninguém fique sabendo onde é o lugar em que está o meu corpo, exceto vós. No dia da ressurreição dos mortos, recebê-lo-ei incorruptível das mãos do meu Salvador. Repartam assim as minhas vestes: deem ao bispo Ataná- sio duas peles de ovelha com a manto sobre o qual costu- mava dormir; ele deu-me isso novo, e ficou velho com o uso. Deem ao bispo Serapião a outra pele de carneiro; quanto a vocês guardem minha túnica de pelo. Adeus meus filhos, Antão vai-se e desde agora não está mais convosco”. Depois de ter pronunciado estas palavras os dois discípulos beijaram-no. Antão recolheu os pés e olhando como amigos os anjos que vinham ao seu encon- tro, e cuja presença o enchia de alegria, rendeu o espírito e foi ao encontro de seus pais.
Os dois discípulos executaram fielmente a ordem recebida, enterraram-no na terra bem fundo; e até hoje ninguém sabe aonde está escondido, exceto esses dois religiosos. Quanto àqueles que receberam as peles de cordeiro, que ele lhes legou, mais o manto usado, conser- vam isso como relíquias, como objetos infinitamente preciosos, pois olhando para eles, é como se vissem ainda Antão, e quando usam essas coisas parece-lhes que carregam com eles as lições e os conselhos de Antão.
O cemitério do mosteiro beneditino de Thiên Binh
4
Testemunhos
Nathalie Raymond
O cemitério do mosteiro beneditino
de Thiên Binh, aberto à vida
Original, em relação à tradição beneditina, sem o ter premeditado, o cemitério do mosteiro de Thiên Binh formou sua configuração atual ao longo dos anos, em resposta a necessidades concretas. É aberto a outras congregações religiosas masculinas e femininas e até a leigos católicos, e esteve no coração de uma reflexão comunitária sobre sua função espiritual.
Um monaquismo missionário…
O mosteiro foi fundado em 1970 pelo P. Thadée, vindo de Thiên An, mosteiro que tinha sido fundado pelo mosteiro Pierre-qui- Vire no final de 1930. Desde o começo, a ideia de um monaquismo missionário esteve sempre presente, sobretudo no contexto político muito difícil de guerra. Tratava-se de responder às necessidades das populações desfavorecidas e desenraizadas, vindas das regiões rurais, por causa do conflito, e ao mesmo tempo, dar uma formação aos jovens de origem modesta, graças a uma escola técnica.
Hoje a situação econômica e política é muito diferente, mas continuam a existir populações desfavorecidas e desenraizadas, vindas das áreas rurais à procura de uma vida melhor na grade cidade de Saigon. O mosteiro continua a esforçar-se para responder a suas necessidades urgentes, não mais no setor da educação, mas no da saúde. O mosteiro tem um dispensário, aonde os pobres são tratados pela medicina tradicional e aonde é distribuída gratuitamente água potável, de uma fonte que graças a Deus, nunca secou.
Esta preocupação pela saúde física caminha junto com a da saúde espiritual. Os monges beneditinos acolhem e acompanham os que precisam, rezam por eles, celebram missas por eles; e são igualmente muito agradecidos para com seus benfeitores, graças aos quais podem manter essas atividades.
Sem que a vida beneditina seja afetada, o mosteiro tem trocas muito dinâmicas com o exterior, em dons múltiplos e recíprocos, geradores de vida. Mas os defuntos não estão excluídos desse processo.
… que inclui igualmente os defuntos.
Devido à relativa pouca idade do mosteiro, até agora morreram poucos monges, somente três, entre os quais o fundador, o P. Thadée, que morreu no dia 31 de Janeiro de 1995. No entanto, a questão da função espiritual do cemitério, colocou-se a partir de fatos concretos que se impuseram ao P. Thadée: os primeiros a ser enterrados no cemitério foram membros de uma família pobre, vítimas de uma bomba que explodiu no fim dos anos 70. Esta situação não podia deixar insensível o P. Thadée, sempre muito preocupado em responder às urgências dos mais necessitados. Depois, as irmãs de uma congregação vietnamita (As amantes da Cruz) pediram autorização para enterrar ali suas irmãs defuntas, e depois outras congregações de religiosos e religiosas fizeram o mesmo pedido. E seguiu-se o acolhimento de leigos católicos defuntos. Houve um motivo muito prático para estes pedidos vindos do exterior, a falta de espaço na metrópole de Hô-Chi-Minh-Cidade. É impossível aumentar, ou até manter cemitérios, além de que isso não entra nas prioridades do governo comunista. A cremação é muito espalhada no país e a única solução diante da falta de espaço, mas é difícil de ser aceita por certos católicos, daí a procura de cemitérios.
