A vida de comunhão fraterna do Mosteiro de Thiên An

Irmão Jean de la Croix, OSB

ThienAn11 – Introdução

Nosso mosteiro beneditino de Thiên An tem a felicidade de estar situado no território da província de Thùa Thiên - Huê desde 1940. Digo «que tem a felicidade», porque como afirmam as pessoas: «Que felicidade curiosa, quando se vive numa terra árida onde os cães e as galinhas comem cascalhos»! Huê é um território situado entre duas montanhas, Ngang e Hai Van, isolando Thùa Thiên - Huê da Diocese de Vinh e da Diocese de Dà Nang. A diocese de Huê é um trecho de terra estreita limitada a oeste por uma cadeia de montanhas e a este pelo Oceano Pacífico. A cadeia de montanhas atinge uma altitude vertiginosa, enquanto que o imenso Oceano Pacífico se estende... como o coração materno. É a própria solidão. Supondo que alguém sinta-se encostado contra as montanhas, não pode estender as pernas, pois o mar não permite. Infelizmente! Somos obrigados a dobrar as pernas numa posição de pensador ou contemplativo. Para os orientais, a geomancia (adivinhação pela aparência do sol) é de primeira importância, marcando o caráter e a personalidade do homem. Sob a pressão das condições circunstantes, a tensão da alma se esvai. O poeta Thu Bôn escreveu: «O curso natural da água não corre ao contrário, ele perfura o leito, é profundo». Assim também é nosso fundamento cultural. É o motivo pelo qual eu disse: «que tem a felicidade», referindo-me ao mosteiro. Repensando tudo isso, não é uma felicidade para as comunidades contemplativas?

2 – O olhar exterior

Sim, é verdade, há aí muita felicidade! Cada ano, no período dos votos e das profissões, que acontecem em 6 de agosto, na Festa da Transfiguração de Nosso Senhor no Monte Tabor, os interessados e benfeitores chegam numerosos, uns após os outros. A eles se unem os paroquianos, os religiosos, os padres diocesanos ou de diferentes congregações, que afluem ao mosteiro para participar da missa das profissões solenes dos monges de Thiên An. No decorrer da missa, alguns, emocionados ao verem a beleza dos professos se adiantarem para o compromisso, derramam lágrimas nessas cerimônias. Após a missa, ouvimos dizer muitas vezes, com os olhos marejados de lágrimas: «Que felicidade, Padre, é magnífico ver a vida comunitária dos irmãos no mosteiro. Posso viver aqui com vocês? Isso seria a felicidade das três gerações de meus antepassados. Algo paradisíaco».

Sim, objetivamente, vista do exterior, a vida dos padres e irmãos sobre o monte de Thiên An, é certamente o paraíso no mundo, para aquele que o deseja. Venham, experimentem! Isso é verdadeiro para os observadores. Para criar este paraíso, requer-se que cada monge comprometa nele toda a sua vida.

3 – As formas representativas da vida fraterna do mosteiro de Thiên An

Vejam como todos os dias se parecem. A vida de Thiên An transcorre no claustro, debaixo das copas verdes de numerosas fileiras de árvores frutíferas e de pinheiros, que se elevam e balançam ao murmúrio do vento.

Às 3h55, os monges se levantam para recitar o Ofício e rezar no oratório. Seguem-se os trabalhos manual e intelectual. Depois voltamos ao oratório. Em seguida, refeição e aulas, antes de voltarmos ao oratório. Dirigimo-nos à Sala de Capítulo e, finalmente, chegamos às celas, rezando orações jaculatórias: «Agora, Senhor Todo-poderoso, podeis deixar o vosso servo ir em paz...». E caímos num profundo sono. É um horário harmonioso, concatenado entre oração, trabalho e repouso, como São Bento desejava. Um horário simples. Entretanto, quando se repete sem cessar, torna-se uma atividade que se realiza graças aos esforços para ultrapassar a monotonia, para trazer aos irmãos um zelo de tonalidade nova, nitidamente nova devido à cor brilhante do amor de Cristo. Nós nos exortamos frequentemente a estarmos presentes onde é necessário: oratório nas horas do Ofício e da Missa, refeitório para as refeições tomadas em comum e sempre no Capítulo para partilhar passo a passo as experiências do caminhar comunitário.

ThienAn2A comunhão fraterna decorre do mistério da união trinitária, atualizada no altar durante a Missa, que é o centro e a fonte da comunhão fraterna na comunidade.

Só o amor que emana de Deus pode purificar e libertar o coração de cada membro da comunidade na liberdade dos filhos de Deus. Pelo contrário, o amor carnal escraviza o objeto amado, possuindo-o como uma «coisa». A comunhão fraterna se dá entre pessoas humanas, não entre coisas ou objetos. É por isso que São Bento pede a seus filhos que «ponham em ação castamente a caridade fraterna» (RB 72,8).

