CENTENÁRIO DA MORTE DE

FREI DOMINGOS DA TRANSFIGURAÇÃO MACHADO

Dom Filipe Gomes de Souza, OSB

Entre os dias 1º e 3 de maio de 2009, realizou-se na Arquiabadia de São Sebastião, em Salvador, BA, um Simpósio comemorativo dos cem anos da morte de Frei Domingos da Transfiguração Machado, último Abade Geral da antiga Congregação Brasileira da Ordem de São Bento (hoje denominada Congregação Beneditina do Brasil) e seu Restaurador.

Com efeito, o 57º Capítulo Geral da Congregação, reunido no Rio de Janeiro, em abril de 2008, decidira celebrar condignamente a memória daquele que, com fé abraâmica e ânimo inquebrantável, fez reviver e deu novo alento aos Mosteiros beneditinos brasileiros, quase extintos em decorrência de leis iníquas, ditadas pelos inimigos da Igreja com o fito de extinguir em nosso país a vida monástica e a vida religiosa em geral.

No dia 1º de julho de 1908, cercado pela estima e reconhecimento de uma comunidade monástica rediviva, morria em seu Arquicenóbio bahiense o venerando Frei Domingos da Transfiguração, cumulado de anos e repleto de méritos. Ele que, ao ser eleito Abade Geral, em 1890, ouviu de um confrade que teria como missão ser o «coveiro» da Congregação, rendia então sua alma ao Criador como pai amantíssimo de uma florescente e renovada Congregação Brasileira da Ordem de São Bento. Antes de partir para a eternidade, pôde ainda proclamar: «Nós, antigos monges, aos quais a Providência divina concedeu a graça de termos defendido da profanação a herança sagrada, entregamos essa mesma sagrada herança a dignos sucessores.»

Não permitindo o governo da Bahia que se lhe desse sepultura ao corpo no cemitério claustral, foi o mesmo embalsamado e levado para a Abadia do Rio de Janeiro onde, até 1982, jazeu na Sala Capitular daquele cenóbio. Neste mesmo ano, a pedido de Dom Paulo Rocha, então Abade da Bahia, e da comunidade monástica soteropolitana, retornaram seus despojos para Salvador. Repousam hoje na capela-mor da Basílica Arquiabacial de São Sebastião, no meio do coro, onde os monges continuam a cantar o louvor divino que, graças à intrepidez de Frei Domingos, nunca cessou de se elevar aos céus.

Na tarde do dia 1º de maio, no claustro da Arquiabadia, houve o lançamento de dois livros comemorativos: «Sermões de Frei Domingos da Transfiguração Machado: o Restaurador da Congregação Beneditina do Brasil», publicação coordenada pela Profa. Dra. Alicia Duhá Lose; e o «Dietário (1582-1815) do Mosteiro de São Bento da Bahia: edição diplomática», também a cargo da Profa. Dra. Alicia Duhá Lose, Dom Gregório Paixão, OSB, Ana Paula Sandes de Oliveira e Gérsica Alves Sanches, com a colaboração de Célia  Marques Telles(1).

No sábado, 2 de maio, uma exposição e três conferências ilustraram o dia. A Profa. Dra. Alicia Duhá Lose e um grupo de pesquisadoras, todas elas alunas da Faculdade São Bento da Bahia, apresentaram os resultados de seus trabalhos de pesquisa no acervo documental de Frei Domingos da Transfiguração, conservado nos Arquivos da Arquiabadia: metodologia empregada, novas técnicas de leitura, interpretação e recuperação de documentos antigos etc. «A Igreja da Bahia no tempo de Frei Domingos da Transfiguração» foi o tema apresentado por Dr. Cândido da Costa e Silva, Professor da Faculdade São Bento da Bahia. «A política de preservação dos bens temporais e espirituais da Ordem de São Bento» foi o assunto discorrido por Dr. Eugênio Lins, Professor da Universidade Federal da Bahia. «A reação contra a Restauração das Ordens Religiosas: Apresentação de um documento inédito» foi trabalho lido por Dom Matias Fonseca de Medeiros, OSB, monge Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro e atual Secretário Geral da Congregação Beneditina do Brasil.

Os três conferencistas, muito bem documentados, prenderam a atenção dos participantes do Simpósio não apenas pela originalidade das pesquisas feitas, mas pela habilidade verbal com que levaram todos a uma quase «viagem de volta» ao tempo em que transcorreram os fatos dissertados.

O Domingo, dia 3, previa uma Missa Pontifical solene na Basílica Arquiabacial. A concelebração eucarística, presidida pelo Revmo. Dom Gregório Paixão, OSB, Bispo titular de Fico e Auxiliar do Cardeal Arcebispo Primaz do Brasil, ele próprio antigo monge da Arquiabadia soteropolitana, contou com a presença do Revmo. Sr. Arquiabade, Dom Emanuel d’Able do Amaral, OSB, e de quase todos os Abades e Priores Conventuais da Congregação, assim como das Abadessas e Prioresas Conventuais. Presentes também se fizeram os sobrinhos-netos e sobrinhos-bisnetos de Frei Domingos. Particularmente um deles, Constantino Machado, simpático sobrinho-neto, não deixava dúvidas quanto à parentela se comparássemos sua fisionomia com a de Frei Domingos, estampada em antigas fotografias.

Dom Gregório, em sua vibrante e profunda Homilia, comentando não apenas o Evangelho daquele IV Domingo da Páscoa, marcado pela presença de Cristo bom pastor, sintetizou as grandes horas de lutas e de alegrias que marcaram o abaciado de Frei Domingos e seu empenho na restauração da Congregação Brasileira. Antes da bênção final, os Abades das Abadias da antiga Congregação (Salvador, Rio de Janeiro e Olinda), acompanharam Dom Gregório até o túmulo de Frei Domingos: enquanto a comunidade monástica cantava emocionada o Salmo 129, em bela melodia polifônica composta para a ocasião, foi rezada uma prece de ação de graças pelo dom que a Providência divina concedeu à Congregação Brasileira, na pessoa de seu Restaurador; enquanto isso, cada Abade aspergia com água benta e incensava a lápide tumular sob qual os despojos de Frei Domingos aguardam a ressurreição no último dia.

Um almoço festivo, oferecido pela comunidade monástica baiana, reuniu no refeitório da Arquiabadia os Superiores e Superioras da Congregação Beneditina do Brasil com os familiares de Frei Domingos.

Dom Filipe Gomes de Souza, OSB,
é monge da Arquiabadia de São Sebastião, Salvador, BA,
e Diretor Geral da Faculdade São Bento da Bahia

(1) Ambas as publicações podem ser adquiridas no Mosteiro de São Bento da Bahia ou nas Edições «Lumen Christi» (Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro).