AUTONOMIA FINANCEIRA

ALGO PARA SE BUSCAR E MANTER

Dom John Kurichianil, OSB

Alegria de ouvir uma voz vinda da Índia e de saborear um modo de pensar rigoroso em sua referência à tradição e, ao mesmo tempo, tão lúcido quanto à realidade concreta do mosteiro. Note-se uma grande insistência com relação ao trabalho agrícola, a ponto de nos interrogarmos se não poderia ser ele um carisma da vida beneditina.

O mosteiro vislumbrado por São Bento na Regra é uma instituição bem estabelecida e financeiramente forte.

Deve ter recursos suficientes para cuidar de uma comunidade bastante grande: «Se for possível durmam todos num mesmo lugar; se, porém, o número não o permitir, durmam em grupos de dez ou vinte» (RB 22,3).

Deve ter meios para prover as necessidades básicas de seus monges: alimento, roupa, educação e um teto para morar.

Deve ser capaz de sustentar não apenas os membros da comunidade que trabalham e ganham, mas também os que não estão mais em condições de contribuir eficazmente por meio do trabalho, ou seja, os idosos e as crianças (RB 37), bem como os doentes (RB 36). Deve ter uma boa enfermaria de modo que os doentes recebam os cuidados adequados (RB 36,7-8).

Deve ter uma hospedaria bem organizada (RB 53,16-22), permitindo à comunidade proporcionar uma boa acolhida aos hóspedes e peregrinos que podem chegar «em horas incertas e nunca faltam no mosteiro» (RB 53,16).

Deve ter dentro de seus muros todo o necessário para a vida da comunidade – «água, moinho, horta e várias oficinas, para que não haja necessidade de os monges vaguearem fora» (RB 66,6-7).

A comunidade é constituída de pessoas com vários talentos, as quais devem receber os meios necessários para executar suas habilidades dentro do mosteiro (RB 57, 1-3). Deve também ser capaz de acolher pessoas necessitadas que vêm ao mosteiro e ajudá-las conforme suas necessidades.

Se os membros da comunidade devem receber livros para a leitura pessoal e para o estudo (RB 48,23), especialmente durante a Quaresma (RB 48,15-16), é preciso que a biblioteca do mosteiro tenha livros suficientes em suas estantes. Aliás, livros sempre foram caros.

Ao considerarmos todos esses pontos, vemos que o mosteiro imaginado por São Bento é tal que precisa ser financeiramente auto-suficiente e forte. Deve ter recursos financeiros múltiplos de modo a assegurar que tudo seja feito com a maior tranqüilidade,  para que «todos os membros estejam em paz» (RB 34,5) e «ninguém se perturbe nem se entristeça na casa de Deus» (RB 31,19). Sim, a paz é também tributária da situação financeira do mosteiro.

I PARTE – A EXPERIÊNCIA DO NOVO TESTAMENTO

Quando fazemos referência a qualquer aspecto da vida de uma comunidade monástica, devemos igualmente considerar duas outras comunidades, a saber: a comunidade do Evangelho, composta por Jesus e os Doze, e a comunidade cristã primitiva de Jerusalém, descrita nos quatro primeiros capítulos dos Atos dos Apóstolos. A comunidade cristã primitiva de Jerusalém é uma continuação da comunidade do Evangelho, da qual se originou; a comunidade monástica perpetua a vida da comunidade cristã primitiva. 

Não há nada de extraordinário quando nos referimos à comunidade do Evangelho e à comunidade cristã primitiva ao falarmos sobre os vários aspectos da vida de uma comunidade monástica, como a oração, a partilha de bens, a co-responsabilidade, a unidade, etc. Entretanto, poderia soar um pouco estranho nos referirmos a elas quando tratamos de assuntos financeiros, sobre a autonomia financeira que qualquer mosteiro deve ter em perspectiva e buscar. Penso, contudo, que vale a pena fazer isso. Assim, na primeira parte deste breve estudo, tenciono dar uma breve olhada na situação financeira da comunidade do Evangelho, bem como na comunidade cristã primitiva. Na segunda parte, continuaremos a examinar o mesmo tema na Regra, com alguns comentários práticos, sempre que necessário.

1) A Comunidade do Evangelho

Os Evangelhos nos mostram alguns aspectos da situação financeira, teórica e prática, da comunidade formada por Jesus e os Doze. Vejamos alguns deles.

● Jesus exige, das pessoas que o querem seguir de perto, total renúncia. Elas têm que deixar tudo e segui-lo (Mt 4,20-22; Mc 1,18-20; Lc 5,11) – suas «redes» (Mt 4,20; Mc 1,18) e o «barco» (Mt 4,22; Mc 1,20). Em Mt 19,29, têm que deixar «casas» e «campos». Em Lc 9,58, Jesus diz a alguém querendo segui-lo que «Ele não tem onde reclinar sua cabeça», significando assim que quem deseja segui-lo deve aceitar o mesmo tipo de incerteza material e de insegurança. Isto se torna até mais evidente na história do jovem rico que pretendia segui-lo. Jesus lhe diz: «Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me» (Mt 19,21; Mc 10,21; Lc 18,22). Jesus nem quer que o jovem traga para a comunidade o dinheiro proveniente da venda de sua propriedade!

● Jesus certamente não quer que seus discípulos tenham qualquer relação com dinheiro ou Mammon (Mt 6,24; Lc 16,13). Entretanto, Mammon é um fator que não pode ser ignorado. Os discípulos de Jesus devem se servir dele a fim de fazerem amigos, que os ajudarão a entrar no reino, e ganharem um tesouro no céu (Lc 16,9).

