O TULKU, UMA OPORTUNIDADE OU UM RISCO
PARA MONAQUISNMO TIBETANO

Fr. Thierry-Marie Coureau, OP

O objetivo deste artigo é de dar a conhecer melhor o monaquismo tibetano e mostrar as correntes nele existentes.

Qualquer que seja nossa atração ou apetite em estabelecer semelhanças, comparar os costumes tibetanos com a nossa realidade monástica católica é algo impossível. Seria um grande erro. Para começar, deveríamos renunciar ao emprego dos termos mosteiro e monge para qualificar a situação tibetana e trocá-los por convento e religioso. O que chamamos de monaquismo tibetano envolve realidades bastante diversas de estados de vida: celibatários vivendo em comunidades (até mesmo em aldeias com milhares de homens) e exercendo nelas uma atividade (professores, yogis, estudantes, artesãos, camponeses, empregados, médicos, comerciantes, militares, etc.), eremitas isolados ou em grupos passando anos em total afastamento, religiosos itinerantes, religiosos casados e pais de família, todos podendo, em particular, ter seus próprios recursos, ser proprietários de bens religiosos ou seculares, escolher passar ou não um tempo determinado nessa ou naquela comunidade, estar ligado a tal mestre, etc.

Considerando a complexidade da vida religiosa tibetana e a brevidade deste artigo, escolhemos apenas um único aspecto que representa ao mesmo tempo uma diferença fundamental com o monaquismo católico e um desafio maior a ser enfrentado por esta tradição em sua situação atual: o tulku (nirmanakaya, sânscrito (sct); sprul sku, tibetano (tib). Para nos aproximarmos desta realidade societária e religiosa, convém apresentar de maneira sucinta a estrutura da religião budista tibetana e seu projeto.

Quando o budismo se implantou definitivamente no Tibete, no século VIII de nossa era, impulsionado pelo soberano, já tinha treze séculos de existência na Índia e se difundiu sob múltiplas formas, em várias partes da Ásia. Foi o rio budista do Grande Veículo (Mahayana, sct) que veio inundar com suas diversas correntes uma terra onde as práticas religiosas se misturavam com sacrifícios sangrentos, submissão aos espíritos e relações com os ancestrais. Naquela época, mais de setecentos textos foram traduzidos para a língua tibetana, redigiram-se regras para tradução e um dicionário sânscrito-tibetano. Depois de algumas vicissitudes, a corrente que, a partir do século XI, daria o tom definitivo às práticas religiosas tibetanas foi o budismo tântrico indiano. Integrando práticas e doutrinas anteriores e próprias do mundo tibetano ou produzindo novas, ele deu origem a duas formas bem distintas conhecidas uma pelo nome de Bön e a outra pelo nome de Veículo de Diamante (Vajrayana, sct; rDor rje theg pa, tib), que até hoje competem uma com a outra.

A primeira integrou incontestavelmente tradições bastante antigas, provenientes tanto do país das neves, antes de sua conversão ao budismo, como das regiões budistas situadas a oeste do Tibete. Pretende ter se originado de um Buda que apareceu há mais de vinte mil anos. É pouco importante em número de conventos e de adeptos. A segunda reivindica uma filiação ininterrupta das mais puras tradições indianas, cujas figuras emblemáticas para os tibetanos são Santaraksita, Kamalashila, Padmasambhava, Atisha, Naropa. Ela é constituída por diversas escolas, das quais as quatro mais importantes são atualmente as rNying ma pa, Sa kya pa, bKa’ brgyud pa, e dGe lugs pa.

Estas formas e escolas se distinguem uma da outra pela época de suas fundações e por seus fundadores, por seus textos, suas doutrinas e suas práticas, pela ênfase que dão a este ou àquele «corpus» de textos ou de práticas comuns, pela importância que dão aos compromissos religiosos, por sua implicação política na história. Mesmo podendo rivalizar entre elas, chegando mesmo a lutar, todas têm uma preocupação em comum: responder às necessidades religiosas dos tibetanos.

Qual é o caminho para a libertação designado pelo termo Despertar? No centro desta tradição do Grande Veículo tântrico tibetano, os caminhos são abertos em função das capacidades atuais dos adeptos. Três níveis, também chamados de veículos ou meios de progressão, distinguem-se assim: veículo inferior, veículo superior (ou grande veículo), veículo de diamante (ou do raio), que devem necessariamente ser percorridos nesta ordem. O primeiro requer a prática da disciplina interior e exterior, o segundo a compreensão do vazio (vacuidade) de natureza própria de cada coisa, e o terceiro a prática tântrica. O praticante submetido à disciplina religiosa se distingue do que se dedica à prática tântrica. Este último pode fazer o que não é permitido ao primeiro (álcool, carne, relações sexuais), não por licença e sim para experimentar a ausência de natureza própria das coisas, sem exceção.

De maneira geral, o caminho é feito em íntima relação com um mestre (guru, sct; bla ma, tib) no qual o praticante vê o Buda. Se, no plano mais elementar, tudo começa pelo refugiar-se nas três jóias (Buda, doutrina, comunidade), é o «espírito do despertar» (bodhicitta, sct) que caracteriza o praticante do grande veículo tibetano e o faz tornar-se um «ser desperto» (bodhisattva, sct). Para isto, ele emite o voto de «atingir o despertar em vista da libertação de todos os seres» perante aquele que faz as vezes de Buda. Tudo o que, no princípio, é apenas uma aspiração, deve se tornar um verdadeiro compromisso pelo qual, mediante ações favoráveis, o adepto acumula frutos, chamados méritos de sabedoria (compreensão do funcionamento de seu espírito) e a compaixão (desejo de libertar os seres da não- satisfação). Desse modo, ele se dota a si mesmo dos equipamentos necessários para ser conduzido à experiência do vazio (vacuidade) de natureza própria de cada coisa e do que lhe está próximo, a compaixão universal sem objeto. Após uma primeira experiência de estar desperto, o bodhisattva, tendo se tornado nobre, percorre as dez terras ou etapas nas quais seu espírito se desprende definitivamente das falsas visões da realidade.

O nível tântrico, ou veículo de diamante, se apóia nos fundamentos do grande veículo que acabamos de descrever e invoca figuras tutelares despertas (yi dam, tib) a fim de apressar a transformação de seu espírito. O nobre bodhisattva da compaixão, (Avalokitesvara, sct; sPyan ras gzigs dbang phyug, tib) é o mais célebre no Tibete com seu mantra: «Om Mani Padme Hum». Os soberanos do Tibete (em particular o Dalai Lama) foram sempre considerados como seu corpo de manifestação. Um mestre vincula seu discípulo a uma dessas deidades cujos textos (tantra, sct) e práticas (sadhana, sct) que lhe são associados têm em vista romper nele as resistências de seu espírito à visão da realidade. No tantrismo, esta prática é precedida por exercícios mais simples, chamados preliminares (oferendas, práticas de treinamento do espírito, centenas de milhares de prostrações, recitações de mantra, etc.), visando desenvolver a motivação e a fé no mestre e na doutrina.

Ao lado dessas práticas que dizem respeito aos mais adiantados na via da libertação, religiosos budistas praticam numerosos rituais para as necessidades mais ordinárias: astrologia, adivinhações, proteção, propiciação das divindades locais, curas, perdão das faltas, preparação para a morte, celebrações fúnebres, etc. As relações entre leigos e religiosos são muito próximas. Cada tibetano, que tem pelo menos um membro de sua família na vida religiosa, se reconhece como vinculado a uma dessas linhas, a algum desses mestres.

Dentre todos eles, é o tulku, ou corpo de manifestação da realidade desperta, instituição tipicamente tibetana do século XII de um conceito budista (por razões de sucessão conventual), que marca profundamente a cultura tibetana e o imaginário ocidental. O tulku é o retorno escolhido no ciclo das existências (samsara, sct) de um mestre que atingiu um determinado grau de libertação, de um nobre bodhisattva. Haveria hoje um milhar deles, o que corresponderia às sedes de instituições religiosas de uma certa importância. Sua determinação é tão decisiva para o grupo que administra os bens espirituais e temporais de uma linhagem ou de um estabelecimento religioso que ela esteve com freqüência na origem de graves conflitos. Os mais célebres desses tulkus são os dalai-lama, panchen-lama e karmapa.

Paradoxalmente, a conservação desta instituição proporciona ao budismo tibetano oportunidades e riscos nos planos espiritual e temporal. No plano da qualidade do ensinamento, formar crianças na doutrina e na prática representa um instrumento formidável de transmissão intelectual e espiritual. Se isto já não é fácil até para um tibetano, quanto mais em se tratando de ocidentais. Os grandes mestres formados na pura tradição são cada vez mais raros. No plano temporal, a doutrina budista, estimulando fortemente doações às pessoas e instituições religiosas para a aquisição de méritos em vista da libertação, é geradora de donativos financeiros conseqüentes, fato que pode levar a inúmeros problemas. O budismo tibetano sempre se viu confrontado, no decurso de sua história, a riscos onde se misturavam interesses econômicos e políticos (no Tibete, até a intervenção chinesa, as instituições religiosas eram verdadeiros senhorios feudais, freqüentemente ligados a famílias de soberanos locais ou regionais), e não são as evoluções políticas recentes que vão mudar fundamentalmente os dados sobre este ponto. O poder temporal das instituições religiosas do budismo tibetano e de seus representantes continua sendo uma questão central, tanto no Tibete quanto no exílio, ou até na constituição de uma tradição ocidentalizada. Ou ela será aproveitada para o desenvolvimento de atividades espirituais e caritativas ou será desviada em vista de outros objetivos, mais pessoais, pervertendo a proposição religiosa. É um dos pontos acerca do qual a credibilidade de seu caminho de libertação está em jogo.

Tib = tibetano
Sct = sânscrito

Fr. Thierry-Marie Coureau, OP, é diretor do Instituto de Ciência e de Teologia das Religiões (Faculdade de Teologia do Instituto Católico de Paris).

Tradução de D. Matias Fonseca de Medeiros, OSB.