BENEDITINAS DE NOSSA SENHORA DO CALVÁRIO,
NO MONTE DAS OLIVEIRAS, EM JERUSALÉM

Me. Christine Marie Devillon, OSB

Jerusalem1Situado no alto do Monte das Oliveiras, em um jardim acima do Getsêmani e do «Dominus flevit», ladeando o cemitério judeu, a algumas centenas de metros da gruta onde Jesus ensinou o «Pater» a seus discípulos, o Mosteiro encontra-se voltado para Jerusalém. Vislumbra-se daí um dos mais lindos panoramas das colinas de Sião e da Cidade Santa rodeada por suas muralhas com pedras rajadas de ouro.

Proveniente da reforma da Abadia de Fontevrault, nossa Congregação fundada em Poitiers, no ano de 1617, por Madame Antoinette d’Orléans, com a ajuda do P. Joseph du Tremblay, trazia consigo desde a origem o desejo de um Mosteiro próximo ao local de nossa redenção.

Se herdamos a intuição profunda de Roberto de Arbrissel, quando fundou a Abadia de Fontevrault: «Maria, a Mãe ao pé da Cruz», um autêntico zelo missionário animou nossos fundadores, enraizando profundamente em nossos corações a oração «pela recuperação dos Lugares Santos, pela conversão dos turcos e dos hereges», como se dizia naquele tempo.

O desejo tornou-se realidade em 1896, depois de vencer obstáculos insuperáveis sob o aspecto humano: a Sagrada Congregação da Propaganda recusou a autorização de fundar na Terra Santa, pretextando que já havia muitos Institutos franceses em Jerusalém.

A intervenção secreta e intrépida de uma amiga do Mosteiro junto ao Patriarca greco-melquita, Monsenhor Youssef, em Roma, abriu as portas da Terra Santa a Me. Saint-Jean de la Croix, Superiora Geral, surpresa e admirada. Monsenhor Youssef obteve diretamente, por Bula papal, a autorização desejada, sob a condição de se fundar um orfanato destinado a acolher meninas do rito greco-melquita.                                                     

Jerusalem2A 4 de Outubro de 1895, Me. Saint-Jean de la Croix e Me. Marie-Joseph, futura Prioresa do Monte das Oliveiras, foram recebidas em audiência privada pelo Papa Leão XIII, que lhes disse substancialmente: «Meu desejo e minha vontade é que as senhoras trabalhem por este meio (do orfanato) para a união das Igrejas».

Ouvir o Papa Leão XIII confiar-nos sua preocupação com a unidade e seu desejo de nos ver trabalhar na Terra Santa por esta causa, coincidia de maneira surpreendente com a intuição primeira que modelou a identidade de nossa Congregação, em suas origens.

Fortalecidas por estas palavras e com benção do Santo Padre, as Superioras nomearam sete fundadoras para a novel comunidade. Três irmãs procediam da comunidade de Angers, uma de Landerneau – Me. Saint-Paul, Sub-Prioresa – duas de Orléans e uma de Capelle Marival.

Embarcadas em Marselha a 1º de Dezembro de 1896, as Irmãs chegaram a Jaffa no dia 11, e a Jerusalém no dia 12. Instalaram-se em um edifício colocado a sua disposição pelas Religiosas Assuncionistas, em Notre Dame de France, esperando que os trabalhos, no Monte das Oliveiras, terminassem.

A Primeira Missa foi celebrada no dia 27 de Abril de 1897 e a vida monástica retomada neste lugar onde viveram, há séculos, Santa Melânia, a Jovem, e suas companheiras; a tradição monástica reflorescia então. Como resumir cem anos de história? As dificuldades apareceram desde a fundação, quando o Patriarca latino se recusou a receber sob sua jurisdição o Mosteiro fundado por uma iniciativa do Patriarcado greco-melquita.

No ano de 1900, em algumas semanas, Me. Marie-Joseph e Me. Saint-Paul sucumbiram à epidemia de peste que assolava o país. Foi preciso aguardar até 1901 para que chegasse Me. Saint-Anselme, nova Prioresa, e o orfanato abrisse suas portas, em outubro do mesmo ano. Depois veio o exílio durante os quatro anos da Primeira Guerra Mundial: a comunidade foi acolhida no Mosteiro de Angers.

Em fins de junho de 1919, as Irmãs regressaram: foi a tristeza de encontrar o Mosteiro pilhado, devastado e somente a igreja intacta; era preciso refazer tudo, limpar tanto os prédios quanto o jardim. O orfanato reabriu suas portas apenas em julho de 1920.

Algumas vocações vieram da França, do Egito e do Líbano, e a comunidade continuou sua caminhada através das contingências da vida do país: insegurança, terremoto em 1927, conflitos crescentes entre judeus e árabes em 1938, em seguida a Segunda Guerra Mundial, que cortou as relações do Mosteiro com a França. Depois foi a guerra de 1948 entre judeus e árabes, quando, nas horas de maior perigo a comunidade assegurou a hospitalidade para as mulheres e as crianças da cidade, sofrendo perdas materiais importantes. A vida retomou seu ritmo em um clima de paz muito frágil até a Guerra dos Seis Dias, em 1967: uma bomba caiu no terreno do Mosteiro sem fazer nenhuma vítima. Ao fim dos combates, oscilávamos em um outro mundo ao qual deveríamos nos adaptar.

