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Bulletin

Formação monástica hoje
(Primeira parte)

118

Bulletin

A vida e a morte no ideal monástico

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Bulletin

Venerar os mais velhos, amar os mais moços

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Bulletin

Um Espelho da Vida monástica para hoje

As comunidades em zona de conflitos

Boletim da AIM • 2025 • No 129

Índice

Editorial

Dom Bernard Lorent Tayart, OSB, Presidente da AIM


Meditações

• A paz na RB
A Redação


• “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz” (Jo 14, 27)
Dom Maksymilian R. Nawara, osb


• O mosaico da ábside da Basílica São Clemente (Roma)
P. Alex Echeandía, osb


Testemunhos

• O Mosteiro Santa Maria da Paz: da Nicarágua para o Panamá
As monjas de Sorá, ocso


• A Abadia de Mokoto (RDC)
Dom Bernard Oberlin, ocso


• Viver numa cultura de violência: a experiência na Nigéria
P. Peter Eghwudjkpor, osb


• O Mosteiro de Belém: um mosteiro aos pés do muro
Mosteiro do Emanuel, osb


• O Mosteiro Fons Pacis: a paz na insegurança e na incerteza
Madre Marta Luísa Fagnani, ocso


• Gritos silenciosos do Madhya Pradesh
Irmã Asha Thayyil, osb


• Sementes de esperança em meio ao sofrimento
Irmã Maria Liudmyla Kukharyk, osb


• A guerra mais dura…
Patriarca Athénagoras


Liturgia

“Visão de Paz” – Liturgia e arquitetura
Padre Gérard Gally


Grandes figuras da vida monástica

• Madre Máire Hickey, osb
Site web da abadia de Kylemore


• Dom Mamerto Menapace, osb
Cuadernos monásticos 234


Notícias

• O novo Secretariado da AIM
A redação


• Excertos do relatório DIM-MID
Padre William Skudlarek, osb


• O novo secretariado geral do DIM-MID
P. Cyprien Consiglio, osb


Projetos apoiados pela AIM

Mahitsy, Umkon, EMLA

Sommaire

Editorial

Este boletim é consagrado às comunidades que são provadas hoje por conflitos e guerras em várias regiões do mundo. Ora, a palavra “Paz” é um dos lemas dos mosteiros que vivem sob a Regra de São Bento. Esta palavra já aparece no Prólogo: “Afasta-te do mal e faze o bem, procura a paz e segue-a” (Pról. 17). São Bento sabe do que está falando, pois conheceu as guerras no solo italiano entre os Ostrogodos de Tótila e os Bizantinos de Justiniano. Os mosteiros já eram refúgios para as populações, e ao mesmo tempo, testemunhas dessa paz divina que vinham das palavras de perdão, pronunciadas por Cristo na cruz.

A tradição monástica sempre insistiu nesta procura: os monges hesicastas são as grandes testemunhas que, justamente, procuram a paz neles mesmos para terem um coração unificado.

No entanto, a paz é um combate e nunca se adquire facilmente. São Bento compara o mosteiro a um exército fraterno, que procurando a paz, ganha o amor.

Este novo número do Boletim da AIM fala de um bom número de situações de violência, ou de guerras, que rodeiam comunidades monásticas, em diferentes continentes. É ocasião de alimentar a solidariedade e de aprofundar as causas destas situações de conflito dentro do equilíbrio internacional. É ocasião também para avaliar a coragem, a perseverança humilde e o dom de si destas comunidades, que têm de encarnar de modo bem concreto a paz, a ajuda material e a elevação espiritual de que as populações sofredoras tanto precisam.

Além de uma meditação e de um mosaico célebre que tocam este tema da paz, encontraremos de novo com prazer um célebre escrito do Patriarca Atenágoras sobre a paz interior.

Um artigo evoca a liturgia, em particular a da Dedicação, como uma visão de paz, como nos convida o famoso hino Urbs Jerusalem.

São também propostos como exemplo, duas grandes figuras monásticas, Madre Máire Hickey e Dom Mamerto Menapace. Ambos tiveram relações estreitas com a AIM.

Transmitimos uma parte da intervenção do Padre William Skudlarek no Congresso dos Abades (Setembro de 2024), que terminou seu mandato de Secretário Geral do DIM-MID; e a apresentação que seu sucessor fez dele mesmo, o padre Cyprien Consiglio, monge camaldulense.

Também este boletim falará de alguns projetos que a AIM deseja ajudar e que pedem a vossa generosidade.


Dom Bernard Lorent Tayart, OSB

Presidente da AIM

Artigos

A Paz na Regra de São Bento

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Meditações

Redação do Boletim

 

A Paz na Regra de São Bento

 


São Bento, já desde o Prólogo, convida a escutar a Palavra de Deus com o ouvido do coração profundo e a se tornar conforme a ela. Ele retoma o salmo 33: “Procura a paz e segue-a”. Para ele, a paz é antes de tudo uma atitude interior: trata-se de purificar o coração da cólera, do orgulho, das rivalidades, quer dizer de toda a procura de domínio sobre os outros e sobre os acontecimentos. Sem esta conversão pessoal, não é possível nenhuma paz verdadeira entre as pessoas.

São Bento inscreve-se na grande tradição monástica que busca a paz do coração, de que João Cassiano tão bem falou, para se tornar um em Deus no amor. Esta hesychia, tão procurada pelos monges, está na origem de uma corrente conhecida com o nome “hesicasmo”, e que é ainda muito viva no Monte Athos, por exemplo, e noutros lugares. Praticando dia a dia os instrumentos da arte espiritual, o monge consegue orientar positivamente as paixões humanas e viver a partir da escuta do coração profundo. Assim, segundo o Prólogo da Regra, pode correr com o coração dilatado no caminho dos mandamentos de Deus, que se resume no do Amor.

É por meio deste trabalho espiritual que os monges e as monjas participam na transformação do mundo e propõem, de certo modo, um lugar de vida alternativo, que não se constrói sobre os interesses do mundo, mas no espírito do reino, conforme as bem-aventuranças.

A paz vive-se com gestos muito concretos na vida cotidiana de uma comunidade monástica. O silêncio, tantas vezes recomendado na Regra, não é simplesmente um dever a ser cumprido, mas essencialmente um trabalho de disponibilidade interior em vista de uma pacificação, mesmo se a arte do canto é muitas vezes causa de tensão! A humildade é igualmente um fundamento essencial. Quem é humilde aceita seus limites, respeita os outros e contribui para a harmonia comum. A obediência vivida num espírito de fé e de fraternidade é um outro caminho para a paz. Ensina cada um a renunciar a si mesmo para se pôr, com os outros, à escuta da vontade de Deus e para a pôr em prática.

A paz depende também do papel do abade, que São Bento compara a um pai. Sua missão é guiar com doçura, corrigir sem dureza e manter a unidade entre os irmãos. A justiça na repartição dos bens, a atenção às necessidades de cada um e a oração comum, que reúne toda a comunidade, são igualmente meios para construir a concórdia.

Esta paz vivida no interior do mosteiro não fica fechada entre os muros. Os mosteiros beneditinos, ao longo dos séculos, foram lugares de acolhimento, de refúgio e de reconciliação. Cultivando a paz entre si, os monges tornam-se testemunhas para o mundo exterior. Hoje, ainda, num mundo cheio de divisões e de violências, a Regra de São Bento tem uma atualidade enorme: lembra-nos que a paz verdadeira nasce, primeiro, no coração e constrói-se pacientemente, dia após dia, pela escuta, a humildade e a caridade.

Assim, a regra de São Bento nos convida a compreender que a paz é ao mesmo tempo um dom de Deus, e uma responsabilidade humana. É um caminho espiritual que engaja a pessoa toda e que vivido fielmente se torna fonte de luz e de esperança para a comunidade e para o mundo.

Deixo-vos a paz…

2

Meditações

Dom Maksymilian R. Nawara, OSB

Presidente da Congregação da Anunciação

 

“Deixo-vos a paz, dou-vos minha paz”

(Jo 14, 27)

 


“Deixo-vos a paz, dou-vos minha paz.

Não a dou como o mundo a dá.

Que vosso coração não se perturbe” (Jo 14, 27)

 

A questão da paz

Muitos de nós vivemos em países atingidos pela guerra – e são cada vez mais hoje em dia -confrontados com a difícil pergunta, mas fundamental: “que devo fazer?”

Que deve fazer um monge, uma religiosa, um padre ou um superior em tempo de guerra, de sofrimento, de perda e de violência, quando o pesadelo parece longe de ter fim? Que devemos fazer quando tudo parece conspirar para que a guerra perdure?

Respondemos continuamente às necessidades dos que sofrem. Em muitos lugares, irmãos e irmãs esforçam-se, heroicamente, e durante muito tempo, para não abandonar os que vivem ao seu lado, ou que vêm até eles, na necessidade. E, no entanto, nós também, temos medo e ansiedade e muitas vezes, perdemos a esperança. E a pergunta volta sem cessar: que devemos fazer para construir a paz? Onde procurá-la? Senhor que devo fazer?

Muitas vezes a única salvação está na oração silenciosa que acalma um coração esgotado. As palavras do Evangelho de São João levam-nos a uma compreensão mais profunda da paz – uma paz que nos é dada sempre, mesmo quando a guerra cresce fora:

“Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz, não a dou como o mundo a dá. Que vosso coração não se perturbe nem tema”.

 

O mundo da guerra e da paz

Olhando a história humana – de Caim e Abel até aos nossos dias, – é fácil concluir que a paz é apenas um intervalo entre as guerras. Uma trégua que dura enquanto o vencedor pode impor seu poder e o vencido não tem força para se rebelar.

Apesar dos progressos da tecnologia, da psicologia e do humanismo, o mundo continua a não conhecer a paz e parece incapaz de a conhecer de modo duradouro. Mas Jesus oferece uma paz diferente. Não é a indiferença de um estoico que fica impassível mesmo quando o mundo desaba à sua volta. Não é uma paz perniciosa – a “paz destruidora” de uma pessoa prisioneira do seu egoísmo, ou do egoísmo dos outros, procurando unicamente sua própria paz interior. Esta ideia de paz – que se assemelha ao bem-estar ou a uma zona de conforto – leva à ilusão. Defendendo o seu próprio território, o ego pode fazer surgir novas guerras, grandes ou pequenas, para preservar o que considera seu.


 O dom da paz

A paz de Jesus nasce de um amor mais forte do que a morte. É a paz do Crucificado e do Ressuscitado, que faz de nós “concidadãos dos santos, membros da família de Deus” (Ef 2, 14-19).

É o dom da sua presença, a plenitude de toda a bênção. Partindo, Jesus não nos deixou um vazio, mas uma paz independente das circunstâncias exteriores. “Que o vosso coração não se perturbe nem tema”. Monsenhor Mikolaj Luczok, bispo de uma diocese da Ucrânia, disse em Cracóvia durante uma reunião de oração pela paz:

“O Espírito Santo lembra-me constantemente, que acima de tudo, devo eu mesmo estar profundamente mergulhado na paz de Jesus Cristo. Essa é minha primeira tarefa. E quando permanecer na sua paz, então verei claramente quem e como devo ajudar. Pois se a paz de Cristo faltar no meu coração, será o medo que vai me guiar. Sem a paz, o medo está presente. O medo nasce de um coração ferido. Inicialmente, leva ao isolamento e a querer sobreviver. Mas se o coração não estiver curado, assim que se apresentar a primeira ocasião de sair do isolamento, vai ser para levar a ferir os outros e tornar-se fonte de guerra”.

É um belo comentário das palavras do Evangelho: Jesus nos dá a paz para que nossos corações não tenham medo.

 

Conclusão

O egoísmo humano não permitirá nunca que a paz total reine no mundo. Mas a paz do coração é possível. A paz é acessível para aqueles que estão prontos para a aceitar. As comunidades de paz existem. Jesus nos chama para esta paz. E é esta paz que ele quer nos dar.

O mosaico da ábside da Basílica São Clemente (Roma)

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Meditações

P. Alex Echeandía, OSB,

Mosteiro de Lurín (Peru)

 

O mosaico da ábside da Basílica

São Clemente (Roma)

 

 

A Basílica de São Clemente de Roma tem na sua ábside um mosaico impressionante chamado o “Triunfo da Cruz”, do séc. XII. Este mosaico, que se pensa ter sido feito por Jacopo Torriti e sua equipe, transforma a cruz em símbolo de vida, de paz, de salvação, rodeada por elementos que representam a eternidade e a proteção divina.



História e reconstrução: a basílica foi fundada no séc.V sobre ruínas romanas, mas foi parcialmente destruída no séc. XIII, e depois reconstruída, o que lhe deu o aspecto atual.

Símbolo: a cruz está rodeada de folhas de loureiro e de vinhas em espiral, que simbolizam a salvação, a paz, a vida eterna e o sangue de Cristo representado pelo vinho.