● Jesus e seus discípulos viveram a vida das pessoas comuns. Houve ocasiões em que não tinham sequer dinheiro suficiente para pagar os impostos. Daí a história interessante narrada em Mt 17,24-27, na qual Jesus manda Pedro lançar um anzol ao mar, tomar  o primeiro peixe que pescasse, abrir-lhe a boca, pegar a moeda lá encontrada e com ela pagar os impostos por eles dois. Essa história é uma clara ilustração de como Jesus e seus companheiros ganhavam o dinheiro necessário para todas as suas necessidades: a pesca era sua principal fonte de renda. Em outras palavras, era trabalhando pesado que eles ganhavam o dinheiro de que precisavam. Houve também momentos em que sentiram fome. Numa ocasião estavam tão famintos que começaram a colher e a comer espigas de trigo enquanto caminhavam pelos trigais (Mt 12,1; Mc 2,23; Lc 6,1).  A comparação que Jesus fez do incidente, com o que ocorreu com «Davi... e seus companheiros» (Mt 12,3; Mc 2,25; Lc 6,3), dá a entender que não apenas os discípulos, mas também Jesus, apanharam espigas de trigo e as comeram. O incidente de Davi e seus companheiros é relatado no Antigo Testamento, enquanto o de Jesus e seus companheiros é narrado pelos Evangelhos. Em outra ocasião os discípulos de Jesus estavam com tanta fome que começaram a comer sem terem antes lavado as mãos (Mt 15,2; Mc 7,2).

● Os Evangelhos dão inúmeros exemplos de que a comunidade de Jesus e dos Doze só tinha recursos em comum. E Judas era o responsável pelo dinheiro (Jo 12,6; 13,29), era o procurador, o ecônomo ou o celeireiro do grupo! Judas não estava muito contente com aquela estrutura; por isso, costumava roubar da bolsa comum para suas necessidades pessoais (João 12,6). Judas se tornou um traidor, porque, entre outras razões, se apaixonou também por Mammon.

● Os Evangelhos também nos contam quais eram as principais necessidades de Jesus e dos Doze. Eles faziam uso do dinheiro para ajudar os pobres (Jo 13,29), para suprir suas necessidades legítimas, por exemplo, comprar alimento (Jo 4,8.27) ou comprar tudo o que fosse necessário para a celebração de uma festa como a Páscoa. (Jo 13,29). Usavam também dinheiro para pagar impostos aos romanos, o que é evidente não apenas pela história do peixe com uma moeda na boca (Mt 17,24-27), mas também pela resposta que Jesus dá aos fariseus que lhe perguntaram se era justo pagar imposto a César: «Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus» (Mt 22,21; Mc 12,17; Lc 20,25). Significava assim que não apenas as pessoas deviam pagar impostos, mas que Jesus e seus companheiros também o faziam.

● A partir do Evangelho de Lucas temos igualmente a impressão de que a comunidade de Jesus e dos Doze não era muito auto-suficiente financeiramente: eles nem sempre tinham dinheiro bastante, nem mesmo para suas necessidades mínimas. Esta deve ser a razão pela qual eles dependiam também da generosidade do povo. Em Lc 8,2 temos a lista de algumas mulheres devotas «que os ajudavam com seus bens».

Tudo isso mostra que Jesus e seus discípulos, de fato, dependiam de dinheiro. Eles tinham suas próprias fontes de recursos, principalmente a pesca. Mas não eram totalmente independentes financeiramente. Se assim fossem, não teriam dependido da contribuição das piedosas mulheres mencionadas em Lc 8,2.

2. A Comunidade Cristã Primitiva

Os quatro primeiros capítulos dos Atos dos Apóstolos retratam para nós uma comunidade ideal. Ao dizermos ser ela uma comunidade «ideal», isto não significa que ela seja tão «ideal» que não possa ser imitada. Na verdade, a tradição monástica mostrou que ela pode ser imitada. Ela é uma comunidade ideal em praticamente todos os níveis. Nosso objetivo aqui é examinar o lado financeiro desta comunidade ideal. Praticamente todos os pontos já encontrados na comunidade do Evangelho aparecem também nesta comunidade ideal.

Os Atos dos Apóstolos insistem muito no aspecto comunitário (At 2,42) que, naturalmente, era a manifestação externa da profunda unidade de coração e de mente (At 2,1.44; 4,32). Aspecto comunitário ou interesse comum significava partilha de bens: «Ninguém dizia que eram suas as coisas que possuía, mas tudo entre eles era comum» (At 4,32); «eles tinham tudo em comum» (At 2,44). E em At 2,45 lemos que as pessoas «vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um»; e ainda em At 4,34-35: «todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, e traziam o preço do que tinham vendido e depositavam-no aos pés dos apóstolos. Repartia-se então a cada um deles conforme a sua necessidade». E o resultado? «Não havia entre eles nenhum necessitado» (At 4,34). Era deste modo que a comunidade cristã primitiva encontrava  um tipo de auto-suficiência financeira.

● Mas havia lacunas no sistema, ou melhor, havia pessoas tentando minar o sistema. Primeiro temos a história de Ananias e Safira, que venderam sua propriedade, mas guardaram uma parte do dinheiro adquirido com a venda e apresentaram apenas o restante aos apóstolos (At 5,1-11). Sua conduta é semelhante à de Judas. Em segundo lugar, há a reclamação dos helenistas contra os hebreus, porque suas viúvas estavam sendo negligenciadas na distribuição diárias de bens (At 6,1). Uma espécie de egoísmo começa a se insinuar na comunidade e a pôr em risco sua harmonia.

