O trabalho da equipe internacional da AIM

Dom Paul Stonham, OSB
e Dom Mark Butlin, OSB

Esta apresentação é o fruto de reflexões comuns de Dom Paul Stonham, OSB, e de Dom Mark Butlin, OSB. Ambos descrevem de maneira realista as necessidades das comunidades e o apoio dado a elas por ocasião de suas visitas, desde os primeiros encontros e a continuação desse trabalho até o presente. A AIM procura relacionar as novas fundações, as comunidades isoladas ou distantes com o conjunto da família beneditina através do mundo.

StonhamO número de comunidades monásticas atendidas pela AIM aumentou de forma extraordinária desde seus humildes inícios há cinquenta anos. Este aumento tem sido particularmente relevante desde os anos 80 e hoje existem mais de quinhentos mosteiros, nos países em desenvolvimento, em contato regular com a AIM. O estabelecimento dessas relações se deve, acima de tudo, à existência da Equipe Internacional, cuja tarefa primária é a de estar em contato com essas comunidades. O rápido crescimento das fundações monásticas e as necessidades dos mosteiros, como consequência desse mesmo crescimento, tem exercido um papel decisivo no desenvolvimento da visão que a AIM faz de si própria e da sua forma de serviço voltado para a família beneditina e cisterciense pelo mundo afora.

ButlinOs encontros monásticos dos anos 60 e 70, tais como os da África (Bouaké), da Ásia (Bangkok e Kandy) e a criação do EMLA (Encontro Monástico Latino-Americano) na América Latina e Caribe, foram todos patrocinados ou organizados pela AIM. A indicação de Dom Marie-Bernard de Soos, o Prior fundador do mosteiro de Dzobégan, no Togo, como Secretário Geral da AIM, fez uma enorme diferença para o nosso trabalho e visão. Ele realizou uma série de visitas a comunidades monásticas da América Latina, África e Ásia, com o intuito de estabelecer um relacionamento pessoal com elas e tomar conhecimento de suas reais necessidades. Manteve, com assiduidade, relatórios detalhados de suas visitas, criando assim um banco de informações sobre esses mosteiros e suas vidas, tanto do ponto de vista prático quanto espiritual. As suas anotações constituem parte importante dos arquivos da AIM hoje.

Como resultado do trabalho de Dom Marie-Bernard, tornou-se evidente que a ajuda trazida pela AIM precisava caminhar de mãos dadas com certa forma de acompanhamento das recentes fundações em países mais pobres e em desenvolvimento, então conhecidos como «Terceiro Mundo». Este acompanhamento amigo e fraterno seria o trabalho da Equipe Internacional, um grupo de monges e monjas que dispensariam um cuidado especial em áreas particulares do mundo monástico que acabava de emergir. Naquela época que antecedeu os formidáveis avanços atuais nas comunicações através da Internet e e-mail, isso era feito por meio dos serviços mais ou menos satisfatórios dos Correios, como funcionavam em muitos países.

Com o passar dos anos, através das visitas dos membros de sua Equipe Internacional, a AIM forneceu meios de monitorar as necessidades das comunidades monásticas, de maneira a poder ajudá-las com aconselhamento proveniente da grande experiência do trabalho com uma enorme variedade de comunidades, tendo em mente, com certeza, a existência da imensa diversidade cultural entre as muitas regiões, países e comunidades singulares com as quais trabalhamos, sem mencionar os aspectos históricos de cada Ordem e Congregação. O respeito, o afeto e o desejo sincero de apoiar as comunidades estão no centro desta missão única da AIM, tão diferente e independente do apoio oficial dado pelas Ordens Cistercienses e pelas várias Congregações da Confederação Beneditina. 

Uma certa assistência econômica limitada também tem sido possível. Mas a preocupação principal da AIM e da Equipe Internacional tem estado mais e mais focada na formação, sobretudo na construção de comunidades do ponto de vista humano e monástico, onde os recursos, sejam eles econômicos e humanos, são limitados. Não queremos com isso dizer que a ajuda econômica oferecida até agora tenha sido pequena ou insignificante. No passado, foi possível fazer doações para todo tipo de projeto, desde construções até atividades agrárias, água e eletricidade, veículos e bibliotecas, reflorestamento e indústrias que gerassem recursos, serviços de saúde e social. Alguns projetos têm tido como alvo ajudar a população local assim como a comunidade monástica a atingir um nível de autonomia e independência econômica. No entanto, atualmente, os fundos disponíveis para tais ajudas são muito menores, em razão da difícil situação econômica mundial, cujos efeitos têm sido devastadores tanto nas economias dos mosteiros dos países desenvolvidos quanto entre os benfeitores.