Detalhes: entre as vinhas estão figuras humanas, animais e símbolos bíblicos que representam a universalidade da salvação, com elementos como os quatro evangelistas, o Cordeiro de Deus, São Pedro e São Paulo, assim como a Jerusalém celeste, a cidade eterna, onde a paz é sempre oferecida.

Por essência, este mosaico é um poderoso símbolo da paz, um farol de esperança diante da violência e do terror onipresentes e que fazem sofrer o nosso mundo. A paz personificada pela Cruz do Cristo, Príncipe da Paz, é a fonte última da redenção. A cruz, elemento central de toda a criação, encarna o ato universal da redenção feito por Cristo, Doador triunfante da paz.

O Mosteiro Santa Maria da Paz: da Nicarágua para o Panamá

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Testemunhos

As monjas de Sorá, ocso

Ex-Juigalpa – Nicarágua

 

O Mosteiro Santa Maria da Paz: da Nicarágua para o Panamá

 

Nele, a Paz…

Por meio destas linhas queremos partilhar convosco um pouco da nossa história de salvação, de que talvez ouvistes falar. Por acaso, a recusa de um visto de entrada para um padre argentino, que devia vir como capelão temporário, alertou-nos sobre a nossa situação diante do governo da Nicarágua. O fato de termos acolhido pessoas, na nossa casa de hóspedes, que depois publicaram comentários hostis ao governo, nas redes sociais, fez que fossemos classificadas como gente da oposição, pelo governo. Também nos informaram que se deixássemos o país, não poderíamos mais voltar… e que qualquer um que viesse visitar-nos, vindo do estrangeiro, não seria autorizado a entrar no país. Tendo em conta tudo isto, aconse-lharam-nos a deixar o país, para nosso bem.

Foi assim que em duas semanas nos organizamos para ver o que levaríamos conosco e o que distribuiríamos dos bens do mosteiro. Não quisemos esquecer nossos queridos operários e suas famílias. Tudo isto foi muito doloroso, pois estávamos na Nicarágua há 22 anos, e já tínhamos uma vida e uma história entre este povo que sofre há tanto tempo. Ao partir, uma parte muito importante do nosso coração, já estava aí enterrada para sempre.

Quando nosso Abade Geral e a Casa Generalícia souberam o que estávamos vivendo, demos graças a Deus de pertencer a uma Ordem que coloca em prática a Carta da Caridade, com sua ajuda espiritual e material e estamos profundamente agradecidas.

Alguns meses antes da nossa partida, fizemos um discernimento comunitário, seguindo os conselhos do nosso Padre Imediato, o Padre Paul Mark Schwan (New Clairvaux, Vina, USA) e da Madre Maria Marcenaro, abadessa da Casa Mãe (Hinojo, Argentina) – para refletirmos sobre o que fazer em caso de expulsão, para “escutar” o que o Senhor nos estaria dizendo sobre isto. Decidimos finalmente ir para o Panamá. Quando ainda estávamos na Nicarágua, entramos em contato com o arcebispo do Panamá, Dom José Domingo Ulloa, que desde que chegamos, tem se mostrado muito amigo. Fomos acolhidas pelos Irmãos Carmelitas Descalços, que desde o começo foram de grande generosidade para conosco. Sentimo-nos profundamente ajudadas pelo amor de Deus, demonstrado pelo amor de nossos irmãos e irmãs do Panamá. Depois de 9 meses passados no centro da cidade, mudamos para uma grande casa, que transformamos em pequeno mosteiro. Estamos situadas a 90 km da cidade do Panamá, na cidade de Sorá, onde está também a propriedade do futuro mosteiro.



Todas estamos conscientes do apelo do Senhor para continuarmos a ser, por meio de sua misericórdia, um sinal da presença de Deus entre estes povos da América Central e queremos responder com grande generosidade, apesar de nossas fraquezas físicas e espirituais. Vivemos aqui, esperando o começo dos preparativos para que um novo mosteiro possa crescer nesta terra do Panamá.

Pedimos que continuem a rezar por nós, para que possamos aderir plenamente à vontade do Senhor. Que possamos oferecer a paz de Deus aos corações de nossos irmãos e irmãs, como comunidade monástica, a comunidade de Santa Maria da Paz.

A Abadia de Mokoto

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Testemunhos

Dom Bernard Oberlin, OCSO

Abadia de Mokoto (RDC)


 A Abadia de Mokoto (RDC)

 

Em 2023, membros do M23 chegaram às nossas colinas. A partir do dia 23 de janeiro e nas semanas seguintes, habitantes das aldeias acusados pelos vizinhos de ser cúmplices dos atacantes, sentindo-se ameaçados, refugiaram-se no mosteiro. No dia 6 de fevereiro homens armados chegaram e levaram esses refugiados para colocá-los em segurança na cidade de Kitshanga a 20 km do mosteiro.

O resto dos habitantes da aldeia, sentindo-se inseguros, refugiaram-se em nossa casa: mais de 800 pessoas. O número foi aumentando dia a dia. Alimentamos os primeiros, mas o número dos refugiados foi aumentando. Daí a acusação: “os monges estão com os M23”. A situação tornou-se difícil.

Contudo, a nossa colheita de milho foi muito boa e pudemos ajudar todas essas pessoas durante algum tempo. Entre maio e junho, o número dos deslocados aumentou de forma inquietante: contamos 14.000 nas nossas pastagens. Construíram cabanas. Foi preciso organizar bairros, arrumar fontes de água, encanamentos e multiplicar o número de banheiros. Em outubro, eram 30.000, houve casos de desinteria e de cólera. Duas Ongs, Concern e Caritas, acabaram por chegar. De nossa parte, demos trabalho aos deslocados. Dar esmola continuamente faria deles pessoas assistidas. Justamente temos o projeto de “cultivo em degraus”. Centenas de pessoas trabalharam aí e receberam seu salário. Em Mokoto tudo é em desnível.

Para comprar comida em Kitshanga é um risco por causa da insegurança da estrada (os rebeldes Nyatura param os carros, só deixam passar pagando, roubam, violentam e matam). A cantina da portaria além de vender queijo e vinho de goiaba, dispõe também de sacos de arroz, farinha de mandioca, açucar etc.



Do ponto de vista da vida monástica, esta é uma boa ocasião de exercer a caridade. No começo até alojamos pessoas na igreja. Mas fora estão os bares, os restaurantes, os gritos, a música e todo o tipo de tentações da cidade. Os monges não são ainda santos!...

Um ano depois, no dia 23 de janeiro de 2024, os M23 achando mais fácil vigiar uma aldeia do que controlar um campo de refugiados, expulsaram todos os refugiados à força. Alguns, vindos de zonas de combate, tentaram ficar nas aldeias vizinhas. Há muitas mães sem maridos; procuram trabalho ou mendigam para alimentar os filhos.

Tivemos sucesso com a nossa última iniciativa: já que o rebanho de vacas diminuiu muito, uma parte das pastagens foi alugada para quem queria cultivar: 10 dólares por 900 m2 por um ano. Não foi possível para todos, foi preciso dar ainda esmolas.

Somos 35 monges, o Abade Geral e o Padre Imediato sugeriram que procurássemos um caminhão e uma casa anexa para fugir em caso de necessidade, como em 1996. O caminhão foi comprado, o anexo ainda não: na Tanzânia? Na Zâmbia? Sobretudo rezamos cada dia pela paz. A vida cotidiana e monástica continuam. Como escrevia em 1996 o nosso Padre Vítor, depois de uma visita noturna violenta e armada de bandidos: “dormi bem e esta manhã expliquei aos noviços os textos do Pseudo-Macário”.

Viver numa cultura de violência: a experiência na Nigéria

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Testemunhos

Padre Peter Eghwrudjakpor, osb

Prior de Ewu-Ishan (Nigéria)

 

Viver numa cultura de violência: a experiência na Nigéria

 


A Nigéria não é verdadeiramente um país violento. Em sua diversidade de população, de cultura e de religião, a vida é sempre considerada sagrada para todos e particularmente o sangue; os estrangeiros são acolhidos de braços abertos. As pessoas não sentem medo de se instalar em lugares distantes, pouco familiares ou desconhecidos, pois estão convencidos que os estrangeiros devem sempre ser acolhidos e protegidos a todo preço.

Desta forma, em toda parte, as pessoas sentem-se como em sua própria casa. O respeito pela vida humana e a proteção dos estrangeiros estão inscritos no coração e preservados pela crença na lei natural da justiça contra o mal. Porém, hoje, a Nigéria conta com uma geração pronta a desafiar os deuses de nossa terra, e não somente os espíritos ancestrais. Se é verdade que a Nigéria não é um país violento, é igualmente verdade que o país conta com pessoas e grupos extremamente violentos e sanguinários.

Consequentemente, onde quer que você esteja, aprenda a estar alerta e sempre vigilante, pois os autores de violência, mesmo sendo pouco numerosos, são verdadeiramente muito cruéis e imprevisíveis. Infelizmente, atribuímos este fenômeno à religião, sendo o Islã o bode expiatório habitual com ou sem razão. A cultura e o terror envolvendo os muçulmanos existiam anteriormente, mas uma cultura de ódio envolvendo-os começou a se desenvolver, devido a uma violência generalizada.

Certos grupos terroristas se apresentam como islamistas, mas isto não é uma razão suficiente para generalizar nem diabolizar o Islã.  Existem numerosos bons muçulmanos. Às vezes, aqueles que cometem violências e mortes brutais assemelham-se a animistas, os adeptos do “juju”, rituais diabólicos que necessitam de sangue humano. Encontramos igualmente casos de pessoas pegas em flagrante delito de sequestro que se dizem cristãs. Muitas vezes, são pessoas motivadas pela atração do lucro.

Assim, nenhum grupo religioso está imune à cultura atual de violência e de morte, embora um terrorismo generalizado e em grande escala seja oficialmente reivindicado por grupos extremistas islâmicos: as seitas “Boko Haram “e “El-WAP”.

A política e a ganância têm uma parte igual de responsabilidade na violência nigeriana. A maioria dos nigerianos teme o período eleitoral; a atmosfera é comparável muitas vezes à de uma verdadeira guerra civil! A política na Nigéria pode ser muito sangrenta e alguns políticos nigerianos não têm vergonha de agir sem piedade e de maneira sanguinária, unicamente pelo poder.

É correto dizer que a violência na Nigéria é inicialmente um caso de coração, nascido da ganância e do egocentrismo, antes mesmo que da religião que nela se mistura. Ela nasce de um coração impregnado de ganância, depois equivocado cada vez mais pela fraude e pela corrupção. A verdadeira violência pode ser considerada como uma simples máscara para crimes institucionalizados, as vezes patrocinados e protegidos pelas elites dirigentes. Eis nosso verdadeiro problema: o egoísmo, a ganância e a mentira. Estas são as raízes profundas da violência nigeriana. Para os políticos e os altos funcionários, se trata simplesmente de um jogo de poder e de controle, de dinheiro e de riqueza.

A vida é valorizada por essas razões: ganhos mesquinhos, vantagens egoístas sobre seus rivais. É também a razão pela qual os autores dessas mortes violentas não passam jamais pela justiça. Eles nunca são punidos nem presos, nunca. Por exemplo, os membros do grupo terrorista Boko-Haram são algumas vezes detidos, mas logo depois, são liberados. Por quê? Nós o chamamos os “meninos do governo”. É verdade que a armada nigeriana parte muitas vezes em missão para atacar estes campos terroristas, correndo risco de vida e ao preço de grandes sacrifícios. Porém as pessoas detidas são cedo ou tarde libertadas! Com tudo isso, o governo se cobre de ridículo!

 

Grupos terroristas

Distinguimos facilmente três grupos terroristas na Nigéria. O mais conhecido é o Boko Haram, ao qual é adicionado agora o EL-WAP (Estado Islâmico- Província África d’Oeste). Esses dois grupos se afirmam na guerra islâmica, o djihad. As suas ofensivas são de uma violência e de uma brutalidade extremas. Eles dispõem de força numérica e de armas pesadas, como também de uma armada regular, não se lançam geralmente em pequenas operações, mas em verdadeiras campanhas de grande porte.

Suas operações miram geralmente as cidades, as aldeias, as instituições, os quarteis militares e os principais eixos rodoviários, assim como os territórios considerados ricos em minerais raros, como no nordeste da Nigéria. Nós pensamos geralmente que estes grupos terroristas têm colaboradores e patrocinadores no seio do governo nigeriano, o que explica em parte sua existência e sua prosperidade. Eles são igualmente utilizados pelos políticos para criar instabilidade política em certas regiões e atacar seus rivais.

Existem outros dois grupos terroristas, menos impressionantes e organizados que Boko-Haram e o EL-WAP, porém não menos violentos. Eles estão mais difundidos pelo país, com núcleos de atuação quase por todos os lugares. São os pastores Peuls (ou Fulani) e os sequestradores.

