MINHA VISITA A MYANMAR (BIRMÂNIA)(1)

Me. Teresita D’Silva, OSB

BirmaniecarteEm 1995, Patrick Kham Vai Lian, de Myanmar (Birmânia), então estudante de Teologia no «Sacred Heart College», de Shillong(2) (Índia), visitou a fundação da Abadia de Shanti Nilayam no Norte da Índia, o Mosteiro de Santa Escolástica, em Umran, a 30 km de Shillong. Fez lá seu retiro e participou dos Ofícios da Semana Santa.

Ele já tinha ouvido falar antes da vida beneditina, mas agora, após uma experiência ao vivo, sentiu que esse tipo de vida poderia ser apreciado por seu povo, em Myanmar, de formação e cultura budista. Ao retornar a Myanmar, entrou em contato com algumas jovens interessadas na vida religiosa. Em fins de 1998, Patrick trouxe algumas dessas jovens ao Mosteiro de Santa Escolástica. Elas se adaptaram muito bem ao «Ora et Labora» de nossa vida monástica. Passado um ano, seguiram para Shanti Nilayam, em Bangalore, a fim de fazerem o Postulantado e o Noviciado. A 11 de Julho de 2004, as Irmãs Marie, Assunta, Claire e Josephine fizeram os primeiros votos. Alguns de seus familiares vieram de Myanmar para esta ocasião. A 8 de setembro de 2006 mais duas Irmãs, Elisa e Theresa, fizeram também seus primeiros votos. Magdalene começou seu Noviciado a 2 de Fevereiro. Mais sete candidatas birmanesas estão atualmente em Santa Escolástica.

Durante algum tempo, mantive correspondência com D. Charles Maung Bo, SDB, Arcebispo de Yangon (Rangum)(3), o qual me garantiu que as beneditinas seriam muito bem-vindas em sua Arquidiocese.  Em carta de 6 de Maio de 2004, ele escrevia: «Mais uma vez quero garantir que as senhoras serão muito bem-vindos a Myanmar. Ainda me lembro bastante bem da mensagem do Santo Padre por ocasião das visitas ad limina de 1991 e 1996.  Em ambas ocasiões ele insistiu com firmeza para que introduzíssemos a vida monástica em Myanmar. As senhoras bem que poderiam vir e escolher uma propriedade, um lugar fora da cidade. Endossarei 100% os seus projetos». Depois de sua visita a Roma, em 1996, o Arcebispo Charles visitou as Abadias de Santa Cecília e de Quarr, na Ilha de Wight (Inglaterra).

Pedi ao Arcebispo Charles Bo uma carta-convite. Esta carta, datada de 1º de janeiro de 2007, me foi efetivamente enviada e me convidava para ir a Yangon com a finalidade de conhecer o país e estudar a cultura do povo de Myanmar. Graças a Deus, recebi meu visto muito facilmente e comecei meus preparativos para esta viagem. Como não existem vôos diretos de Bangalore para Yangon, tive que viajar via Calcutá. Parti de Bangalore a 25 de Fevereiro de 2007, pela Sahara Airlines, às 15h15, chegando em Calcutá às 19h30. O vôo durou quatro horas, pois fazemos escala em Hyderabad.

Irmã Vimala, irmã de Irmã Stella, que pertence à Congregação das Filhas de São Paulo, foi me apanhar no aeroporto de Calcutá. Levou-me até o seu Convento onde encontrei a comunidade com a qual jantei. Na manhã seguinte, depois da missa das seis da manhã, fomos ao Convento das Missionárias da Caridade visitar o túmulo da Bem-aventurada Madre Teresa. O túmulo fica numa grande sala, no rés-do-chão, com um grande crucifixo ao fundo. Havia flores frescas sobre ele e um contínuo fluxo de visitantes, inclusive estrangeiros. Reinava uma atmosfera de santidade. Ali rezamos e pedi a intercessão da Bem-aventurada Madre Teresa para que a visita a Myanmar fosse proveitosa. A superiora do Convento nos deu santinhos e orações, levando-nos em seguida ao quarto de Madre Teresa. É muito pequeno, simples, só com uma mesa, uma cadeira e a cama. Aqui ela escrevia toda a sua correspondência, encontrava as demais Irmãs e repousava. Todas as Missionárias da Caridade, no Convento, estavam lavando seus sáris, antes de saírem para o apostolado, no mais completo silêncio.