● Quando surgiram novas comunidades, independentes da comunidade de Jerusalém, apareceu um novo tipo  de fraternidade. Não é mais a simples partilha dentro de uma comunidade, mas, antes, a partilha entre várias comunidades. Assim, vemos em At 11,27-30  a comunidade de Antioquia levantando fundos e enviando-os para os pobres entre os fiéis da Judéia.

● Visto que as Cartas de São Paulo fazem parte da vida das comunidades cristãs primitivas, seria interessante voltar nossa atenção para duas particularidades nelas encontradas.

- A prática do auxílio mútuo entre as comunidades, já encontrada nos Atos dos Apóstolos, permanece um aspecto essencial do ministério de São Paulo. Essa prática tinha em vista não somente manter a solidariedade entre as várias comunidades – especialmente entre as comunidades de judeus e as de não-judeus – bem como manter um equilíbrio financeiro entre elas.  As Cartas de São Paulo mostram claramente que ele sempre fez questão de levantar fundos para os fiéis da Judéia, entre as  comunidades de cristãos oriundos do paganismo que ele encontrava durante suas jornadas missionárias (2Cor 8,1-20; 9,1-15). Na Carta aos Romanos (15,25-31), escreve que está a caminho de Jerusalém com o dinheiro que coletou para os pobres da Judéia. Isto significa que, quando uma comunidade tinha dificuldades financeiras, outras comunidades vinham em seu auxílio. 

- Na segunda Carta aos Tessalonicenses bem como na Carta aos Efésios, São Paulo estabelece certos princípios básicos para a  auto-suficiência financeira. Ninguém deve viver na ociosidade (2Ts 3,6.10-11) e, deste modo, se tornar um peso para os demais membros da comunidade, tentando viver às custas dos outros.  Pelo contrário, as pessoas devem trabalhar com esforço e ganhar o próprio sustento. Não é sem um certo orgulho que São Paulo faz referência ao próprio estilo de vida. Embora pudesse alegar ser uma pessoa muito atarefada, com muitas atividades missionárias ou pastorais, embora tivesse o direito de ser mantido pelas comunidades  para as  quais trabalhava (1Cor 9; 2Ts 3,9), estava sempre pronto a trabalhar pesado com as próprias mãos – a fabricação de tendas era o trabalho de que se ocupava (cf. At 18,3) – para ganhar dinheiro suficiente a fim de pagar as despesas pessoais e as de seus companheiros (2Ts 3,8; At 20,34). Em Ef 4,28 encontramos ainda outro ponto: as pessoas devem «trabalhar honestamente para realizar o bem com as próprias mãos, a fim de ter com que socorrer os necessitados».

Assim os princípios fundamentais que orientam a administração financeira das comunidades do Evangelho, bem como das comunidades cristãs primitivas, parecem ter sido os seguintes:

a. Espírito de renúncia, isto é, ausência de qualquer apego às coisas deste mundo, especialmente o dinheiro.

b. Nada de propriedade particular. Ninguém na comunidade deve  considerar coisa alguma ou usá-la como sendo sua. Ao contrário, a comunidade deve ter tudo em comum.

c. Todos os membros da comunidade devem trabalhar com empenho. Não deve haver ninguém vivendo na ociosidade, tentando viver como um parasita.

d. A comunidade deve sentir sincero amor e preocupação para com os pobres.

e. Deve haver honestidade absoluta no lidar com o dinheiro ou com os bens da comunidade.

II PARTE – A REGRA DE SÃO BENTO

Fortemente alicerçado no Novo Testamento, São Bento estabelece princípios salutares para possibilitar a uma comunidade monástica tornar-se financeiramente forte e auto-sustentável. O bem-estar financeiro de um mosteiro pode certamente ser alcançado seguindo estes princípios tão rigorosamente quanto possível. Eles são sempre pertinentes e se aplicam a todos os mosteiros,  não importa onde estejam.

1. A comunidade monástica deve ser uma comunidade de operários

No capítulo 48,8 da Regra, São Bento diz: «São verdadeiros monges se vivem do trabalho de suas mãos». Esta é a versão de São Bento sobre o que é dito em Gn 3,19: «Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado»; e seu endosso à  recomendação paulina encontrada em 2Ts 3,10: «Quem não quiser trabalhar, não tem o direito de comer». Isto equivale praticamente a uma definição do monge como alguém que vive do trabalho das próprias mãos. Portanto, São Bento tem uma compreensão muito simples e realista da pessoa humana e da vida monástica. O monge é essencialmente um operário («operarius» – RB Prol. 14; 7,49.70). Ele trabalha a fim de ganhar seu sustento, para ter o que comer; ele se alimenta a fim de ter energia para trabalhar. São Bento espera que sua comunidade monástica seja constituída de gente simples. Uma comunidade constituída de pessoas assim terá sempre uma situação financeiramente forte.

A comunidade monástica deve ser um pouco como uma colméia; mas uma colméia onde não haja rainha ou zangões, e sim apenas operárias! Preguiça de qualquer tipo mina a vida de uma comunidade! (RB 48,1.18.24) São Bento insiste que até os fisicamente fracos ou fragilizados pela idade ou pela doença devem, tanto quanto possível, receber  algum tipo de trabalho de acordo com suas capacidades (RB 48,24). Os vários responsáveis do mosteiro, geralmente muito ocupados com suas obrigações, devem, quando dispõem de tempo, aceitar qualquer outro trabalho que eventualmente lhes seja atribuído (RB 53,18.20).  Aqueles que acham difícil ler ou estudar devem receber algum trabalho para fazer (RB 48,23). É interessante notar que São Bento não diz que eles devem ser convidados a ir ao oratório para  rezar! Quando cada membro procura dar sua pequena contribuição, trabalhando com empenho, é então que uma comunidade se torna financeiramente forte. Como escreve São Paulo (1Cor 9,15-16), qualquer comunidade saudável sempre pensará em ganhar o dinheiro necessário para seu sustento com o  trabalho honesto, por  uma questão de dignidade. Quando, numa comunidade, só existem pessoas para gastar e esbanjar, e poucas para trabalhar e garantir a subsistência, suas finanças vão mal, para não dizer nada sobre o grave perigo a que se expõe a vida monástica de uma tal comunidade.