A alegria de poder repousar em paz, ao lado de um lugar de oração, foi outro motivo muito compreensível para católicos fervorosos, religiosos, ou não. Isto dá ao cemitério de Thiên Binh uma fisionomia muito original no mundo beneditino (tanto mais que o cemitério está fora da clausura): um cemitério inter-congregacional, masculino e feminino, aberto igualmente a leigos. Isto levou a comunidade a esclarecer, progressivamente, a função espiritual do cemitério. Esta reflexão foi feita ao longo de vários anos, à luz do Espírito Santo, e levou a descobrir nessa situação particular, uma espécie de prolongamento dos contatos múltiplos que o mosteiro mantem com o exterior. Um prolongamento inscrito na comunhão dos santos, celebrada pela Igreja e ao mesmo tempo na memória dos antepassados, tão cara aos Vietnamitas. De fato, é muito importante para os vivos, na cultura vietnamita, ter consciência de tudo o que devem àqueles que os precederam, e honrá-los.
A diversidade de “ocupantes” do cemitério reflete também a diversidade da Igreja, e é bom imaginar que esses encontros com o exterior, começados quando estavam vivos, continuam depois da morte. É bom ver nisso a continuação da atividade missionária, tão cara ao fundador, e aos seus sucessores. Além disso, quem sabe o que o mosteiro deve a esses antepassados, que agora estão na luz de Deus? Em troca de um pedaço de chão, quantas graças obtidas pela intercessão desses santos para a continuação das atividades realizadas por meio deles e em favor dos vivos?
La diversité des « occupants » du cimetière reflète aussi la diversité de l’Église et il est bon d’imaginer que l’échange entre les moines et l’extérieur, initié de leur vivant, se poursuit au-delà de la mort. Il est bon d’y voir une poursuite de cette activité missionnaire si chère au cœur du fondateur et de ses successeurs. En outre, qui sait ce que le monastère doit à ces ancêtres qui sont désormais entrés dans la lumière de Dieu ? En échange d’un lopin de terre, combien de grâces obtenues par l’intercession de ces saints pour la poursuite des activités réalisées par et en faveur des vivants ?

A celebração do ciclo vida-morte-vida
Em ação de graças por esta comunhão entre vivos e defuntos, é celebrada uma missa, cedinho, no cemitério sempre a 2 de Novembro, quando a Igreja comemora os fiéis defuntos. Nesta ocasião, as famílias religiosas e biológicas das pessoas enterradas no cemitério, juntam-se à comunidade dos monges para prestar homenagem aos seus antepassados na oração e na celebração da Eucaristia. A fumaça do incenso acompanha estas orações e os pauzinhos continuam a queimar em cada túmulo. É um momento muito importante de comunhão e de recolhimento, que torna palpável o mistério da vida e da morte inscritas no mesmo ciclo.
Este ciclo vida-morte-vida materializa-se de um outro modo no cemitério. O visitador de fora verá, com surpresa, que aí crescem muitas plantas: flores, ou plantas decorativas, em cima dos túmulos, nos vasos de terra, mas igualmente arbustos, pequenas palmeiras, e numa parte do cemitério açafrão, com cujas raízes os monges fazem medicamentos. Esta vegetação faz também do cemitério um lugar de refúgio para muitos pássaros. Trata-se de um espaço que materializa o fato que a vida continua e que é mais forte que a morte, o que está no coração da nossa fé.
Este cemitério ao longo das circunstâncias (nas quais se pode ver a mão de Deus) impôs-se uma espécie de prolongamento da atividade missionária e do acolhimento do mosteiro no coração da vocação monástica beneditina. Inscrevendo-se de modo particular e aberta ao mesmo tempo na Igreja e no ciclo vida-morte-vida, é igualmente um lugar que reflete a comunhão dos santos. Demos graças a Deus por todos os frutos que esse lugar produz nos corações.
O cemitério dos sete monges de Tibhirine
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Testemunhos
Monique Hébrard, Jornalista
O cemitério dos sete monges de Tibhirine
A silhueta dos sete monges trapistas vê-se na penumbra da noite do dia 26 para o dia 27 de Março de 1996. Essa última imagem do belíssimo filme de Xavier Beauvois deixava-nos na incerteza : estariam reféns num lugar escondido? Teriam sido assassinados? Se foi o caso, onde estavam os corpos? Sabe-se como é difícil viver um luto quando os corpos das vítimas de um acidente de avião, ou de um crime, não são encontrados.
A penumbra da incerteza só foi levantada – numa visão horrível – quando no dia 30 de Maio foram encontrados os corpos… de fato as sete cabeças decapitadas.
