A GLÓRIA DE DEUS É O HOMEM VIVENTE

Extrato de um artigo publicado em 1988
P. Barthélémy Adoukonou, OCSO

Que coisa outra haveria de ser a igreja de um mosteiro? Não seria o lugar da Bênção que deve incansavelmente repercutir como profecia da Ressurreição «do homem todo e de todos os homens» e, por conseguinte, como proclamação da Glória de Deus? É preciso que essa glória se afirme século após século, de cultura em cultura; ela não é uma abstração, mas é o homem, são todos os homens viventes. E o homem se exprime como cultura.

A inculturação que, segundo João Paulo II, é a inserção cultural da revelação cristã em todos os povos, se fundamenta no fato de que o Verbo de Deus tendo se feito homem, também se fez cultura. Mas, onde o Verbo de Deus atingiu o cume de sua humanização senão no Mistério Pascal resumido por São João como Exaltação da Cruz?

A inculturação da fé cristã na África deve efetivamente ver desabrochar uma arte ao mesmo tempo profundamente cristã e profundamente africana; uma arte que não seja simples cópia do passado nem uma reprodução africana de obras-primas criadas em outros países. Como a África tradicional poderá poderá exprimir esta eclosão única da vida que é a fé em «Deus que ressuscita os mortos»? (At 17). Consideremos que o gênio africano foi mobilizado para manifestar o invisível no visível a partir de uma situação concreta: a eclosão da vida que se chama fé e as crenças ancestrais. Como irá ela participar de uma intuição que transforma e coloca de imediato o espectador no próprio «lugar» onde brotou a obra e que não é outra senão a fé em Jesus Cristo? Irmã Charles e Irmã Beata vão se tornar africanas com os africanos e colaborar com M. Tidjani para conseguir nos transformar.

O Deus que se encarna em seu Filho e é, ao mesmo tempo, encarnação cultural, quis assumir nossos mais humildes símbolos para se comunicar conosco. Mas só quando o acolhemos, sabemos que ele se comunicou. Com efeito, sím-bolo é a palavra que desde a mais remota Antiguidade grega designa a totalidade de duas partes de um mesmo objeto em posse de duas pessoas distintas para o reconhecimento mútuo; e o sábio do Benin, exprimindo a mesma intuição, dizia a respeito do Sagrado Vodun que «é preciso dar nome ao sinal para que haja símbolo». Por conseguinte, o Deus que busca o homem negro quer ser culturalmente acolhido antes que haja uma revelação para este homem. Mas, diante da multiplicidade de simbologias, qual delas escolher para não trair o Mistério de Deus nem o do homem, cultural mas também sócio-histórico, que procura se cor-responder, sim-bolizar ?

A exatidão ao mesmo tempo teológica, espiritual, cultural e sócio-histórica da intuição que está na base desta harmonia de formas e de cores, que se oferece à vista nos campos do Benin, em Toffo,  parece encontrar-se na simbologia da Solidariedade.

O Deus que se entrega ao homem negro, em Jesus Cristo, é solidário com o homem. É a fé nele que permite conceber um projeto arquitetônico sintetisando a forma da sala de celebração da palavra (Ajalala) e do santuário dos ancestrais onde se celebra o rito sacrifical (Dêxo), na região dos fon, para exprimir o Templo da Nova Aliança, «casa de oração para todos os povos» (Isaías). O arquiteto e o pintor europeus e o escultor beninês, exclusivamente formados de acordo com o cânon de beleza da tradição africana, realizaram, fazendo convergir seus gênios criativos, um edifício de tal maneira proporcionado e deslumbrante de beleza que nos deixa mudos de admiração. Em um mundo cada vez mais interdependente, ficamos felizes ao encontrar assim restaurada a unidade, o melhor da herança arquitetônica tradicional (aja-fon) e toda a história santa reunidas em quadros de uma pureza de linhas que alegra o olhar e liberta o coração para o essencial daquilo que faz de uma memória cultural uma memória cristã.

P. Barthélemy Adoukonou, OCSO, teólogo beninês,
é Secretário Geral da CERAO (Conferência Episcopal Regional da África Ocidental)

Traduzido do francês pelas monjas do Mosteiro da Santíssima Trindade, Santa Cruz do Sul, RS.