A força propulsora que motiva o trabalho sério deve ser o desejo intenso de ganhar dinheiro suficiente para as despesas da comunidade. Isto é evidente no capítulo 57 da Regra que fala dos artesãos do mosteiro. Qualquer coisa que eles produzem com seu trabalho é vendida (RB 57,8) e o lucro empregado no funcionamento do mosteiro. Isto significa que o trabalho não pode ser considerado um passatempo ou uma diversão. Nem mesmo é suficiente «trabalhar por trabalhar», para se manter ocupado. O trabalho nunca deve ser visto como uma possibilidade de gastar dinheiro. Pelo contrário, sua finalidade deve ser o lucro. Quando falta esta forte motivação, o trabalho com freqüência se torna um simples desperdício de dinheiro. Gasta-se, mas não se ganha dinheiro algum. Naturalmente, isto não quer dizer que não se deva gastar. O dinheiro é para ser gasto. Gastar dinheiro é uma condição para se ter lucro. Mas, neste caso, deve-se proceder de modo que o dinheiro seja investido em projetos produtivos e lucrativos. Para se ter uma visão clara com relação às despesas a serem feitas, deve haver um planejamento adequado.

Apenas uma comunidade cujos membros estão dispostos a trabalhar com afinco pode esperar estar em boas condições, não somente do ponto de vista monástico, mas também financeiro. O bom desempenho de uma comunidade beneditina, em geral, depende do modo como ela consegue manter um equilíbrio entre oração, trabalho e estudo, que têm igual importância. A história mostra como sempre que algum desses três elementos foi negligenciado, a vida monástica decaiu. Não é bom insistir na oração em detrimento do trabalho e do estudo. É igualmente perigoso insistir no estudo ou no trabalho intelectual em prejuízo da oração e do trabalho manual. Quando os monges se reduzem apenas a operários, a vida monástica fica tumultuada. A tentação de desistir do trabalho manual é forte em muitas comunidades, provavelmente porque o trabalho é difícil ou porque ele é considerado como algo degradante. Uma comunidade que não trabalha está fadada a morrer.

Pode acontecer que uma comunidade tenha outras fontes de renda, além do trabalho manual – como reservas em bancos, donativos de benfeitores, estipêndios de missas, etc... Poucos de seus membros se preocuparão em trabalhar com afinco. A atitude correta que uma tal comunidade deve ter é trabalhar com muito mais empenho.  E quando ela consegue ganhar dinheiro suficiente para todas as suas necessidades com o trabalho de seus membros, deve ter a honestidade, a nobreza e a coragem de parar de aceitar donativos, porque sempre haverá comunidades mais necessitadas. A ganância de algumas comunidades não deve impedir o desenvolvimento de outras mais necessitadas. Trata-se de uma questão de consciência: como qualquer indivíduo, uma comunidade também deve ter uma boa consciência. Sentar em montes de dinheiro e ainda continuar angariando fundos é uma vergonha e uma desonra para qualquer comunidade monástica. Quando há muito dinheiro, especialmente quando não é ganho com trabalho árduo, as pessoas apenas desejarão se acomodar, aproveitar a vida e descobrir meios de como gastá-lo. Esta é, de fato, uma situação muito perigosa.

É claro que quando se trata de novas fundações, especialmente na Ásia ou na África, elas dependem necessariamente do auxílio de benfeitores durante os primeiros anos. Mas essa situação não deve durar para sempre. Mosteiros recém-fundados devem lutar, devem trabalhar com seriedade, a fim de se tornarem autônomos tão logo seja possível, pelo menos no que concerne às despesas ordinárias. É uma questão de honestidade para com aqueles que ajudam essas comunidades. Evidentemente, o auxílio que recebem deve ter em vista realizar projetos que visam a produção. Apenas uma comunidade que trabalha com dedicação e tenta conseguir tanto dinheiro quanto possível, fará uso responsável dos fundos que chegam do exterior para a realização de seus projetos.

Mesmo assim, deve-se considerar que nenhuma nova fundação se desenvolverá dependendo apenas da ajuda de fora. Juntamente com o trabalho árduo, a comunidade deve tomar decisões corajosas no tocante à administração financeira, às vezes até correndo riscos. Também é fato que, fazendo-se um empréstimo bancário, um projeto essencial para o crescimento da comunidade – mas adiado indefinidamente por falta de crédito – poderia ser implementado de maneira mais efetiva, rápida e, portanto, econômica. Um empréstimo como tal não precisa ser considerado um anátema. Apenas deve ser feito com prudência, já prevendo a possibilidade do reembolso.

2. O monge: um trabalhador da terra

O homem, na Bíblia, é basicamente um lavrador. Ele foi formado do pó da terra (Gn 2,7). O Senhor Deus plantou um jardim e colocou nele o homem para ali trabalhar e cultivá-lo (Gn 2,8.15). Assim, ele deveria comer o pão obtido com o suor de seu rosto, isto é, com o trabalho da terra (Gn 3,17.19). Ao morrer, voltaria ao pó a erra (Gn 3,19). Portanto, o homem vem da terra, vive e trabalha na terra e, finalmente, retorna à terra. Por sua própria índole, está ligado à terra, ligado à natureza. Tanto é assim que, quando perde o contato com a terra, ele deixa de ser humano.