Os restos dos sete monges repousam agora no cemitério do mosteiro Notre Dame do Atlas, lugar aonde viveram. Milhares de pessoas de todos os países vêm aí recolher-se, rezar. Cristãos, mas também, e sempre mais jovens muçulmanos à procura de um sentido para a vida.
Esse lugar me falava muito, mesmo sem nunca ter estado lá, por isso agarrei a possibilidade de ir aí, quando da beatificação dos 19 mártires da Argélia, no dia 8 de Dezembro de 2018, mártires desse “anos negros” da guerra civil argelina, que fez milhares de mortos.
A partir do mosteiro passa-se uma entrada, e desce-se no meio de árvores, passando diante das fontes que continuam a alimentar a exploração agrícola. Depois chega-se a uma clareira cheia de flores de lavanda e de rosas, impecavelmente tratada por Youssef e Samir que continuam a trabalhar na exploração agrícola. Sete placas com sete nomes por ordem de chegada ao mosteiro. O primeiro foi irmão Lucas, o médico que encarnou tão bem a fraternidade universal tratando todos os que se apresentavam: gente da aldeia e também feridos do GIA.
Os jardineiros estão conosco. O modo como olham esta terra tão bem trabalhada, que eles cuidam, mostra o amor repleto de respeito que têm por este lugar. Momento forte de silêncio! Grande emoção, mas também paz profunda e mistério!
Tibhirine significa jardim. Jardim do paraíso, cultivado com amor, no meio de árvores frutíferas. Jardim de oliveiras, lugar de sofrimento e de morte. Como em oração há grupos que leem muitas vezes o testamento de Christian de Chergé. E é-se penetrado por essa mensagem de fraternidade e de comunhão que anuncia a Vida e o Amor mais fortes que o ódio devastador.
Quando se chega à esplanada, é difícil sair do silêncio desta viagem espiritual.
Quando estávamos em Tibhirine era o tempo do Advento. Na capela feita na antiga adega da exploração agrícola, havia um presépio já armado com sete personagens que esperavam a vinda do Salvador.
Koningsakker, o cemitério natural de uma comunidade monástica
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Testemunhos
Madre Pascale Fourmentin, OCSO
Abadessa de Koningsoord, Arnhem (Holanda)
A natureza entre céu e terra
Koningsakker, o cemitério natural
de uma comunidade monástica
“Koningsakker” é o nome do cemitério natural, ou ecológico, ligado à Abadia cisterciense Koningsoord nos Países Baixos. Vendo bem, o nome do cemitério e o nome da Abadia começam com a mesma palavra : Koning , “Rei” em neerlandês. Não é tanto o nome, em si, que importa, mas o fato de ser o mesmo nome. Isto expressa o laço que existe entre o cemitério e a Abadia.

Mas o que é que é um cemitério natural? Por que uma Abadia cisterciense se lançou na exploração de um tal cemitério? É compatível com a vida monástica? São algumas perguntas que vêm esponta neamente ao espírito, quando se ouve falar de tal projeto. Este artigo quer dar alguns elementos de resposta, por um lado, explicando o conceito de cemitério natural, por outro mostrando o desenvolvimento do projeto.
1. A natureza, última morada na terra
Talvez tenhamos esquecido, mas a natureza é, sem dúvida, o lugar mais natural em que o homem sempre foi enterrado. Evidentemente a necessidade de ritos, de lugares, de símbolos, depressa levou ao desenvolvimento de lugares específicos, aonde o homem com sua religião e sua cultura se expressou de formas diferentes. A situação atual dos cemitérios citadinos, “superpovoados” de caráter religioso, ou leigo, o fechamento de muitas igrejas paroquiais, a necessidade para os parentes dos defuntos de renovar o uso do espaço por duração determinada, as mudanças das famílias para o estrangeiro, ou para outras regiões do país, evidentemente o aumento do número de cremações levaram a repensar o modo de enterrar os nossos mortos. O aparecimemnto do cemitério natural situa-se em linha reta com estas reflexões. Apareceram primeiro na Inglaterra e depressa chegaram aos Países Baixos. Este movimento cresceu muito nos últimos dez anos.
O princípio deste tipo de cemitério é muito simples, trata-se de enterrar um defunto na natureza, de entregar o corpo à natureza. Não há nenhum sinal distintivo, nenhuma pedra, nenhuma cruz, nenhuma cerca. O princípio é que a natureza vai cuidar do túmulo. A natureza que é viva, vai continuar a desenvolver-se. Vê-se já aqui o laço estreito entre a vida e a morte, pelo menos no plano natural. Para levar mais longe o laço entre vida e morte, este projeto de cemitério tem também por fim participar no desenvolvimento e na preservação da natureza. De fato, certos cemitérios têm também como objetivo concreto, e é o caso de Koningskker, de “criar” a natureza. Koningsakker transformou 17 hectares de campo de milho em reserva natural, em harmonia com o meio ambiente. Esta reserva natural participa do desenvolvimento da fauna e da flora na nossa região. Nos Países Baixos, a preocupação ecológica está muito presente e a gestão do território centrada na preservação da natureza.
