A ABADIA DA DORMIÇÃO

P. Elias Pfiffi, OSB

abDormitionNossa vida como beneditinos na Terra Santa – nossa oração e nosso trabalho – está profundamente marcada pelo lugar onde, dia a pós dia, procuramos a Deus. O lugar santo confiado aos nossos cuidados e os peregrinos que de todas as partes vêm até nós, exercem uma considerável influência sobre nossa espiritualidade e nossa vida beneditina. Por isso, devemos primeiramente apresentar o lugar santo em que vivemos, em seguida, a história do Mosteiro e da comunidade e, por fim, nossa vocação e situação hoje.

I. O lugar santo em que vivemos.

A colina situada a sudoeste da Cidade Velha de Jerusalém, chamada Monte Sião desde a alta Idade Média, foi testemunha de importantes acontecimentos de nossa história sagrada. Em meados do século IV, os cristãos bizantinos erigiram aqui, sobre uma antiga construção romana, uma igreja, chamada «Igreja dos Apóstolos», na qual celebravam a vinda do Espírito Santo e o nascimento da Igreja (cf. At 2, 1-13). Conforme o relato da Sagrada Escritura, podemos concluir que a eleição do apóstolo Matias, assim como o concílio dos apóstolos aconteceram aqui. A primeira comunidade «cristã» viveu e trabalhou aqui. O «andar de cima», onde Maria com os discípulos se reuniram à espera do Espírito Santo também está localizado aqui. Foi ainda neste «andar de cima» que Jesus celebrou a última Ceia com seus discípulos. Entretanto, a primitiva sala do Cenáculo foi demolida por ocasião da destruição de Jerusalém, no ano 70 d. C. 

No ano de 415, essa primeira igreja do Monte Sião foi substituída por uma grande basílica que recebeu o nome grego de «Hagia Sion» («Santa Sião»). Em seu ângulo noroeste, via-se a capela, o lugar onde Maria vivera depois da Páscoa rodeada pelos apóstolos até sua morte e adormecimento. Como esta basílica reunia em si as importantes tradições da instituição da Eucaristia, do nascimento da Igreja e o lugar da Dormição de Maria (Dormitio), ela foi também chamada «Mater omnium ecclesiarum – Mãe de todas as igrejas».    

No ano 1000, a basílica foi destruída e, em 1100, reconstruída pelos Cruzados que lhe deram o nome de «Sancta Maria in Monte Sion». Quando, em 1219, o sultão de Damasco mandou destruir a igreja, restou apenas a capela do primeiro andar. Ela foi restaurada e é a atual sala em estilo gótico da última Ceia (Cœnaculum). A igreja propriamente dita da Dormição permaneceu em ruínas. Contudo, a veneração de que gozava aquele lugar continuou intacta. Os moradores locais chamavam-na «Nijahe» (lamento dos mortos, pranto fúnebre) e os estrangeiros «Dormitio» ou «Koimesis» (Dormição ou retorno à casa).

Por ocasião de sua célebre viagem ao Oriente, no outono de 1898, o imperador alemão Guilherme II comprou do sultão otomano esse terreno para a Associação Alemã da Terra Santa («Deutsche Verein vom Heiligen Lande»). Esta Associação tinha em mira criar suas próprias instalações para os católicos alemães na Terra Santa. A pedra fundamental da nova igreja foi lançada em outubro de 1900; e no dia 10 de abril de 1910, a atual igreja da Dormição foi solenemente dedicada. A custódia do lugar e a acolhida dos peregrinos foram confiadas aos beneditinos da Congregação de Beuron. Em 31 de março de 1906, chegavam os primeiros monges ao Monte Sião.

Outrora, o Monte Sião ficava dentro das muralhas de Jerusalém; mas, depois da construção das novas muralhas, pelo sultão otomano Suleiman, no século XVI, ficou fora das muralhas da Cidade Velha. Esta situação peculiar – localizado nas vizinhanças da Cidade Velha (sob dominação árabe), mas também não distante da Cidade Nova (judaica) – teve duras conseqüências na evolução histórica do Mosteiro e, ainda hoje, constitui a característica essencial do lugar em que vivemos e de nossa espiritualidade.