A compreensão que São de Bento tem do homem é basicamente a mesma. Quando define o monge como alguém que vive do trabalho das próprias mãos, ele o faz no contexto do trabalho agrícola. Se os monges têm que fazer a colheita sozinhos, não devem desanimar «porque então são verdadeiramente monges se vivem do trabalho de suas mãos» (RB 48,8). Duas coisas são evidentes nesse texto. Primeiro, a agricultura ou o cultivo da terra é o principal trabalho do monge. Quando São Bento fala na «horta» («hortus» – RB 7,63; 46,1; 66,6), deve estar pensando em horta ou pomar, de onde vêm «as frutas ou legumes frescos» mencionados em RB 39,3. O trabalho como arar, plantar ou colher mantém o monge algumas vezes afastado do mosteiro, tornando impossível sua presença no oratório nos momentos de oração da comunidade (RB 50,1-3). Em segundo lugar, a expressão «viver do trabalho de suas mãos» quer dizer que a agricultura é a principal fonte de renda do mosteiro.

É triste constatar que, de modo geral, a agricultura está perdendo sua importância, e a maioria dos mosteiros há muito desistiu dela como um meio de subsistência. Muitas razões são apresentadas para justificar isto. Quaisquer que sejam elas, enquanto os seres humanos continuarem a ter um corpo para ser alimentado, a agricultura continuará sendo relevante e indispensável. O alimento necessário para a vida vem da agricultura ou do cultivo da terra, e por esta razão o cultivo da terra permanece o tipo mais nobre de trabalho. A história dá testemunho do grande trabalho realizado pelos mosteiros beneditinos no domínio da agricultura. Atualmente os filhos de São Bento parecem estar inclinados a romper com esse passado!

Há inúmeras ordens ou congregações religiosas na Igreja hoje. Todas falam sobre diferentes «carismas». Quando juntamos todos esses carismas, em última análise, eles se resumem em  poucas coisas: educação, cuidado com os doentes, trabalho social, trabalho pastoral, publicações, etc. Entretanto, que eu saiba, não há nenhuma ordem ou congregação religiosa que veja o cultivo da terra como seu carisma! Dizer isto pode parecer ridículo, mas eu penso que esta observação é válida. Todos nós geralmente escolhemos um tipo de trabalho ou de atividades que tragam muito dinheiro. Provavelmente ninguém se preocupa com a agricultura, porque ela não rende muito e porque ninguém quer sujar as mãos e os pés na terra. A agricultura é um meio extremamente honesto de ganhar dinheiro, já que ela não permite a uma comunidade viver de maneira luxuosa. A agricultura normalmente produz apenas o suficiente, ajuda uma comunidade a ser independente em matéria de víveres. Ela produz também uma atmosfera mais saudável para a vida monástica. 

Na maioria dos países a terra é, sem dúvida, o maior bem que um mosteiro pode ter e a agricultura a fonte de renda mais confiável. Mas, para a agricultura ser bem sucedida, os monges devem considerar como um dever e privilégio proteger e tratar com carinho a natureza. Devem estar convictos de que é física, espiritual e mentalmente saudável manter-se em contato com a natureza, permanecer em contato com a terra. Devem amar a natureza, a terra, o cultivo da terra. Devem estar prontos para realizar a maior parte dos trabalhos por si mesmos, porque, se todo o trabalho for deixado para trabalhadores assalariados, haverá pouca probabilidade de lucro. Um outro ponto importante a ser lembrado é que, se a agricultura tiver que ser bem sucedida financeiramente, é necessário haver uma grande variedade de atividades agrícolas.

A agricultura tem grande relevância, especialmente num país como a Índia, onde ainda há muita pobreza e a maioria das pessoas vive do cultivo da terra. Quando os monges produzem com seu trabalho pelo menos o suficiente para alimentar uma boca, eles dão uma grande contribuição para a diminuição da pobreza neste país. É quase um crime os monges negligenciarem a agricultura num lugar que tem solo fértil, muito sol e água.  Os filhos de São Bento deveriam mesmo chegar ao ponto de considerar o cultivo da terra como uma missão especial ou carisma, neste país em que todas as pessoas educadas estão gradativamente se afastando da agricultura e o cultivo da terra é considerado um trabalho inferior. Toda comunidade beneditina deve se lembrar de que deixar a terra sem cultivo, por causa da aversão ao trabalho agrícola, é um comportamento indigno e lamentável.

3. Nada de bens particulares

Todos os membros de uma comunidade devem trabalhar com afinco e ganhar  vida. Mas depois todos os ganhos devem ser postos em comum. É o que torna uma comunidade financeiramente forte. Fazendo referência à comunidade de Jerusalém, a Regra propõe como modelo de vida para uma comunidade monástica a fraternidade ou a co-propriedade.