Concretamente, uma pessoa que queira ser enterrada no nosso cemitério escolhe o lugar. Este lugar fica no sistema GPS. Por isso é sempre possível encontrar o lugar do túmulo, mesmo no meio de um campo de urzes. A pessoa compra o direito de ser enterrada nesse lugar. Este direito é por tempo indeterminado. Ficará sempre ali, não vai acontecer nada com seu túmulo. Quando todos os túmulos forem vendidos, fica sempre uma reserva natural. Depois do enterro, os parentes podem escolher pôr um sinal de madeira com o nome do defunto gravado. Este sinal, como tudo o que é enterrado com o defunto, é biodegradável.
Além do aspecto ecológico, o aspecto humano tem uma grande importância no projeto. O acompanhamento das pessoas é essencial ao longo de todo o processo. Além de uma presença constante no acolhimento do cemitério, todo o encaminhamento desde a escolha do lugar, até ao enterro, e pelas visitas dos parentes nos anos seguintes, tudo é cuidadosamente acompanhado por um pessoal competente e especializado. Este pessoal está ali para escutar, acompanhar, aconselhar. O cuidado da natureza e o cuidado das pessoas são uma preocupação constante neste tipo de projeto.
2. O surgimento de um cemitério

Como chegamos a este projeto? Foi fruto de um lento processo comunitário. Dois elementos se cruzaram para chegar a esta pista. O primeiro foi a preocupação de guardar uma zona de silêncio e de natureza à volta da Abadia. A comunidade tinha mudado de lugar há 10 anos, por causa do crescimento da cidade em que a Abadia estava antes. Não queríamos voltar a viver esse mesmo tipo de cenário, o que não é muito fácil num país com forte densidade populacional. Os campos de milho vizinhos da nossa Abadia eram um risco para a nossa solidão. Surgiu a oportunidade de comprar esse terreno, e vimos nisso um apelo. Ao mesmo tempo a nossa economia monástica estava num desequilíbrio estrutural, que exigia uma solução. Eis os ingredientes de base do projeto. À primeira vista a ideia de fazer um cemitério parece esquisito. E depois nós nem sabíamos bem do que estávamos falando. Mas pouco a pouco nos informamos, visitamos outros lugares aonde já existia esse tipo de projeto, dialogamos juntas sobre a possibilidade. Depois das primeiras reações de rejeição diante da ideia de morar ao lado de um cemitério, surgiram outros argumentos: Laudato Si, a ecologia, uma nova relação com a morte e com os modos de enterrar, a partilha da nossa propriedade, “ter sempre a morte diante dos olhos”, como dia Regra de São Bento no cap. 4, o testemunho da nossa fé na ressurreição, e finalmente, para nós cistercienses, a ligação contemporânea com a terra e sua gestão. Também tivemos de refletir sobre nossa identidade católica, no coração de uma região protestante. O cemitério não é um cemitério católico, tal como nossa hospedaria que é aberta a todos. No entanto afirmamos claramente nossa identidade cristã e católica. As pessoas que querem ser enterradas aqui têm de respeitar isso, tal como os hóspedes têm de respeitar o nosso modo de agir na hospedaria. Apesar do mundo altamente secularizado em que vivemos, as pessoas são sensíveis ao nosso testemunho por meio deste projeto. Para eles e para suas famílias é um modo de entrar em contato com a Abadia.
Koningsakker abriu suas portas, se se pode dizer assim, no dia 1º de setembro 2019. Em todo o país há um verdadeiro interesse por esta forma nova de cemitério e pelo processo para o pôr em prática. Isto confirmou a escolha que fizemos. No entanto precisa-se agora acompanhar, de perto, este projeto, ver o que acontece, adaptar a fórmula aos pedidos recebidos e aos nossos objetivos. A comunidade viveu uma experiência muito construtiva. Vivemos isto como um testemunho de nossa fé na ressurreição, no coração de uma posição ecológica, contemporânea. Trabalhamos em colaboração com o pessoal do setor. O cemitério é gerido por leigos, mas nós asseguramos uma presença discreta no local. Rezamos particularmente pelos que estão enterrados no nosso cemitério. Embora pareça paradoxal, o desenrolar deste processo, que foi pesado, vivificou a nossa vida comunitária e nos uniu à volta de um projeto inovador, arriscado, mas que já está dando frutos.