 

Os pastores Peuls

Os Peuls são uma tribo nômade; eles deslocam-se às centenas com seu gado pastando ao longo do caminho. Eles têm colônias ao longo de toda a região do Sahel, na África d’Oeste e são considerados como muçulmanos, com uma aparência de árabes do Saara. Ainda mais importante, vagam pelo mato e pela floresta com seus animais. Tradicionalmente, não são violentos. Cada homem Peul porta uma pequena faca (“daga”), principalmente para proteger e salvar seus animais de eventuais perigos. Hoje, as pessoas têm medo e desconfiam deles em razão da violência e das mortes brutais que lhes são associadas.

Nós pensamos que os Peuls tradicionais foram infiltrados por seitas de imigrantes vindos do outro lado das fronteiras nigerianas e que essas seitas mortais foram introduzidas na origem pelos políticos com objetivos islâmicos. Esses infiltrados mercenários são implacáveis, sanguinários e aterrorizantes. Infelizmente é difícil distingui-los. Quando se percebe que o grupo que tem à sua frente pertence a uma seita é geralmente muito tarde.

Eles não têm nenhum respeito pelas fazendas e as plantações dos habitantes. Pegam os animais às centenas nas fazendas e as colheitas são devoradas. Toda tentativa de os impedir poderia se revelar custosa, até mesmo fatal. Eles matam, violentam e se envolvem igualmente em sequestros e tráfico de seres humanos. Hoje, devido a este grupo, as florestas e as terras agrícolas não são mais lugares seguros, o que explica em parte o desperdício de produtos agrícolas. Inúmeras comunidades monásticas da Nigéria (BECAN) abandonaram suas terras agrícolas devido aos repetidos ataques e a destruição das colheitas pelas seitas.

No último ano, não obtivemos nada de nossas fazendas em Ewu, porque esses pastores pegaram os rebanhos às centenas, invadiram as terras e devoraram todo o milho, a mandioca e o inhame que havíamos plantado. Felizmente, este ano está diferente até o presente. Numerosos mosteiros sofrem a mesma situação; todos os nossos mosteiros são agrários. Se o recinto das propriedades monásticas é um dos melhores meios de repelir esses intrusos e seus animais, isto não é sempre fácil para implementar.

 

Sequestros em escala nacional

Um terceiro grupo é simplesmente chamado os “sequestradores”. O rapto é um negócio em plena prosperidade. Os sequestradores estão sempre armados com armas pesadas. Não se trata de um grupo único, mas de pequenos grupos dispersos em todo o país com um objetivo comum: dinheiro. É um negócio importante e uma fonte de ganhos para alguns. Estes homens permanecem às vezes nas estradas e instalam barragens nas vias para capturar suas vítimas inocentes e sem desconfiança. Eles efetuam igualmente invasões. As igrejas, casas paroquiais, instituições e comunidades religiosas e mosteiros foram alvo de ataques; padres religiosos e religiosas foram sequestrados.

Os sequestradores exigem geralmente importantes somas para libertar as vítimas. Até o pagamento do resgate, as vítimas são brutalmente torturadas para fazer pressão sobre seus próximos para que eles não demorem para pagar. As vítimas, algumas vezes, são mortas, se o resgate não é pago a tempo. Houve numerosos casos de vítimas mortas mesmo após o pagamento do resgate. É impossível prever onde e quando os sequestradores aparecerão e quando atacarão. Inúmeros mosteiros da associação do BECAN foram atacados em diferentes épocas e religiosas e monges foram levados para o cativeiro. Um jovem monge foi morto durante um desses ataques.

Os Peuls sendo especialistas na floresta natural, têm um envolvimento significativo neste tráfico. Naturalmente, isto gerou uma cultura de ódio, de terror e de violência física, assim como uma desconfiança por parte dos cristãos para com os muçulmanos e as populações do Norte em geral. Se não é talvez sábio baixar completamente a guarda, nós não devemos cessar de avançar com os braços abertos e de estender a mão com determinação.

 

Ao lado dos muçulmanos

Ao menos três comunidades do BECAN como a de São Bento d’Ewu, estão implantadas no meio de comunidades muçulmanas. As religiosas beneditinas d’Ochaja-Idah e os irmãos d’Eruku-Ilorin são os mais duramente atingidos até o presente tanto pelos pastores Peuls quanto pelos sequestradores. Hoje ainda, essas duas comunidades passam por numerosas dificuldades para sobreviverem. Os irmãos percorrem longas distâncias para encontrarem terras seguras para o cultivo e a proteção dos pastores e seus rebanhos, sendo a agricultura sua principal fonte de renda. Por outro lado, as irmãs beneditinas d’Ochaja-Idah recusam expulsar as famílias muçulmanas que estão alojadas em sua propriedade.

É um espetáculo ao mesmo tempo fascinante e incrível ver as mulheres muçulmanas virem pedir às religiosas água e outros artigos de cozinha, enquanto as religiosas haviam sido mantidas reféns e torturadas pelos sequestradores presumidamente islamistas. O que poderia ser mais cristão e mais beneditino! Os irmãos d’EruKu-Ilorin mantinham a longo tempo boas relações com as comunidades muçulmanas próximas, antes do violento ataque e do sequestro de vários monges, que resultou na morte de um deles.

Este ataque brutal não os impediu de manter os laços com os muçulmanos. Eles doravante abandonaram o mosteiro, pois o perigo por suas vidas e suas colheitas estava muito grande. Mesmo a polícia lhes disse que não podiam fazer nada: esses homens violentos beneficiam-se da proteção federal e são “intocáveis”. Enquanto isso, os monges continuam suas relações com esses muçulmanos.

Nossa comunidade d’Ewu foi sempre um lugar de encontro para todos. Aqui, cristãos, muçulmanos e animistas rezam, trabalham, compartilham e fazem coisas juntos sem nenhuma discriminação. Sim, é difícil manter esta relação nas circunstâncias atuais, mas continuamos apesar de tudo, como irmãos e irmãs a viver como uma só família. É arriscado, mas funciona.

Quando o nosso problema com a água estava no ápice, foi o rei muçulmano Onojie que encontrou uma solução durável. Ele nos ofereceu um pequeno rio que é seu e de seu clã, para que o mosteiro pudesse construir uma barragem para seu abastecimento de água. Tudo isto gratuitamente. Para evitar qualquer problema futuro, ele estabeleceu igualmente um documento oficial assinou e timbrou com seu selo. Hoje, é uma das principais fontes de abastecimento de água do mosteiro. Não sejamos ingênuos, mas não tenhamos medo, pois o medo é o contrário da caridade (cf. 1 Jo 4,18).


O Mosteiro do Emanuel em Belém

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Testemunhos

Monjas do Mosteiro do Emanuel, osb

Belém - Israel

 

O Mosteiro do Emanuel em Belém:

um Mosteiro diante do muro

 

Situado sobre uma das colinas que cercam Belém, nosso mosteiro de Emanuel é membro da Congregação Beneditina da Rainha dos Apóstolos, filiada à Congregação da Anunciação. De espírito missionário, a vocação de nossa Congregação é irradiar a vida monástica e implantar a vida beneditina lá onde ela não existe ainda ou não existe mais. Nossa Congregação se encontra hoje na Bélgica, em Portugal, no Brasil, no Congo, na Angola e no Tchad, assim como na Terra Santa.

As três irmãs fundadoras de nosso mosteiro entraram no mosteiro das beneditinas de Medeia, na Argélia, a alguns quilômetros de Tibhirine. Foi em 1954 que um bispo greco-católico da Galileia veio lhes encontrar para pedir gentilmente a fundação de um mosteiro na Terra Santa de rito greco-católico. Com efeito, os fiéis de rito greco-católico são numerosos, mas existem somente dois mosteiros com este rito.

Nossas irmãs rezando na língua árabe e conhecendo o mundo muçulmano, puderam confrontar este desafio mais facilmente. A Igreja greco-católica é um ponto de encontro entre a Igreja latina e a Igreja ortodoxa, pois rezamos como os ortodoxos estando na Igreja católica. A comunidade foi, portanto, premiada com uma dupla missão: contribuir para fazer reviver no seio da Igreja católica as tradições da Igreja indivisa e constituir uma casa de oração para a unidade dos cristãos.

Desde março de 2003, o muro “barreira de segurança” que separa Belém de Jerusalém se levanta diante da entrada do mosteiro. Nós estamos a 200 metros de um dos três pontos de passagem da região entre a Palestina e Israel e a 500 metros do túmulo de Raquel, um lugar da Terra Santa particularmente de conflito.

Belém está ligado a Jerusalém desde sempre, sob um ponto de vista espiritual a princípio, depois é o lugar do nascimento de Cristo, morto e ressuscitado em Jerusalém, e, portanto, um lugar de peregrinação privilegiado para todos aqueles que percorrem este caminho, colocando seus passos unidos aos de Jesus. Elas estão ligadas também sob o ponto de vista geográfico (somente 10 quilômetros de separação), histórico certamente, e sob um ponto de vista econômico- Belém não tem infraestruturas industriais suficientes para gerar trabalho.

A construção de um muro entre essas duas localidades provocou um distanciamento com grande violência. Muitos dos palestinos de Belém possuíam um trabalho regular na região de Jerusalém: professores de instituições cristãs, médicos, operários de obras civis. A maioria perdeu seus trabalhos e após todo esse tempo não os recuperaram. Desde os massacres de 07 de outubro de 2023, a fronteira entre Jerusalém e Belém é fechada muito regularmente e abre somente de maneira aleatória. Para um habitante de Belém sair para Jerusalém trata-se um percurso de combatente. Mesmo as duas vilas sendo tão próximas, o muro tornou tudo intransitável sem a obtenção de uma permissão de passagem: é preciso ter um convite provindo do outro lado do muro, as impressões digitais registradas e se submeter ao reconhecimento facial, além do pagamento.

Todas essas complicações administrativas desencorajam muito aqueles que têm necessidade de se comunicar com Jerusalém, separando famílias, tornando quase impossível receber certos tratamentos médicos que não encontramos em Belém. Muitos jovens de Belém não conhecem Jerusalém. As consequências desse fechamento a longo prazo são extremamente sentidas por muitos e impedem o desenvolvimento saudável da atividade humana, tornando o futuro cada vez mais incerto.


Hoje, a aglomeração de Belém que compreende também as cidades de Bet Jala e Bet Sahour- onde se encontra o “campo dos pastores”, antes quase inteiramente cristão, é agora composto igualmente por cristãos e muçulmanos. No entanto, muitas famílias cristãs, não encontrando futuro no contexto atual, escolhem emigrar. Esta emigração começou após a segunda Intifada, nos anos 2000 e se acentua até agora. Quarenta famílias cristãs de Belém emigraram desde 07 de outubro.

Neste contexto dramático, o que pode significar a sublime mensagem dos anjos ao nascimento de Jesus: “Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens que Ele ama” (Lc 2,14)? E como guardá-la como um tesouro em nossos corações?

A princípio, nós nos encontramos muitas vezes aprendendo com a coragem e a resiliência daqueles que nos cercam. Muitas belas iniciativas de solidariedade estão sendo executadas. Como membro de uma comunidade religiosa, temos a possibilidade de atravessar o controle da fronteira. É muitas vezes a ocasião de receber a ajuda de outras comunidades, ou de amigos israelenses desejosos de partilhar o que eles têm para sustentar a população de Belém.

Da nossa parte, de acordo com nossas possibilidades, procuramos ajudar aqueles que batem à nossa porta. Nós sustentamos assim as taxas de escolaridade de diversas famílias. Quando os jovens podem estudar, eles encontram um pouco de esperança no futuro. Nós admiramos sua resiliência. Uma jovem de Belém cuja família estava muito desfavorecida, terminou seus estudos de psicologia na Universidade de Oxford! Desde então ela retornou a Belém e abriu um centro de atendimento, que apesar das dificuldades de desenvolvimento ligadas à situação atual, tem feito muito bem.

Durante a segunda Intifada, o mosteiro foi um lugar de refúgio para diversas famílias do centro da cidade colocadas em situação de perigo devido aos combates. Para outros, um lugar de sustento às suas necessidades básicas. Não há cobertura médica integral na Palestina, então mesmo sendo barato, certas despesas médicas podem ser impossíveis de pagar. Nós oferecemos cestas básicas.

É uma gota no oceano oferecida na medida de nosso pequeno número. Nosso voto de estabilidade se faz algumas vezes, humanamente falando, experiência de impotência e de coração partido. A alguns quilômetros de nós, em Gaza, se desenvolve uma tragédia humana cotidiana. Esperamos que nossa oração e partilha falem lá onde não existem mais palavras, “ser com” em uma súplica ardente pela paz e também nos sobressaltos dolorosos desta terra. Sim, há tantas dificuldades para viver neste lugar, porém, vale a pena! Ainda que estraçalhada esteja terra, ainda atrai. Por ela, podemos tudo deixar. Quanto mais aqueles que nos cercam e vivem aqui: eles têm a graça para viver nestes lugares.