A propriedade particular é um grande mal ou vício («vitium» – RB 33,1; 55,18; «nequissimum vitium» – RB 33,7) que solapa esse modelo de vida monástica, bem como a condição econômica de qualquer comunidade. A posição da Regra quanto ao  assunto é muito clara. Primeiro São Bento estabelece o princípio de que os monges não devem possuir nada de próprio (RB 33,3). Para todas as suas necessidades, eles devem depender do mosteiro (RB 33,5; 55,18-19). Não devem possuir nada, dar ou receber coisa alguma sem a devida permissão (RB 33,2). Isto se aplica não apenas a dar e receber entre os membros da comunidade, mas também a receber presentes dos próprios pais ou amigos (RB 54,1-2). A razão é evidente: um monge não deve dar nada porque ele não tem nada que lhe pertença; não pode receber nada porque não pode ter nada próprio. No momento de sua profissão, o monge renuncia formalmente a todos os seus bens (RB 58,24-25), tornando-se assim um membro da comunidade que nada possui, e que une seu destino ao da comunidade. A Regra chega ao ponto de exigir que o Abade, de vez em quando, examine os leitos dos monges, para se assegurar de que nenhum deles escondeu alguma coisa de particular debaixo da cama. Hoje em dia, talvez o Abade devesse examinar as celas dos monges!

Os monges, nos tempos atuais, parecem não ter amor pelo que a Regra diz quanto a evitar a propriedade particular. Alguns até sustentam que possuir coisas é um direito humano básico; e a exigência para que alguém dependa em tudo da comunidade equivale a ignorar a dignidade da pessoa humana. Eles assumem esta posição sobretudo porque não experimentam a liberdade que consiste em nada possuir de próprio. Não possuir nada é essencial para o estilo monástico de vida. Quando você tem mais, você se torna menor! Quando você tem menos, nada, você se torna mais, você se torna «rico em relação a Deus!» (Lc 12,21). E na vida monástica ser é certamente o mais importante, mais do que ter. Um monaquismo moderno que elimine estes princípios saudáveis só pode estar cavando o túmulo para a vida monástica.

Há ainda outra consideração prática. Uma comunidade cujos membros – se não todos, pelo menos alguns deles – tentam de um modo ou de outro acumular coisas para si, nunca pode esperar tornar-se financeiramente forte. Alguns estarão consumindo o que outros estão armazenando. Uma  tal situação dividirá a comunidade em dois campos: os ricos e os sem-bens. E este último grupo estará sempre reclamando. Por conseguinte, a situação que daí se origina pode ser devastadora; os que usufruem os recursos do mosteiro de uma maneira egoísta, habitualmente não trabalham nem ganham nada. Os outros, que se acham em posição desfavorável e sentem que estão sendo injustiçados, também aos poucos irão desistindo de trabalhar. Semelhante situação afetará a situação financeira do mosteiro de modo muito desfavorável.

4. Nada de desperdiçar os bens do mosteiro

No capítulo 31,1, da Regra, ao dizer como deve ser o celeireiro do mosteiro, São Bento afirma que ele não deve «comer muito» nem ser «pródigo». No mesmo capítulo 31,12, recomenda ainda que o celeireiro não seja «pródigo nem esbanjador dos bens do mosteiro». Geralmente, na Regra, qualquer coisa que se diz a respeito dos principais responsáveis do mosteiro se aplica também a cada monge individualmente. É o caso do desperdício dos bens do mosteiro.

Desperdiçar significa gastar de maneira imprudente, sem se importar com a receita, sem pensar no futuro. As pessoas gastam dinheiro sem tentar ganhar dinheiro. Às vezes encontramos monges achando que é um direito seu gastar dinheiro sem, ao mesmo tempo, compreender que é também um dever seu trabalhar e ganhar dinheiro. Aqueles que gastam mais devem normalmente ganhar mais. Mas, infelizmente, a situação em certas comunidades é justamente o contrário. Aqueles que trabalham muito e contribuem substancialmente para as finanças do mosteiro são, de modo geral, muito cautelosos quando se trata de gastar. Os que trabalham pouco é que gastam com mais facilidade. Uma comunidade que não consegue honestamente manter um equilíbrio entre receita e despesa, entre ganhar e gastar dinheiro, não poderá durar muito, financeiramente.

Não apenas os monges, individualmente, mas também a comunidade, como um todo, podem arruinar a propriedade do mosteiro. Isto acontece de várias maneiras. O que é dito ao celeireiro: «Veja todos os objetos do mosteiro e demais utensílios como vasos sagrados do altar» (RB 31,10),  vale também para todos os  monges. É, pois, nesta linha que se situa a exigência a Regra: que ninguém deixe «as coisas do mosteiro sujas ou as trate negligentemente» (RB 32,4). Os monges devem ser tão cuidadosos ao usar as ferramentas e utensílios do mosteiro que não devem quebrar ou perder nada (RB 46,2). Mas, com freqüência, eles tendem a ser muito descuidados neste ponto. A idéia de propriedade comum faz com que muitos pensem que não precisam sair de seus cuidados para tomar conta dos bens do mosteiro. Esquecem-se que não pertencem mais à sociedade de consumo. São tentados a manter um alto padrão de vida, freqüentemente muito mais alto do que o das pessoas comuns do mundo. Esquecem-se facilmente de que cada centavo gasto no que não é realmente necessário é desperdício. Há também o desperdício que vem da falta de continuidade nas políticas adotadas. Cada vez que ocorre uma mudança de cargos, os novos responsáveis fazem questão de trocar as maneiras de proceder  de seus antecessores, às vezes quase virando de cabeça para baixo o que eles tinham feito. Julgam ser necessário agir assim para parecer que estão fazendo ou conseguindo alguma coisa. Cada um parece ansioso para mostrar sua originalidade! Evidentemente, é um modo bastante ridículo de ver as coisas. Uma boa comunidade é aquela em que há continuidade e estabilidade nas políticas, onde cada novo responsável tenta aumentar o que seu antecessor fez. Mudanças de políticas anteriores só devem ser feitas quando for absolutamente necessário. Caso contrário, projetos iniciados em um momento são imprudentemente abandonados num estágio posterior, desperdiçando-se então muito dinheiro. Infelizmente, é um mau costume que acontece com freqüência em muitas comunidades religiosas e monásticas.

5. Sobriedade em tudo

Outro ponto sobre o qual a Regra insiste é a parcimônia ou sobriedade. Não deve haver gastos exagerados de nenhum tipo. A sobriedade deve ser mantida em tudo: «Seja guardada em tudo a sobriedade» (RB 39,10). São Bento estabelece normas precisas sobre a alimentação, o vestuário e até a roupa de cama. Normalmente deve haver só uma refeição principal por dia (RB 39,1). Se há ceia, parte da refeição principal é poupada para a ceia (RB 39,5). Mesmo a quantidade de pão a ser dada é por ele estabelecida (RB 39,4), bem como os pratos a serem servidos (RB 39,1-3) e a medida de vinho a ser bebida (RB 40,3). São Bento não quer de modo algum, que seus monges se entreguem à comida ou à bebida em excesso (RB 40,5), porque «nada é tão contrário a tudo o que é cristão como os excessos na comida» (RB 39,8) e  «não é absolutamente próprio dos monges fazer uso do vinho» (RB 40,6). Com relação ao vestuário, cada monge deve ter apenas duas mudas de roupa (RB 55,10). Não devem reclamar da cor, da aspereza ou da qualidade das roupas fornecidas, mas se contentem sinceramente com o que pode ser comprado mais barato no lugar onde moram (RB 55,7).

Todas estas prescrições encontradas na Regra são consideradas hoje ultrapassadas e fora de moda. Os tempos mudaram e com isto muitas coisas também mudaram. Não pode ser de outro jeito. Mas os princípios básicos estabelecidos na Regra têm um valor e uma relevância permanentes que não podem e nem devem ser abandonados. A tendência natural de cada pessoa é de querer sempre mais. As pessoas buscam facilidades e comodidades a fim poderem realizar seu trabalho com mais eficiência. Algumas nunca acabam de mobiliar e equipar suas salas ou escritórios. Contudo, se as comodidades e os equipamentos ajudam a eficiência do trabalho, não podem, contudo, criá-la. Na opinião de São Bento, quanto mais o monge amadurece, menores se tornam suas necessidades. Para ele, o monge deve ser capaz de realizar seu trabalho da maneira mais eficiente possível, com um mínimo de comodidades. Só então seu trabalho se torna monástico e humano. Semelhante atitude equilibrada por parte dos membros de uma comunidade pode alavancar a situação econômica do mosteiro.

Os monges devem sempre se prevenir contra o desejo de uma vida confortável, de «conservarem-se por suas obras fiéis ao século» (RB 1,7), «fazer-se alheio às coisa do mundo» (RB 4,20), «não abraçar as delícias» (RB 4,12). De outro modo, a simplicidade e o senso de sobriedade encontrados na Regra serão simplesmente abandonados e a vida monástica perde o seu sabor (Mt 5,13), perde o seu carisma. Qualquer tentativa feita por monges, consciente ou inconscientemente,  de  pertencer à sociedade de consumo  significa cortar as raízes da vida monástica.  A vida monástica é uma vida no deserto. É uma vida na qual as pessoas devem crescer e se «fortalecer no espírito» (Lc 1,80). Nunca se deve esquecer que a vida monástica começou no deserto; e no momento em que ela sai do deserto, deixa de ser vida monástica. Quando os monges aceitam permanecer no deserto, eles se contentam até «com o que há de mais vil e com a situação mais extrema» (RB 7,49). Trabalham com empenho não apenas para prosperar de qualquer modo, mas para sustentar o mosteiro. Somente monges assim podem ser úteis à comunidade; os demais, serão apenas obstáculos. 

6. Nada de desonestidade no trato dos bens do mosteiro

É no capítulo 57 da Regra que São Bento insiste neste aspecto. Quando os produtos dos artesãos do mosteiro estão para ser vendidos, os responsáveis pela venda devem tomar o máximo cuidado para não haver nenhuma desonestidade na transação (RB 57,4-6). Para tanto, São Bento cita o exemplo de Ananias e Safira (cf. At 5). 

Este tipo de desonestidade pode ser praticado de diferentes modos. Uma pessoa pode ser completamente desonesta no lidar com o dinheiro ou com os bens do mosteiro. Ora é muito generoso consigo mesmo, gastando dinheiro com suas próprias necessidades, ora mentindo na prestação de contas. Isto acontece quando alguém esconde que gastou dinheiro em coisas indevidas e soma a despesa a outros itens que foram comprados. Há ainda outros modos mais sofisticados de se praticar a desonestidade. Quando os monges se desviam da transparência absoluta e de um profundo senso de responsabilidade no gasto do dinheiro, ficam do lado de Ananias e Safira e sofrem em suas almas a morte que estes sofreram em seu corpo (RB 57,6).

Existe um outro problema bastante sério, especialmente nos países mais pobres. Alguém é originário de uma família pobre. Depois da profissão solene e da ordenação há uma forte tendência para encontrar modos e meios de ajudar a própria família, se for possível. Os responsáveis pela comunidade são informados acerca da situação de tal família e tentam ajudá-la na medida do possível, sem que a comunidade tome conhecimento. Há também casos em que a ajuda é dada com o consentimento do Seniorado ou do Capítulo, conforme o caso. Mas não há justificativa alguma para que o monge tente ajudar sua família, seus parentes ou amigos, sem o consentimento e o conhecimento da comunidade, pelo menos do Abade e do celeireiro. Os bens do mosteiro pertencem ao mosteiro e ninguém tem o direito de fazer mal uso deles, muito menos de maneira desonesta. Como membro da comunidade, tudo quanto alguém ganha com seu trabalho deve ser entregue à comunidade; e a pessoa não tem, absolutamente, direito algum de desviá-lo para outra direção.