II. História do Mosteiro

Os cem anos de história desse Mosteiro beneditino foram tão movimentados quanto a história política da Terra Santa. Depois da constituição da comunidade, nos primeiros anos, e de um período relativamente calmo de vida religiosa no Monte Sião, começou, em 1918, a primeira série de internamentos(1). Quase todos os monges tiveram que abandonar o Mosteiro. Até que um novo ordenamento das condições de vida na Terra Santa fosse possível, depois da Primeira Guerra Mundial, os beneditinos belgas assumiram o Mosteiro. Somente em 1921, os antigos monges puderam regressar a Jerusalém. Os Padres da Abadia assumiram até 1932 o ensino e a formação no recém-fundado seminário do Patriarcado Latino, em Beth Jala, perto de Belém. Em 15 de agosto de 1926, o Mosteiro, até então um Priorado, foi elevado à condição de Abadia e P. Maurus Kaufmann, OSB, instituído seu primeiro Abade. Nos anos seguintes, a comunidade aumentou consideravelmente. Foi possível adquirir alguns terrenos e casas como, por exemplo, Beth Josef, onde foram construídas as oficinas e celas para os membros da comunidade. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, vários monges foram novamente internados e somente com o fim da guerra puderam retornar ao Monte Sião.

Em 1948, durante o conflito israelo-árabe, a Abadia da Dormição se encontrava na zona de combate, motivo pelo qual quase toda a comunidade precisou ser novamente evacuada. O Mosteiro e a igreja sofreram sérios danos durante o confronto. O Abade Maurus veio a falecer durante a evacuação. Apenas em fevereiro de 1951, foi possível a volta dos beneditinos à Abadia onde quase tudo que fora construído nas décadas anteriores tinha sido danificado ou desaparecido. Depois do armistício, o Monte Sião passou a ser uma zona militar israelense no limite da no man’s land («terra de ninguém»).

No dia 2 de março de 1951, a Abadia foi separada da Congregação de Beuron e colocada, desde então, sob a jurisdição imediata do Abade Primaz. Dom Leo von Rudloff, segundo Abade da Dormição, mantinha diversos contatos nos Estados Unidos e, com a finalidade de recrutar pessoal para a Abadia, bem como angariar recursos materiais, fundou um Priorado em Weston (Vermont). A vida começou novamente a se normalizar no Mosteiro, em Jerusalém. Também começou, embora lentamente, sua reconstrução até que, em 1967, durante a guerra do Yom Kippur, ele ficou outra vez na linha de tiro. Depois da tomada da Cidade Velha pelos israelenses, a Abadia não está mais situada na «terra de ninguém» e sim no centro da cidade agora reunificada.

abDormition2Em 1968, o Abade Leo apresentou sua renúncia, indo residir definitivamente nos Estados Unidos. No final de 1969, Dom Laurentius Klein, OSB, antigo Abade de Sankt Matthias, de Treves (Alemanha), foi nomeado Administrador da Abadia. Empreendeu a restauração tanto da igreja como dos edifícios conventuais, incrementando também a renovação da liturgia e do ofício coral. Concentrou seus esforços particularmente no ecumenismo e no diálogo entre as três religiões monoteístas. Em meados dos anos 70, fundou o Ano de Estudos Ecumênicos, oferecendo aos estudantes de teologia de língua alemã a possibilidade de virem estudar durante dois semestres em Beth Josef. Findo o seu mandato como Administrador, em 1979, Dom Nicolas Egender, OSB, de Chevetogne (Bélgica), tornou-se o novo Abade da Dormição e continuou dando prosseguimento ao esforço ecumênico em Jerusalém. Após dois períodos de governo abacial, em 1995, P. Benedikt Lindemann, OSB, da Abadia de Königsmünster, em Meschede (Alemanha), foi eleito quarto Abade da Dormição. O ponto forte de seu abaciado tem sido fomentar a vida monástica da comunidade.

Em 2003, o Mosteiro abriu uma casa dependente em Hildesheim, nas proximidades de Hannover, como procuradoria da comunidade na Alemanha. Atualmente, quatro monges da Dormição residem na Casa Paroquial de Sankt Godehard e trabalham na pastoral da cidade e na assistência espiritual dos hospitais. 

III. Nossa vocação e situação hoje

Nossa comunidade conta atualmente 23 membros, distribuídos em três lugares: na Abadia da Dormição, em Jerusalém; no Priorado de Tabgha; e em nossa procuradoria de Hildesheim. Com certa freqüência, por motivos de formação ou de mudança de atividade, alguns monges são transferidos de um lugar para outro.