Como Belém é um território fechado há alguns anos, nenhuma espaço ou ligação é possível com o exterior. Os terrenos são raros e sobretudo reservados para a construção e alojamento das populações. Se de um lado, estamos literalmente ao “pé do muro”, de outro, nosso mosteiro está diante de todo o vale do Jordão, uma paisagem muito bonita e despojada, que nos permite viver um pouco a espiritualidade que viveram os Padres do deserto que habitaram estes vales. Seu jardim que se estende sobre um dos vales da colina e que volta a esverdear de bom grado no inverno, tornou-se no final de alguns anos, um dos únicos espaços verdes de Belém. Para aqueles que vêm, é muitas vezes a ocasião de um profundo restabelecimento ou repouso da fadiga, do caos da cidade ou dos campos de refugiados.

Nossa oração bizantina, que se canta tanto em árabe como em francês, é também um laço forte tecido com o local. De início, porque sua tradição desde sempre é assim; porque, por sua profundidade e seus cantos rítmicos e repetitivos, nos leva à realidade profunda da promessa do Cristo, mesmo velada a nossos olhos: “Eu estou convosco até o fim do mundo!” (Mt 28,20). É o túmulo vazio que por seu “esvaziamento” dá sentido à História e também à nossa pequena história atrás do muro.

A liturgia retoma com força o Kerigma, como uma fonte viva que nada para, e crê por nós, lá onde as vezes não temos mais a força para crer. São palavras, ritmos, cantos visitados por gerações de santos e de orantes antes de nós- certos textos remontam aos originais da Igreja- que nos recordam que nós estamos no mundo, com o mundo, mas não para este mundo, e que virá o dia onde “ele enxugará toda lágrima de nossos olhos” (Ap.21,4).

Tendo em vista o muro da separação, com nosso professor de iconografia, pintamos um ícone da Virgem “Nossa Senhora que faz cair os muros”. Nós rezamos para ela toda vez que passamos diante do ícone, quer dizer, a cada vez que saímos de nosso mosteiro. Todas as sextas-feiras à noite, com os irmãos da Universidade de Belém e alguns do local, recitamos o terço ao longo do muro até que ele caia. É nossa humilde resposta de fé ao sofrimento do fechamento. Nós pedimos a Deus para unir às nossas Orações o Seu poder, para que este lugar entre Jerusalém e Belém se torne um lugar de oração, beleza, um lugar onde Deus console os homens e mostre sua presença.

Em sua poesia muito penitencial, a liturgia bizantina nos faz focar novamente sobre o verdadeiro combate, o verdadeiro inimigo contra o qual nós imploramos a Deus a vitória: “ Dai-me Senhor, pensamentos de arrependimento, dai-me também sentimentos de compunção à minha pobre alma; desperta-me do sono, mude meu coração endurecido e de minha preguiça expulse a obscuridade, dissipe as trevas do desespero, Ó Verbo, a fim de que eu me aproxime de Ti doravante e caminhe segundo sua vontade” (Vésperas de Segunda feira, t.2);  ou ainda “ Socorrei-me, libertai-me daquele que me faz guerra, e faça de mim um herdeiro da vida eterna”(Hino à Virgem Maria). Este “eu” litúrgico repleto de arrependimento não fala somente por nós mesmos, mas é súplica em nome de todos aqueles que vivem sobre a terra “na desordem deste mundo”, uma alma que implora por ela mesma e pelo mundo inteiro a misericórdia e a paz.

Uma das chaves desta paz são sem nenhuma dúvida as peregrinações. Belém viveu todo tempo graças aos peregrinos que podem passar no controle da fronteira sem dificuldade. É importante que os peregrinos retornem mesmo em pequenos grupos. Passando de um lado para outro, os peregrinos levam a vida e a esperança. A organização das peregrinações é muitas vezes a ocasião de uma colaboração fraterna entre estruturas ou guias israelenses e palestinos e consequentemente uma forte mensagem de esperança. É esta nossa mensagem: Peregrinos, voltem!

Quando esta paz virá? Nós poderíamos parafrasear a oração do Patriarca Athenágoras sobre a união dos cristãos. “Será um novo milagre na história. Quando? Devemos nos preparar. Porque um milagre é como Deus: sempre iminente.”

Nosso testemunho também é essencialmente presença e confiança sobre uma linha de fratura da humanidade e acolhimento foi sempre uma dimensão importante de nossa vocação. Perpetuar o louvor pelo Ofício Divino, mesmo diante do muro, encorajar a presença cristã e a partilha entre o Oriente e o Ocidente nos importa muito. Esta é em pequena medida a garantia de um Oriente Médio multicolorido de quem a chave da unidade não é a violência, mas o bom convívio.

 

Oração à Nossa Senhora

que faz cair os muros

 


Santíssima Mãe de Deus

Nós te invocamos como Mãe da Igreja

Mãe de todos os cristãos que sofrem

Nós te suplicamos, por tua ardente intercessão,

para fazer cair este muro,

os muros de nossos corações, e todos os muros que geram

ódio, violência, medo e indiferença,

entre os homens e entre os povos.

Tu que por teu Fiat esmagaste a antiga serpente,

Reúne-nos e une-nos sob teu manto virginal,

Protege-nos de todo mal,

E abre para sempre em nossas vidas a porta da esperança.

Faça nascer em nós e neste mundo, a civilização do amor

brotando da cruz e da ressurreição de teu divino Filho,

Jesus Cristo nosso Salvador,

Que vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.

O Mosteiro Fons Pacis: a paz na insegurança e na incerteza

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Testemunhos

Madre Marta Luísa Fagnani, ocso

Superiora do Mosteiro Fons Pacis (Síria)

 

O Mosteiro Fons Pacis: a paz na insegurança e na incerteza

 


A Síria atravessa hoje uma situação de grande instabilidade. Ninguém se sente verdadeiramente em segurança e a incerteza marca a vida de todos os segmentos da sociedade. Nessas condições, o êxodo dos sírios continua inexoravelmente sem distinção entre cristãos e muçulmanos quer sejam alauítas ou sunitas. Os jovens e, não somente eles, têm o sentimento de não haver nenhum futuro, nenhuma perspectiva de vida razoável diante deles. Sem falar nos episódios de violência reais que se produzem dia após dia. Neste contexto, nosso cotidiano continua e, de uma certa maneira, seu sentido é simplificado, reforçado pelo sentimento de estabilidade monástica para o qual nós nos dedicamos. Como alguém nos disse: “Permaneçam, porque vale a pena.” Sim, vale a pena dizer, não que “nós” somos fiéis nem que nós temos a solução para os problemas que nos envolvem, mas que o Senhor está presente, que Ele está conosco na alegria, mas também na pobreza, na dor, nas situações que o Mal consegue criar ao redor de nós.

Explicar com palavras torna-se um pouco artificial; um pouco consolador. Trata-se de continuar a viver dia após dia: rezar os salmos que tomam um significado particular precisamente em razão da situação que nos envolve, trabalhar a terra, estudar o árabe, construir o mosteiro, criar oportunidades de emprego tanto quanto possíveis para as pessoas com necessidades, celebrar com alegria os pequenos momentos de festas comunitárias. Acolher as numerosas pessoas que vêm até nós para um momento de amizade, para encontrar um ouvido atento, mas também para simplesmente “respirar” a beleza da natureza e da paz do silêncio. Para nós, é um caminho de graça, um caminho onde com simplicidade, mas também com um certo sentimento de urgência, nós nos sentimos chamadas a nos convertermos verdadeiramente a Cristo, que dizer, a voltar nossas vidas totalmente a Ele, que- nós cremos- é Ele que unirá em Si todas as coisas, aquelas do Céu e aquelas da Terra.


Gritos silenciosos de Madhya Pradesh

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Testemunhos

Irmã Asha Thayyil, OSB

Superiora geral das irmãs de Santa Lioba na Índia

 

Gritos silenciosos de Madhya Pradesh

Como a perseguição governamental prejudica a educação tribal e o serviço cristão

 


No coração da Índia, nicho das zonas tribais do Madhya Pradesh, uma tragédia silenciosa se desdobra. Nos últimos anos, as iniciativas missionárias antes florescentes, casas, dispensários e centros de formação, gerados por organizações cristãs da diocese de Sagar foram objeto de uma vigilância rigorosa, muitas vezes injusta. O que serviu, antes como santuários de esperança para os mais marginalizados, em particular, às jovens das tribos, é hoje fechado pelas forças de ordem sob o governo BJP (Bharatiya Janata Party) no poder, sobre o impulso de falsas alegações alimentadas pelos preconceitos de elementos marginais de extrema direita.

A casa gerada pelas irmãs de Santa Lioba, que acolhe mais de 100 jovens das tribos é um doloroso exemplo deste alvejamento sistemático. Esta instituição, que oferece há vários anos, refúgio, educação, cuidados e autonomia às meninas das vilas pobres e distantes foi forçada a fechar. A razão? Perseguição e ingerência incessante da parte dos organismos governamentais e do comitê de proteção da infância (CWC), sob pretextos vagos e injustos. Inspeções frequentes, dificuldades administrativas e ameaças tornaram a continuidade dos serviços insuportável.

No entanto, essas ações não são motivadas por uma real preocupação pelo bem estar das crianças. Elas repousam muito mais sobre falsas idéias: os cristãos converterão as crianças das tribos pela educação e o cuidado. Esta acusação, propagada por elementos radicais beneficiados de um sustento político, é destituída de todo fundamento. Na realidade, a população cristã na Índia é de 2,3 % há décadas, segundo dados oficiais do governo. Apesar de décadas de presença missionária em regiões tribais, as crianças que crescem e são educadas em nossas casas permanecem membros das tribos, fiéis à sua identidade, cultura e raízes.


É cruelmente irônico que as próprias instituições que preencheram o vácuo deixado pelo governo para fornecer educação, nutrição e proteção sejam hoje desmanteladas por este mesmo governo sob o golpe de suspeitas infundadas. Com o fechamento desses lares, centenas de crianças foram reenviadas para suas vilas.  Seus sonhos de um futuro como mulheres instruídas e independentes foram desfeitos. Numerosas dentre elas não tem acesso ao ensino secundário. Algumas expostas ao trabalho infantil, ao casamento precoce e à negligência sistemática. Essa discriminação não para na educação.

Em Tulsipar, uma cidade isolada e com poucos recursos da diocese de Sagar, um dispensário, pequeno, mas eficaz, administrado pelas irmãs, fornecia uma assistência médica para centenas de famílias. Era o único centro de saúde acessível em quilômetros em toda a redondeza. Sob o pretexto de não responder a certas “exigências” governamentais, o dispensário foi fechado, apesar de seu serviço vital aos mais desfavorecidos. Hoje, só uma farmácia está autorizada a substituí-lo. Não se trata de uma simples regulamentação, mas de uma repressão sob o pretexto de burocracia.

Ainda, mesmo a formação e a livre circulação das jovens que desejam a vida religiosa são restritas. As candidatas com menos de 18 anos, que desejam integrar nossas congregações e receber formação espiritual e educativa, não podem se deslocar livremente para outros estados para seguir uma formação. Esta restrição resultou em importantes dificuldades para o florescimento de vocações e o sustento das jovens que escolhem livremente uma vida de serviço.

Estas contrariedades crescentes refletem um programa deliberado, um reforço do controle sobre a ação da comunidade cristã próxima das populações tribais pobres, ancorado no medo ideológico mais que na verdade. O discurso de direita segundo o qual os cristãos “convertem”, as populações tribais, não somente é falso, mas profundamente prejudicial. Ele nega os decênios de serviço desinteressado, de integridade e de amor que os missionários e as congregações cristãs dedicaram nessas regiões, não pela conversão, mas pela dignidade humana.

O que nós assistimos em Madhya Pradesh não é somente uma vigilância governamental, mas uma repressão calculada. Quando as escolas e os centros de saúde são fechados e a livre circulação dos cidadãos é bloqueada, devemos nos perguntar: quem se aproveita deste medo e desta mentira? Certamente não os pobres. Certamente não as jovens das tribos que se alegravam, estudavam e sonhavam antes dentro dos muros de nossos lares.

Trata-se de uma questão moral que transcende a religião. É uma questão de justiça, de liberdade e de alma de nossa democracia. Exortamos a sociedade civil, a imprensa e as pessoas de boa vontade, quais sejam suas crenças ou suas ideologias, a se exprimirem. Pois, reduzindo nossas casas ao silêncio, eles reduzem ao silêncio a voz de muitos desfavorecidos.

Não deixemos o medo tomar o lugar do serviço. Não deixemos a suspeita aniquilar a compaixão. As meninas das tribos de Madhya Pradesh merecem mais. E nós não cessaremos de defendê-las.

Sementes de esperança em meio ao sofrimento

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Testemunhos

Irmã Maria Liudmyla Kukharyk, OSB

Abadia de Zhytomyr, Ucrânia

 

Sementes de esperança

em meio ao sofrimento

 


Nosso mosteiro está na fronteira das culturas e dos mundos, conforme o último capítulo beneditino sobre as terras da Europa do leste. Além desta linha, sobre milhares de quilômetros, nenhuma presença beneditina. Além entende-se o que chamamos “mundo russo”, com o qual somos forçadas a experimentar os frutos amargos há quase quatro anos.

