Estabilidade e mudança

A Regra de São Bento como modelo
de uma cultura empresarial hodierna

Irmã Gisela Happ, OSB

Baseando-se nos capítulos da Regra de São Bento sobre o abade e o celeireiro, Irmã Gisela estabelece um paralelo original e pertinente entre as qualidades que devem ter o abade e o celeireiro e as que deveria ter um chefe de empresa hoje em dia.


Desde que vim para Paris trabalhar a serviço da inteira Ordem Beneditina (cerca de 8.000 monges e 16.000 monjas), quis comparar em uma nova perspectiva a Regra de São Bento com as linhas diretivas das empresas. Procurei particularmente saber como é possível e necessário permanecer estável na mudança.

O monge que se compromete na vida beneditina faz voto de estabilidade e voto de conversão. Louvamos a estabilidade em uma comunidade, em um lugar, mas estabilidade não significa imobilismo; nós a entendemos, sobretudo, no duplo sentido de «estar em movimento» e «manter-se neste movimento». Quanto à conversão, ela é uma volta, um recomeçar cotidiano. Para nós, mesmo com toda a disposição para a mudança, mesmo com toda a abertura para um novo partir, existe algo que nos mantém e nos conserva neste movimento. Na Regra de São Bento, se diz do Abade: «Deve ser douto na lei divina para que saiba e tenha de onde tirar as coisas novas e antigas» (RB 64,9); e ainda: «Equilibre tudo de tal modo, que haja o que os fortes desejam e que os fracos não fujam» (RB 64,19).

Bento de Núrsia e sua Regra

São Bento é um daqueles homens cuja ação ultrapassa de muito o seu tempo. Nascido por volta de 480 em Núrsia, na Úmbria, interrompeu seus estudos de letras clássicas, em Roma, retirando-se para a solidão de Subiaco a fim de se tornar monge. Cerca de 528, foi para Monte Cassino onde redigiu sua Regra e morreu em 547. Quarenta anos mais tarde, seu mosteiro foi destruído pelos lombardos, e reconstruído em 720.

Transcorridos mais de catorze séculos, homens e mulheres ainda se reúnem para viver em comum segundo esta Regra. Quem escolheu semelhante caminho, procura a Deus em uma comunidade fraterna, entregando-se à oração e ao trabalho em comum a fim de se tornar um homem novo. Não se furta às exigências do apoio fraterno, no serviço e no perdão recíprocos, no crescimento pessoal mediante a partilha e o intercâmbio de dons humanos e espirituais.

Que relações existem entre esta Regra de vida e as normas para a direção e a colaboração numa empresa? Existem paralelos entre o pensamento beneditino e a cultura empresarial de hoje? Como escrevia um economista contemporâneo, «a corrida vertiginosa direcionada para um progresso sempre em expansão, para a satisfação de expectativas constantemente crescentes, leva a um empobrecimento de sentido; ela produz uma impossibilidade em guardar o equilíbrio».

A vida beneditina se esforça, pelo contrário, em guardar o equilíbrio. A discretio, essa maneira de guardar sabiamente o equilíbrio, que atravessa a Regra inteira como um fio vermelho – mostra-se como uma tentativa de resposta, uma tentativa de viver essa unidade em tensão: stabilitas in conversione, estabilidade na mudança, continuidade na mudança.

No tempo de São Bento, a situação política e social era seguramente mais difícil do que hoje. Era o tempo das grandes migrações, qualificadas como invasões dos bárbaros. As condições econômicas eram desoladoras. Mas, foi precisamente nesse mundo desorientado e lacerado que São Bento construiu seu mosteiro e escreveu uma Regra para seus monges. Em pleno caos econômico, ele se pôs com seus monges a cultivar os campos e a trabalhar nas oficinas de artesanato. Os trabalhos desse grupo minúsculo tiveram, no plano cultural, um efeito sobre todo o Ocidente. Os beneditinos nos transmitiram a cultura ocidental.

O cerne da vida beneditina é a «busca de Deus». Não se trata, em primeiro lugar, de uma procura de si mesmo, mas, sobretudo, de procurar a Deus. A vida do monge não é um estado e sim um itinerário, uma caminhada ou uma progressão no caminho que conduz a Deus: é um caminho de vida (RB Prólogo, 20). São Bento descreve o monge como alguém que «quer a vida e deseja ver dias felizes». Ele está bem fixado, mas está em movimento.