Irmã Vimala me levou de novo até o Aeroporto Internacional de Calcutá, pois meu vôo para Yangon decolava às 10h00. Havia muitos birmaneses nesse vôo. O avião aterrissou em Yangon as 12h55. Na verdade eram 11h55, a hora indiana, pois Rangum (Yangon) está uma hora a mais. O vôo durou duas horas. À medida que o avião ia descendo, via-se o Pagode Dourado brilhando ao sol. No aeroporto, o Sr. Peter Roche, representante do Arcebispado, veio me receber e ajudou a resolver todas as formalidades.  O Sr. Peter Roche é um tâmil da Índia. Existem muitos tâmiles da Índia na Birmânia, onde estão bem estabelecidos e são cidadãos birmaneses. A Birmânia e a Índia já foram um único país, até sua independência em 4 de Janeiro de 1948. Também existem outros indianos estabelecidos na Birmânia que não voltaram mais para Índia após a independência.

Foi uma alegria encontrar nossas Irmãs Marie, Assunta, Claire e Josephine que vieram de Umran para me encontrar. O secretário do Bispo, Padre Noel, também estava no aeroporto com um carro do Arcebispado. Yangon é como qualquer cidade moderna, com boas estradas e grandes edifícios. Logo chegamos ao Arcebispado. É uma construção bastante ampla, com vários edifícios anexos. Defronte ao Arcebispado vimos duas grandes estátuas, uma do Papa João Paulo II e outra de Madre Teresa de Calcutá. Visitamos depois a grande e bela Catedral, com muitas obras de madeira. A Birmânia é famosa pela madeira de teça.

Após o almoço fomos até à sede da Conferência dos Religiosos de Myanmar. Irmã Mary Flora, secretária da C.R.M., nos cumprimentou e nos deu muita atenção. Tivemos a sorte de encontrar muitas Irmãs religiosas de várias Congregações, devido aos cursos que estavam sendo dados. Todas as religiosas vestiam seus hábitos. A fé é forte e tradicional. Apesar de todas as instituições religiosas como escolas, colégios e hospitais terem sido confiscados e nacionalizados pelo Governo, as religiosas têm creches, orfanatos, casas de acolhimento para cegos, deficientes físicos e idosos, além de internatos para crianças onde se ensina religião.

As quatro jovens professas estavam comigo quando nos encontramos com o Arcebispo Charles Bo. Falamos sobre nosso desejo de ter um Mosteiro beneditino em sua Arquidiocese. Entregamos-lhe um exemplar da Santa Regra, outro de nossas Constituições e lhe oferecemos algumas medalhas de São Bento. Também lhe presenteamos com uma estola feita por nossas Irmãs.  O Arcebispo nos deu as boas- vindas à sua Arquidiocese. Dissemos-lhe então que esperávamos a oferta de uma terreno em sua Arquidiocese. Ele respondeu dizendo que iria se informar a respeito da possibilidade de um terreno. Nossas quatro Irmãs birmanesas deverão fazer sua profissão solene no final de 2010 e, até lá, continuarão sua formação na Índia.

O venerável Irmão Joseph Mung, que havia estado em Bangalore, na Índia, teve a gentileza de nos levar para visitar o Pagode Dourado. Havia muitas estátuas de Buda e um lugar reservado para a meditação e as oferendas dos devotos. É um templo enorme, com escadarias e elevadores para subir até à cúpula de ouro. Os budistas são majoritários em Mianmar. A Birmânia é governada por um regime militar – exército, marinha e aeronáutica. Em Rangum (Yangon), 85% da população é constituída de budistas, sendo o budismo a principal religião de Mianmar. Yangon (Rangum) é a capital de Mianmar. Os católicos têm liberdade para praticar a sua fé e existem grandes igrejas que, mesmo nos dias de semana, ficam abarrotadas de gente. A música é melodiosa e as missas são em birmanês, inglês e latim. Os altares são artisticamente decorados com lindos arranjos florais. Nas grandes ocasiões, a procissão do ofertório é feita por pessoas que trazem frutas, legumes, pacotes de biscoitos e garrafas de suco, tudo deixado nos degraus do altar.

BirmaniepagodeNa sede da Conferência dos Bispos Católicos de Mianmar, no Centro, nos encontramos com o Arcebispo Zinghtung Grawng Paul, de Mandalay. Muito interessado em conhecer a vida monástica, convidou-nos para visitar sua Arquidiocese. O Arcebispo Paul tem uma profunda admiração pela vida contemplativa e falou a respeito do Diálogo Inter-Religioso. Os salesianos têm sua casa de formação em Mandalay, atualmente com 100 candidatos. Também nos encontramos com o provincial salesiano, Padre Joachim, amigo nosso, que já esteve várias vezes em Shanti Nilayam. Muitos jovens seminaristas birmaneses foram formados no Colégio Kristu Jyothi, em Bangalore. Ficamos felizes em nos encontrar com Padre Camillus e Padre Bosco, de volta a seu país.