IconeEm 1977, ocorreu o fechamento do orfanato. Nesse ínterim, a comunidade continuou a pagar a escolaridade de cerca de sessenta crianças em três escolas da cidade. Os locais liberados tornaram-se um ateliê de ícones, onde o trabalho se desenvolveu rapidamente e se tornou o meio de subsistência, com a acolhida de um pequeno número de peregrinos, o que permitiu prosseguir, com fidelidade, a ajuda às crianças. Hoje, a comunidade é formada por 10 irmãs de 6 nacionalidades diferentes, bem de acordo com a imagem da cidade cosmopolita que nos rodeia. Nossa vizinhança é inteiramente árabe-muçulmana. Depois da Guerra dos Seis Dias, o mundo israelense e a realidade do judaísmo estão onipresentes e nos interpelam. Tecer laços de amizade tanto com uns quanto com outros é um desafio que devemos enfrentar, primeiramente no seio de nossa própria comunidade, composta por irmãs provenientes tanto do mundo árabe quanto do mundo judeu.

A Regra de São Bento, contexto vital de nossa vocação de índole pascal, voltada para o retorno de Cristo, revela-se aqui em Israel com força, em sua fonte: a Palavra de Deus transmitida por um Povo, uma Tradição e uma Terra que são sacramentos da vocação de Deus e de sua Presença entre nós, hoje. A Regra de São Bento foi traduzida para o hebraico. Debruçando-nos sobre o judaísmo, uma estranha sensação se apodera de nós: a de estar em casa e descobrir os antepassados, dos quais nós transmitimos o espírito como sendo nosso, à medida que o recebemos e o devemos  transmitir.

São Bento, modelado pela Torá, escutada e praticada, foi um canal pelo qual passou a Tradição. Devemos todos desenvolver e reencontrar nossas raízes, para sermos, por nossa vez, os «transmissores».

Em nossa vida de oração e de trabalho, assumimos diariamente o clima de tensão e de conflitos que renascem periodicamente, mas com momentos de trégua, felizmente. A busca de Deus, vivida por São Bento na gruta de Subiaco, é o nosso lugar de silêncio e de solidão, no qual Deus fala ao coração daquele que O escuta. Nossa vocação inicial para a unidade se alargou agora no contato com os judeus e os muçulmanos. Grupos israelenses estão fascinados pela nossa forma de vida de inteira gratuidade em relação a Deus. Deus só, basta e isso lhes recorda a sua própria eleição. Viver onde Cristo viveu seu mistério pascal, estar com Maria aos pés da Cruz de Jesus, «olhar para Aquele que traspassaram, para receber o espírito de graça e de oração», segundo a palavra de Zacarias (12, 10), viver em profundidade o mistério do Grande Shabbat, no Sábado Santo, com a Virgem Maria e as santas mulheres, na espera do Dia em que todas as coisas serão novas. 

À imagem da casa de Betânia, onde Jesus pôde encontrar a amizade e o repouso, procuramos ser um lugar em que se podem encontrar, em um clima de confiança, israelenses e palestinos por ocasião de eventos excepcionais, ultrapassando os sofrimentos da vida cotidiana e as contingências da vida política, ajudando as pessoas do país por meio de nossa solidariedade e testemunhando fortaleza e esperança.

A Igreja de Jerusalém sempre foi uma Igreja pequena e pobre. Mãe de todas as Igrejas, ela será sempre em todo lugar a Igreja para a qual é preciso pedir auxílio.

travailTodas as nossas comunidades sofrem com a impossibilidade de vocações locais. Muitos cristãos vêm em peregrinação ou para estudar, mas poucos vivem aqui. Motivos fundamentais convidam a manter, a reforçar, a sustentar as comunidades que vivem na Terra Santa, através do apelo da Igreja e da intuição dos fundadores:

- viver nas fontes do cristianismo;

-  responder aos apelos da Igreja local e universal, inquieta por ver os cristãos desertar desta terra;

- continuar em um lugar alto do monaquismo uma missão de louvor e de compaixão, de intercessão pela paz e pela unidade dos cristãos.

Se toda a terra é santa, se o coração do batizado é um lugar santo, isto é verdadeiro, sem dúvida, em relação a Jerusalém, concentração do tempo e do espaço, onde Deus desposou nossa humanidade para salvá-la. Viver em Jerusalém, «habitar a terra», é estar na fonte. Acolher no Mosteiro, é dar a cada um a possibilidade de fazer a experiência da Presença e descobrir sua própria identidade: «Chamamos Sião nossa Mãe, pois nasceu nela todo homem, foi ali que eles nasceram. Estão em ti as nossa fontes» (Salmo 86 [87], 5.6.7).

Ser beneditina de Nossa Senhora do Calvário, no Monte das Oliveiras, em Jerusalém, eis um bom programa e uma bela aventura, um desafio e uma oportunidade.

Madre Christine Marie Devillon, OSB, é Prioresa
do Mosteiro das Beneditinas de Nossa Senhora do Calvário,
no Monte das Oliveiras, em Jerusalém (Israel).

Traduzido do francês pelas monjas
do Mosteiro da Santíssima Trindade, Santa Cruz do Sul, RS.