A empresa de caixões de New Melleray
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Testemunhos
Dom Jean-Pierre Longeat, OSB
Presidente da AIM
A empresa de caixões de New Melleray
Uma maravilha,[1] mas também quanto trabalho no belíssimo terreno do mosteiro de New Melleray, perto de Dubuque no estado de Iowa, nos Estados Unidos, com cerca de 1376 hectares de mata e de terras agrícolas! Hoje menos numerosos e envelhecidos do que no passado, os monges continuam a aproveitar do lugar, mas tiveram de procurar o que seria suscetível de produzir rendimentos suficientes, sem ser esmagados pelo peso do trabalho.
O tempo em que a Abadia de New Melleray tinha 150 monges vivendo do trabalho de uma fazenda diversificada, com vacas leiteiras e porcos, passou há mais de uma geração. Ao longo dos últimos anos a Abadia apoiou-se nas doações dos hóspedes, das aposentadorias dos monges mais velhos, da venda de soja e milho biológicos, mas tudo isso junto não cobria o conjunto das despesas anuais.

New Melleray não é a única Abadia a ter de enfrentar tais exigências econômicas. É verdade, a vida monástica beneditina considera o trabalho como parte integrante do seu carisma. Mas com o acento sempre mais colocado na tecnologia e na internet, sobre normas de segurança e imperativos de lei, a noção de trabalho mudou e os monges tiveram de se adaptar.
A comunidade de Melleray teve de procurar um modo de ganhar a vida compatível com a vida monástica. Os monges votaram o fim de sua empresa de alimentação animal, em parte porque não lhes deixava bastante tempo para a vida contemplativa. Havia um sentimento de insatisfação em alguns que diziam: “eu não entrei no mosteiro para trabalhar numa fábrica”.
Os monges pensaram então em criar uma fábrica de móveis, mas um homem de negócios, amigo, dissuadiu-os. Mais ou menos na mesma época, um agricultor vizinho que tinha descoberto o interesse do comércio de caixões, pediu-lhes para fazerem esse tipo de produto nos ateliers do mosteiro. A coisa parecia interessante e instalou-se uma colaboração, depois que a comunidade deliberou sobre a proposta. Parecia um trabalho indicado para monges, pois para eles, segundo São Bento, cada hora do dia deve ser recebida como a mais impor tante, a da passagem para o Pai.
É um leigo que administra a fábrica de caixões para os trapistas e supervisiona os trabalhadores: os monges que colaboram começam às 9,30, fazem uma pausa para a oração e a refeição do meio-dia, retornam ao trabalho duas horas mais tarde; e largam martelos e serras às 16h30, antes de irem para as vésperas.
Uma pessoa leiga é também empregada como “conselheira das famílias que procuram os caixões trapistas”. Ela encontra pessoas de todo o país no momento importante de suas encomendas: é um contato muito rico em que se pode ver o Espírito Santo trabalhando, por meio dos monges, os clientes e os empregados, escutando a vida e as histórias do fim de vida no seio dessas famílias.

No mosteiro, tudo é vivido em função do serviço de conforto e consolação de que as famílias precisam. Cada caixão é feito num espírito de oração contemplativa. Cada caixão é benzido depois da compra, para marcar o começo da última viagem.
Cada pessoa que pediu um caixão, ou uma urna trapista, é citada durante a missa, na Abadia. Os nomes dos defuntos estão inscritos num livro comemorativo e uma árvore foi plantada na mata monástica situada ao lado de New Melleray ; é um memorial vivo para o defunto. Uma carta é enviada às famílias para lhes dizer como podem ajudar o ministério dos monges, assim como uma carta por ocasião do 1º aniversário da morte. Os monges da Abadia New Melleray rezam pelos defuntos e por suas famílias. Todas as famílias são convidadas a participar na missa comemorativa, a visitar o atelier e a informar-se sobre a vida e as atividades da comunidade. Todos os clientes são convidados a ter contato com os monges, cada vez que o desejarem.
Cada caixão é entregue com uma cruz, que é personalizada com o nome gravado e as datas do defunto. Esta lembrança familiar é um meio de honrar cada dia a memória de um ente querido.
Os caixões feitos em madeira de lei maciça, vêm da natureza e voltam à natureza. É um gesto de reconhecimento pelos dons de Deus. O atelier de New Melleray não se contenta em fornecer um produto, mas vive esse trabalho como uma participação na obra de amor e da misericórdia de Cristo.
[1] Este artigo foi escrito a partir de várias fontes de informação.
As lições de vida de Paulo diante da doença e da morte
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Abertura ao mundo
Prof. Roger Gil, neurologista
Diretor de um Espaço de Reflexão Ética (França)
As lições de vida de Paulo
Diante da doença e da morte
O New England Journal of Medecine (NEJM) tem como vocação publicar artigos ligados ao que se pode chamar de lado científico da medicina, justamente aquele que tem por objeto as novidades no plano do diagnóstico, preventivo ou curativo. Mas acontece, de tempos em tempos, que esta revista se abra para realidades humanas e éticas da medicina. O exemplo mais famoso é, sem dúvida, o artigo de Henry Beecher publicado em 1966[1] que provocou uma tomada de consciência da medicina ocidental, apresentando um certo número de trabalhos científicos que relatavam pesquisas feitas sobre o ser humano, e que não respeitavam a dignidade da pessoa humana. Em 2016 o NEJM prestou-lhe uma grande homenagem[2] mostrando assim que a reflexão ética não é um freio para a pesquisa, mas condição para sua humanização.
Em Agosto de 2018, o NEJM publicou um artigo que trata do lado humano da medicina, contando uma história clínica intitulada “Lições de vida de Paulo diante da morte”[3].
Paulo é um rabino que morreu três anos depois de lhe ter sido diagnosticado um câncer do cólon já com muitas metástases. Tinha 64 anos quando dores abdominais levaram à descoberta de um câncer do cólon em estágio IV já espalhado. Fez uma colostomia (ânus artificial) por causa dos tratamentos mais inovadores que se seguiram e morreu 34 meses depois do diagnóstico. O autor do artigo, médico, e seu irmão, descreve três lições que Paulo deu aos seus, durante o tempo de vida que a medicina lhe proporcionou.
Olha para trás para aprender a viver voltado para o futuro
Paulo nunca tinha feito nenhum teste de câncer do cólon. Não lamentou a respeito disso nenhum arrependimento, e estava de acordo com a filosofia de Kierkegaard segundo a qual a vida deve estar voltada para o futuro, mas deve ser compreendida a partir do passado. Assim incentivou sua esposa e filhos a fazerem o exame do câncer. Sabia que não podia mudar nada daquilo que lhe acontecia, mas sabia que contando sua história, podia ajudar outros a não terem o mesmo destino que ele. Ajudou as pessoas que tinham medo de fazer o exame do câncer do colon, o desconforto do exame era passageiro, mas a recompensa durável.
Faz teu trabalho
Paulo, rabino, pertencia à corrente conservadora do judaísmo, um ramo entre os reformadores e os ortodoxos: tinha ideias de abertura e de inclusão, de respeito pela diversidade e pela fé dos outros. Apesar de sua doença, e mesmo quando passava por quimioterapias pesadas, permanecia a serviço de sua comunidade, assumia a presidência de cerimônias religiosas. Três meses antes de sua morte, oficiou o funeral de um membro de sua comunidade. E disse antes de morrer, esperava que pudessem fazer a mesma coisa por ele, quando da sua morte. E assim aconteceu.
Ter um objetivo
Por causa de sua doença o casamento de sua filha teve de ser adiado. Quarenta e oito horas antes das núpcias, foi hospitalizado com um sangramento intestinal. Reuniu todas as suas forças para estar presente algumas horas antes da cerimônia. Seus familiares próximos ajudaram-no a vestir-se e a juntar-se aos seus de cadeira de rodas. Falou então à família e aos amigos e disse-lhes que aquele fim-de-semana pertencia aos jovens esposos. E com seu jeito desarmante, encontrou as palavras para pôr cada um à vontade e pôs humor numa situação, que poderia ter sido vivida como dolorosa. Quando nessa noite seus familiares o ajudaram a deitar-se, era claro que ele tinha chegado ao objetivo. E dentro dos dez dias que se seguiram, escreve seu irmão, foi chamado para Deus.
E o autor diz que seu irmão fez o melhor uso possível desse tempo de prolongamento de vida que a ciência médica lhe concedeu. Seu irmão, tal como ele, estava reconhecido aos cientistas, aos médicos, aos doentes que aceitaram arriscar ensaios clínicos, graças aos quais ele pode beneficiar de novos medicamentos e ter mais tempo de vida. Mais de dois anos para uma doença que vinte anos atrás o teria levado a uma morte dolorosa em alguns meses. E ele usou desse tempo para ensinar como viver, e seus mais próximos usaram esse tempo para aprender a viver.
O progresso da medicina alcança o verdadeiro sentido permitindo às pessoas atingidas pela doença, de continuarem a dar sentido à vida. Pois é só assim que uma medicina, dita personalizada, mas que é uma medicina de alta precisão, que corre o risco de tornar-se desencarnada, fará aliança com uma medicina para a pessoa. Uma das missões da bioética é promover esta aliança.
[1] H. K. Beecher, « Ethics and Clinical Research », The New England Journal of Medicine 274, no 24 (16 juin 1966) : 1354‑60, https://doi.org/10.1056/NEJM196606162742405.