Além da fronteira tudo muda. Atravessar a Europa é sempre uma prova. Horas de filas, esperas esgotantes, esperas nervosas, um tempo que parece parado. Esta espera humilhante pode durar até dez horas. Nas filas, encontramos principalmente mulheres com crianças. Segurando silenciosamente suas malas e bolsas, sem a mão de um homem ao lado. Seus olhos estão cansados, mas cheios de determinação. E é só quando esta fila – ao mesmo tempo simbólica e brutalmente real- está atrás de você que um outro mundo se abre. Um mundo sem sirene de alerta aéreo. Sem o barulho de explosões de mísseis nem o zumbido de drones russos.

Durante décadas, vivemos à sombra dessa ameaça, sem pensar plenamente no peso. Ela pairava sobre nós, invisível. Nós nos alegrávamos com a liberdade reencontrada após a dissolução do regime soviético: as irmãs podiam enfim colocar uma cruz na fachada do mosteiro e vestir novamente o hábito, não somente em segredo durante a noite, mas também abertamente, no cotidiano.

Vivemos anos ao lado daqueles que agora, vêm com armas retirar nossos territórios. Antes, eles jantavam nos mesmos restaurantes que nós e assistiam os mesmos concertos. Eles visitavam nossos santuários, rezavam diante dos ícones.

Mais ainda, acolhemos candidatas vindas da Rússia. Jovens de famílias russas, onde o Senhor havia inspirado vocações para a vida religiosa e tornaram-se nossas irmãs. E hoje, os jovens vindos dessas mesmas famílias assinam contratos para vir às nossas terras para matar e saquear. Como compreender esse terrível deslizamento? Da oração ao ódio, do sagrado aos crimes contra a humanidade? Como podemos nos tornar monstros em um instante? Esta questão nos atormenta.

 

A vida além de nossa janela

Sim, a vida tornou-se dura. É cada vez mais difícil permanecer concentrada e ancorada. Permanecer atenta e presente, sem perder o sentido nem a esperança, tal é nosso combate cotidiano.

Podemos nos sentir esgotadas, cansadas, ansiosas e desorientadas nesses dias brutais e áridos. É como atravessar um deserto enquanto nosso país vizinho nos ataca cada dia com uma crueldade implacável.

Vivemos esta realidade simplesmente ao máximo, procurando mantermo-nos conscientes. Nós contamos as explosões nos ataques noturnos. Sim, eles nos privam do sono. A cada clarão da defesa aérea, nós olhamos pela janela. Um brilho avermelhado tinge o céu. Algumas irmãs ainda descem ao subsolo durante os ataques. Outras pararam há muito tempo.

Miraculosamente, os mísseis não nos atingiram. Eles atingem outros locais: outras cidades, outras casas, famílias adormecidas. Esta consciência nos impede de dormir. Ficamos vigilantes, com os olhos grandes e bem abertos.

Se deixamos o medo tomar conta de nós e nos aprisionar, então o inimigo já venceu. Mas enquanto permanecemos com os olhos bem abertos, olhando o mal bem nos olhos, nós não nos rendemos.

E depois, amanhece, como se nada houvesse acontecido, como se o céu não houvesse sido rasgado por sirenes. Um novo dia começa. Retornamos às tarefas cotidianas: algumas saem para plantar flores, tentam tornar o mundo um pouco mais belo, um pouco mais acolhedor. Nós continuamos. Mesmo quando temos a impressão que tudo nos escapa.

Mesmo quando o barulho exterior não é aquele dos sinos, mas das explosões, as pessoas vêm para a Igreja. As mães ensinam suas crianças a fazerem o sinal da cruz nos abrigos antiaéreos. Elas os ensinam a rezar. Permitam-me partilhar as palavras de uma de nossas paroquianas. Seu filho de cinco anos, escondido em um abrigo após um ataque aéreo lhe disse:

“Mamãe, a senhora deveria estar feliz. Ao menos teve uma vida antes da guerra. Eu nasci dentro dela; eu não me lembro de nada a não ser de explosões e de sirenes.”

Essas crianças ignoram o que seja a paz. E no entanto, ele diz isto para consolar sua mamãe. Esta é nossa triste realidade: uma nova geração crescendo sem sentimento de segurança, sem uma infância ao abrigo do barulho de sirenes e bombas.

No subsolo, durante os bombardeios, as pessoas abrem as Escrituras. Alguém lê um salmo. Alguém partilha uma refeição com uma criança, tenta distraí-las. A oração torna-se nossa maneira de suportar a realidade. Ela é um sinal de esperança lá onde a esperança não é mais solicitada. Orar é crer que as trevas não terão a última palavra na história.

A agressão russa nos causou indizíveis sofrimentos, mas ela despertou também uma profunda força de solidariedade no seio do país. Sim, estamos esgotados, cansados, às vezes sobrecarregados. Mas no meio das ruínas e do sangue derramado, vemos a bondade surgir no coração das pessoas.

As pessoas vêm até nós à procura de consolação, de um espaço de silêncio, de um sopro de ar numa atmosfera sufocante de medo e de ansiedade. Elas têm sede da Palavra de Deus. E esta sede- este desejo profundo- é o testemunho mais claro de uma fé viva.

Nós não vemos ainda a graça do fim deste terror. A carnificina continua. Mesmo agora, no momento em que escrevo estas palavras e que vocês a leem. Cada dia, vidas são perdidas. Cada dia, novas cidades são bombardeadas. E cada manhã, tal uma Lectio divina, lemos novidades cotidianas de vítimas e de destruição.

Nosso país tornou-se um memorial vivo para suas vítimas. Sobre cada lugar, fileiras de bandeiras e de fotos de mortos flutuam por todos os lados. Cada bandeira representa uma vida.

 


Sem ódio, sem amargura...

Retornando sobre a questão de saber como uma tal agressão pode existir no coração da Europa, eu me recordo de uma passagem surpreendente do diário de Etty Hillesum, a jovem judia que sofreu em Auschwitz e cujos escritos foram publicados mais tarde sob o título “Uma vida interrompida: Os diários, 1941-1943”. Ela escreve:

“Temos tanto trabalho em nós mesmos, que não deveríamos nem mesmo pensar em odiar nossos chamados inimigos... e eu repito com a mesma paixão... Cada um de nós deve olhar para seu interior e destruir em si mesmo, tudo o que pensa dever destruir no interior dos outros. E não esquecer que cada átomo de ódio que ajuntamos neste mundo, torna-o ainda menos acolhedor.”

Etty pensava nas atrocidades cometidas pelos soldados SS, assim como estremecemos hoje diante da brutalidade infligida pelas tropas russas. Mas sua reflexão torna-se atemporal. O verdadeiro combate contra o mal começa em nós mesmos. Ela não desculpa o mal. Ela indica muito mais o caminho de purificação interior. Para Etty, o mal não é somente “o outro”, mas uma força que é preciso vencer em seu próprio coração.

É uma maneira difícil, mas profundamente espiritual e honesta de abordar a realidade. Em uma outra passagem, ela escreve:

“Cada um de nós deve voltar-se para seu interior e destruir em si aquilo que pensa dever destruir no outro”.

Estas palavras ressoam profundamente na tradição beneditina. São Bento nos lembra em sua Regra:

“Se tu vês algum bem em si, atribui-o a Deus, não a ti mesmo. Mas assume sempre a responsabilidade do mal que tu cometes” (RB4,42-43).

São Bento sabia bem como o coração humano facilmente se engana- como somos prontos a reivindicar o bem como nosso e a projetar nossas faltas sobre os outros. Esta cegueira interior está na origem do ódio, da divisão e da guerra. Assim, o caminho para a paz- uma paz durável e verdadeira- começa não pela luta contra os outros, mas pela purificação de nosso próprio coração. Em tempos de guerra, essas palavras tomam uma urgência nova. Porque a tentação de viver na raiva torna-se irresistível.

A Rússia pegou de nós o que temos de mais precioso: nossos parentes queridos desaparecidos no fronte de batalha ou sob os escombros dos mísseis, as crianças levadas à força para os territórios ocupados, as casas e os bens reduzidos a cinzas.

Uma mulher que estava sob as ruínas carbonizadas de sua casa e viu tudo o que havia construído e desejado, toda sua vida reduzida a cinzas. Ela confessou: “Eu tenho vontade de os maldizer. De os odiar. Eles não têm nenhum direito de me pegar tudo isso e de expulsar de minha casa”. Mas ela em seguida disse, docemente; “No entanto, se eu cedo a isto, eu me torno como eles”.

Ela fez uma escolha. Tal como Etty Hillesum - que, na época da Shoah, recusou a se deixar destruir pelo ódio- esta ucraniana não deixou o inimigo envenenar seu coração.

Etty Hillesum escreveu um dia que se deixamos o ódio se enraizar em nós, o inimigo já venceu. Porque, o fogo do ódio se propaga e tornamo-nos nós mesmos portadores do mal que queríamos vencer. A via beneditina oferece um outro caminho: reconhecer nossa fraqueza e à luz da graça, permitir a Deus fazer nascer o bem através de nós.

 


“Voltar a viver”

Existe um poema poderoso de Irina Tsilyk, que se tornou canção e slogan para uma fundação humanitária ucraniana “Voltar a viver”:


Tu, acima de tudo, tu entras na tua casa,

tu finalmente te livras de tuas botas empoeiradas,

e tu reaprendes a viver, com uma fé renovada no coração.


Tu, acima tudo, tu retornas,

tendo vencido o gemido indiferente do mal absoluto,

e abandonado para sempre este ódio na quietude densa da paz.

 

Tu acima de tudo, tu retornas,

pelo caminho que preservara tua alma e teu corpo.

A terra negra, queimada por sua fragrância ardente,

          Desejando somente a chuva, não o sangue.


Este poema é mais que um desejo de sobrevivência: é uma bússola moral, uma oração, um chamado para a alma para que ela retorne intacta. Para sobreviver não somente em seu corpo, mas também em sua consciência, em seu coração, com sua humanidade intacta, “as botas empoeiradas” tornam-se o símbolo da rota, da luta do serviço esgotante “a fé se renova em seu coração” - aqui, a fé não é um dogma. Ela foi rasgada pela guerra, mas ela pode ser tecida novamente. Cada um de nós atravessa este processo de reconstrução.

O verso “gemido do puro mal” evoca a guerra como um horror sem filtro, sem justificação, sem fantasia. Aquele que atravessa sem ser consumido pela raiva, não é um vencedor no sentido tradicional do termo, mas alguém que não deixou o mal penetrar e deformar sua alma.

“Largar este ódio para sempre” - Tal é o coração da mensagem: não recolha o ódio para dentro de você. “A terra negra... desejando somente a chuva, não o sangue.”. A terra, símbolo da vida, do lar, da fertilidade, não tem sede de sangue. Ela aspira a chuva, o renovação, a paz. Este poema nos recorda que a verdadeira vitória não é a derrota do inimigo, mas a invencibilidade da alma que recusou ser conquistada pelo mal.

Tornar-se viva significa “preservar a capacidade de amar”. Não deixar a vingança e o ódio tornarem-se nossa nova maneira de pensar. Lembrar-se por que combatemos: pela humanidade, pela dignidade, pela bondade. Reconhecer a dor, mas não deixar o nosso coração endurecer. Não lutamos somente pelas fronteiras, mas pela alma de nosso povo. E a alma não pode ser salva por armas se perdemos a batalha interior.

Nós também como monjas, somos chamadas a exercer um discernimento espiritual sobre cada pensamento e cada decisão. O mal aparece raramente como uma figura monstruosa. Ele se insinua muitas vezes disfarçado, sob a forma de uma “necessidade’ ou de uma “justificativa”. É por esta razão que o chamado de São Bento para a humildade e para a pureza de coração tornam-se um escudo contra a lógica interior da violência. Neste contexto, a Escritura e a Regra de São Bento nos guiam. Elas nos ensinam que o coração pode permanecer livre e forte, mesmo quando tudo ao redor de nós está em ruínas.

 

É pela fé que nos mantemos firmes

Pela fé, o soldado na primeira linha encontra coragem para combater e defender seu povo.

Pela fé, o médico arrisca sua vida para salvar os feridos.

Pela fé, o voluntário esgotado encontra ainda força para levar ajuda lá onde não resta mais ninguém.

Pela fé, as pessoas comuns saem após os bombardeios e vendem flores no meio dos escombros, testemunhando que a vida é mais forte que a morte.

“A fé é uma firme segurança das coisas que se esperam, uma demonstração daquelas coisas que nós não vemos ainda” (Hb 11,1)

Todos esses momentos nos falam de uma esperança pulsante, inquebrantável e invencível. Porque, é lá, lá onde o inimigo tenta nos despojar daquilo que nos resta, nossa fé, nosso amor, nossa dignidade, que nasce nossa verdadeira resistência.