A cultura na Regra e na empresa

Toda empresa se refere a valores e a uma cultura. Os valores éticos exigem que se perceba a importância e a influência das culturas. Os filhos de São Bento são e foram sempre considerados como portadores de cultura.

A palavra «cultura» vem do latim colere, cultus, cultura, que engloba quatro significações:

1. cultivar, trabalhar, literalmente preparar a terra com o arado. Isto, os Beneditinos fizeram em todo tempo e em todo lugar: tanto desbastar as florestas na Saxônia como plantar vinhedos na Borgonha, ou construir fazendas-modelo atualmente na África.

2. habitar em, estar domiciliado: tornar uma região habitável.

3. ornamentar, formar, preservar, cuidar do corpo e do espírito: tudo o que se refere ao conjunto das expressões da vida intelectual e artística. Os Beneditinos marcaram fortemente a cultura nesses setores, por suas construções, por suas bibliotecas, etc. Não é sem razão que São Bento foi proclamado Padroeiro da Europa.

4. finalmente, adorar, venerar, prestar um culto. É a forma mais elaborada da cultura que, por meio do ofício divino e da liturgia, abre para o transcendente.

Pode-se ver aqui em que medida transparece a famosa discretio beneditina, o justo equilíbrio em todas as suas acepções: enraizado, no sentido primeiro do termo, e ao mesmo tempo tendido para o alto, com plena consciência de que não somos nós a trabalhar sozinhos, e que, afinal de contas, todos nós vivemos daquilo que recebemos. Uma cultura empresarial talvez não chegue até lá.

Para São Bento, o mosteiro é uma «escola de serviço do Senhor» (RB Prólogo 45), portanto uma comunidade em formação, sempre confrontada ao novo, talvez até o indesejável. Os colaboradores de uma empresa moderna devem estar sempre preparados para aprender o que é novo, abertos para uma mobilidade mental e uma concordância ativa do desenvolvimento. Um deles declarava: «Nós sempre questionamos os valores tradicionais e desenvolvemos novas soluções em benefício de nossos clientes». São Bento fala do mosteiro como uma oficina: trata-se de fabricar um produto, mas também de construir juntos e construir uns aos outros. Isso vale igualmente para a empresa. Uma escola ou uma comunidade batalham por mudanças, mas também por garantias; uma comunidade em formação «está em movimento», para que assim algo a mantenha e a leve adiante. É necessário haver possibilidade de dizer «nós», de se identificar. Nem tudo deve ser um fluxo permanente.

As qualidades do responsável na Regra e na empresa

São Bento indica de modo concreto suas exigências com relação aos responsáveis, traçando o perfil da pessoa de cada um deles. Qual é, pois, este perfil? O capítulo sobre o celeireiro ou ecônomo começa assim: «Seja escolhido para celeireiro do mosteiro, entre os membros da comunidade, um irmão sábio, maduro de caráter, sóbrio, que não coma muito, não seja orgulhoso, nem turbulento, nem injuriador, nem preguiçoso, nem pródigo, mas temente a Deus; que seja como um pai para toda a comunidade» (RB 31,1-2).

Antes de falar sobre a arte de dirigir, São Bento descreve, portanto, a personalidade do dirigente. Aquele que quer dirigir deve primeiramente poder se dirigir a si próprio. Quais são meus próprios problemas? Onde estou ferido? O que obscurece meu entendimento? As funções de direção não podem ser constantemente misturadas com necessidades pessoais não resolvidas. «Quando um dirigente tem em mãos os instrumentos da organização e de controle, mas é pessoalmente desequilibrado, ele pode com certeza, a curto prazo, gerenciar sua empresa, mas, a longo prazo, contaminará a empresa com sua imaturidade e bloqueará a motivação de seus colaboradores» (Anselm Grün).

Retomemos, por conseguinte, a lista das qualidades que São Bento requer do celeireiro do mosteiro e que se pode também aplicar a qualquer responsável.

1. A sabedoria (sapiens, sábio, experiente). O sábio é aquele que vê as coisas como elas são. Trata-se do contato com a realidade. O responsável deve ter senso do que é justo, e uma certa experiência para conduzir-se a si próprio e conduzir os demais.

2. A maturidade (maturis moribus, maturidade de caráter). Os critérios de maturidade humana são a calma interior, a unificação interior. É normal que os colaboradores exijam de seu chefe uma maturidade humana. Desta maturidade, faz parte também uma avaliação objetiva e sóbria das coisas (sobrius): não se deixar seduzir pelas próprias ilusões. Quem luta apenas pelo próprio poder, por sua vaidade pessoal e pelo reconhecimento de terceiros, com toda certeza não é uma pessoa madura.

3. A modéstia. São Bento descreve o responsável como alguém que sabe se contentar (non multum edax, é frugal) e que não se eleva acima dos outros (non elatus, que não é orgulhoso), mas procede com humanidade para com eles e lhes respeita a dignidade. Em seguida, o celeireiro não deve ser turbulento ou injuriador (non turbulentus). Que não seja agitado, colérico, provocador de mal-estar, repleto de confusão. Nenhuma decisão clara pode partir de um homem cheio de desordem e de confusão, pois não é sequer senhor de sua própria casa. São Bento pede ao celeireiro a calma interior. Somente alguém que pode administrar uma atmosfera tranqüila ajuda seus colaboradores a se sentirem à vontade e a se dedicarem ao trabalho com boa vontade.

4. A justiça (non iniuriosus, nem grosseiro nem injusto). A pessoa que dirige não tem o direito de ferir. Deve se esforçar para ser objetivo em seus julgamentos a fim de tratar com justiça seus colaboradores. Não deve perturbar nem desprezar os outros, mas respeitar a cada um. Não são a desconfiança e o medo que o orientam em sua conduta, mas o estímulo e a motivação. O respeito pela dignidade de cada um aumenta infinitamente suas capacidades. «Uma empresa que toca o coração de seus colaboradores oferece também as melhores prestações de serviço».

5. A decisão (non tardus, sem lentidão nem inércia, sem hesitação). Aquele que quer dirigir deve saber se decidir claramente e rapidamente. O dirigente deve aceitar o peso das responsabilidades. A incapacidade em se decidir é um obstáculo enorme para uma verdadeira direção. Enfim, o celeireiro deve ser econômico (non prodigus). Não deve esbanjar. Aquele que dirige deve manter um inventário cuidadoso de tudo o que lhe foi entregue.

6. Como um pai (sicut pater). Uma nova precisão: o celeireiro deve ser como um pai, quer dizer, ele deve encorajar seus colaboradores a se lançarem. Deve lhes apoiar e visualizar soluções onde é possível haver erros. Um bom responsável se empenhará não apenas em seu próprio bem-estar, mas no de toda a empresa.

Escutemos ainda São Bento, suas diretivas, sua cultura empresarial: «Nada negligencie. Não se entregue à avareza, nem seja pródigo e esbanjador dos bens do mosteiro; mas faça tudo com medida e conforme a ordem do Abade» (RB 31,11-12).

Um banqueiro dava estas diretivas, que não estão muito longe da Regra: «Nossos colaboradores esperam de nós uma direção confiável. Por isso, a direção não é um "status", mas uma qualificação, uma competência, uma exigência, uma responsabilidade. Aquele que assume uma função de direção deve convencer seus colaboradores, sendo ele próprio um modelo tanto no plano pessoal quanto no profissional».

As qualidades e o comportamento do Abade

No mosteiro, o Abade, eleito por seus irmãos, é o responsável último. São Bento fala sobre isto em duas ocasiões: no capítulo 64, sobre «a ordenação do Abade», e no capítulo 2, «como deve ser o Abade». Vejamos primeiro o capítulo 64.

«Pense sempre o Abade ordenado no ônus que recebeu e a quem deverá prestar contas da sua administração» (RB 64,7). Portanto, existe uma ética de direção, uma exigência moral. «Saiba convir-lhe mais servir que presidir» (RB 64,8). O texto latino diz: «Magis prodesse quam præesse», cuja tradução ao pé da letra seria: «Estar mais a serviço do que à frente». Estar à frente, é a presidência, e há muitas maneiras de pre-sidir, todas elas requerendo previdência por parte daquele que está à frente.

São Bento prossegue: «Ele deve ser casto, sóbrio, misericordioso e faça prevalecer sempre a misericórdia sobre o julgamento, para que obtenha o mesmo para si...  Suspeite sempre da própria fragilidade... Não seja turbulento nem inquieto, não seja exagerado nem obstinado, nem ciumento, nem muito desconfiado, pois, nunca terá descanso; seja prudente e refletido em suas ordens... O trabalho que ordenar, faça-o com discernimento e equilíbrio, lembrando-se da discrição do santo Jacó, quando dizia: "Se fizer meus rebanhos trabalhar andando demais, morrerão todos num só dia". Assumindo esse e outros testemunhos da discrição, mãe das virtudes, equilibre tudo de tal modo, que haja o que os fortes desejam e que os fracos não fujam» (RB 64,9-10.13.16-17.18-19).

Nestes últimos tempos, tem-se utilizado com freqüência a expressão «desenvolvimento sustentável», entendendo-se por ela uma maneira justa de agir com relação ao meio-ambiente. Contudo, este conceito tem de igual modo alguma coisa a ver com o setor sócio-econômico: deve-se garantir que o desenvolvimento leve em conta as necessidades atuais sem diminuir, para as gerações futuras, as possibilidades de satisfazer suas próprias necessidades. Tal premissa está relacionada com a justa medida entre continuidade e mudança.

Passemos agora ao capítulo 2, sobre as qualidades requeridas para o Abade: «O Abade digno de presidir ao mosteiro, deve lembrar-se sempre daquilo que é, e corresponder pelas ações ao nome de superior» (R 2,1). Um diretor de empresa escreve por sua vez: «Nós devemos dizer o que pensamos, devemos fazer o que dizemos e devemos ser o que fazemos».

São Bento prossegue: «Quando alguém recebe o nome de Abade, deve presidir a seus discípulos usando de uma dupla doutrina, isto é, apresente as coisas boas e santas, mais pelas ações do que pelas palavras, de modo que aos discípulos capazes de entendê-las proponha os mandamentos do Senhor por meio de palavras, e aos duros de coração e aos mais simples mostre os preceitos divinos pelas próprias ações. Assim, tudo quanto ensinar aos discípulos como sendo nocivo, indique pela sua maneira de agir que não se deve praticar, a fim de que, pregando aos outros, não se torne ele próprio réprobo» (RB 2,11-13). Em suma, dirigir é tornar-se um modelo.

«Que não seja feita por ele distinção de pessoas no mosteiro. Que um não seja mais amado que outro, a não ser aquele que for reconhecido melhor nas boas ações ou na obediência. Não anteponha o homem nascido livre ao que veio de condição servil, a não ser que exista outra causa razoável para isso» (RB 2,16-18). É o que um banqueiro traduz: «Nós levamos a sério nossa responsabilidade social. Todos os membros da sociedade têm as mesmas oportunidades, independentemente da origem, nacionalidade, religião e sexo».

«Deve sempre o Abade lembrar-se daquilo que é; lembrar-se de como é chamado, e saber que daquele a quem mais se confia mais se exige. E saiba que coisa difícil e árdua recebeu: reger as almas e servir aos temperamentos de muitos; a este com carinho, àquele, porém, com repreensões, a outro com persuasões segundo a maneira de ser ou a inteligência de cada um» (RB 2,30-31).

Tais são as exigências para os responsáveis, no século VI. A responsabilidade e o dever de ser um exemplo na direção são sublinhados. O exemplo dado convence e motiva mais que um discurso. O comportamento e o discurso devem, todavia, estar em concordância. Espera-se um comportamento que não seja rígido, mas capaz de mudar. «A credibilidade e a aceitação de um responsável, dependendo enormemente da medida do que ele diz e pede a seus colaboradores, deve conferir com seu próprio comportamento de responsável» (R. Breuer).

A direção como serviço

No capítulo sobre o celeireiro do mosteiro, São Bento escreve: «Tome conta de tudo... Quem tiver administrado bem, terá adquirido para si um bom lugar» (RB 31,3.8). Conduzir e servir caminham juntos. As boas disposições de uma direção são decorrência da disponibilidade para o serviço. Atualmente, nas empresas confrontadas com turbulências, procura-se um «ator» que saiba, em pouco tempo, assumir as rédeas da sociedade e saneá-la. Mas os sucessos a curto prazo têm, na maioria das vezes, um custo humano muito elevado. Quando as mudanças são impostas do exterior, sem considerar as verdadeiras necessidades dos colaboradores, elas não conduzem a nada. Assim, a observação seguinte é decerto justificada: «O melhor dirigente é, no final das contas, aquele que está pronto para servir e obtém a longo prazo os melhores resultados».

Sempre a propósito do celeireiro, São Bento escreve ainda: «Tenha antes de tudo humildade e não possuindo o que lhe pedem, dê como resposta uma boa palavra, conforme o que está escrito: "A boa palavra está acima da melhor dádiva"» (RB 31,13). O dirigente deve sempre se lembrar que ele não passa de um homem, tirado da terra, do humus (de onde vem a palavra humildade). Neste sentido, a humildade inspira o respeito e inspira a boa resposta. Hoje, se dizem muitas palavras, mas uma boa palavra é raramente prodigalizada. São Bento espera do responsável que ele saiba, por suas palavras, dar o melhor para seus irmãos. Portanto, é necessário que ele escute, escute bem, gaste tempo escutando. Então, a «boa palavra» não é benéfica apenas para o colaborador, ela contribui igualmente para que se estabeleça um ambiente agradável no trabalho e no crescimento da empresa.

O objetivo da direção

«Às horas convenientes seja dado o que deve ser dado e pedido o que deve ser pedido, para que ninguém se entristeça na casa de Deus» (RB 31,18). O objetivo da direção de uma empresa é que seus colaboradores procurem atingir uma meta comum, não que cada um lute para si próprio, mas que se consiga atingir um «estar juntos». Para São Bento, o verdadeiro objetivo é que ninguém se entristeça no mosteiro. Este objetivo não tem nada a ver com um lucro máximo. A direção não deve perturbar nem entristecer, mas incentivar e desenvolver. Talvez seja possível imaginar, além da procura de um lucro máximo, uma cultura empresarial onde apareça um traço de transcendência. Uma empresa que só visa suas próprias vantagens gera também na sociedade uma total indiferença para com os outros e uma preocupação excessiva de lucro.

Conclusão

O que São Bento pode ainda dizer aos homens de nosso tempo? Através de sua Regra, ele propõe aos homens um gênero de vida que lhes permite voltar a uma ordem estruturada e, em seguida, a partir daí, intervir no meio-ambiente. Na relação com Deus, com os outros homens, com a criação que nos cerca, ele propõe uma medida ou ponderação em nossos projetos; ele propõe que nós «nós nos mantenhamos em movimento»: estabilidade e conversão. Nossa vida é sempre uma tentativa e, por conseguinte, uma procura. Nós sempre medimos mais a distância que existe entre o aumento das possibilidades e nossa realidade.

Os princípios de direção propostos pela Regra beneditina são ainda hoje tão atuais quanto há catorze séculos. A transição da Antiguidade para a Idade Média, no Ocidente, na época de São Bento, suscitou os mesmos temores que, para nós, suscitou a passagem da era técnico-industrial para um mundo ainda incerto em seus fundamentos e seus aspectos, como sociedade de comunicação, colocada em rede global e com uma economia de alta velocidade.

O discernimento em mutação? Sim, mas somente se seu movimento for «mantido», e que a mobilitas seja acompanhada de uma stabilitas fundamental. Friedrich Nietsche refere, como precursor, o que acontece a homens que estão em constante mutação. A propósito da incessante atividade dos americanos, assim escreve: «Tem-se quase vergonha, agora, de repousar; uma meditação prolongada quase provoca remorsos de consciência; vive-se como estando perpetuamente em risco de faltar alguma coisa... Na corrida pelo lucro, obriga-se a consumir continuamente o próprio espírito até o esgotamento num trabalho incessante para suplantar, confundir ou ultrapassar o outro: a verdadeira virtude é, doravante, conseguir fazer algo em menos tempo que o outro» (O alegre saber).

O discernimento da mudança? Sim, mas com medida. «Tirar sempre as coisas novas e antigas», dizia São Bento. A flexibilidade é hoje uma palavra mágica em nossa economia. Não somente o empresário, mas o trabalhador devem estar constantemente abertos à mudança. Onde sempre se pedem coisas novas, um compromisso a longo prazo se torna impossível: a profissão, a posição social, a família, tudo está sujeito às exigências ocasionais da vida econômica. 

Uma ordem que não dê ao homem razões profundas para se preocupar com o outro não pode durar. A Regra de São Bento procura definir uma ordem em que o movimento é «mantido», uma ordem que tem um ponto de apoio, um fundamento, raízes. Nós pensamos que a Regra de São Bento, tendo contribuído enormemente para o desenvolvimento e a difusão da cultura na Europa, pode ajudar hoje ainda na recuperação e no equilíbrio de nossa sociedade, assim como fez durante tantos séculos.

Ir. Gisela Happ, OSB,  monja da Abadia de Eibingen (Alemanha), é atualmente Secretária Geral da AIM, em Vanves (França).

Traduzido do francês por Dom Matias Fonseca de Medeiros, OSB