OS PRATOS E AS TAÇAS VAZIAS

Irmã Évangéline

Este artigo não trata da construção da nova Capela das Diaconisas de Versalhes, mas sim de sua Dedicação, ocasião para a comunidade de fazer uma experiência forte de celebração ecumênica, visto contarem elas com muitos católicos entre seus amigos e benfeitores.

Um contexto excepcional

diaconesse1Nos meses de setembro e outubro de 2007, a Comunidade das Diaconisas de Reuilly estava se preparando para celebrar a Dedicação da nova Capela de sua casa-mãe, em Versalhes, marcada para a tarde do domingo, 11 de novembro. Dos convidados nominalmente, 90% eram benfeitores que haviam generosamente respondido ao pedido de ajuda financeira feito três anos antes: cerca de 1.000 pessoas. Dentre os benfeitores contavam-se vários Mosteiros católicos, numerosas famílias de doentes, o Bispo de Versalhes etc. No final de setembro, 450 pessoas já tinham confirmado presença; portanto, no próprio dia seriam em torno de 600 pessoas, das quais pelo menos a metade, muito provavelmente, não eram protestantes.

As liturgias da Dedicação, luteranas ou reformadas, contêm elementos ricos e criativos. Elas incluem sempre a entrada solene da Bíblia e dos pratos e taças para a Santa Ceia, a serem utilizados já na primeira celebração. Como realizar uma eucaristia, dar graças a Deus pelo presente de uma Capela maravilhosa, que todos recebemos juntos, e ver algumas pessoas se excluírem da comunhão oferecida a todos, da parte de nossas Igrejas protestantes, por obediência a sua hierarquia eclesiástica? Uma eucaristia «crucificada», enquanto estávamos experimentando a alegria pascal? Começou então entre nós uma intensa reflexão.

Amadurecimento de uma decisão

Nossa Comunidade, inter-denominacional(1), tem um profundo amor à Santa Ceia. Onde quer que estejamos, desejamos comungar ao menos uma vez por semana e, havendo oportunidade, com mais freqüência. Iríamos viver um acontecimento único em nossa história: como, naquele dia, não comungar nas «duas mesas», a da Palavra e a do Sacramento, pois íamos dedicar um edifício para celebrar Deus numa e noutra?

Se tivéssemos sido convidadas para uma celebração similar em uma igreja católica ou ortodoxa, a eucaristia teria sido celebrada naturalmente e nós deveríamos «jejuar». Portanto, não poderíamos tranqüilamente afirmar nossa identidade eclesial e teológica, e, além disso, proporcionar com certeza a muitas pessoas presentes, a ocasião de vivenciar pela primeira vez uma liturgia da Santa Ceia?

Renunciar a celebrar a Ceia, não seria uma atenção fraterna excessiva? Além do mais, não seria ela um tanto quanto banalizada por nossos amigos católicos, para os quais os protestantes dão com freqüência a impressão de que a Ceia tem um peso teológico e espiritual menor que a Palavra lida e proclamada? Um sinal desprovido de significado? Uma de nós disse então: «em suma, seria isso um jejum eucarístico?» Essas palavras prenderam momentaneamente nossa atenção, pois não pertencem ao nosso vocabulário habitual.

diaconesse2Entretanto, acontece-nos jejuar uma ou duas vezes por ano, quando o Pastor celebrante esquece de vir ou fica bloqueado no tráfego parisiense: e tudo foi preparado para a celebração! Até agora, nenhuma Irmã está habilitada a celebrar a Santa Ceia em comunidade; gostamos de deixar bem claro a especificidade das duas vocações pastoral e religiosa, cada uma completa, num feliz entrosamento. Nessas tardes, a oração de Completas é um paliativo para o que nos falta. A decepção confere um peso particular a essa oração: «jejum acidental».

Quando nos encontramos em meio católico monástico, a mesa eucarística nos é geralmente acessível (a vida monástica, lugar ecumênico privilegiado!). De nosso lado, cada uma é livre de aceitar ou não o convite, por decisão de nosso conselho de comunidade, em 1978: tal é o posicionamento acerca do qual nos pusemos de acordo, uma vez que viemos de famílias eclesiais protestantes diferentes, e cada uma caminha em seu ritmo próprio e no ritmo do Espírito. Por conseguinte, pode acontecer que uma comungue e outra não, quando o vocabulário sacrifical ou elementos outros da liturgia ainda desconcertam, sem julgamento recíproco: jejum «de educação».

Jejuar? Jesus sabia bem o que era: jejuar lembrava o luto, o desânimo, o pecado, o desgaste, a tristeza às vezes ambígua (Mt 6, 16; 9, 15). Nós queríamos celebrar em primeiro lugar Cristo ressuscitado, luz do mundo, que a Assembléia Ecumênica européia de Sibiu (Romênia) nos convidara, pouco antes, a proclamar juntos, «para que o mundo creia», na alegria e na esperança.

Queríamos, em seguida, agradecer a Deus (fazer eucaristia) por sermos tão numerosos e tão diversos, receber o que nossas generosidades, inspiradas por nossa amizade em Cristo, haviam tornado possível, e pedir ao Espírito que esta casa fosse uma casa de louvor, de cura e de paz para nosso tempo.