Como monges na Terra Santa, onde a Bíblia teve origem, sentimo-nos particularmente responsáveis com relação à Sagrada Escritura através do seu estudo científico e da lectio divina. Nossa primeira obrigação é a mesma dos inícios da fundação, isto é, os cuidados do «lugar santo», a oração nos lugares sagrados e a acolhida dos peregrinos. O idioma utilizado na liturgia e no ofício é o alemão, visto sermos um ponto de apoio para os peregrinos de expressão alemã. Nossa celebração dos domingos pela manhã é freqüentada sobretudo por numerosos grupos de peregrinos de língua alemã. Visto que nossa igreja é a única de maior proporção no Monte Sião, além de sua festa patronal, a Assunção de Maria aos céus, no dia 15 de agosto, celebramos também, com grande solenidade, a instituição da Eucaristia (na quinta-feira santa) e Pentecostes. Pessoas do mundo inteiro se associam aos fiéis da cidade e da diocese para estas «festas locais», razão pela qual, os ofícios religiosos são celebrados em diversas línguas. Na noite de Natal, muitos israelenses vêm assistir a Missa de meia-noite. O mesmo ocorre com os concertos de música sacra que regularmente têm lugar em nossa igreja.

Muitos grupos de língua alemã, quando em peregrinação pela Terra Santa, nos procuram para atendimento, querendo informações sobre nossa vida e a situação dos cristãos. Como a Embaixada da Alemanha está em Tel Aviv e não há Consulado alemão em Jerusalém, freqüentemente funcionamos como ponto de referência para os políticos alemães em visita oficial a Israel. Fora desses encontros oficiais, eles também vão aos lugares santos como peregrinos.

O acolhimento dos peregrinos inclui igualmente a lanchonete e nossa loja onde eles podem comprar cartões postais, objetos de piedade e peças esculpidas em madeira de oliveira. Infelizmente temos poucos quartos para hóspedes. Somente quando Beth Josef não está ocupada, no período de férias, é que podemos receber um número maior de hóspedes e até mesmo pequenos grupos de peregrinos.

Embora o alemão seja a língua litúrgica e corrente no Mosteiro, o contato com os numerosos peregrinos do mundo inteiro e a vida em um país estrangeiro tornam necessário o conhecimento de outras línguas. Além do inglês, é bastante útil conhecer as duas línguas do país: hebraico e árabe; mas é sempre uma boa ajuda falar também francês, italiano, espanhol e russo. Portanto, é importante e necessário que os membros da comunidade aprendam algumas dessas línguas.

Nossas oficinas se encontram no terreno entre o Mosteiro e Beth Josef. Na fábrica de velas, os círios que vendemos na loja são artisticamente decorados. Fabricamos também incenso que utilizamos na igreja, durante as celebrações litúrgicas, ou para vender.

Nosso sustento é garantido, sobretudo, pela venda dos produtos da loja e pela acolhida aos peregrinos. No entanto, a cada crise política no país (guerra, atentados, etc.), o turismo diminui e prejudica nosso sustento econômico. Felizmente, contamos com alguns benfeitores que nos ajudam a fazer face às despesas correntes: gastos com o cotidiano, salários dos empregados, etc. Entre eles citamos a Conferência Episcopal Alemã, o Círculo dos Amigos da Abadia e muitos grandes e pequenos benfeitores. A conservação e a manutenção dos prédios é, em grande parte, responsabilidade da Associação Alemã da Terra Santa, proprietária dos edifícios.

Um outro objetivo importante de nossa comunidade em Jerusalém é o ecumenismo. Quase todas as denominações cristãs estão representadas em Jerusalém, a começar pelas Igrejas ortodoxas e as Igrejas orientais, passando da Igreja católica até à Igreja anglicana, às Igrejas luteranas, às outras Igrejas protestantes e Igrejas independentes. Em parte alguma se encontra uma tão grande diversidade de Igrejas cristãs reunidas em um só lugar.

Com bastante freqüência há encontros comuns de oração, assim como convites para determinadas festividades ou celebrações religiosas. Também não faltam encontros de diálogo teológico entre os representantes de cada uma dessas Igrejas. Naturalmente, mantemos bons contatos principalmente com os representantes da Igreja Protestante alemã na Cidade Velha e no Monte das Oliveiras. Uma vez ao ano realiza-se um encontro comum de nossas duas Igrejas.

Nesse contexto é preciso sobretudo mencionar o ano de Estudos Teológicos Ecumênicos, fundado há mais de trinta anos por Dom Laurentius Klein, que o dirigiu na qualidade Decano durante vários anos. Esse ano de Estudos possibilita aos alunos de teologia de língua alemã estudarem em Jerusalém por dois semestres, tendo como matérias centrais Ciências Bíblicas e Arqueologia. O suporte acadêmico e jurídico desse programa de estudos é assegurado pela Faculdade de Teologia do Pontifício Ateneu Anselmiano, de Roma. O que é único e extraordinário no referido ano de Estudos é o seu caráter ecumênico: alunos e alunas católicos e protestantes estudam e convivem juntos durante dois semestres no mesmo ambiente de aprendizado, em Jerusalém. Além dos cursos propriamente ditos e dos seminários que, em sua maioria, são ministrados por professores vindos dos países de língua alemã, o programa também inclui diversas excursões através do país, de curta ou maior duração. Um contato intenso também se estabelece com os Irmãos de nossa comunidade. Os estudantes participam de nossos ofícios religiosos, realizam funções litúrgicas e com freqüência se ocupam da parte musical. Muitos procuram orientação espiritual com um ou outro dos monges. Não apenas os estudantes, mas os peregrinos, voluntários ou pessoas vivendo no país por um período mais dilatado, nos procuram para se confessarem, para direção espiritual ou até mesmo para retiro individual orientado por um monge.

