A vida fraterna nas comunidades beneditinas do Vietnã

Irmã Anna Trinh,OSB
Irmã François Trà, OSB

ThuDuc1A primeira reflexão sobre este assunto é o nosso vivo agradecimento pela delicadeza em nos chamarem para este trabalho.

No Vietnã, existem muitas comunidades de monjas e monges cistercienses e quatro comunidades beneditinas além da nossa.

Quem fala em comunidade, fala em vida fraterna. Como essas comunidades monásticas vivem a mesma Regra de São Bento, somos felizes em partilhar este tema tão rico de sentido e de profundidade, ainda que cada mosteiro apresente um estilo de vida diferente. Viver a vida monástica no Vietnã significa viver a vida que São Bento apresenta na Regra, de acordo com as possibilidades culturais do povo vietnamita.

Entre as riquezas de nossa cultura, podemos salientar modestamente o seguinte: silêncio, amor, viver em paz, espírito de união, solidariedade, respeito e afeição à família, piedade filial... «Beber água é pensar na fonte» (provérbio).

Justamente as faculdades radicais de silêncio e de amor é que formam as estruturas ao mesmo tempo comunitárias e independentes do povo vietnamita.

Na vida comunitária, os irmãos e as irmãs devem viver em paz primeiramente e em qualquer circunstância, lembrados da palavra: «O coração e a razão se completam harmoniosamente». Graças à sabedoria do coração, o monge sabe doar-se mutuamente com respeito e viver com sabedoria. As relações numa comunidade apresentam certa «hierarquia» na maneira de conceber a palavra e saber portar-se nos encontros.

Quando se trata de discussões e dissensões, pensa-se logo em recorrer à solução: reconciliação e paz. É normal!

Na Europa, se não nos enganamos, na idade adulta, os jovens deixam sua família para se tornarem independentes e livres. No Vietnã, os jovens cuidam zelosamente dos anciãos, avós, pais e os ajudam com grande generosidade e devotamento... Mesmo hoje em dia. Eis um exemplo: certa vez, tratamos de um problema em que foi pedido o parecer de nossas jovens irmãs. «Seria bom construir uma casa de repouso para nossas irmãs idosas?» Então, ficamos admiradas, ninguém estava de acordo! Elas nos explicaram: para elas, as irmãs idosas são como suas avós ou seus pais... Na vida cotidiana, nossas jovens respeitam verdadeiramente nossas irmãs idosas e lhes prestam serviços com grande devotamento.

Relações e encontros

Alguém disse: «O homem só mostra sua verdadeira natureza em seus encontros e comunicações». Em suas relações, os vietnamitas mostram-se abertos para falar com as pessoas e, ao mesmo tempo, reservados. O acolhimento é frequentemente bom:

- Acolher com alegria e benevolência.

- Oferecer as melhores coisas, nossos melhores pratos aos convidados.

- Reservar o melhor quarto, o melhor aposento para os visitantes; mesmo se a família é pobre, procura-se sempre alguma coisa para oferecer a quem pede. Nunca se deixa alguém partir com fome.

Os vietnamitas se interessam muito pelos outros. Sendo assim, desejam compreender as situações concretamente, sendo muitas vezes mal compreendidos e chamados de curiosos!

ThuDuc2As festas, a festa do Têt

Todos os vietnamitas, pobres ou ricos, festejam o Têt! Festa da alegria e dos votos: Phúc-Lôc-Tho (Felicidade, Prosperidade, Longevidade). Nossa Igreja do Vietnã reserva o «Mùng 2 Têt» (o 2º dia do Têt) para orar, celebrar a Eucaristia em memória de nossos antepassados, nossos avós, pais (culto dos ancestrais). E eis que aí tocamos na piedade filial, um grande fator da cultura tradicional vietnamita.

A nota principal é a reunião de todos os membros da família; os filhos que moram longe ou perto procuram voltar para estarem juntos nesses dias do Novo Ano.

Assim também os membros de uma comunidade festejam o Têt muito fraternalmente nesse mesmo espírito. Alguns dias antes do Têt, temos o costume à noite, no Capítulo, de pedir perdão mutuamente por nossas faltas.

Nossa vida fraterna com a Regra de São Bento

Os monges vivem juntos num mosteiro. Estão a serviço de Deus, guiados por uma Regra e um Abade (RB 1,2). Através da presença de nossos irmãos e irmãs nas comunidades monásticas, entramos em contato com os valores, as forças de fidelidade e de vontade perseverantes. Com o chamado de Deus à vocação beneditina, podemos dizer que nossos anciãos são como colunas para proteger e manter o espírito de vida, como o «cimento» que une os tijolos. A vida fraterna liga os membros de uma comunidade e não se pode viver no amor e na verdadeira paz, quando se procura deixar de lado ou suprimir o nosso próximo. Graças ao espírito de união, os monges estão prontos a se considerarem irmãos uns dos outros e assegurando a vida comum com certa facilidade. «Ponham em ação castamente a caridade fraterna» (RB 72,8).

No mosteiro, cada irmã segue o chamado de Cristo, vive na caridade, no respeito, na obediência e busca junto a vontade de Deus com «os traços, as cores», de que falamos acima.

A vida monástica é uma vida de fé, embora sempre tenhamos limites, fraquezas, pecados. É exatamente este espírito de vida, que modela nossa identidade religiosa, monástica, que se adapta bem à nossa cultura vietnamita.

Falando da cultura do Vietnã, é preciso reafirmar que no tempo atual notamos muitas deformações nos diferentes campos, em particular o problema da educação e da formação humana. Trata-se de uma época que chamamos «época da velocidade, do lucro, da crise...».

São Bento nos ensina: «Devemos constituir uma escola de serviço do Senhor. Então, participando, pela paciência, dos sofrimentos de Cristo, mereceremos ser co-herdeiros de seu Reino» (RB Prol, 45.50).

É o amor de Cristo que dá sentido a tudo e que pede conversão e desapego. Nós vivemos na esperança de que nossa vida monástica ajudará nosso povo a reconhecer a luz do Evangelho.

Desejamos a todos um bom caminhar no Cristo!

Irmã Anna Trinh,OSB
e Irmã François Trà, OSB
são monjas do Mosteiro de Thu Duc (Vietnã)

Traduzido do francês por Irmã Maria Cruz, OSB (Mosteiro Nossa Senhora da Paz, Itapecerica da Serra, SP)