LATROUN, UM MOSTEIRO «TRAPISTA» NA TERRA SANTA

P. Marie-Augustin Tavardon, OCSO

Latroun1- Sabor bíblico

«Nesse mesmo dia, dois discípulos caminhavam para uma aldeia chamada Emaús, distante de Jerusalém duas horas de caminhada» (Lc 24, 13). 

Se para a vida monástica, em sua totalidade, o Mosteiro é o «lugar» de Deus, ele é muito mais ainda nesta terra inteiramente impregnada de sabores bíblicos.

Foi a 31 de outubro de 1890 que os primeiros trapistas de Sept Fons chegaram a Jaffa. A pequena comunidade se instalou em um palacete comprado de um árabe cristão localizado no caminho dos peregrinos que vai de Jaffa para Jerusalém. A chegada dos trapistas está situada na movência das congregações católicas que afluíram para a Terra Santa depois da criação do Patriarca latino, em 1847. A espiritualidade do «lugar» teve uma importância decisiva e procuramos nos situar da melhor maneira possível em uma topografia neo-testamentária bem pouco científica. De qualquer modo, tal fato iria tornar possível uma renovação arqueológica.

No caso dos trapistas, esse papel seria desempenhado por Emaús-Nicópolis. A narrativa lucana dos discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35) além de constituir o pano de fundo espiritual da fundação, oferecia uma lectio divina viva e eloqüente, sempre presente e enriquecedora de mil maneiras.

Este sabor bíblico é em primeiro lugar uma paisagem

Do alto da colina de Latroun (265 metros), com um só golpe de vista, abarca-se um vasto panorama de trinta quilômetros a oeste, noroeste e sudoeste.

A oeste está a planície de Sephelah, isto é, o «país baixo» –  a planície dos filisteus – segundo o livro de Josué, cuja maior parte fora atribuída à tribo de Judá. Em seu prolongamento, está a planície de Sharon, cantada por Isaías. A noroeste vê-se Jaffa no horizonte, Lydda (Lod) e Ramleh. A oeste, Abu Shusheh, a antiga Gezer, situada no limite norte de Sephelah, a cerca de trinta quilômetros de Jerusalém. A sudoeste, o vale do Soreq famoso por suas uvas, terra de Sansão e Dalila. Era por esse vale, nos tempos dos Juízes e de Saul, que os filisteus subiam com freqüência para semear pânico em pleno território dos hebreus. A sudeste estão os montes da Judéia e, subindo para oeste, está Modin, pátria dos macabeus. E para terminar, Jerusalém, Belém, Nazaré, além do monte Tabor e do monte Carmelo, não muito distantes de nós.

Este sabor bíblico é ainda uma paisagem que traz consigo uma arte: a arte do cultivo da vinha. O monge faz voto de estabilidade e sabemos que sua vida é mensurada por dois tempos que se entrelaçam e se fundem num só: oração e trabalho. Nosso trabalho monástico, em Latroun, se insere nesta paisagem bíblica com uma velha tradição de sempre: o vinho. Com efeito, desde os inícios, durante o inverno de 1891-1892, foram plantadas as primeiras vinhas em Latroun.   

Bem antes de 1914, o P. Stanislas Roux, Superior àquela época, escrevia: «A propriedade conta cerca de duzentos hectares, todos férteis, graças aos pacientes trabalhos dos monges. O vinhedo ocupa vinte e cinco hectares e está prosperando. Seu vinho já tem uma excelente reputação na Palestina e no Egito. As oliveiras são também uma das riquezas da Trapa de El-Athroun, riqueza sobretudo para o futuro, pois os pés, em número de 1.500, são ainda muito novos. No restante da propriedade cultivam-se cereais, trigo, cevada, lentilhas, sorgo, produtos que dão um bom rendimento graças ao trabalho intenso. É verdade que também uma parte do terreno não serve para o cultivo; nele plantamos árvores, sobretudo pinheiros de Alepo, que crescem bem. O conjunto da propriedade compreende, pois, cerca de 6.000 árvores de grande porte.»

2- Amarguras da guerra

«Na época em que os reis saíam para a guerra...» (2Sm 11, 1).

Através dos sabores da Bíblia, ao longo dos séculos, sobressai a amargura da guerra. A paz é dada somente como uma característica da era messiânica. E o profeta Isaías nos diz: «De suas espadas forjarão relhas de arados, e de suas lanças, foices. Uma nação não levantará a espada contra a outra, e não se arrastarão mais para a guerra» (Is 2, 4).

Esse fundo amargo de guerra constitui a dura realidade com a qual o mosteiro convive desde sua fundação. Primeiro, foi a guerra de 1914-1918, a expulsão dos religiosos, o fim da ocupação turca e o mandato inglês. Em seguida, foi a Segunda Guerra Mundial e, em 1948, a criação do Estado de Israel. Entramos então no ciclo infernal dos conflito israelo-árabes: 1948, 1956, 1967 («Guerra dos Seis Dias»), 1973 («Guerra do Yom Kippur»). É preciso acrescentar ainda a primeira «Intifada», de 1987 a 1993, e a segunda «Intifada», de 2000-2205. Se mencionarmos as guerras do Líbano, as duas intervenções dos Estados Unidos no Iraque e, por fim, as últimas ocorrências em Gaza, podemos constatar e concluir que a situação política ao nosso redor constitui uma dimensão incontornável de nossa vida religiosa.

Contudo, foi em meio a esse clima difícil que a comunidade foi se enraizando no país. Dom Paul Couvreur, chegado à Palestina em 1895, foi eleito Prior titular em 1925. Foi ele quem planejou e construiu todo o mosteiro atual, exceto as oficinas e a vacaria que datam ainda do mosteiro primitivo. Eleito Abade em 1937, permaneceu no cargo até 1952. Dom Élie Corbisier lhe sucedeu como segundo Abade de Latroun, de 1952 a 1976. Depois de Dom Yves de Broucker, Abade de 1978 a 1982, começou o tempo de Dom Paul Saouma até atingir o limite de idade, em 2008. Foi então nomeado Superior «ad nutum», o P. René Hascoët.

A vida monástica foi sempre e em todo lugar um encontro com a realidade, uma realidade que forja o espiritual. Aqui, doçura e amargura nos permitiram, há mais de cem anos, viver na fé, isto é, na confiança e no abandono total à graça de Deus. Se, com certeza, isto significa uma dimensão de toda vida monástica, aqui ela encontra uma ressonância e uma profundidade bastante especiais.  

Esse país que amamos não é o nosso; somos estrangeiros e, com outras famílias religiosas, revivemos a espiritualidade do estrangeiro na Bíblia. Pois, estrangeiros o somos na verdade. Pela nacionalidade, decerto, mas muito mais ainda pela religião em uma terra onde santidade e sacralidade a todo instante se confundem.

Voltemos então mais uma vez a Isaías: «Sentinela, em que ponto está a noite? Sentinela, em que ponto está a noite? E a sentinela responde: A manhã chega, igualmente a noite. Se quereis sabê-lo, voltai a interrogar» (Is 21, 11-12). O testemunho escatológico do Mosteiro é nossa grande riqueza. Sentinela da história, sentinela da Igreja, ele é um «lugar» e um sinal palpável da paz de Deus. Pois a vida do monge dá testemunho no vazio de uma outra dimensão sempre possível que «as sentinelas da noite» perscrutam nas profundezas dos tempos. 

Essa condição de estrangeiros em relação aos que nos rodeiam é ainda mais complexa pela diversidade de nossas origens. A carta da última visita canônica sublinhava a importância desse aspecto: «Deveis afrontar um duplo desafio cultural: a diversidade das origens na comunidade e os diferentes meios que vos rodeiam». Trata-se aqui também de uma riqueza de nossa comunidade. Essa diversidade continuou e se fortaleceu com e através do tempo e acabou se tornando uma maneira de ser típica de nossa casa. Com certeza, a capacidade de descobrir riquezas na diversidade mais do que limites é uma dimensão de toda vida cristã. Mas, aqui, o contexto acentua esse aspecto da procura de Deus através do outro que tende, por vezes, para o Todo-Outro.

3- Os frutos da terra e do céu.

A Bíblia fala amiúde de frutos bons e maus. «Entre meu amado no seu pomar, prove-lhe os frutos deliciosos», diz o Cântico dos Cânticos (4, 16). E estes frutos do pomar, estes frutos da Terra Santa, «frutos do país onde manam leite e mel» nos são dados em abundância: são eles os frutos da terra e os frutos do céu.   

O Mosteiro vive do seu trabalho. Este fato, talvez banal, assume aqui um grande valor de testemunho. A propriedade conta trinta hectares de vinhedos, com cepas de origem européia (Cabernet, Sauvignon, Merlot, Pinot noir, Grenache, Chardonay, Gewürztraminer, Pinot gris). Isto significa a produção de 200.000 garrafas por ano, das quais 80% vendidas na loja do mosteiro e o restante a comunidades e hospedarias religiosas.

Todos os dias úteis, e durante o ano inteiro, os judeus da região vêm comprar nosso vinho. Com freqüência eles param o carro no amplo estacionamento do Mosteiro onde passam alguns momentos de lazer. É verdade que Latroun pertence também à história do Estado de Israel, devido à célebre batalha de Latroun por ocasião da guerra da independência. Mas tudo isso é apenas uma só e única história da qual nós também fazemos parte.

Falta ainda falar dos olivais e do óleo: 12.000 oliveiras, das quais a metade foi plantada nos últimos dez anos. O óleo é também bastante vendido na loja e uma pequena parte é utilizada pela comunidade.

A esses frutos da terra se acrescentam os frutos excelentes sobre os quais fala o Cântico dos Cânticos, essas graças ligadas a uma Terra única e a sua história única na História e na História da Salvação. Aí está um dos mistérios do Povo da Aliança.

P. Marie-Augustin Tavardon, OCSO, é monge
da Abadia de Latroun, em Ramleh (Israel).

Traduzido do francês por Maria Luísa Laranjeiro de Souza.