Se nela devia haver jejum, que fosse luminoso: uma comunhão na não-comunhão, um envio ao mundo que espera a revelação dos filhos de Deus (Rm 8, 19).

Já – ainda não! Desejaríamos que o «já» da comunhão em Cristo fosse percebido de uma maneira tão tangível que o «ainda não» se traduzisse por uma vontade de militância bem mais consciente, quando fôssemos abençoados e enviados, no final da liturgia.

Confirmar a intuição com os irmãos e irmãs

Esta intuição seria compreendida? Para confirmá-la, antes de dar prosseguimento, recorremos ao delegado para as relações ecumênicas da Federação Protestante da França, Pastor Gill Daudé. Ele nos encorajou a pôr mãos à obra e compor uma «oração eucarística», prontificando-se a dar sua opinião, ele e seu homólogo católico, Padre Michel Mallèvre.

Alguns dias depois, apresentei esta problemática ao Pastor Jean-Marc Viollet, encarregado eclesial de nossa comunidade. Esse fato o fez debruçar-se numa séria reflexão que não o impediu de ser, no dia 11 de novembro, um celebrante fraternal.

No plano comunitário, a reflexão foi levada ao Colegiado (doze Irmãs, conselheiras da Prioresa). Ela deveria prosseguir num círculo mais abrangente: em primeiro lugar, com as Irmãs habitualmente em Versalhes. Mesma perplexidade como no início, com os mesmos questionamentos já referidos. Um elemento novo, entretanto. Uma Irmã sublinhou o alcance do «nós», empregado durante a oração (que, entrementes, fora composta, revista pelos dois peritos, retrabalhada). A oração começava com o «já» tangível, nos levava a uma confissão de «nossos desvios e de nossos medos», e nos tomava todos pela mão – ou pelo Espírito – para nos conduzir mais longe. De uma certa maneira, iríamos realizar um ato de Igreja una.

Mas, concretamente, que ato?

diaconesse3Primeiramente, uma reflexão meditativa sobre a Santa Ceia, introduzida por uma dança sóbria, acompanhada por um saxofone, o qual, ato seqüente, acompanhou a leitura do capítulo da Regra de Reuilly: «Santa Ceia». A seguir, em silêncio, apresentação dos pratos e taças vazias, por quatro pessoas: três protestantes e uma monja católica. Depois, a «oração eucarística» a várias vozes, intercalada pela invocação a Cristo Ressuscitado, pelo presidente da celebração, Pastor Baty, assistido pelo Pastor Viollet, oração concluída por um vibrante canto do «Glória», prolongado por um ósculo da paz amplamente dado, que o «Pai nosso» viria encerrar. Enfim, o envio, composto pelo «Símbolo dos Apóstolos» e a bênção. 

Restava-nos ainda partilhar esta longa reflexão e esta grande movimentação litúrgica com as aproximadamente trinta Irmãs que viriam se juntar a nós para o retiro da comunidade e a Dedicação. Uma boa hora de explicação e de diálogo foi suficientemente necessária. Chegamos então, todas juntas, à última decisão: nada anunciar, no começo da cerimônia, do que iríamos vivenciar no tocante à eucaristia. A escolha que nos levou a convidar o Pastor Daudé para ser o pregador iria dar uma certa coerência às duas partes do Ofício, paralelamente à função de presidência do Pastor Baty, garantindo também a coerência da assembléia.

Não fomos gratificados?

Esse jejum está situado, portanto, num processo comunitário e eclesial longamente amadurecido, mas também num contexto excepcional. Não foi um jejum «acidental» nem um jejum «de educação». Ele foi pensado para ser um momento de «parada na estrada», de um grito ao nosso Deus, de um consentimento para «nos deixarmos alcançar, impulsionar e importunar pelo Espírito.» «Tempo de graça escatológica», escrevia-me logo depois um eclesiástico católico.

Sim, a Santa Ceia, a eucaristia dá um tom de plenitude a nossas celebrações. Sim, a Bíblia nos une, mas quando a abrimos, ela pode também nos dividir.

«Com que olhar, Senhor, olhas para nós, tu que sem reserva te entregaste, sem esperar seres compreendido, sem esperar seres acolhido?»

«Nós, Comunidade, nos comprometemos a prosseguir, pela graça do Espírito Santo, a oração pela unidade das Igrejas que ardia no coração de Irmã Caroline, nossa fundadora, e a procurar dar mostras desse desejo com nossa vida.»

«Espírito Santo, ilumina e inflama em nós uma fervorosa esperança do dia em que, como ao redor da mesa de Emaús, tu partirás o pão para todos nós; então, com os olhos abertos, enxergaremos nossos desvios e nossos medos.»

A estas preces, nós todos dissemos: Amém.

Fomos gratificados.

Irmã Evangéline é Prioresa da
Comunidade das Diaconisas de Reuilly, Versalhes (França).

Traduzido do francês por Maria Luísa Laranjeiro de Souza.

(1) N. da T. – No original francês consta a palavra «inter-dénominationnelle» que traduzimos por inter-denominacional. O neologismo em questão quer dizer que as Diaconisas da Comunidade de Reuilly pertencem a diversas denominações protestantes.