A guerra mais difícil…

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A guerra mais difícil é a guerra contra si mesmo.

É preciso conseguir desarmar-se.

Lutei essa guerra durante anos, foi terrível.

Mas estou desarmado.

Não tenho mais medo de nada, porque o amor expulsa o medo.

Estou desarmado da vontade de estar certo,

de me justificar desqualificando os outros.

Não estou mais na defensiva,

ciumentamente agarrado às minhas riquezas.

Eu acolho e compartilho.

Não me apego particularmente às minhas ideias, aos meus projetos.

Se me apresentarem melhores,

ou melhor, não melhores, mas bons,

aceito sem arrependimentos.

Renunciei à comparação.

O que é bom, verdadeiro, real, é sempre para mim o melhor.

É por isso que já não tenho medo.

Quando não se tem mais nada, não se tem mais medo.

Se nos desarmarmos, se nos despojarmos,

se nos abrirmos ao Deus-Homem que faz

todas as coisas novas,

então Ele apaga o passado mau e nos dá

um tempo novo onde tudo é possível.

 

Patriarca Atenágoras

“Visão de paz” - Liturgia e arquitetura

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Liturgia

Pe. Gérard Gally

sacerdote da diocese de Poitiers (França)

 

“Visão de paz”

Liturgia e arquitetura

 


Os monges sempre deram grande importância à disposição do seu local onde vivem. Pode-se realmente dizer que a arquitetura é para eles um elemento estruturante da sua espiritualidade. Esta abordagem confere à sua existência um caráter edificante, no sentido figurado do termo, onde a parte litúrgica desempenha um papel fundamental de viva coordenação: para eles, a liturgia é para a arquitetura o que a alma é para o corpo.

Ao evocar estas realidades monásticas, podemos facilmente alargar o seu alcance a toda à vida cristã, porque é intrínseco que os monges e as monjas se sintam fundamentalmente como batizados em proximidade com todos os outros membros da Igreja de Cristo.

 

I- Liturgia da Dedicação

No ano litúrgico cristão, há um período que é particularmente querido ao coração dos monges e monjas, que é o outono, quando se celebram muitas festas de Dedicação. Do que se trata?

A Dedicação é a cerimônia pela qual uma igreja é consagrada. Após essa consagração, a comunidade de fiéis é chamada a recordar o aniversário anual desse ato fundador.

Há aqui uma rica simbologia, pois além do fato destas festas terem as suas raízes na Dedicação do Templo de Jerusalém na época de Sucot (que evoca as cabanas erguidas nas vinhas na época da vindima e as plantadas no deserto durante os quarenta anos que Israel passou no deserto após a saída do Egito, no centro das quais se encontra a Tenda do Encontro, lugar da presença de Deus e prefiguração do Templo), ela também contempla a reunião do povo de Deus em unidade, como uma imagem da promessa feita por Deus a Abraão e Moisés, numa visão de paz.

Assim, a liturgia cristã se inscreve nesse advento. Após as festas da Páscoa e do Pentecostes, após a Páscoa de Cristo e o dom do Espírito Santo, ela volta-se para o cumprimento da promessa messiânica, a recapitulação de todas as coisas sob uma única Cabeça, Cristo, que é a pedra angular de todo o edifício, novo templo do seu Corpo que é a Igreja.

É por isso que, sempre que as comunidades monásticas cantam durante as festas de dedicação, o famoso hino Urbs Jerusalém beata, os seus corações se inflamam e se preparam para a grande transformação que Deus deseja para todas as criaturas que vivem sob o céu, até formarem um único corpo.

 

Urbs Ierusalem beata

Dicta pacis visio

Quae construitur in caelis

Vivis ex lapidibus

Angelisque coronata

Sicut sponsa comite.

 

Jerusalém, cidade feliz,

cujo nome significa visão de paz.

Que se constrói nos céus

com pedras vivas;

coroada de anjos,

como uma noiva tem o seu cortejo.

 

Pode-se dizer, assim, que a vida cristã tem uma vocação arquitetônica. Essa dimensão arquitetônica refere-se, evidentemente, às pedras vivas que somos, e permite relacionar o edifício da Igreja com o Corpo vivo em que ela se transforma.

 

II- A Entrada

No entanto, antes de desfrutar da visão da paz, é necessário percorrer todo um caminho. Primeiro, há um limiar a atravessar. Entra-se no corpo da Igreja como num espaço eminentemente sagrado. A porta é a de uma passagem, por vezes estreita. Trata-se de morrer para as aparências enganosas para se aceder à verdade do homem-Deus, Cristo. Ao passar pela porta de uma igreja, Adão, tentado a afastar-se de Deus, e cuja vontade se converte, acaba por se unir a Jesus em comunhão com o seu Pai.

Esta passagem para se tornar membro de Cristo é aquela que se opera através da água do batismo. Este pode ter lugar no batistério, no exterior ou na entrada da Igreja. Cada um de nós foi mergulhado na água do batismo para emergir e partilhar a Páscoa de Cristo como um novo nascimento.

Os monges estão particularmente atentos ao simbolismo das passagens pelas mil portas que atravessam para entrar na igreja e ao da água, muito presente no quotidiano.

 

III- A nave

Uma vez entrados no edifício, os cristãos colocam-se em disposição eucarística. É todo o sentido da vida cristã entrar nessa disposição, independentemente do momento e do estilo de presença na igreja, litúrgica ou não.

Existe um símbolo em muitas igrejas antigas, na forma de um labirinto, que não tem nada de esotérico. Ele simplesmente representa a imagem do caminho da porta exterior até à habitação interior. Homens e mulheres põem-se a caminho para formar um povo peregrino rumo à Jerusalém celestial. O caminho é longo e, de certa forma, desconhecido. Para simbolizar isso, os monges gostam de procissões. Eles entram juntos na igreja para celebrar a missa e saem da mesma forma.

Durante a eucaristia, outra procissão é a da oferta dos dons para o ofertório, que foi felizmente valorizada pela reforma do Vaticano II e brilha com todo o seu esplendor na liturgia bizantina ao canto do hino dos Querubins. Finalmente, durante essa mesma liturgia, os monges, assim como todos os cristãos, vêm em procissão para a comunhão.

Isso mostra o quanto a habitação do espaço arquitetônico é comunitária. Além disso, a própria forma do edifício, com os seus pilares e abóbadas, convida a considerar a reunião de um novo povo que se dirige para o seu centro. Os pilares são como gigantes em marcha, e as abóbadas os reúnem. A decoração dos capitéis é como a sua expressão jorrando, e os afrescos que outrora ornavam todas as paredes das igrejas aumentavam o número de convidados, colocando os fiéis na presença da comunhão dos santos. Mesmo quando estamos sozinhos e entramos numa igreja, devemos peregrinar na presença de todo um povo.

 

Igreja abacial dos beneditinos da Abadia de Conception, EUA. © AIM.
Igreja abacial dos beneditinos da Abadia de Conception, EUA. © AIM.

IV- O altar

Quando nos pusemos a caminho, raramente é sem um objetivo. Na arquitetura de uma vida monástica e cristã, a peregrinação converge para a escuta da Palavra e a sua implementação eucarística em torno do altar.

A Palavra de Deus deve elevar-se no edifício da igreja como um testemunho da presença do Verbo encarnado.

Conhecemos bem a citação da Constituição sobre a Liturgia do Concílio Vaticano II no capítulo 7: “Deus está verdadeiramente presente na sua Palavra, quando se leem as Sagradas Escrituras” (Sacrosanctum Concilium 7). O contato privilegiado com a Palavra de Deus é antes de tudo litúrgico; com efeito, na liturgia, a Palavra é recebida, transmitida, interpretada, atualizada; ela não pertence só a mim; ela reúne verdadeiramente todo o povo de Deus numa comunhão poderosa. No entanto, essa escuta litúrgica é tanto mais frutífera quanto mais preparada em silêncio e quanto mais ressoa para além da celebração, no encontro a sós com Deus. Compreende-se bem a importância do lugar da Palavra, seja ele fixo ou não (nem todas as liturgias têm as mesmas práticas a este respeito). Este lugar manifesta a presença de uma Palavra que não é simplesmente a nossa, uma Palavra que, pela voz dos seus ministros, ressoa como um apelo a seguir; não apenas como uma imposição à qual se deve submeter passivamente, mas como um lugar de partilha, de circulação viva e de interpretação comum, onde cada um dos membros da Igreja pode encontrar o seu lugar para falar e ouvir.

No entanto, ouvir a Palavra exige uma ação. O símbolo do altar representa esse movimento em que o Verbo feito carne se entregou inteiramente ao amor de seu Pai e dos homens, para que o mundo pudesse reconhecer o caminho da vida verdadeira e sair dos becos sem saída de seu próprio labirinto sem sentido.

O altar representa, portanto, Cristo em seu mistério pascal. Toda a sua vida é um sacrifício de louvor; no centro e no ápice dessa vida, está a entrega de si mesmo numa relação de confiança ao seu Pai e numa partilha total com toda a humanidade, seja ela amiga ou inimiga. O altar representa isso porque faz referência ao altar dos sacrifícios, onde tudo é entregue a Deus como num grande movimento de bênção. Deus deu tudo em seu Filho e, em seu Filho, tudo lhe é entregue ao mesmo tempo em que é compartilhado entre todos.

Entende-se que, ao entrar numa igreja, é o altar que se saúda antes de qualquer outro sinal. O altar, tradicionalmente, representa Cristo em seu mistério da Páscoa. Ao saudá-lo e venerá-lo, fazemos um ato de fé para seguir Cristo e tornar a sua Palavra a nossa condição habitual. É realmente aí que se constrói a arquitetura de uma vida cristã. Os monges concentram a sua vida em torno deste polo e tentam partilhá-lo no quotidiano, para além da simples celebração.

 

V- A liturgia

Como já foi dito, a liturgia é como o cimento, a trama da arquitetura eucarística de uma vida cristã e monástica. Assim, concluo aqui com alguns aspectos que me parecem bastante significativos:

– O primeiro é retirado da liturgia da Dedicação. Antes de entrar na igreja, após ter abençoado as paredes exteriores, o bispo apresenta-se à porta da igreja e bate com o seu báculo nessa porta, enquanto se canta o salmo 23: “Oh portas, levantai vossos frontões, para que entre o rei da glória”. No interior, os cantores perguntam: “Quem é este rei da glória?”, e vem a resposta: “É o Senhor Sabbaoth, ele é o Rei da glória.” Então, o bispo, seguido por todo o povo, entra no edifício. Há ali um magnífico pórtico no qual toda a vida deve recuperar a confiança: “Bata e lhe será aberto”.

– O segundo é o surpreendente repertório de cantos das diferentes tradições litúrgicas, composto por salmos, tropários, hinos... Eles ressoam como o som dos oceanos. É a imensa multidão daqueles que buscam a Deus e caminham incansavelmente.

– O terceiro é a importância da Palavra divina no coração da construção, com o dever que o povo tem de responder a ela e colocá-la em prática. Na liturgia cristã, nunca há doação da Palavra sem uma resposta em troca.

– O quarto é a possibilidade da comunhão, sacramental ou não, para saborear a misericórdia de Deus, que quer nos tornar semelhantes a Ele. “Provai e vede como o Senhor é bom”, este versículo do Salmo 33 é o mais utilizado na liturgia cristã para acompanhar o movimento da comunhão.

Além da liturgia, há a vida cotidiana, onde continuamos a peregrinação, e há a esperança da Jerusalém celeste que evocamos no início desta exposição, sem a qual nossa arquitetura espiritual permaneceria incompleta. Sim, sejamos monges, monjas ou cristãos batizados sem outra consagração, a arquitetura de nossas vidas é chamada a se tornar profundamente litúrgica.

Madre Máire Hickey

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Grandes figuras da vida monástica

Do site da abadia beneditina de Kylemore

Irlanda

 

Madre Máire Hickey

(1938-2025)

 

Antiga abadessa das comunidades beneditinas da abadia de Kylemore e da abadia de Santa Escolástica de Dinklage, na Alemanha, e anteriormente de Clontarf, em Dublin, a Madre Máire faleceu pacificamente no mosteiro da Imaculada Conceição da abadia de Kylemore, em 23 de fevereiro de 2025.

Máire Hickey nasceu em Dublin em 1938. Estudou letras clássicas na Universidade de Cambridge. Obteve uma licenciatura com distinção (Classical Tripos) em 1965 e um doutorado em 1973. Em 1974, entrou no mosteiro de Santa Escolástica em Dinklage, na Baixa Saxônia, Alemanha, onde fez a sua primeira profissão em março de 1977 e a sua profissão perpétua em março de 1980.

Em 1983, a comunidade elegeu Madre Máire segunda abadessa de Dinklage e, em 1995, ela foi reeleita para um mandato de 12 anos, até 2007. A Madre Máire empenhou-se em construir uma comunidade no contexto mundial da Ordem Beneditina. Durante muito tempo, presidiu à Associação dos Mosteiros Beneditinos Femininos dos Países Germanófonos (VBD).