Neste contexto, a pergunta de Elias a seu servo Giezi é significativa: «Será esta a ocasião de obteres prata e receberes vestes, olivais, vinhas, ovelhas, bois, servos e servas?» (2Rs 5,26). A vida de um monge deve ser semelhante à de um profeta; ela não deve servir para acumular nada nem para si mesmo nem para a família e nem para os amigos. De modo algum o monge deve perseverar no mosteiro para esbanjar os seus bens, mas, sim, para enriquecê-lo com seu trabalho. Qualquer tipo de ação desonesta servirá apenas para que ele contraia lepra na alma (2Rs 5,27).

7. Preocupação com os pobres, um fator de equilíbrio

Em primeiro lugar, convém lembrar que a própria comunidade é constituída de pessoas «pobres». Há monges que vêm de um ambiente de pobreza (RB 2,18; 59,7). Quanto aos demais, ao fazerem sua profissão, renunciam formalmente a todos os seus bens (RB 58,24-25; 59,3-5), tornando-se pobres. Assim a comunidade monástica visualizada por São Bento na Regra, mesmo tendo membros provenientes de famílias abastadas, é uma comunidade de pessoas que vivem mais como as pessoas comuns, ou os pobres do mundo. 

São Bento espera que a comunidade monástica tenha uma real preocupação com os pobres.  Os monges devem «reconfortar os pobres» (RB 4,14) e «vestir os nus» (RB 4,15). Quando recebem roupas novas, as usadas «devem ser recolocadas na rouparia, para os pobres» (RB 55,9). Isto certamente não significa que os pobres devam receber apenas coisas velhas e imprestáveis.  No capítulo 53, que trata  da recepção dos hóspedes, há uma referência especial ao acolhimento dos pobres: «Mostre-se principalmente um cuidado solícito na recepção dos pobres e peregrinos, porque, sobretudo na pessoa desses, Cristo é recebido» (RB 53,15). A mesma idéia está implícita também no capítulo 66: «Logo que alguém bater ou um pobre chamar, responda ‘Deo gratias’ ou ‘Benedic’» (RB 66,3).  

Assim uma comunidade beneditina deve consistir de pessoas que são pobres e que têm um profundo amor e preocupação com os pobres. O monge é alguém que deve sempre tentar se «apegar» a Deus (Jr 13,11). Mas para ser capaz de se apegar a Deus, ele deve primeiro se apegar aos pobres. O monge é alguém que  deve, como Enoc, caminhar com Deus (Gn 5,22.24). Mas, para ser capaz de caminhar com Deus, ele deve primeiro caminhar com os pobres. E por quê? Porque Deus é o Deus dos pobres.

Os monges têm o dever de consciência de viver no mundo como pessoas comuns. Mesmo que o mosteiro esteja em boa situação material, eles não têm o direito de viver a vida dos ricos. Enquanto houver uma pessoa pobre na face da terra, um monge não pode ter a liberdade de viver no luxo. Mesmo que todas as pessoas do mundo estivessem nadando em riqueza, ainda assim o monge não poderia fazer o mesmo, pois foi chamado a imitar a pobreza de Cristo que se tornou pobre por nós, a fim de que nos tornássemos ricos por sua pobreza (cf. 2Cor 8,9). Esta insistência em viver, na medida do possível, a vida das pessoas comuns do mundo, será um obstáculo no gasto imprudente de dinheiro e serve como um elemento de equilíbrio na economia do mosteiro.

No coração de cada monge e de cada comunidade deve haver amor pelos pobres. Amor pelos pobres a nível de vida, mais do que a nível de sentimentos ou palavras. Não basta ter sentimentos generosos para com os pobres, ou falar muito sobre como ajudá-los. Afinal de contas, o amor não consiste somente em «palavras e discursos, mas com ações e de verdade» (1Jo 3,18). A comunidade deve, primeiro, tentar participar da vida dos pobres, viver a vida dos pobres, e assim também ajudar os pobres. O auxílio que lhes é dado deve ser sempre por amor. Isso não quer dizer que basta desfazer-se do que temos de excedente, como os ricos fazendo oferendas no templo (Mc 12,41-44). Não basta angariar fundos para ajudá-los. Se dar aos pobres deve ser um ato e uma expressão de amor, deve haver algum sacrifício na doação. Uma comunidade deve tentar ajudá-los a partir de seus ganhos, do que ela tem para viver, como a viúva do Evangelho (Mc 12,44). Portanto, trabalhem os monges com mais afinco a fim de terem meios para ajudar os pobres (At 20,35; Ef 4,28). Somente uma comunidade que trabalha terá os recursos necessários para ajudá-los. E a situação financeira de uma comunidade que é pobre e permanece com os pobres decerto será saudável.

Quando falta esta atitude basicamente cristã, uma comunidade cresce em egoísmo. Uma comunidade egoísta, que só pensa na própria comodidade e conforto, mergulha na ruína, uma ruína em todos os níveis, inclusive nas finanças. Nenhuma comunidade jamais se arruína financeiramente ajudando os pobres, mas, pelo contrário, quando fecha para eles o coração.

Traduzido do inglês por Leila de Lourdes Kneipp.

Dom John Kurichianil, OSB, é abade da Abadia de Saint Thomas,  em Kappadu, no Estado de Kerala (Índia).