Para projetos mais importantes, a AIM muitas vezes encaminha o pedido de ajuda para outra fundação, de maneira que é a formação monástica e humana que consome grande parte de nossos recursos hoje em dia. Membros da equipe, a depender do tempo disponível que tenham para essa tarefa, visitam áreas específicas para estimular ou participar de workshops, retiros, cursos e encontros regionais ou locais. Conforme nos mostra a nossa experiência, essas visitas são bastante apreciadas pelas comunidades e pessoas envolvidas. Por experiência própria, tendo vivido numa pequena fundação monástica no Peru durante vinte anos, posso dizer sem exagero que, de longe, as visitas que mais ajudaram e as mais gratificantes que recebemos durante todo esse tempo, foram as de dois membros da AIM, o Bispo Philippe Bär[1] e Dom Jacques Côté. Um pequeno grupo de monges e monjas, vivendo longe de seu país de origem e a grande distância de qualquer outra comunidade monástica, pode se sentir muito isolado e sozinho. Para os jovens em formação, é essencial que vejam outros monges e monjas e percebam que eles pertencem a uma grande família espalhada pelo mundo, diferente de outras Ordens e Congregações mendicantes e ativas, mas, assim mesmo, a família daqueles que seguem a Regra de São Bento.

StonhamButlinMuitas das comunidades ajudadas pela AIM são relativamente pequenas e por vezes isoladas, tanto pela distância de outras comunidades da região como da casa mãe, geralmente em outro continente. Existe também a diferença cultural, que pode ser ainda maior. Queremos dizer com isto que uma pequena fundação pode estar a milhares de quilômetros de distância da casa fundadora, imersa em outra cultura e falando outra língua ou talvez várias línguas. Também nos referimos a novas fundações monásticas que se encontram inseridas numa Igreja local que não tenha nenhuma experiência, conhecimento ou compreensão da vida e da tradição monásticas. Bispos pedem fundações monásticas, mas sem nenhuma ideia do que estão realmente pedindo e sem os meios para oferecer verdadeiro apoio. Particularmente, no caso de fundações masculinas, os bispos geralmente estão à procura de padres para ajudá-los na pastoral, educação, trabalho social ou missionário e invariavelmente tentam transferir a responsabilidade das paróquias e escolas para cima dos monges que disto não suspeitavam, causando perturbação interna na comunidade e escrúpulo de consciência entre seus membros.  Parece que há mais respeito e compreensão para com as comunidades femininas de clausura, porque as carmelitas, as clarissas e outras, estão presente há mais de quinhentos anos nos países em desenvolvimento, particularmente na América Latina.

Uma visita ou retiro de um membro da AIM pode muitas vezes ajudar uma comunidade em tais circunstâncias a discernir o caminho a seguir. Realmente ajuda ter alguém de fora, que fraternalmente e sem imposições, assista a comunidade na tomada de decisões sérias em relação ao seu futuro e na maneira como deveria engajar-se na vida da Igreja local e contribuir de uma maneira especificamente monástica para a construção do Reino de Deus. O que é ótimo na AIM é que damos assistência a comunidades de uma maneira totalmente desinteressada e incondicional, simplesmente porque acreditamos apaixonadamente na vida monástica e na sua implantação pelo mundo inteiro, especialmente nesses países e regiões onde, até muito recentemente, éramos um aspecto desconhecido na rica tapeçaria da vida da Igreja Católica. É o que se pode constatar a partir dos testemunhos daqueles que trabalharam para a AIM, bem como daqueles que receberam visitas e ajudas de todos os tipos.

A Equipe Internacional é um grupo relativamente pequeno de apenas sete membros. Destes, somente a quatro são atribuídos continentes e regiões para que deles se ocupem de maneira particular. Embora muitas línguas sejam faladas nos países e mosteiros que nós visitamos, por razões práticas as línguas básicas usadas pela equipe e pelas próprias comunidades são Inglês, francês, português e espanhol. Enquanto alguns membros da equipe trabalham em tempo integral para a AIM, outros só podem usar o tempo que os demais compromissos em seus mosteiros ou Ordem permitem. Embora as despesas básicas das viagens sejam pagas, todos nós oferecemos nossos serviços de coração generoso e boa vontade gratuitamente para a Aliança. Como casa central, de excepcional simplicidade, o Secretariado se encontra em Vanves, nos arredores de Paris, e é lá que se realizam nossos quatro encontros anuais. Eles duram três ou quatro dias e quase a metade do tempo é gasto pela equipe em discussões sobre as recentes visitas pelo mundo, os problemas e necessidades encontrados, além dos vários projetos para os quais foram pedidas ajudas ou essas já foram dados. Ficamos sempre tocados pelo afeto e compromisso com que os membros da equipe realizam seu serviço para a AIM, o conhecimento que a equipe tem dos mosteiros e igrejas locais e a atitude profissional dos seus membros. Ocasionalmente, um superior em visita ou um especialista une-se a nós durante parte da discussão. Isto é particularmente necessário quando se estudam grandes projetos sobre os quais a equipe não tem conhecimento profissional ou especialização. Pode-se também dizer que os membros da equipe são a face pública da AIM.

Desde o seu início em 1961, a própria AIM cresceu e se desenvolveu de modo inesperado. Foi sábio mudar a inicial A, de Ajuda, para A, de Aliança, pois isto reflete a realidade mutante do mundo monástico e do nosso trabalho. Como se pode verificar nas estatísticas, as Ordens monásticas estão, em sua maioria, não mais na Europa e na América do Norte, mas nos continentes do Sul e do Oriente. O resultado tem sido uma inversão de movimento do pessoal monástico e uma compreensão de que o mundo monástico não é mais constituído de «nós e eles», mas de «nós», uma família espalhada pelo mundo, de irmãs, monjas e monges que seguem a Regra de São Bento e se apoiam uns aos outros de todas as maneiras possíveis.

Também, nem é preciso dizer que a AIM não apenas dá como recebe. Visitas da Equipe Internacional resultaram na partilha das riquezas desse tesouro espiritual, fruto da graça e do amor misericordioso de Deus, que mosteiros pobres ou frágeis, muitos deles pequenos ou de recente fundação, podem dar, em troca da ajuda recebida de mosteiros mais antigos e estabelecidos no Velho e no Novo Mundo. Isto é feito em parte pela publicação do Boletim da AIM e em parte por palestras e artigos escritos por membros da Equipe. Nós podemos dar testemunho do que temos recebido deste ministério maravilhoso e muito especial.

Como afirmamos acima, workshops, cursos e retiros são dirigidos por membros da Equipe Internacional da AIM, mas monges, monjas e irmãs também têm sido recrutados para este trabalho nos mosteiros ao redor do mundo. A AIM-USA e as Irmãs beneditinas americanas têm um programa «a distância» para Irmãs beneditinas africanas, a quem elas têm enviado um número de Irmãs nesses anos recentes, para darem cursos sobre a Regra de São Bento e sobre vários aspectos da vida monástica. A falta de pessoas capacitadas para liderança, direção e formação em muitas comunidades, particularmente na África, tem sido um sério obstáculo para um crescimento e desenvolvimento sólidos, especialmente quando as comunidades são muito numerosas e seus membros jovens. Como todos nós sabemos, a AIM tem recursos muito limitados para atender a essas necessidades e, no entanto, tem havido um nível crescente de iniciativas por parte de mosteiros trabalhando juntos a nível local ou regional. Um bom exemplo é a antiga UBM (União de Beneditinos do México), agora chamada a UBC (União de Beneditinos e Cistercienses), que, ao longo de vários anos, tem organizado excelentes cursos de verão sobre temas monásticos, teológicos e outros, que atrai cerca de centenas de irmãs, monjas e monges de todo o México, em geral com assistência financeira da AIM. Esta forma de associação também está acontecendo em muitos outros países e regiões do mundo monástico.

De fato, como resultado dos grandes encontros monásticos internacionais em diferentes partes do mundo, que deve muito ao encorajamento e interesse da AIM, uma série de associações regionais permanentes foram organizadas na África, Ásia e América Latina, visando partilhar experiências e apoio mútuo, especialmente através de cursos conjuntos para ambos, formação inicial e formação permanente. Esta formação inclui não apenas matérias especificamente monásticas, espirituais e teológicas, mas também cursos práticos, como gestão financeira e administração pecuária e agrícola.

Eis aqui alguns detalhes suplementares. Em 1987, os primeiros dois encontros de jovens beneditinos e beneditinas da África Oriental aconteceram em Nairóbi e Peramiho. O primeiro atraiu cerca de quarenta participantes do Quênia e Uganda, o segundo, uns cinquenta tanzanianos. Em ambos, houve uma partilha de experiências da vida monástica e uma reflexão sobre alguns de seus aspectos essenciais, tais como a Lectio Divina e a Comunidade, com especial referência ao contexto africano. Como muitos formadores também compareceram a esses encontros, houve uma continuação especialmente para que eles pudessem focar problemas particulares que dizem respeito à formação na África Oriental.

Em 1991 a AIM organizou o primeiro encontro monástico pan-africano de língua inglesa em Harare, Zimbábue, sobre «A formação da pessoa na Tradição beneditina». Cerca de sessenta participantes compareceram, incluindo superiores, formadores e representantes de comunidades, assessorados por Dom Mark Butlin, assistente de língua inglesa da AIM para a África e a Ásia. Como resultado desse encontro, começaram a acontecer encontros regionais e organizações de cursos, focando especialmente a formação. Foi assim que surgiu a União Beneditina da Tanzânia (BUT) que até hoje oferece workshops e cursos.

A Federação Beneditina Indiana e do Sri Lanka, com um número de participação atual de quarenta comunidades masculinas e femininas, tem realizado encontros regulares há quase trinta anos. Ela deve sua origem ao encontro monástico asiático ocorrido em Kandy, Sri Lanka, por volta de 1980. Serve como um fórum para a partilha de experiências de vida e levou à criação de um instituto monástico móvel para prover um programa de formação conjunta com sessões de dois meses, por um período de três anos, acontecendo a cada ano numa casa diferente. Também oferece workshop anualmente de uma semana a dez dias para noviços e junioristas.

Em 2007 aconteceu no Vietnam o primeiro encontro de superiores e formadores dos mosteiros cistercienses e beneditinos daquele país, patrocinado pela AIM. No workshop de sete dias, uns setenta representantes de mais de 1.500 monges e monjas discutiram todo o processo da formação monástica hoje no Vietnam, iniciando pelo contexto social, econômico e cultural dos quais vieram essas vocações e a questão da identidade monástica.

Esses são apenas uns poucos exemplos do envolvimento da AIM com o estabelecimento e a organização de associações monásticas regionais e nacionais. Elas agora existem em todas as partes do mundo e a AIM delas se ocupa mais particularmente.

Na América Latina e no Caribe existem três conferências regionais constituídas por todos os beneditinos e cistercienses, monges e monjas. SURCO (Conferencia de Comunidades Monásticas del Cono Sur) agrupa os mosteiros da Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai; além de encontros e cursos, há a publicação de uma revista de alta qualidade, Cuadernos Monásticos, assim como de fontes monásticas e patrísticas traduzidas para o espanhol. A CIMBRA (Conferência de Intercâmbio Monástico do Brasil) está limitada apenas a um país, o Brasil, que é tão grande quanto um continente, e une os cistercienses e beneditinos de todas as tendências possíveis. É interessante notar que os beneditinos estão no Brasil desde 1582 e que existe uma presença monástica muito grande e dinâmica neste país hoje em dia. A terceira associação latino-americana é a ABECCA (Associación Benedictina de Caribe y de los Andes), que inclui o México, a América Central, o Caribe e as repúblicas andinas, uma vasta região, na sua maior parte com poucas comunidades seguindo a Regra de São Bento. Esses três grupos regionais se reúnem a cada quatro ou cinco anos para celebrar o EMLA (Encontro Monástico Latino-americano). Esses grupos e encontros têm tido, de longa data, o apoio da AIM e membros da Equipe Internacional sempre participam.

Para concluir, o trabalho da Equipe Internacional, apesar do seu tamanho reduzido e recursos limitados, cresceu tão rapidamente quanto as novas fundações floresceram pelo mundo em desenvolvimento. No futuro, bem pode acontecer que este trabalho se desenvolva por caminhos novos e estimulantes e pode muito bem envolver mais voluntários de mais países e comunidades. De certa forma, tudo o que é encorajado ou financiado pela AIM é também trabalho da AIM e é isto exatamente o que ela tenta fazer através dos membros da Equipe Internacional: encorajar e fortalecer a presença beneditina e cisterciense por toda a Igreja e por todo o mundo. E nós reconhecemos e damos graças por este aspecto do Opus Dei, a obra de Deus, que é a vida monástica. No entanto, fortalecer e encorajar as comunidades monásticas é trabalho em duas direções, e é verdade quando dizemos que recebemos muito mais do que damos. Por tudo isso, celebrando nosso Jubileu de Ouro, nós rendemos graças a Deus onipotente!

Dom Paul Stonham, OSB, é Abade da Abadia de Belmont (Inglaterra), desde de 2000. Foi um dos fundadores do Mosteiro de Pachacamac, no Perú, onde viveu de 1975 a 1981. Como membro da equipe internacional da AIM, visita em seu nome, os Mosteiros de língua espanhola da América Latina e do Caribe.

Dom Mark Butlin, OSB, é monge da Abadia de Saint Lawrence of Ampleforth, York, e Prior honorário da Catedral de Norwich (Inglaterra). Foi professor em Santo Anselmo e é membro da equipe internacional da AIM há mais de vinte anos. Dá conferências e prega retiros em numerosas comunidades da Ásia e da África.

Traduzido do inglês por Aline Torres Monteiro

[1] Ronald Philippe Bär, OSB (1928 - ), monge da Abadia de Chevetogne (Bélgica) e Bispo de Rotterdam (Holanda), de 1982 a 1993. Tendo renunciado ao ofício episcopal, trabalhou durante alguns anos no Secretariado Geral da AIM, em Vanves.