Um amor verdadeiro exige que se respeite a pessoa amada, e que a façamos crescer em todos os planos. Sou incapaz de realizar isso se não estou em comunhão com Deus. Por isso, os dois Sacramentos que o monge deve frequentar são a Eucaristia e a Reconciliação.

No coro, como eu poderia cantar as polifonias em harmonia com meus irmãos sob a batuta prodigiosa do chefe de orquestra talentoso que é Cristo, se a vida pessoal de cada um de nós fora do oratório não está em perfeita consonância com o ritmo da vida em comum? Como as pessoas de fora poderiam ouvir, compreender e apreciar nossos cantos na hora do Ofício Divino, as palavras da Igreja, as palavras de Cristo, se cada um dos monges vive de uma maneira, sem estar no mesmo ritmo que seus irmãos? Eis na Missa o que Deus preparou para nós. Assim, por sua vez, devemos também dá-lo a nossos irmãos. É por isso que a mesa do refeitório tem um significado particular e São Bento impõe uma punição ao retardatário no oratório e no refeitório. Para ele, o oratório e o refeitório são dois lugares em que se manifesta a comunhão fraterna da comunidade; num sentido, o espaço é bem elevado e profundo, no outro é bem largo e comprido. A primeira dimensão é de Deus, muito alto, transcendente e a segunda dimensão é a dos irmãos. Poder-se-ia dizer que, no oratório, comemos e bebemos o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, e, no refeitório, comemos e bebemos o suor e as lágrimas de nossos irmãos; em breves palavras: «nós nos comemos»!

Os vietnamitas são muito realistas. Começamos tudo com uma refeição: comer para trabalhar, comer para estudar, comer para recrear, comer para dormir, comer para jejuar, comer e se vestir, comer e falar, comer no Ano Novo, comer nos banquetes de casamento, comer as esmolas, comer as ideias, comer para reclamar por ter de pagar as dívidas, comer para voar... Comer torna-se um prefixo para cerca de 160 palavras na nossa língua. Relacionamos assim a lista para dizer sobre a importância das refeições na mentalidade vietnamita: «Di thuc vi thiên», comer é colocado em primeiro lugar. Neste ponto, coincidem a cultura evangélica e a espiritualidade de São Bento ou cultura beneditina. Entre essas palavras, há aquela de «comer no Ano Novo». É aqui que eu gostaria de sublinhar o traço da beleza nova do monge beneditino de Thiên An. Em cada época do retorno da primavera, temos o hábito de fazer bolos, doces de arroz para alegrar o Ano Novo. Em um dia conveniente, após a fase das preparações, todos nós, grandes, pequenos, superiores e inferiores, quer saibam ou não fazê-lo, sem exceção de ninguém, todos nós fazemos o que nossos ancestrais fizeram há tempos e nos transmitiram até agora. Obras de mãos hábeis, de inexperientes, os bolos bem ou mal feitos são multiformes: há grossos, finos, grandes, pequenos, muito compridos e outros muito curtos, bolos muito cheios e outros vazios... Mas todos feitos pelas mãos dos monges de Thiên An. Elas revelam os estados de alma e representam a capacidade de cada irmão. A obra realizada traz a marca de seu autor. Algo rico de ideias, não? Sim, é a comunhão fraterna. É a originalidade de cada indivíduo a fazer com que sejamos HOMENS, verdadeiramente pessoas humanas. Além dos valores de pessoa humana, o bolo representa nossa cultura humana: viver a moral da piedade filial. O bolo de Têt (Ano Novo) é o símbolo do respeito e do reconhecimento que os descendentes devem a seus ancestrais, a seus pais, chegando até a fonte que é Deus.

É justo dizer que a comunhão fraterna se manifesta em três lugares: no oratório, no refeitório e na Sala do Capítulo, mas também nas distrações: vôlei, futebol ou jogo de xadrez. Em toda competição, há vencedores e vencidos. Num e noutro caso, estes não são critérios para que o monge que joga aprecie. O que importa é que no jogo se manifeste a fraternidade.

4 – Espiritualidade da vivência da comunhão fraterna

De tempos em tempos, alguns visitantes que vêm ao mosteiro nos fazem esta pergunta: «O Deus que vocês adoram e procuram, que proclamam Todo-poderoso e Deus de Amor, porque ele deixou se abater sobre os inocentes e pessoas honestas tantos infortúnios? É verdade que vocês o professaram sem convicção?» É muito difícil responder a tais objeções, não acham? Na verdade, eu poderia dizer que nessas situações, tremo reconhecendo: o Deus que adoramos se fez homem, e agora está presente na situação dos sofredores inocentes e honestos de que vocês falam. Sim, nosso Deus adorado e procurado se encarna em cada um dos seres humanos. «Eu sou Jesus, a quem tu persegues» (At 9,5). Meu itinerário vocacional no mosteiro beneditino é descobrir o rosto de Deus em cada pessoa, em cada um dos irmãos que vivem comigo. Aprendendo a ver Deus nos outros, descubro minha própria PESSOA, o homem criado por Deus à sua imagem. Para mim, tornar-se santo, é tornar-se homem, é procurar e viver o HOMEM com letras maiúsculas!

