A COMUNIDADE DE BOSE EM JERUSALÉM

Ruminar a Palavra de Deus para vivê-la

Desde o início da história de Bose, colocou-se um acento na leitura e no estudo da Bíblia. Cada irmão e cada irmã é chamado a praticar cotidianamente a lectio divina, «que não é em princípio um método, explica o Irmão Daniel Attinger, mas uma maneira de se posicionar diante da Escritura, fazendo-se a pergunta: Em que Deus nos fala?» Trata-se de um momento de escuta orante e de ruminação da Palavra de Deus: invocando o Espírito Santo, procura-se penetrar em toda a riqueza e profundeza do texto até transformá-lo em palavra de vida para o hoje do fiel.

Os irmãos e irmãs desejam partilhar este amor da Palavra com todos aqueles que dela têm fome. A cada verão, o mosteiro de Bose, que conta atualmente com cerca de oitenta irmãos e irmãs, organiza semanas de estudo sobre livros ou temas bíblicos. Estas semanas atraem, cada uma, cerca de oitenta a cem pessoas. Assim, a comunidade contribuiu para que a prática da lectio divina fosse redescoberta e se expandisse na Itália.

A fraternidade de Bose em Jerusalém

Esse enraizamento dos irmãos e irmãs de Bose na Palavra de Deus, pouco a pouco, fez nascer o desejo de descobrir a maneira como os judeus e também os cristãos das Igrejas do Oriente lêem, rezam e vivem a Bíblia. Assim nasceu o projeto de fundar uma fraternidade em Jerusalém, que viu a luz em 1981. Descrevendo o estado de espírito com que tudo começou, o Irmão Daniel precisa: «Nós não viemos com a idéia de fazer algo. Viemos com o desejo de ver e de escutar como vivem esses dois mundos: o judeu e o dos cristãos do Oriente, e aprender com eles.» Dos três Irmãos vivendo em Jerusalém, um se consagra particularmente à espiritualidade e ao pensamento hebraico, um outro ao das Igrejas do Oriente, enquanto o terceiro – que acaba de voltar à comunidade-mãe – era versado na tradição monástica medieval ocidental. A presença dos irmãos, bem como seus trabalhos – com os Padres Brancos, os franciscanos e os jesuítas – são discretos, pouco visíveis exteriormente, como a casa onde moram na Cidade Velha... Sua vocação consiste simplesmente em procurar a Deus na vida comunitária, em descobrir, em partilhar e se enriquecer com a espiritualidade do judaísmo e das Igrejas do Oriente, e em criar, pouco a pouco, laços de fraternidade com as pessoas.

Ecumenismo

«Irmão, irmã,
tu provéns de uma Igreja cristã.
Tu não entraste na comunidade
para refazer uma Igreja que te satisfaça,
de acordo com tua própria medida;
tu pertences a Cristo através da Igreja
que te engendrou para ele no batismo.
Reconhecerás, pois, os pastores das Igrejas,
reconhecerás seus ministérios na diversidade,
e sempre procurarás ser sinal de unidade.»
(Regra de Bose, n. 43)

Sem ter expressamente procurado, mas como por um dom de Deus, a comunidade se formou, desde o princípio, de irmãos e irmãs pertencentes a diversas Igrejas cristãs. No grupo de leitura bíblica que precedeu a fundação de Bose, Enzo Bianchi e os outros demais estudantes fizeram a experiência que as diferentes confissões cristãs, longe de se excluírem uma das outras, podiam, pelo contrário, se entenderem, se enriquecerem mutuamente e até viverem juntas. Isto não significava, de forma alguma, apagar as diferenças. Os temas que podiam dividir – a eucaristia, a comunhão dos santos, por exemplo – foram logo cedo objeto de discussões francas, corajosas e profundas. Desde então, a comunidade prossegue em sua busca laboriosa e paciente de uma vida de fé em comum, depois de séculos de separação. A única Palavra de Deus, as riquezas espirituais das diferentes Igrejas e tradições, inclusive o ritmo da vida espiritual, a aceitação de uma única vontade comunitária reforçam cada vez mais os elementos de unidade em detrimento dos fermentos de divisão.

Em Jerusalém, os irmãos participam todos os meses das reuniões do Ecumenical Circle of Friends (grupo ecumênico, fundado nos anos 70, cujo atual presidente é o P. Frans Bouwen, M.Afr.), que permite um encontro não oficial entre os membros das diferentes Igrejas presentes em Jerusalém: não é muito freqüente aqui os cristãos das diversas Igrejas se encontrarem num plano simplesmente humano e fraterno, de pessoa a pessoa, sem etiqueta institucional. Uma anedota mostra com que espírito a comunidade de Bose, em Jerusalém, deseja viver o diálogo e a fraternidade ecumênicos. «No começo de nossa presença em Jerusalém, conta Daniel Attinger, eu assistia quase todos os dias as Vésperas dos sírios ortodoxos. Um dia, tendo percebido minha assiduidade, um monge se aproximou de mim e perguntou: - Quem é você? Eu lhe respondi: - Eu sou um monge. E ele redargüiu: - Então onde está o seu hábito? Eu lhe repliquei: - Entre nós, só vestimos o hábito para a oração. O monge sírio pareceu interpelado por esta resposta. Depois de refletir um pouco, declarou: - Você é monge. Eu sou monge. Somos irmãos.»

Conclusão

Dois extratos, um da homilia por ocasião das primeiras profissões (1973) e outro da Regra de Bose, sintetizam bem o espírito com que os irmãos e irmãs se esforçam por responderem ao apelo de Deus, segundo os carismas próprios da comunidade de Bose, que são: uma vida monástica que bebe nas tradições do Oriente e do Ocidente, um amor pela Palavra de Deus escutada, rezada e vivida na lectio divina e na liturgia, uma experiência de comunhão e uma busca da unidade entre as diferentes Igrejas cristãs.

«Irmão, irmã,
quando respondes a este chamado,
não inventas uma maneira nova de viver o Evangelho.
Antes de ti,
no mesmo caminho e respondendo à mesma vocação,
outros caminharam:
Elias e João, o Precursor, Antão e os Pais do deserto,
Pacômio e Maria, Basílio e Macrina,
Bento e Escolástica, Francisco e Clara,
e ainda tantos outros.
Como vês, não estás só, mas cercado
por uma grande nuvem de testemunhas...»
(Regra de Bose, n. 8)

«Somos simples cristãos, servidores de Deus na Igreja, que amam a Igreja: como todos os cristãos. Não temos nenhum privilégio, exceto a comunhão.» (Homilia por ocasião das primeiras profissões monásticas em Bose, Páscoa de 1973).

G.M.

Artigo publicado no Boletim Diocesano do Patriarcado Latino de Jerusalém, outubro de 2008, e reproduzido com amável autorização do autor.

Traduzido do francês por Maria Luísa Laranjeiro de Souza.