Yangon fica ao sul de Mianmar e nossas Irmãs são do Norte, das Colinas Chin. São três horas de vôo de Yangon a Kalay Myo, que visitei em 7 de Março. A primeira visita foi ao Paço Episcopal, onde me encontrei com o Bispo Nicholas Mang Thang, da Diocese de Hakha. Todas as nossas quatro Irmãs birmanesas estavam comigo. O Bispo foi muito atencioso e nos convidou para o café da manhã. Demos-lhe um exemplar da Regra beneditina. Ele deu presentes a nossas Irmãs, pois era a primeira vez que as encontrava depois da profissão, e me deu também um lindo xale feito a mão. Kalay Myo é uma linda cidade. O clima é muito agradável quando comparado a Rangum (Yangon), onde o tempo é muito quente. As pessoas são muito amáveis e a maioria é católica. Visitamos o Convento de São José da Aparição onde uma irmã de Irmã Marie, Verônica, é religiosa. Irmã Hilda preparou um banquete para nós com pratos típicos da Birmânia. Elas têm uma comunidade florescente e um internato onde ensinam catecismo aos alunos para lhes consolidar na fé católica. Irmã Hilda compilou um hinário em inglês para as crianças.

Visitamos a casa de Patrick Kham Vai Lian e nos encontramos com sua esposa e filhos. Infelizmente Patrick morreu num acidente de trem em 2001. Foi esta a primeira vez que me encontrei com sua viúva e filhos. Havia muitas fotografias e diplomas de Patrick nas paredes, e a família conserva sua lembrança com muito afeição. Ele deixou para trás uma imensa coleção de livros e traduziu alguns livros de catecismo para a língua local, o chin. Seu irmão, que compôs um dicionário chin-inglês, é atualmente professor de Bíblia em um colégio.

Aqui, nas Colinas Chin, a maioria das famílias é grande o bastante para ter nove, dez ou catorze filhos. As pessoas trabalham duro para sustentar os filhos, pais e avós. A maioria delas, em Kalay Myo, viaja de bicicleta. As casas são construídas de madeira de teça. A língua falada é o chin. A moeda é o kyat. Uma rúpia indiana equivale 1.260 kyats. Esse lugar fica próximo da fronteira indiana e também da China. Nas igrejas os fiéis cantam melodiosamente em chin, birmanês, inglês e latim.

As quatro Irmãs birmanesas e eu fomos à igreja de Santa Maria, onde havia uma boa assembléia, sem contar os alunos. Todas as mulheres cobrem suas cabeças com um véu. As pessoas gostam do latim e sua fé é tradicional. Comem arroz três vezes ao dia e gostam muito de carne, porco e frango. Têm uma variedade de pratos e comem macarrão com pauzinhos.

Visitamos a casa de Irmã Marie que fica próxima do Paço Episcopal. Seu pai, Peter Cing Pi, trabalha no Centro de Pastoral. O casal tem catorze filhos. Uma filha é casada e tem três filhos. A avó de Irmã Marie tem 83 anos e mora com a família. Sua mãe nos mostrou como tece xales coloridos e me presenteou com um, tecido por ela mesma. A família de Irmã Josephine mora próximo à igreja de Santa Maria. Seu pai morreu em 1995. Sua mãe, irmãos, irmãs, tias e tios nos deram uma calorosa acolhida. As famílias de Irmã Assunta e Irmã Claire vivem muito distante, nas Colinas Chin, mas, mesmo assim, vieram de bicicleta para se encontrar comigo. Fiquei contente por encontrá-las.

No sábado, 10 de Março, 15 Irmãs da «Pequena Via» de Santa Teresinha, fizeram sua profissão perpétua na igreja de Santa Maria. O Bispo Nicholas presidiu a cerimônia com 20 concelebrantes e a cidade inteira lotou a igreja em toda sua capacidade. Foi uma grande festa e a cerimônia completa durou 3 horas. Os cantos foram em chin, birmanês, latim e inglês. Cada irmã recebeu uma cópia das Constituições e uma medalha da Sagrada Face. Esta Congregação foi fundada em 1995 pelo Bispo Nicholas e Miss Mary Doohan, das Irmãs da «Pequena Via». Elas têm muitas vocações, cerca de 90 Irmãs em diferentes etapas de formação. Nossas 4 Irmãs junioristas retornaram a Santa Escolástica, em Umran, após minha visita, e levaram 6 candidatas com elas. Fiquei feliz por me encontrar com elas.