Aqui, eu penso no monge budista Minh Duc, poeta e calígrafo célebre. Considerado do ponto de vista da idade e da competência budista, já está entre os raros setuagenários. Ele escreveu uma frase que me tocou: «Uma vida é fatigante mesmo sem caminhar: para escrever a palavra "homem", a mão treme». No sentido do calígrafo, sempre escrever quer dizer sempre recomeçar a construir o homem. Para ele, se bem que setuagenário, sente ainda que é difícil. Difícil porque tornar-se homem equivale a tornar-se Buda e, segundo os católicos, tornar-se um com Deus.

O Evangelho diz: «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus» (Mt 5,8). O itinerário para descobrir Deus no homem é também um processo de purificação do coração, é um caminho de humildade. O monge deve aprender, em Cristo, até que seu coração se torne «imaculado», para que possa doar-se a «um amor fraterno casto», como recomenda São Bento. O processo de se humilhar tornará o coração do monge puro. O caminho da humildade tirará do monge o apego às criaturas. Somente então se compreenderá porque São Bento, como mais tarde Dom Casaretto (1810-1878), reformador e fundador da Congregação de Subiaco, insistiram sobre a pobreza e a mortificação na vida comum e, desde então, nossa Congregação de Subiaco celebra o rito de prestar juramento de viver em comunidade, baseado na Regra de São Bento (cf. capítulo 33).

Em resumo, a espiritualidade da comunhão fraterna é uma trajetória marcada pela humildade pessoal, aceita, voluntária, a exemplo de Cristo; é o processo de purificação do coração para descobrir Deus no HOMEM, homo-Deus. A Regra de São Bento leva o coração humano a se identificar com o coração de nosso Senhor Jesus Cristo, e assim o coração do monge, batendo no mesmo ritmo do coração de Cristo, pode se adaptar a todas as formas de cultura.

5 – Ephata! (Mc 7,34)

Graças a Deus que nosso coração se abre aos irmãos, que colocamos nossa confiança neles: considerá-los como bons, como coadjutores que Deus colocou ao meu lado para me ajudar a chegar ao céu.

Crer em alguém é fazê-lo «crescer», e a mim também. Que infelicidade viver com uma pessoa desconfiada! Você irá de mal a pior e certamente seu irmão também. Pela confiança mútua, cria-se uma boa comunidade.

A comunidade atual é bastante numerosa, cerca de 90 monges entre idosos e jovens. A diferença entre eles é nítida, pois decorreram 21 anos sem vocações (1967-1988). Entretanto, isso não constitui uma dificuldade para vivermos juntos. As primeiras gerações estão agora com 80 ou 90 anos. Não se encontra aí o fenômeno da lua cheia que se transforma em lua crescente? O velho voltando a ser criança? Sim, mas o rejuvenescimento dos monges idosos não é como a puerilidade dos adolescentes, e sim aquela juventude que não envelhece jamais nos filhos de Deus, o Pai que é uma primavera eterna. Caminhando para a humildade, o coração do monge liberta-se, torna-se livre, adapta-se conforme as circunstâncias, para chorar com os que choram e alegrar-se com os que se alegram. Sabemos ser jovens com os jovens e velhos com os velhos, para nos tornarmos tudo para todos.

A vida fraterna, segundo a Regra de São Bento e os preceitos do Evangelho, corre o risco de ser pisoteada se, dia após dia, cada membro da comunidade não permite que o seu coração se purifique, não se conscientize da razão pela qual está no mosteiro. Dia após dia, o monge se esforça para não transformar sua cela em tesouro de bens temporais, para não deixar a porta de sua alma fechada hermeticamente. É preciso abri-la para a luz, para Deus e para os irmãos.

6 – À guisa de conclusão

De tempos em tempos, escuto cantar esses versos descritivos do Mosteiro de Thiên An:

Thiên An é belo, poético.
Thiên An é romântico como nos sonhos.
Thiên An é vazio como nas duas extremidades.

Depois dos dois versos descritivos realistas, o verso seguinte é rico de significados: «vazio» no sentido do povo de Huê significa pobre. Belo, poético, romântico como nos sonhos, mas pobre! Não se trata de uma ironia: ser monge é ser pobre! A pobreza do monge é o desapego das criaturas, é preciso «esvaziar» seu coração. Tao Te King diz: «Por isso, o Santo-Homem tem por regra provocar o vazio em seu coração». Ora, ser vazio é ser livre, aberto o mais possível. É este o significado delicado do termo «Thiên An é vazio como nas duas extremidades».

Irmão Jean de la Croix, OSB
é monge do Mosteiro de Thiên An (Vietnã)

Traduzido do francês por Irmã Maria Cruz, OSB
(Mosteiro Nossa Senhora da Paz, Itapecerica da Serra, SP)