Durante o seu abaciado em Dinklage, contribuiu para a fundação da Communio Internationalis Benedictinarum (CIB) – a Comunhão Internacional das Beneditinas – e foi eleita primeira moderadora da CIB em 1998, cargo que ocupou até 2006.

Em 2007, ela integrou-se à abadia de Kylemore, onde liderou a comunidade monástica até 2023. Durante os seus quinze anos como abadessa, Madre Máire guiou a comunidade em um período de grandes mudanças e desenvolvimento. Ela definiu uma nova visão para a Abadia de Kylemore ao criar o Kylemore Trust, que permitiu inúmeras reformas e melhorias na propriedade.

Fiel à longa tradição educativa da abadia de Kylemore, que remonta a Ypres em 1665, Madre Máire liderou o desenvolvimento de uma parceria com a Universidade de Notre Dame (Indiana, Estados Unidos), que permitiu a criação de um Centro Mundial de Educação Notre Dame em Kylemore. Pelo seu empenho na educação e na espiritualidade, recebeu um doutorado honorário da Universidade de Notre-Dame em 2016.

Um vivo interesse pela história da comunidade e do monaquismo feminino irlandês em geral a levou a apoiar projetos que culminaram na publicação de “The Benedictine Nuns and Kylemore Abbey: A History” (Dublin, 2020) e “Brides of Christ: Women and Monasticism in Medieval and Early Modern Ireland” (Dublin, 2022).

Em 2019, lançou o projeto “The Mustard Seed”, que liga a comunidade beneditina de Kylemore às Irmãs Beneditinas de Christu Jyothi, da diocese de Cuddapah (Kadapa), em Andhra Pradesh, na Índia.

Em 2024, recém-aposentada do cargo de abadessa, Madre Máire celebrou com a comunidade a inauguração do novo mosteiro da Imaculada Conceição na abadia de Kylemore. Foi a concretização de uma visão centenária a de estabelecer um mosteiro dedicado a Kylemore, bem como um centro de educação e retiro. Este marco histórico testemunha a liderança, a fé e a dedicação da Madre Máire, que conduziu o projeto através de inúmeros desafios.

A histórica abadia de Kylemore. © AIM.
A histórica abadia de Kylemore. © AIM.
O novo mosteiro na propriedade.
O novo mosteiro na propriedade.

As monjas beneditinas da Abadia de Kylemore, a sua irmã Una, o seu cunhado Sam Wilson, as suas sobrinhas Orla Wilson, Fiona Malan e Kathryn Wilson, bem como as suas famílias, os membros do conselho de administração do Kylemore Trust, os membros da Abadia de Kylemore, o mundo monástico e a comunidade local recordam com carinho a Madre Máire. Falando em nome da comunidade beneditina da Abadia de Kylemore, Madre Karol O’Connell disse:

“Madre Máire era uma mulher de grande fé, humildade e sabedoria. Ela construiu a paz, a comunidade, a abertura e a criatividade sagrada beneditinas. O seu legado perdurará aqui, na abadia de Kylemore, na comunidade monástica em geral e muito além, trazendo bênçãos a todos os lugares onde ela colocou as suas mãos e o seu coração.”

Dom Mamerto Menapace

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Grandes figuras da vida monástica

Artigo publicado em Cuadernos monásticos 234, 2025, p. 371-373

com a autorização fraterna de Dom Enrique Contreras

 

Dom Mamerto Francisco Menapace

(1942-2025)


A partida do nosso amado padre Mamerto para a Casa do Pai marca um momento crucial na vida da nossa comunidade da abadia Santa María de Los Toldos. Ele nos deu, de fato, dons tão maravilhosos e profundos que nada nem ninguém poderá jamais nos privar. Chegado muito jovem à comunidade beneditina de Los Toldos, permaneceu sempre profundamente fiel e com uma perseverança admirável.

Aos 18 anos, ele pronunciou os seus votos temporários e, seis anos depois, recebeu a ordenação sacerdotal. Durante esta etapa da sua vida monástica, ele desempenhou vários serviços, sempre com notável lucidez e grande dedicação, num período complexo e exigente.

Viveu vários anos com os monges fundadores do nosso mosteiro. Acompanhou muitos irmãos de várias comunidades do Cone Sul (Cono Sur), que desempenharam tarefas importantes nas suas respetivas casas, no seio da Conferência das Comunidades Monásticas do Cone Sul (SURCO) e da nossa congregação beneditina da Santa Cruz do Cone Sul. No início da nossa vida monástica, acolheu muitos de nós, acompanhou-nos e guiou-nos “com mão experiente”.

Ele foi superior do nosso mosteiro de Los Toldos durante dezoito anos. Serviu a comunidade com total dedicação, levando-a a uma plena integração com nosso bairro, na nossa diocese e na Igreja argentina. Um exemplo fiel desse trabalho é a iniciativa da peregrinação anual que vem de diferentes cidades da diocese ao nosso mosteiro para venerar a nossa Santa Mãe, a Virgem Negra.

No final do seu serviço como prior e primeiro abade da nossa comunidade, foi eleito abade presidente da referida Congregação. Dedicou toda a sua energia a esta difícil missão, até que o seu corpo e a sua idade o impediram de continuar o seu trabalho. Foram vinte e sete anos de dedicação lúcida, desinteressada e frutífera.

No final desse período exigente, o seu corpo começou a mostrar sinais de fraqueza cada vez mais evidentes, que se agravaram rapidamente ao longo deste último ano.

O Pe. Mamerto também nos deixou um dom muito especial, que foi a sua notável obra literária. Graças aos seus livros, ele conseguiu irradiar-se por todos os cantos do nosso país, bem como por nações em outras latitudes. As suas obras são simples, profundas e ricas numa experiência espiritual única. A sua contribuição para a espiritualidade cristã e monástica não só é inegável, como também marca uma importante virada entre os autores beneditinos.

Esta dádiva legada pelo nosso amado Pe. Mamerto nasce da sua fidelidade exemplar à leitura diária da Palavra de Deus. O seu exemplo deve interpelar-nos e encorajar-nos a seguir o mesmo caminho.

Muito obrigado, Pe. Mamerto, pelo seu exemplo de vida significativo. Perdoe-nos pelo que não pudemos aprender ou apreciar durante a sua vida. Agora confiamos na sua intercessão e sabemos que, sem dúvida, nos acompanhará no futuro da nossa comunidade.

Deus é bom! Ele priva-nos da sua presença física, mas concede-nos a sua presença espiritual e a sua ajuda em tudo o que a Providência nos reserva para o futuro. Conhecemos a sua grande devoção à Mãe de Deus, à Virgem Negra. Reze por nós para que ela nos proteja e nos guie por caminhos planos.

 

SALVE, Regina,

mater misericordiae, vita, dulcedo, et spes nostra, salve.

Ad te clamamus exsules filii Evae.

Ad te suspiramus, gementes et flentes in hac lacrimarum valle.

Eia, ergo, advocata nostra,

illos tuos misericordes oculos ad nos converte.

Et Iesum, benedictum fructum ventris tui,

nobis post hoc exsilium ostende.

O clemens, O pia, O dulcis Virgo Maria. Alleluia.

O novo Secretariado da AIM

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Notícias

O novo Secretariado da AIM

 


O padre Bernard Lorent Tayart, presidente da AIM, após consulta ao Abade Primaz, Dom Jeremias Schröder, nomeou o padre Charbel Pazat de Lys secretário-geral da AIM por um mandato de cinco anos.

O padre Charbel nasceu em Madrid, mas é de origem francesa. É monge da abadia Sainte-Madeleine du Barroux (França) há quarenta anos. Doutor e professor de liturgia, falante de várias línguas, exerceu inúmeras responsabilidades e funções no âmbito do mosteiro: submestre dos noviços, mestre dos estudantes, mestre dos irmãos, diretor da escola, responsável pelo moinho de azeite, pela cozinha, pela informática na universidade, designer, editor, arquivista, chanceler, banco alimentar... O padre Charbel também exerceu atividades pastorais (movimento litúrgico de jovens, associação para divorciados, retiros).

 

Na sequência da reestruturação do Secretariado, por favor, tome nota dos novos endereços de e-mail da AIM:

– Presidente, P. Bernard: president@aimintl.org.

– Endereço do Secretariado, gerido pelo P. Charbel: secretary@aimintl.org. Todos os pedidos de financiamento de projetos devem ser enviados ao padre Charbel para este novo endereço.

– Relativamente ao Boletim e ao site da AIM (ainda a cargo da Irmã Isabelle): newsletter@aimintl.org.

Todos os outros endereços antigos da AIM serão encerrados dentro de alguns meses.

Mais informações concretas sobre a nova organização do Secretariado serão publicadas no site da AIM dentro de algum tempo.

Notícias DIM-MID

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Notícias

Extrato do relatório sobre o DIM-MID

no Congresso dos Abades Beneditinos (setembro de 2024)

Padre William Skudlarek, OSB

Secretário-geral cessante

 

 

No último Congresso dos Abades, em 2016, o meu relatório sobre o DIM-MID assumiu a forma de uma introdução a um workshop bilingue sobre o diálogo inter-religioso (DIM-MID, Diálogo Inter-religioso Monástico). Estou grato aos organizadores do Congresso deste ano por me terem convidado a apresentar o meu relatório final como Secretário-geral numa sessão plenária. Um novo Secretário-geral, presente entre nós, me sucederá em 1 de outubro, e concluirei o meu relatório convidando-o a se dirigir aos senhores.

Em 2007, fui nomeado para suceder ao padre Pierre-François de Béthune, monge de Clerlande, na Bélgica, que se tornou o primeiro Secretário-Geral em 1994. Foi nesse ano que o DIM-MID se tornou um secretariado distinto dentro da Confederação Beneditina. Anteriormente, desde a sua fundação em 1978, existia como subcomissão da AIM. Durante os seus treze anos de mandato, o padre Pierre criou comissões regionais e linguísticas do DIM-MID, organizou programas de intercâmbio espiritual muito bem-sucedidos e contínuos com monges e monjas budistas zen japoneses, publicou um boletim informativo sobre as atividades do DIM-MID e vários assuntos inter-religiosos e criou um importante fundo para apoiar as atividades do DIM-MID. O monaquismo beneditino está profundamente grato ao padre Pierre por ter incentivado e continuado a promover o envolvimento dos monges e monjas no diálogo inter-religioso.

Neste relatório, comentarei apenas duas atividades nas quais o DIM-MID participou nos últimos oito anos. A primeira é a publicação de uma revista internacional online e multilingue. Chama-se Dilatato Corde e o seu primeiro número foi publicado em 2011. O título, como talvez reconheçam, é retirado do Prólogo da Regra de São Bento e sugere que o diálogo inter-religioso também pode contribuir para alargar o coração dos monges e monjas. A Dilatato Corde publica obras textuais e visuais de praticantes espirituais e estudiosos de diferentes tradições religiosas que desejam relatar, refletir e examinar o diálogo da experiência espiritual ou religiosa. A segunda edição do ano de 2023 é particularmente notável, pois nela comemorou-se o quinquagésimo aniversário da morte de um dos grandes pioneiros do diálogo inter-religioso monástico, o monge francês Henri Le Saux, também conhecido como Swami Abhishiktananda.

Eu mantenho uma lista de distribuição para todos aqueles que desejam ser informados sobre a publicação de novas contribuições na Dilatato Corde. Para ser adicionado a esta lista, basta enviar-me um e-mail para este endereço: wskudlarek@csbsju.edu.

A segunda atividade importante dos últimos oito anos foi o desenvolvimento do diálogo com os muçulmanos. Durante os seus primeiros anos, o Diálogo Inter-religioso Monástico concentrou-se particularmente no diálogo com os budistas e hindus, duas tradições espirituais ancestrais nas quais o monaquismo desempenha um papel importante. Embora o islamismo não possua uma instituição monástica, a prática muçulmana da oração comunitária em determinados momentos do dia está evidentemente em sintonia com a importância que atribuímos ao Ofício Divino, à qual, segundo Bento, nada vale a pena ser preferido. Desde 2011, o DIM-MID está empenhado no diálogo com os muçulmanos xiitas e, desde 2017, esse diálogo está particularmente focado na África, um continente que conta com cerca de 500 a 550 milhões de muçulmanos, ou seja, cerca de 45 a 50% da sua população. De acordo com o Atlas da OSB, a África conta também com cerca de 125 casas, priorados e abadias beneditinas, várias das quais estão entre as maiores do mundo. O desenvolvimento de boas relações entre as comunidades monásticas e os seus vizinhos muçulmanos não só é importante para o bem-estar de ambas as comunidades, como também constitui um sinal profético para o mundo inteiro: pessoas de diferentes convicções religiosas podem viver em paz e partilhar os seus dons espirituais.

