Homilia nas Exéquias
de Dom Marie-Bernard de Soos, OSB

Dom David Tardif d’Hamonville, OSB

PdeSoosDuas palavras-chave permearam nosso evangelho (Jo 17,1-3.24-26): CONHECER e DAR A CONHECER.

Jesus quis DAR A CONHECER este Pai incomparável que ele próprio CONHECIA incomparavelmente, e, na hora da passagem, ainda se volta para ele, ainda lhe dirige sua oração.

Foi essa a viga-mestra da vida de nosso irmão Marie-Bernard: CONHECER e DAR A CONHECER Jesus Cristo, o Evangelho, a Bíblia inteira, Deus. Foi exatamente isso que o animou aqui até o último dia, quando se dedicava, sem medir esforços, a encontrar nossos irmãos e irmãs oblatos – além de outras pessoas; ou quando empregava bastante tempo na preparação de conferências e retiros. Essa relação com os leigos teve uma grande importância no Togo, onde Dom Marie-Bernard fundou o grupo de oblatos beneditinos. Sei que, hoje, eles estão unidos a nós de todo coração!

Como Jesus conduziu seus discípulos ao Pai, Dom Marie-Bernard não queria conduzir os outros para si mesmo, mas para um Outro, Aquele que ele amava e queria dar a conhecer: Cristo.

Para dar a conhecer alguém, uma premissa obrigatória é conhecer-se bem a si mesmo; por isso Dom Marie-Bernard nunca deixou de buscar, estudar, rezar. Há um mês, quando três irmãs de Dzogbegan (Ir. Jean-Baptiste, Ir. Scholastique e Ir. Gertrude) vieram visitá-lo aqui, com os Irs. Joseph, Innocent e Cyprien, que estão conosco, elas lhe pediram: «Abba, dize-nos uma palavra!» Ele respondeu-lhes: «Procurem a Sua face, procurem o rosto de Jesus», nada além disso! Foi sua última palavra!

É exatamente o que vive um monge: ele quer dar a conhecer Jesus Cristo ao mundo inteiro, mas sabe bastante bem que não o conhece ainda de maneira suficiente, que tem ainda tudo a aprender; por isso permanece indefinidamente nos bancos da escola, uma escola que, felizmente, nunca fornece diploma de espécie alguma... assim, continuamos nela, repetimos o ano, repetimos novamente, procuramos apenas conhecer um pouco melhor!

Não se trata de perda de tempo, pois, como afirma Jesus em nosso evangelho: «Esta é a vida eterna: QUE CONHEÇAM A TI...»

O ponto de chegada não é diferente do ponto de partida!

Então, somente uma coisa conta: é dar partida, começar a caminhar para valer, como Abraão!

Dom Marie-Bernard iniciou sua partida muito jovem, com determinação, com seriedade. Contudo, ele não imaginava que deveria partir muitas outras vezes, até com certa frequência, tornando-se inclusive, durante algum tempo, um monge sempre prestes a partir, com passagem na mão para longos vôos, quando, nos quinze anos em que trabalhou na A.I.M., percorreu o mundo.

A partida mais inesperada, e que transtornou sua vida, foi incontestavelmente a de janeiro de 1961, quando Dom Germain  o enviou ao Togo para lá fundar um mosteiro, tendo como único companheiro o Irmão Serge. Tinha então 36 anos...

Que engraçada essa vida de monge! Na teoria, a mais estável, a mais desprovida de mudança; contudo, na prática, capaz de provocar semelhantes transtornos, semelhantes aventuras!

A vida monástica se implantou no Togo como uma pequena estaca e, estrangeira que era, se enraizou lentamente, com dificuldades; os reforços só chegariam a conta-gotas. Quando, depois de vinte anos, foi pedido a Dom Marie-Bernard que partisse outra vez, muita coisa já se encontrava no lugar, mas a comunidade africana ainda estava longe de se constituir! As coisas apenas começavam seriamente, com o «ano de São Bento», iniciado um ano antes: os irmãos tinham percorrido o país para tornar mais conhecida a vida monástica e as vocações começavam a chegar.

Bem podemos compreender como foi dura essa partida.

«Deixar a casa paterna» já é muito, sobretudo quando os vínculos familiares são fortes e belos, mas deixar aquilo que acreditamos ser a própria casa, que construímos com as próprias mãos, com a cabeça, com o coração, com todo o próprio ser! Deus, muitas vezes, pede isso aos fundadores: para transmitir plenamente a vida, é preciso ser capaz de romper todos os vínculos mediante os quais nutrimos uma criança; é preciso libertá-la de nós mesmos. Hoje, trinta e um anos depois, a criança se tornou grande, a comunidade de Dzogbegan é uma Abadia com mais de trinta monges, 100% africana!

Dom Marie-Bernard retornou ao Togo mais de uma vez, notadamente para as exéquias de Dom Mawulawoe , em 2006, e depois para a bênção abacial de Dom Théodore , um ano mais tarde. Nessa ocasião, tive a alegria de acompanhá-lo e me lembro do Bispo de Kpalimé , Dom Benoît Alowonou, tê-lo saudado, durante a Missa solene da bênção, com um versículo do salmo 91: «Mesmo no tempo da velhice, ainda frutificando» (cf. Sl 91[92],5), com um largo sorriso de admiração!

De fato, quando deixou Dzogbegan, em 1981, ele estava longe de deixar de frutificar. Como Secretário-Geral da AIM, a serviço da vida monástica nos países de recente cristandade, ele haveria ainda de dar muito...

Dom Marie-Bernard, em 1998, o senhor partiu pela última vez; tratava-se de partir de novo para onde o senhor tinha começado, em En-Calcat. O senhor não hesitou. Conforme o senhor mesmo disse, essa nova partida lhe custou muito. «Como é possível renascer sendo velho?» A comunidade havia mudado muito, o senhor havia mudado, o mundo tinha mudado...

No entanto, o senhor assumiu esse risco porque Jesus e o Evangelho não tinham mudado.

Dom Marie-Bernard, iniciando hoje a grande partida, o senhor nos deixa seu passaporte, que é válido para todas as partidas: «Procurem a Sua face, procurem o rosto de Jesus!»

Continue a guiar nosso olhar para a Ascensão, para Aquele que nos atrai a Si, de maneira irresistível. Ajude-nos a manter o rumo certo. Reze por nós! Amém.

Dom David Tardif d’Hamonville, OSB, é Abade
da Abadia de Saint-Benoît d’En-Calcat (França)

Traduzido do francês por Dom Matias Fonseca de Medeiros, OSB