No dia 12 de Março, retornei de Kalay Myo para Yangon, pela Air Bagan, uma companhia aérea regional. Todas as famílias vieram ao aeroporto para se despedir de mim. No mesmo vôo havia alguns pastores batistas americanos que andaram evangelizando em Kalay Myo. Era um avião pequeno com uma escadinha para subir nele, que decolou às 9h00. Alguns passageiros desceram em Mandalay às 10h00 e chegamos em Yangon às 13h00.

A 15 de Março, o Padre Alphonse me levou para ver alguns locais adequados para o futuro mosteiro, a uns 50 km de Yangon. O terreno é muito caro e os preços sobem sem parar. À tarde me encontrei com o Arcebispo Charles Bo para me despedir, pois estava partindo de Mianmar no dia seguinte. Mais uma vez ele me garantiu sua total colaboração e disse que, nestes últimos 10 anos, tem desejado a vida monástica em Yangon. Contou que houve várias tentativas de começar a vida beneditina, em Mianmar, mas nenhuma deu certo. Agradeceu-nos por formar as primeiras vocações birmanesas para a vida monástica.

No dia seguinte, 16 de Março, retornamos a Bangalore, via Calcutá, e chegamos ao Mosteiro às 23h00 do mesmo dia. Estava feliz por ter voltado e tinha muito a partilhar com nossas Irmãs. Continuamos formando as vocações para Mianmar e a prepará-las para viver em seu país. Colocamos tudo nas mãos de Deus. Possa ele levar a bom termo a obra que ele mesmo começou. Humildemente pedimos as orações de nossos Irmãos e Irmãs beneditinos para esse projeto de fundação de um Mosteiro beneditino em Mianmar num futuro não muito distante. Que São Bento, Santa Escolástica e todos os Santos beneditinos intercedam por nós.

Que em tudo seja Deus glorificado.

Madre Teresita D’Silva, OSB, é Abadessa da
Abadia de Shanti Nilayam, em Bangalore (Índia). 

Traduzido do inglês por Eugênio Fonseca de Medeiros.

(1) A Birmânia, oficialmente União do Myanmar, é um país situado no Sudeste da Ásia, que faz fronteira com a Índia, o Bangladesh, o Laos, a China e a Tailândia. É banhada pelo mar da Andaman, ao sul, e pelo golfo de Bengala, ao sudoeste, totalizando cerca de 2000 km de costas. O país tornou-se independente do Reino Unido em 4 de janeiro de 1948 com o nome oficial inglês de Burma, por extenso, União de Burma. O nome oficial em birmanês é Myanmar, Myanmah ou Bama, conforme o registro que se utiliza. Em birmanês, Myanmar é o nome literário do país, ao passo que Bama ou Bamar só fazem referência à etnia dos Birmans, de onde provém o inglês Burma e o português Birmânia. Myanmar faz referência aos antigos habitantes míticos do país e não apenas ao grupo étnico birman (literalmente, Myanmar significa em birmanês «forte e rápido», qualidades destes famosos ancestrais míticos). Mais exatamente, Myan Ma significa o país maravilhoso criado por estes «espíritos-habitantes míticos» (Bya Ma). Com esta denominação e o uso da palavra «União», sublinha-se o caráter multi-étnico do Estado. O país tornou-se a República Socialista da União da Birmânia em 4 de janeiro de 1974, antes de se tornar a União da Birmânia em 23 de setembro de 1988. A 18 de junho de 1989, o nome oficial em inglês foi trocado para Myanmar, pelo poder ditatorial dos generais, mas essa troca controvertida não é reconhecida pela oposição política nem por muitos países anglófonos, e nem por um vizinho como a Tailândia. 

(2) Shillong é a capital do Meghalaya, estado do Nordeste da Índia.

(3) Rangoon (em português: Rangum), oficialmente denominada Yangon em 1989, é a capital econômica e a maior cidade da Birmânia (ou Myanmar), com mais de 4 milhões de habitantes. Situada na confluência dos rios Yangon e Bago, está a 30 km do golfo de Martaban, no mar de Andaman. Em novembro de 2005, a junta militar no poder começou a transferir sua capital para o interior do país, em Naypydaw (divisão de Mandalay). Naypyidaw é oficialmente a nova capital do país desde 26 de março de 2007.