O novo Secretário-Geral do DIM-MID

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Notícias

O novo Secretário-Geral do DIM-MID

Padre Cyprian Consiglio, osb

Apresentação no congresso dos abades, setembro de 2024

 

 

Sou Cyprian Consiglio, beneditino camaldulense originário da costa central da Califórnia. Estou no meu trigésimo terceiro ano de vida monástica. Acima de tudo, gostaria de parti-lhar com todos, o meu orgulho em me considerar um descendente de Bede Griffiths e Abhishiktananda. Conheci o padre Bede em 1992, quando eu entrava na vida monástica e ele regressava à Índia, onde faleceu alguns meses depois. Este encontro tocou-me de tal forma que, desde o início da minha vida monástica, comecei a estudar não só os seus escritos, mas também a mergulhar na filosofia e na espiritualidade asiáticas, ao mesmo tempo que me formava na história monástica e na mística ocidental. Também escrevi a minha tese de mestrado sobre este tema. Como talvez saibam, o padre Bede integrou a nossa Congregação com o ashram de Saccidananda. Por isso, considero os monges e monjas que lá vivem como meus familiares. Fui lá cerca de uma dúzia de vezes e, claro, também viajei por outras regiões da Índia.

Vivi dez anos longe da minha comunidade, levando uma vida experimental, antes de ser chamado de volta para o serviço de prior. Eu tinha um eremitério na floresta, mas também me dediquei muito ao diálogo inter-religioso, um trabalho que acabou por me levar a muitas regiões do mundo. Além do diálogo com o budismo e o hinduísmo (principalmente através do zen Soto e da tradição do yoga), fui profundamente influenciado pelo taoísmo e pude encontrar representantes dessa tradição, nomeadamente em Singapura e na Malásia.

De volta à Califórnia, fundei uma sangha cristã para acompanhar as muitas pessoas que exploravam a espiritualidade asiática e ocidental. Muitos eram cristãos que procuravam conciliar os tesouros que, como eu, tinham descoberto noutra tradição e regressar à Igreja. Também trabalhei com e para um grupo missionário dinamarquês chamado Danmission, que conheci na Índia. Além de uma série de conferências e concertos na Dinamarca, eles organizaram uma viagem excepcional ao Líbano e à Síria para uma série intitulada: “Diálogo através da música”.

Na mesma época, contribuí para a criação de um movimento na Califórnia, chamado «A Tenda de Abraão», com o objetivo de promover momentos de encontro, diálogo e amizade entre judeus, cristãos e muçulmanos. Com membros desse mesmo grupo, fiz uma peregrinação a Israel e à Palestina que mudou profundamente a minha vida e me fez perceber o lugar privilegiado que os cristãos ocupam na sua relação com os outros filhos de Abraão.

Durante muitos anos, a minha disciplina principal foi a liturgia e a música, e tive a oportunidade de trabalhar para e com alguns dos pioneiros do Concílio Vaticano II, nomeadamente o padre Lucien Deiss. Este percurso deu-me uma base sólida para o trabalho no diálogo inter-religioso e, claro, a música foi uma ponte formidável entre os povos e as culturas. Escrevi e gravei muitas canções inspiradas em textos e/ou músicas dessas diferentes tradições e culturas.

Quando o padre William e o abade Gregory Polan me ofereceram este cargo, percebi que ele abrangeria quase tudo o que eu amo e o que sinto como vocação: escrever, retiros e música.

Disseram-me que o interesse por esse diálogo diminuiu na Igreja nos últimos anos. Isso me entristece, mas considero isso um desafio, pois, como salientou o Santo Padre, o diálogo me parece não só a face mais bela da Igreja, mas também um elemento essencial para a paz no mundo. E, claro, nós, monges, trazemos algo específico para essa obra. Uma profundidade espiritual e uma vida ascética baseadas na oração, na meditação e na proximidade com as Escrituras.

Duas frases de Raimon Panikkar me servem de fio condutor. Ele insiste no fato de que não buscamos tanto a unidade das religiões, mas a harmonia entre elas. E a outra frase, que creio ser dele, é: «Cami-nhos batidos entre as cabanas». Não precisamos necessariamente de mais seminários, conferências e colóquios: precisamos traçar caminhos de amizade entre os povos. Na minha opinião, esse era o mandato inicial do Vaticano II. Nós, os camaldulenses, também recebemos um mandato especial de João Paulo II, que durante a sua visita ao Sacro Eremo em 1993, encorajou-nos a continuar o trabalho que já estávamos realizando nessa área.

Não preciso dizer que agradeço a William pelos seus muitos anos de serviço, bem como ao abade Gregory pela confiança que depositaram em mim; me sinto honrado e comovido por tentar encarnar o monaquismo cristão num mundo que tanto precisa desta amizade, em nome de Jesus, o Senhor.

 

Notícias de junho de 2025

Estou terminando a minha longa estadia nos Estados Unidos, na Abadia de Saint John de Collegeville, em Minnesota, na companhia do padre William Skudlarek, meu antecessor e atual diretor executivo da filial americana do DIM-MID, e de dois membros do conselho de administração do DIM-MID, o padre Michael Peterson, também de Saint John, e o padre Lawrence Morey, da abadia de Gethsémani. Vários outros membros do conselho juntaram-se a nós online de todo o país. Foi uma maneira adequada de concluir esta estadia, pois há exatamente um ano, quando eu estava aqui para animar o retiro da comunidade monástica, o padre William me perguntou se eu estava disposto a sucedê-lo. E o resto pertence à história, à história em curso...

Os membros do conselho de administração e eu tivemos boas discussões sobre como relançar o trabalho do DIM-MID na América, uma discussão semelhante à que tive e terei com outros diretores em todo o mundo nos próximos meses.

Penso que é necessário recordar que, tal como o Concílio Vaticano II não foi uma moda passageira, o trabalho do diálogo inter-religioso será um ministério permanente na Igreja e no mundo. Embora seja difícil recuperar o ímpeto após a Covid (e as nossas comunidades envelhecidas estejam, por vezes, em modo de sobrevivência), nós, monges, sempre recebemos do Vaticano o mandato de desempenhar um papel de primeiro plano no diálogo inter-religioso. Como disse o cardeal Pignedoli em 1974:

“A presença do monaquismo na Igreja Católica é, em si mesma, uma ponte entre todas as religiões. Se tivéssemos de nos apresentar ao budismo e ao hinduísmo, sem falar das outras religiões, sem a experiência religiosa monástica, seria difícil sermos credíveis como pessoas religiosas.”

As palavras-chave que me passaram pela cabeça nestas semanas são os dois verbos que descrevem o meu papel: promover e envolver-me no diálogo inter-religioso.

Vejo o primeiro, promover, como intrarreligioso, ou seja, dentro da nossa própria tradição, nomeadamente dentro do monaquismo, sublinhando a importância constante do diálogo; enquanto o segundo, envolver-se, é extra-eclesial, indo ao encontro de pessoas fora da nossa tradição, idealmente no seu terreno, uma atividade que considero estimulante e revigorante, e de importância vital.

Projetos apoiados pela AIM

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Projetos apoiados pela AIM

 

Apresentação de três projetos apoiados pela AIM

 


Mahitsy (Madagáscar) :

construção de uma unidade de biocompostagem

O mosteiro beneditino de Mahitsy, congregação de Subiaco-Montecassino, está localizado a 30 km a noroeste de Tananarive (Antananarivo), a 1500 m de altitude. A comunidade conta atualmente com cerca de vinte monges. Mahitsy foi fundada em 1955 pela abadia de La Pierre-Qui-Vire (França). Atividades da comunidade:

– Hospedagem (25 vagas).

– Animação mensal de preparação para o casamento para a paróquia.

– Cursos de francês e inglês para os jovens vizinhos.

– Publicação de obras sobre tradição e espiritualidade monástica em língua malgaxe.

– Criação de galinhas poedeiras, galinhas locais e vacas leiteiras.

– Exploração da floresta de pinheiros e eucaliptos para a venda de madeira em pé ou lenha.

A comunidade tem o projeto de construir e operar uma unidade fixa de composteira de 60 m³. O objetivo desta operação é economizar mais de 200 m³ de lenha por ano, preservar a floresta (replantada periodicamente) e, assim, contribuir para a luta contra o aquecimento global.

A compostagem é um processo biológico de degradação de matéria orgânica. Ela existe em vários processos naturais. É também uma técnica utilizada em composteiras, onde o processo é acelerado e mantido para produzir um gás combustível (biogás, denominado biometano após purificação). Os resíduos orgânicos (ou produtos provenientes de culturas energéticas, sólidos ou líquidos) podem assim ser valorizados sob a forma de energia.

Construção da unidade de biometanização.
Construção da unidade de biometanização.

Os beneficiários do projeto serão a comunidade monástica e os seus hóspedes, bem como parte da população circundante que depende da exploração da floresta, incluindo um grupo importante de pessoas pobres que revendem a madeira inutilizada.

A comunidade de Mahitsy assume uma parte do projeto, ou seja, 2000 euros. A AIM apoia este projeto com um montante de 3970 euros.

 

Comunidade de Umkon, Shillong (nordeste da Índia):

construção de alojamentos para o pessoal escolar

As Irmãs Beneditinas de Santa Lioba iniciaram em 2021 a sua missão em Umkon, no nordeste da Índia, na paróquia de Umkon dirigida pelos Missionários Salesianos. O seu principal objetivo, ao virem para este estado do nordeste, é anunciar aqui o Evangelho e aprofundar a formação religiosa dos fiéis, promovendo simultaneamente a educação e a autonomia.

Nesta região remota, as irmãs gerem e administram ativamente uma escola, oferecendo educação indispensável às crianças que não têm acesso a professores qualificados.

Além do ensino, fazem visitas domiciliares e oferecem aulas de reforço escolar para melhorar o nível escolar das crianças. Para elas, a educação é uma ferramenta de transformação para a mudança social.

Fiel ao seu carisma, “Nunca abandonar a caridade”, elas se comprometem em vários apostolados, como o ensino, o cuidado, o trabalho social e as atividades pastorais. A comunidade local aprecia muito a sua presença, como atesta a sua participação ativa na Igreja. Depois de terem gerido com sucesso uma escola e um dispensário na diocese de Nongstoin, em Meghalaya, estão convencidas de que podem reproduzir este modelo neste novo distrito.

Atualmente, estão construindo alojamentos para o pessoal, a fim de acolher professores qualificados para a escola e oferecer uma melhor educação a esta região desfavorecida. Embora tenham angariado localmente 70% dos fundos necessários, a distância e os elevados custos de transporte dificultam a cobertura das despesas restantes. Ainda lhes faltam cerca de €30 000 para concluir o projeto.

Terreno escolhido para a construção do edifício.
Terreno escolhido para a construção do edifício.

O novo edifício terá várias funções:

– Alojamento para o pessoal, a fim de acolher professores qualificados.

– Casa de estudos para alunos com dificuldades, oferecendo aulas complementares fora do horário escolar.

– Local de catequese para as crianças.

– Espaço para sessões de capacitação, especialmente para as mulheres da aldeia.

Assim a AIM apoia este projeto com os €30 000 euros restante.

 

Encontro da EMLA

O próximo encontro da EMLA (Encontro Monástico Latino-Americano) será realizado de 3 a 10 de novembro de 2025 em Salvador da Bahia (Brasil). Este encontro acontece a cada quatro anos em diferentes países da América do Sul.

A CIMBRA (Conferência de Intercâmbios Monásticos do Brasil) acolherá este encontro monástico de todos os mosteiros que seguem a regra de São Bento no continente latino-americano. Haverá entre 90 e 110 participantes representando as diferentes regiões da América do Sul através das associações monásticas locais: ABECCA, UBC, SURCO e CIMBRA.

Além da intervenção do Abade Primaz Jeremias Schröder, do Abade Geral dos Cistercienses, Dom Mauro-Giuseppe Lepori, do Abade Geral dos Trapistas, Dom Bernardus Peeters, da moderadora da CIB (Comunhão Internacional das Beneditinas), Irmã Lynn McKenzie, e do Presidente da AIM, Dom Bernard Lorent Tayart, cada região e vários conferencistas apresentarão um aspecto do tema geral – “Comunidades fraternas para um mundo fraterno. Que todos sejam um para que o mundo creia (Jo 17, 21)”: “Fundamentos da vida fraterna na Regra”, “Caminho de fraternidade hoje, obstáculos, perdão e reconciliação”, “As comunidades, como lugar de formação para a fraternidade”, “A vida monástica, esperança para a Igreja e para o mundo”.

É claro que o essencial destas reuniões consiste sempre no encontro pessoal com outras realidades e pessoas responsáveis. Os temas a abordar são numerosos em contextos variados.

Tudo isto tem um custo, evidentemente, em termos de alojamento, deslocações da equipe de preparação, organização de uma saída durante o encontro, custos de salas e material, etc. A AIM contribui com uma ajuda de €25 000.

A assembleia da EMLA em 2019.
A assembleia da EMLA em 2019.

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