[2] David S. Jones, Christine Grady, et Susan E. Lederer, « “Ethics and Clinical Research” – The 50th Anniversary of Beecher’s Bombshell », New England Journal of Medicine 374, no 24 (16 juin 2016) : 2393-98, https://doi.org/10.1056/NEJMms1603756.
[3] Jeffrey M. Drazen, « Life Lessons from Paul in the Face of Death », The New England Journal of Medicine 379, no 9 (30 août 2018) : 808‑9, https://doi.org/10.1056/NEJMp1808695.
Liturgia dos mortos: Tradições do Vietnã e ritos monásticos
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Liturgia
Irmã Marie-Pierre Nhu Ý, OSB
Priorado de Lôc-Nam (Vietnã)
Liturgia dos mortos:
Tradições do Vietnã e ritos monásticos
Dos funerais tradicionais aos funerais cristãos: as lições da história
A correspondência entre os ritos funerários tradicionais, no Vietnã, e a tradição da Igreja teve uma longa história. Não é somente o trabalho de alguns especialistas, ou o fruto de pesquisas eruditas, mas foi a ação de todo o povo de Deus, no qual se reflete o autêntico sentido da fé, seio de seu amadurecimento. Para bem entender isto é preciso percorrer os debates históricos na China e no Vietnã, que levaram à decisão de retomar o culto dos antepassados.
Na China e no Vietnã
Na época da “disputa dos ritos” do séc. 16, tempo de vivas controvérsias entre os missionários de diversas Ordens religiosas, a questão do culto dos antepassados, em ligação com o rito do funeral, foi aguda. Que há de “verdadeiro e de santo” no culto dos antepassados aos olhos da Igreja Católica?
Diante desta pergunta o Papa Clemente XI, por Decreto de 20 de novembro 1704, pôs fim a esta disputa, proibindo os cristãos de fazerem oblações em honra dos antepassados nos templos e nas casas particulares, assim como de guardarem suas placas funerárias. Na Constituição Ex Illa, de 19 de março de 1715, renovou estas proibições e ordenou a todos os missionários que fizessem um juramento diante das autoridades apostólicas e de sua Missão. O Papa Clemente XII, na sua Bula Ex Quo Singulari, de 11 de julho 1742 manteve as decisões de seu antecessor.
Para restabelecer a unidade de pensamento e de ação entre os missionários nas missões da China e seus vizinhos, o Legado, Mons. Messabarba, por meio do Mandato de Macau de 4 de novembro de 1712, autorizou os cristãos chineses e vietnamitas a fazerem oferendas e gestos diante das placas dos antepassados defuntos; o decreto estipula que estas oferendas e estes gestos podem também ser feitos na casa de culto, diante do caixão, ou do túmulo do defunto, porque expressam respeito e piedade.

Mas o mandato não acalmou as controvérsias no interior da comunidade cristã. Por oposição, Mons. Saraceni, Vigário Apostólico de Chan-si e de Chen-si proibiu o uso de licenças relativas às placas no seu Vicariato. Mons. de la Purification, bispo de Pequim, por outro lado, deu licença.
Depois, sob o governo dos Papas Clemente XII (1730-1740) e Bento XIV (1740-1758) a questão do culto dos antepassados, ligado ao rito funerário não parece ter sido regulamentada definitivamente.
Nesse momento, para evitar todo o equívoco, os Vietnamitas católicos renunciaram instalar altares, assim como placas, em honra dos antepassados em suas casas. Mas ficaram fiéis a fazer a lembrança piedosa de seus mortos, mantendo o hábito de se reunir e mandar celebrar missas pelo repouso de suas almas.
No final do séc. 17, os missionários da Companhia de Jesus defendiam que o culto dos antepassados era só uma homenagem puramente civil, um testemunho de piedade filial e de reconhecimento por seus antepassados e seus pais falecidos. Esta tomada de posição foi partilhada por chineses cultos.
Dois séculos mais tarde, a Congregação Propaganda fide, na sua instituição Plane compertum de 8 de dezembro de 1939, aprovada pelo Papa Pio XII considerou que:
“É lícito, e conveniente, para os católicos, fazer inclinações de cabeça, e outras manifestações de respeito civil pelos mortos, ou diante de suas imagens e diante das placas que têm seus nomes”.
Graças à congregação Propaganda fide, o culto dos antepassados em ligação com o rito funerário é hoje permitido: consiste em atos exclusivamente de veneração dos antepassados e dos pais defuntos. E este rito deve ser, por isso, purificado de toda a superstição.
O culto dos antepassados é permitido, tudo bem, mas como praticá-lo sem nenhuma superstição?