Para nós beneditinos é importante, de modo geral, trabalhar pela paz, mais particularmente ainda na Terra Santa. Já no Prólogo da Santa Regra encontramos esta citação do salmista: «Procura a paz e segue-a» (Sl 34 [35], 15; RB, Prol. 17). Nossa localização específica entre a Cidade Velha e a Nova é oferecida e se oferece para muitos que procuram a paz como um lugar neutro onde dialogar seja possível. A cada dois anos, concedemos, no país, a grupos e iniciativas de paz, o «Prêmio do Monte Sião» (Mount Sion Award). A fim de coordenar e institucionalizar nossos esforços em prol da paz e lhes dar um espaço, estamos planejando a construção de uma Academia da Paz. O terreno e a planta do que se chamará Beit Benedict já existem. Uma coleta de fundos na Alemanha e, sobretudo, nos Estados Unidos nos permitirá obter o capital necessário para podermos em breve iniciar a construção. Beit Benedict servirá para acolher tanto grupos locais que queiram realizar encontros e negociações mais aprofundadas e abrangentes, como também grupos vindos de fora que gostariam de manter contato com as iniciativas de paz na Terra Santa. Ao lado da oração pela paz, seminários acadêmicos e atividades artísticas (concertos, exposições, etc.), queremos de modo especial oferecer aos cristãos do país, que irão trabalhar na Academia, um «retorno» econômico para eles e suas famílias.

A Terra Santa sempre foi um lugar particularmente abençoado, mas também um lugar de conflitos, de tensões e de desafios. Nós também, enquanto comunidade monástica, estamos no meio dessas vicissitudes. Cada um de nós, além da própria vocação monástica, precisa ter uma vocação para a Terra Santa. Alguns dos desafios já foram evocados, porém devemos, mesmo brevemente, mencioná-los e enumerá-los. Nossa comunidade vive em três lugares (dois aqui em Israel e um na Alemanha), e os Irmãos estão constantemente se revezando entre cada um desses lugares. Enquanto beneditinos de língua alemã, vivemos em um país estrangeiro, mas não exercemos nenhuma missão específica; servimos apenas, e sobretudo, como um ponto de apoio ao qual podem recorrer os peregrinos, voluntários, estudantes etc. de língua alemã. Enquanto beneditinos, fazemos parte da Igreja católica local, o Patriarcado Latino de Jerusalém. Vivemos no meio de uma cidade barulhenta que oferece muitas possibilidades e atrativos, com inúmeros visitantes vindos do mundo inteiro. Ao mesmo tempo, como monges, temos necessidade de silêncio e tranqüilidade a fim de, verdadeiramente, procurar e encontrar a Deus. De um lado, os judeus são nossos irmãos mais velhos, e o Novo Testamento bem como o cristianismo dificilmente podem ser compreendidos sem o judaísmo. De outro lado, os cristãos do país, a quem queremos servir, são em sua maioria árabes e/ou palestinos. Enquanto alemães, por causa do «Shoah», isto é, do Holocausto, temos um dever e uma relação específica para com o Estado de Israel.

Embora haja numerosos esforços em favor da paz e os últimos anos tenham sido relativamente calmos, o Oriente Médio ainda é um barril de pólvora. A situação política no país repercute igualmente em nossa situação econômica, além de interpelar nossa presença e nossa existência como beneditinos na Terra Santa. Não sabemos quando será nossa próxima evacuação ou internação.

Por conseguinte, procuramos no dia-a-dia viver nossa presença beneditina na fidelidade e no comprometimento para com a Boa Nova de Jesus Cristo e a Terra Santa; confiando na bênção de Deus e na proteção de Maria, Mãe de Deus, no lugar de sua Dormição entregue aos nossos cuidados, tendo sempre perante os olhos, nas Completas, a imagem de sua Assunção.

P. Elias Pfiffi, OSB, é monge
da Abadia de Hagia Maria Sion, em Jerusalém (Israel).

Traduzido do alemão por Cristiano Schalberger.

(1) Os monges, principalmente os de nacionalidade alemã, foram «internados» em campos de prisioneiros.