O debate sobre o culto dos antepassados. A oposição ao culto dos antepassados
Quando chegou ao Vietnã, em 1628, Mons. Alexandre de Rhodes percebeu logo que certas práticas funerárias eram supersticiosas e ridículas, como por exemplo, o queimar papéis votivos. Assim não hesitou em condená-las. Condenou também a festa, Cung Giô, que os vietnamitas celebram em memória de seus pais defuntos. Observando o que os vietnamitas faziam e acreditavam Mons. Alexandre de Rhodes concluiu que a cerimônia Cung Giô assentava em três erros: o primeiro consiste na crença de que as almas dos defuntos voltam à casa dos seus filhos, quando lhes agrada e quando os filhos as chamam; o segundo é a certeza que os mortos se alimentam com as oferendas preparadas sobre o altar dos antepassados; o terceiro, o mais absurdo, é a crença que a vida e a prosperidade material dependem dos pais defuntos e que eles podem tirar isso, se os filhos faltarem ao dever de realizar Cung Giô, sinal de ingratidão.
Mas segundo a tradição sino-vietnamita, a virtude fundamental sobre a qual repousa o culto dos antepassados, é a piedade filial, ou “Hiêu”. Ao contrário, a “Bât Hiêu”, ou a falta de piedade filial, é considerada crime.
O Padre Lou Tseng Tsiang definiu com muita perspicácia o que é “Hiêu”, nestes termos:
“A piedade filial é o fundamento de toda a perfeição moral, a fonte de toda a fecundidade e não há nenhum ato humano que escape às suas leis. Todos os homens têm de se inspirar nela, em todas as coisas e praticá-la”.
A revalorização do culto dos antepassados
O culto dos antepassados tem caráter religioso? Se tem, por que então não é aceito aos olhos dos missionários? Reconhecendo que os mortos estão presentes no meio dos vivos e que os ritos realizados em sua honra estão bem fundamentados, Tran Van Chuong escreve:
“O culto dos antepassados tem por fim fazer os vivos lembrar os mortos; nasce da moral que ordena fidelidade na lembrança”.
Hô Dac Diêm expressa a mesma coisa:
“Este culto vem da piedade filial. Um filho piedoso deve sempre ter presente na sua memória a lembrança imperecível de seus pais”.
Depois o Padre Cadière fez a seguinte observação :
“É preciso fazer distinções: todos os atos rituais que dizem respeito ao culto dos antepassados, não têm, em si, um carater religioso, mas isso é só exceção. Para a imensa maioria dos Vietnamitas, os antepassados, depois da morte, continuam a fazer parte da família”.
Finalmente, após longas discussões, os missionários chegaram à conclusão:
“As oferendas aos mortos nos ritos funerários devem ser feitas na plenitude de um amor e de um respeito sólido e perfeito”. “Amar e honrar os pais depois de sua morte, como durante sua vida”.
Em 1675 a Instrução do seminário das Missões Estrangeiras, na sua 2ª diretriz indica:
“Não coloqueis nenhum zelo, nem nenhum argumento para convencer esses povos a mudar de ritos, ou de costumes, a menos que sejam claramente contrários à religião e à moral… Não introduzais nossos países no país deles, mas sim a fé, que não expulsa, nem fere os ritos, nem os costumes de nenhum povo”.[13]
Assim, já o percebemos, a Igreja pede que se tome o tempo e a prudência e um bom discernimento.
Vai ser preciso esperar, no entanto, o Concílio Vaticano II para que a questão do culto dos antepassados seja totalmente resolvida.
Proposta de adaptação do ritual do funeral monástico à cultura vietnamita

Para a grande maioria dos Vietnamitas, os antepassados continuam a fazer parte da família. Para muitos o culto dos antepassados é, em certo sentido, uma religião de adoração dos antepassados. Por exemplo: no dia da comemoração dos antepassados, os túmulos são enfeitados e todos os membros da família devem reunir-se na casa ancestral para mostrar gratidão e reforçar os laços familiares, por meio da partilha de uma refeição. À meia-noite, na passagem do ano, assiste-se à cerimônia mais solene do culto dos antepassados, etc.
É por isso que, mesmo os cristãos do Vietnã de hoje, não querem parecer diferentes aos olhos de seus concidadãos. Por quê? Outrora os cristãos eram olhados pelos compatriotas não cristãos como pessoas cortadas de suas raízes, quer dizer suspeitas de abandonar o dever de prestar culto aos antepassados, depois do rito do funeral, e esta condenação dura até hoje, embora a Igreja do Vietnã tenha tentado adaptar os ritos do funeral, segundo a tradição.
Como adaptar o ritual monástico à cultura do Vietnã? Como e o que harmonizar, o rito do funeral com os costumes do Vietnã, especialmente na vida contemplativa no país?
Parece-me que antes de adaptar há que compreender que:
