A paternidade espiritual no monaquismo antigo (I)

Irmã Lisa Cremaschi

Irmã Lisa nos introduz na melhor tradição do monaquismo antigo. A primeira parte de seu artigo, que publicamos neste Boletim, falando do pai espiritual, será concluída no próximo número, com num olhar sobre o discípulo, na mesma tradição.

1. Visitar os anciãos

StAntoinePaulthebes«Visitar os anciãos era a regra entre os antigos Pais» (N 13), respondeu certo dia um monge a um discípulo que lhe perguntara se era melhor visitar os anciãos para interrogá-los, visto serem mais experimentados, ou permanecer na solidão a rezar. Os Pais do deserto vivem sob a primazia e em dependência total da Palavra de Deus; mas eles sabem também que essa palavra se encarna, eles querem lê-la na vida dos irmãos, ouvi-la sendo anunciada por aqueles que a vivem e procuram realizá-la em sua condição humana. Conta-se que um dia, os irmãos foram ter com o Abade Antão e lhe disseram: «Dize-nos uma palavra: como podemos ser salvos?» O ancião lhes disse: «Escutastes a Escritura? Está bem para vós». Eles, porém, replicaram: «Também de ti queremos escutar alguma coisa, Pai» (Antão 19).

Aqueles discípulos queriam ouvir a Palavra da boca de Antão, homem de Deus, que encarnou-a em sua vida; eles procuravam alguém que os guiasse a fim de aprenderem a arte do combate e estavam conscientes que não bastava ler a Escritura e rezar; era preciso «entrar na Igreja», na comunhão dos santos do céu e da terra e, fortalecidos em sua fé e por intercessão deles, tornarem-se por sua vez Pais, gerar outros homens para a vida espiritual, continuando assim a longa corrente ininterrupta da tradição. Quem é Deus? É o Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó, o Deus dos profetas, o Deus de Jesus Cristo, o Deus dos mártires, dos Pais do deserto, de Antão, Basílio, Agostinho, Jerônimo, Bento, Francisco, Clara... até essas fisionomias que conhecemos pessoalmente, esses seres que, ao longo de nossa caminhada, nos desvendaram algo da face de Deus.

Antes de Pacômio, o fundador da vida cenobítica, não havia regra. Os Pais aconselhavam então:

«Vai-te e adere a um homem que teme a Deus; e, à medida que o fores frequentando, ele te ensinará também a temer a Deus» (Poimén 65).

Foi nesse contexto de paternidade espiritual que nasceram os apoftegmas dos Pais do deserto. Um Abade se dirigia a um discípulo para ajudá-lo e sustentá-lo numa situação de dificuldade concreta. Eles foram transmitidos por aqueles que os tinham recebido de outros discípulos, até que, por volta do século V – quando o monaquismo egípcio entrou numa fase de declínio progressivo – alguns monges compreenderam que esse tesouro de experiência espiritual acumulado de geração em geração não devia se perder, e começaram a colocar por escrito e a redigir as grandes coleções que chegaram até nós.

Ao lado de um homem de Deus, de um fiel que se deixou regenerar pela Palavra, o discípulo aprende a temer a Deus – com aquele temor que é o começo da sabedoria – e aprende a arte do combate contra tudo o que vem distraí-lo do serviço prestado ao único Senhor. O «Abba», o Pai do deserto, exerce uma autêntica paternidade em nome de Deus, despertando seu discípulo para a vida segundo o Espírito; ele não é um diretor espiritual nem mesmo um mestre que dá lições de caráter intelectual; é, sobretudo, um pai que engendra filhos para Deus, que guia seu discípulo até o limiar do encontro com Deus, que prepara o caminho como João, o Precursor, prestes a diminuir e a se retirar desde o momento em que seus discípulos digam – como os habitantes da cidade de Samaria aos quais a samaritana anunciara que ela havia encontrado o Messias: «Já não é por causa daquilo que contaste que cremos, pois nós mesmos ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo» (Jo 4,42).

A melhor definição do pai espiritual se encontra exatamente nas palavras com que o Abade Palamão acolheu o jovem Pacômio que lhe suplicava para iniciá-lo nos primeiros passos da vida monástica: «Eu me disponho, tanto quanto minha fraqueza o permitir, a me afadigar contigo, até atingires o conhecimento de ti mesmo» (Vida boaírica de São Pacômio, 10).

Tal é a obra do pai espiritual conforme a grande tradição do deserto: manter-se ao lado do irmão, sem a pretensão de ser mestre, sem propor modelos estereotipados de santidade, sem ligá-lo a si mesmo, mas disposto a partilhar o sofrimento e a fadiga daquele que está procurando a vontade de Deus a seu respeito. Por vezes, a gestação poderá ser lenta: é preciso saber esperar pacientemente, respeitar o crescimento humano e espiritual do discípulo e acompanhá-lo na caminhada, até que ele próprio tenha aprendido a arte do discernimento dos espíritos e tenha chegado a discernir, em meio à multiplicidade das vozes que lhe advêm ao coração, a voz do Senhor. O ancião sabe, por vezes, esperar longamente, em silêncio; ele sabe se adaptar à «medida» do irmão, mesmo já tendo compreendido o que está queimando em seu coração. O importante é o discípulo chegar a se exprimir, a objetivar o que ele sente e vive. Um dia, conta-se, um discípulo, consolado e estimulado pela paciência de seu Abba, depois de frequentes visitas e numerosos colóquios aparentemente inúteis, encontrou coragem para lhe abrir seu coração e lhe manifestar seus pensamentos. Então o Abba lhe declarou: «Por que, durante tanto tempo, tiveste vergonha de me falar deles? Não sou eu também um homem?» (N 509).

Como foi vista, na tradição, a aventura espiritual da relação pai-filho espirituais, ou mãe-filha espirituais? Em nossa análise, nos limitaremos a considerar o monaquismo antigo no Oriente cristão, em particular os Pais do deserto. Isso não significa que a paternidade ou a maternidade espiritual sejam reservadas aos monges. A respeito de Antão, pai dos monges, sabemos que, como ele levava uma vida semi-anacorética, era visitado por numerosos hóspedes que vinham lhe pedir uma palavra, percorrendo muitas vezes uma grande distância a fim de poder encontrá-lo. Atanásio conta como, no fim de sua vida, enormes multidões acorriam até ele.

Na ascese de Antão havia isso de grande, ele que possuindo o carisma do discernimento dos espíritos, conhecia os seus movimentos: do que cada um deles era hábil e capaz, ele não o ignorava. Não somente não se deixava enganar por eles, mas, exortando-os, ensinava às pessoas perturbadas em seus pensamentos como poderiam frustrar os embustes do demônio, dos quais explicava tanto as fraquezas como as astúcias. Cada um, pois, como se fora ungido por ele, descia cheio de audácia contra os pensamentos do diabo e seus demônios. Quantas virgens, tendo pretendentes, só por terem visto Antão, permaneceram virgens para Cristo! Vinham a ele pessoas também do estrangeiro e, como os outros, tendo recebido conselhos úteis, voltavam como que acompanhados por seu pai (Vida de Antão, 88).

No centro monástico da Nítria, o mais próximo dos lugares habitados, havia uma hospedaria, onde se podia passar um ano inteiro, partilhando a vida dos monges e se beneficiando de seu acompanhamento espiritual. Contudo, podia também acontecer, e é um caso completamente diverso, embora pouco frequente, que monges fossem instados a pedir a leigos conselho para sua vida espiritual. Em um das várias narrativas da vida de Antão, conta-se que tendo sido enviado à casa de um curtidor, em Alexandria, suplicou ao curtidor que lhe revelasse o segredo de sua santidade:

Santo Antão rezava em sua cela quando uma voz veio até ele: «Antão, ainda não atingiste a medida desse curtidor de Alexandria». Tendo se levantado de manhãzinha, o ancião partiu à procura daquele homem, com o cajado na mão. Foi ao lugar indicado e entrou na casa do homem que ficou assustado ao vê-lo. Antão lhe pediu: «Dize-me o que praticas». O outro respondeu: «Eu não vejo o que faço de bom. Ah, sim, pela manhã, ao saltar da cama, quando me ponho a trabalhar, digo a mim mesmo que toda a cidade, do menor ao maior, entrará no Reino pelo que ela faz de bom, mas, quanto a mim, herdarei o castigo por causa de meus pecados; e à tarde repito a mesma coisa». A essas palavras, disse o Abade Antão: «Em verdade, como um bom ourives que permanece tranquilo em sua casa, tu obterás o Reino como herança. E eu, que sou sem discernimento, embora vivendo no deserto, não te ultrapassei» (Nau 490).

Os ditos dos Pais do deserto relatam as perguntas dos discípulos e as respostas dos monges anciãos na vida espiritual, que receberam o dom do Espírito, sustentam e guiam os irmãos na estrada para o Reino.

«Podemos dizer que a literatura do deserto se identifica com o próprio exercício da paternidade espiritual. O apoftegma, que é a peça-chave, se constrói sobre o esquema pergunta-resposta, no qual um monge interroga um ancião: "Abba, dize-me uma palavra, para que eu seja salvo"» (A. Louf, La paternité spirituelle, in VVAA, Abba, dimmi uma parola! La spiritualità del deserto, Bose 1989, p.91). Essa palavra de Dom André Louf me parece condensar o caráter específico da coleção variada dos apoftegmas que a tradição nos legou.

Vivendo na companhia de um homem de Deus, um fiel que se deixou regenerar pela Palavra, o discípulo aprende a temer a Deus, aprende a discernir os espíritos, aprende a arte do combate contra tudo o que pode distraí-lo do serviço do único Senhor. Ele se dirige ao pai espiritual para buscar uma palavra que seja um eco da Palavra de Deus, uma palavra nascida da longa frequentação das Escrituras e da experiência espiritual pessoal. Antão, o Pai dos monges, assim exorta seus discípulos:

Vós, meus filhos, vós trazeis para vosso pai o que sabeis; eu, mais velho, vos comunico o que a experiência me ensinou (Vida de Antão, 16).

E, num apoftegma, ele afirma:

Conheço monges que, após terem suportado muitas fadigas, caíram, e perderam o controle da mente, porque nutriram esperança em suas próprias obras e negligenciaram o preceito daquele que disse: «Interroga teu pai, e ele te ensinará» (Antão, 37).

Antão recorre à Palavra de Deus para afirmar a necessidade de uma abertura do coração e declarar que um caminho espiritual sem guia é muito arriscado.

2. O pai espiritual

a) Discípulo, antes de ser pai

O título de pai, mesmo que o evangelho de Mateus proíba atribuí-lo a um homem (cf. Mt 23,8), é empregado por Paulo a fim de designar o ministério daquele que, como um pai, gera para Cristo (cf. 1Cor 4,15). A paternidade espiritual não tem nada a ver com qualquer contrafação da imagem paterna, mal colocada a partir de um certo tempo, mas que parece constantemente ressurgir sob uma nova forma. Não se trata de maneira alguma de idolatria perante o pai ou a mãe espirituais; também não é de modo nenhum dependência psicológica. Ser pai, ser mãe significa fazer crescer o outro – o discípulo / a discípula – até que ele atinja uma existência e uma vida próprias. A paternidade não se destina a durar para sempre, ela termina quando o filho espiritual atinge «a medida da plena maturidade de Cristo» (Ef 4,13). Por essa razão, justamente, pode ocorrer uma inversão na relação pai-filho: o pai, reconhecendo a superioridade espiritual do discípulo, torna-se filho daquele que antes fora seu filho espiritual e vice-versa. Normalmente, ninguém deseja por vontade própria assumir a função de guia espiritual de um discípulo, pois sabe-se como é difícil o ministério de conduzir um outro à vida segundo o Espírito. Muitas vezes os Pais dirigem censuras aos jovens monges que se arrogam em guias dos outros sem antes terem sido discípulos. Rufino, na Historia monachorum 1, fala sobre tal ou tal que parece ter uma única preocupação: poder contar vantagem pelo fato de ter encontrado um Pai do deserto. E, se fixaram na memória alguma sentença ou que a tenham ouvido por terem sido discípulos daquele Pai, parece que se tornaram mestres de repente e não ensinam aos outros o que lhes é útil, mas o que viram e ouviram.

Por conseguinte, o verdadeiro pai espiritual foi primeiramente discípulo. Conforme um antigo texto cristão, a Carta a Diogneto, o catecúmeno que se aproxima da comunidade cristã faz, antes de mais nada, a experiência da paternidade:

Se também desejas alcançar esta fé, primeiro deves obter o conhecimento do Pai (Carta a Diogneto, 10, 1).

O próprio Antão, Pai dos monges, antes de sê-lo, foi discípulo de um anacoreta anônimo que, uma vez reconhecida a maturidade espiritual de seu discípulo, deixou-o partir e prosseguir seu caminho.

O pai espiritual, portanto, não precisa ser um homem excepcionalmente dotado, uma espécie de super-homem que tem nas mãos a vida dos outros, mas um humilde servo do Senhor que lutou contra as tentações, inclusive até mesmo os demônios, e desceu às profundezas de seu coração para aprender a discernir a voz do Espírito. «Dá sangue e recebe espírito», aconselhava o Abade Longino (Longino 5).

Aquele que já purificou o coração no combate espiritual sabe enxergar longe e pode sustentar quem ainda está dando os primeiros passos na vida espiritual, além de ajudá-lo a discernir, entre tantas vozes que o solicitam, a voz do Espírito. Antão dizia:

Creio que a alma inteiramente purificada e que se conforma com a natureza pode tornar-se mais perspicaz e ver mais coisas e maiores que os demônios, porque ela tem o Senhor para lhas revelar (Vida de Antão, 34).

b) Um homem ferido

Exatamente por ter aprendido a conhecer suas próprias fraquezas e a obra do Espírito em si mesmo, «tendo uma real experiência» (Cassiano, Conferência 14, 17), o pai espiritual pode se tornar médico e mestre daquele que se lhe dirige para pedir ajuda. Ele é médico, mas é também um ferido, ele tem necessidade de cura, é um mendigo de misericórdia; é um médico que envia para o verdadeiro «médico das almas e dos corpos», Cristo. Ele é mestre, na medida em que se torna discípulo do único verdadeiro mestre, Cristo. Sua tarefa não é propor uma doutrina, uma teoria, ou impor uma disciplina. Na humildade, na consciência de sua própria fraqueza, de seus próprios limites, ele procura mostrar, por sua própria vida, a vontade do Senhor, a fim de tornar o discípulo dócil ao mestre interior, o Espírito. Às vezes ele profere uma «palavra de salvação», outras vezes repreende, exorta, consola. «Eis a obra dos cetiotas, dar entusiasmo àqueles que estão nos combates» (João Cólobos, 19). Algumas vezes o Abade propõe um ensinamento a partir de sua própria vida. O Abade Sisoés respondeu a um discípulo que lhe pediu uma palavra: «Por que me constranges a falar inutilmente? O que vês, faze-o» (Sisoés, 46). E os irmãos de Pacômio se lembram que:

Ouvindo as palavras de nosso Pai, Abba Pacômio, nós éramos enormemente ajudados e despertados para o zelo das boas obras. E vendo que, mesmo quando guardava silêncio, ele fazia de suas ações um discurso, nós nos admirávamos (Psenthaísios, 1).

CassienNo exercício de seu ministério, o pai espiritual deve saber se adaptar a cada um, conhecer as possibilidades de cada um e nunca impor leis iguais para todos. Ao longo de sua caminhada, ele aprendeu que, na vida espiritual, não se pode jamais fazer comparação; o Senhor ama cada um de maneira única e pede a cada um que faça de sua própria vida humana uma historia de amor, assumindo no amor e na liberdade, seus próprios limites e feridas, mediante a humilde confissão de seus pecados. O pai sabe compadecer-se, colocar-se ao lado do irmão em seu sofrimento, em sua luta, com respeito infinito, fortalecido pela fé, a esperança e a caridade, disposto a tudo pelo bem de seu discípulo. Certamente a caridade e o afeto paterno não devem ser confundidos com a indulgência e a fraqueza; disso resultaria uma aliança com o pecado, ao invés de um firme amparo na luta contra este. Mas, por outro lado, nunca, absolutamente nunca, o pai poderá permitir-se desprezar as tentações de seu discípulo ou caçoar de suas provações e de suas noites espirituais. Cassiano conta, em suas Colações, a história de um pai espiritual que se considerou culpado da mesma tentação que havia desprezado em um irmão mais novo e sem experiência (cf. Cassiano, Conferências II, 13). «A maldade não elimina a maldade», recorda sabiamente um dito da coleção armênia (Paterica armeniaca CSCO 353 IV: 16, 7, p. 10).

Do Abade Isidoro conta-se, pelo contrário:

Se alguém tivesse um irmão fraco, sem firmeza ou insolente, a ponto de desejar mandá-lo embora, o Abade Isidoro, que era presbítero na Cétia, dizia-lhe: «Trazei-o para mim». Tomava o irmão consigo e curava sua alma a força de paciência (Coleção sistemática latina 16, 5).

São inúmeros os exemplos dos Pais do deserto que, com sua infinita paciência, salvam do desespero os discípulos tentados (Coleção sistemática latina 10, 85). Esse amor não torna o Abba cego perante o pecado.

Se tivéssemos a caridade, a própria caridade cobriria toda falta e nós seríamos como os santos quando veem os defeitos dos homens. Então os santos são cegos que não veem os pecados? Quem mais detesta o pecado senão os santos? E, no entanto, eles não odeiam o pecador, não o julgam e nem fogem. Pelo contrário, se compadecem dele, exortam-no, consolam-no, cuidam dele como um membro enfermo; tudo fazem para salvá-lo (Doroteu, Ensinamento 6, 76).

Mas, a correção, a palavra severa, é sempre acompanhada da esperança da conversão, mesmo quando o filho desobedece ou expõe a dura prova a paciência do pai.

O Abade Romano estava prestes a morrer; seus discípulos se reuniram junto dele e lhe disseram: «Como devemos nos dirigir?» O ancião lhes disse: «Creio jamais ter dito a nenhum de vós que fizésseis qualquer coisa sem ter antes tomado a decisão de não me encolerizar, se o que eu havia dito não se tivesse realizado (Romano 1).

O amor sincero de Barsanufo para com Doroteu, seu filho espiritual, o instigava a lhe prometer carregar o peso de seu pecado (Carta 270). E como não lembrar a mansidão de Evágrio (G. Bunge, Paternité spirituelle, pg. 29), verdadeiro discípulo do «manso e humilde de coração» (Mt 11,29), que dizia aos irmãos: «Meus irmãos, se um dentre vós tem um pensamento íntimo ou penoso, que ele fique calado até que os irmãos se retirem, e ele interrogue em particular, à parte, entre ele e eu».

Mas essa paciência a toda prova e essa disponibilidade fiel para acolher o outro no bem e no mal, não se aprendem nos livros: elas são o fruto de uma vida no Espírito, de uma humilde consciência de seu próprio pecado, de um infinito respeito para com os filhos de Deus e sua obra neles.

Muitas vezes, os Pais dirigem severas reprimendas aos jovens monges que têm a pretensão de dirigirem outros sem antes terem sido discípulos. Cassiano escreve:

A maior parte do tempo, sem possuir a experiência do ensinamento dos anciãos, ousamos ocupar o primeiro lugar nos mosteiros e, nos fazendo passar por «Abba» antes de ter sido discípulos, estatuímos o que nos agrada – mais inclinados a exigir a observância de nossas invenções do que guardar a doutrina experimentada dos anciãos (Instituições II, 3, 5).

c) Um intercessor

O pai luta também com Deus para salvar seu filho espiritual. O Abade Sisoés lutava em sua oração, clamando: «Deus, se estás velando ou não, até que não o tenhas curado eu não te deixarei» (Sisoés 12). Com frequência a oração leva Deus a mudar de atitude, a exercer a misericórdia. Os santos chegavam a dizer isso com audácia. É a fé repleta de parrhésia, é essa atitude diante de Deus característica dos homens da Bíblia. Moisés, por sua intercessão, por sua insistência, obrigou Deus a usar de misericórdia, a perdoar Israel. Os Pais do deserto, de maneira lapidar, diziam que se alguém obedece, faz a vontade de Deus, entra nos pensamentos de Deus, chega a obrigar o próprio Deus a mudar seus pensamentos e seus desígnios e a obedecer. O pai reza mais do que fala; sua palavra deve ser um eco da Palavra de Deus e, para tanto, ele tem necessidade de rezar e de aprender a ver seu filho com os próprios olhos de Deus.

d) A arte da presença

Podemos afirmar que não é estudando que nos tornamos mestres e nem tampouco nos auto-proclamamos pai; nós nos tornamos pais e mestres quando o pedido de um outro faz emergir uma palavra gerada pela fidelidade à Escritura, a fidelidade à experiência vivida em sua própria carne, pela fidelidade à tradição recebida dos outros pais e mestres. Num certo sentido, é o discípulo quem faz nascer o mestre. Interrogar, a arte de saber fazer perguntas a si mesmo e aos outros, é considerada como indispensável pelos «Abbas» do deserto. Antão cita o preceito do Deuteronômio (32,7): «Interroga teu pai e ele te dirá» e aconselha o monge a «dizer confiante aos anciãos quantos passos dá ou quantas gotas de água bebe na cela, para se certificar de que, nessas práticas, ele não se confunde» (Antão 38); mas, além dessas palavras exageradas, que não devem certamente ser tomadas ao pé da letra, o pai-mestre não deve dar leis, mas tornar-se um ensinamento por sua vigilância e sua presença afetuosa.

Estando ao lado do discípulo no cotidiano, no trabalho, na oração, partilhando as alegrias e as dificuldades de cada dia, o mestre forma seu discípulo.

Um irmão interrogou o Abade Poimén, dizendo: «Há uns irmãos que moram comigo, queres que eu os comande?» O ancião lhe respondeu: «Não, mas faze antes o trabalho e, se eles quiserem viver, cuidarão de si mesmos». O irmão lhe disse: «Mas são eles mesmos, Pai, que desejam que eu os comande». O ancião lhe disse: «Não, torna-te um modelo para eles, não um legislador» (Poimén, 188).

A convicção de que a formação provém da frequentação do mestre e da partilha da vida, mais do que um ensinamento oral, é expressa num outro dito atribuído a Antão:

Três dos Pais costumavam ir ter todos os anos com o bem-aventurado Antão; dois deles interrogavam-no sobre pensamentos e salvação da alma, enquanto o terceiro guardava completo silêncio e nada perguntava. Depois de algum tempo, disse-lhe o Abade Antão: «Eis tanto tempo há que aqui vens e nada me perguntas». Ao que ele respondeu: «Basta-me ver-te, ó Pai» (Antão 27).

O mestre não recorre a livros nem profere discursos eloquentes, embora tenham chegado até nós, nas fontes, várias catequeses – basta somente pensar na Vida de Antão – e se tenham conservado cartas de teor espiritual, endereçadas pelos pais aos discípulos. Em geral, desconfiava-se da sabedoria mundana. A Arsênio, que na juventude vivera na corte de Constantinopla, talvez como preceptor do filho do imperador Teodósio, perguntaram:

«Abba Arsênio, como é que tu, que possuis tanta erudição romana e grega, interrogas este campônio a respeito dos teus pensamentos?» Disse-lhe Arsênio: «Possuo, sim, a erudição romana e grega; o alfabeto, porém, deste camponês, ainda não o aprendi» (Arsênio, 6).

O douto Arsênio reconhecia como seu mestre um simples fellah copta. Havia circulação de livros no deserto, sobretudo as Escrituras, mas também textos dos Pais. Entretanto, havia desconfiança quanto à acumulação de livros, considerados como uma riqueza subtraída aos pobres, e se enfatizava fortemente a prioridade da prática sobre o conhecimento teórico. Ao discípulo que lhe perguntara sobre o que havia feito com o seu pequeno evangelho, Serapião respondeu:

Decididamente, meu filho, por causa daquele que diariamente me dizia: Vende o que possuis e dá-o aos pobres (Mt 19,21), eu o vendi e o dei para ter mais confiança nele no dia do julgamento (Nau 566).

E àquele que se vangloriava por ter aprendido de cor o Antigo e o Novo Testamentos, um ancião respondeu: «Encheste o ar com palavras» (Nau 385). A coerência entre a palavra e a vida é a primeira exigência requerida dos mestres. Cassiano podia se louvar: «Nunca ensinei a alguém o que antes não tivesse praticado» (Cassiano 5).

Em que consistia o ensinamento? Antão, instado pelos irmãos a dizer «uma palavra de salvação», disse: «Escutastes a Escritura? Está bem para vós». Eles, porém, replicaram: «Também de ti queremos escutar alguma coisa, Pai» (Antão 19). A Escritura é a referência primeira e absoluta da vida do monge; e o recurso às grandes figuras bíblicas é constante: Abraão, José, Moisés, Davi, Elias ou outras personagens do Evangelho.

O mestre recorre a parábolas e a gestos concretos, até mesmo a situações bizarras, para ministrar seu ensinamento. É o caso de Bessarião que não deu propriamente uma catequese sobre a misericórdia, quando o presbítero da Cétia expulsou da igreja certo irmão que havia pecado, mas levantando-se, saiu com ele, dizendo: «Também eu sou pecador» (Bessarião, 7). João Curto, após ter participado de uma reunião dos irmãos, um tanto turbulenta, deu três voltas ao redor de sua cela; aos irmãos estupefatos, que lhe perguntaram porque assim fizera, respondeu: «Tinha os ouvidos cheios de discussão; por conseguinte, rodeei, a fim de purificá-los e assim entrar na cela com o espírito em paz» (João Curto, 25). José de Panefo se disfarçou de mendigo para ministrar seu ensinamento sobre a acolhida (José de Panefo, 1). Macário pediu a um irmão que insultasse os mortos no cemitério e, depois, os louvasse (Macário, 23).

São inúmeras as metáforas e as parábolas. Lembremos somente a do manto rasgado que voltou remendado a seu proprietário; o Abba que a contou, concluiu: «Se, portanto, tu poupas a tua veste, não poupará Deus a sua criatura?» (Miós, 3).

3. Outros mestres

Uma precisão terminológica para começar. Na literatura monástica antiga que pudemos estudar, raramente encontramos os termos «mestre» (didáskalos) e «ensinar» (didáskein). Na Vida de Antão, por exemplo, o termo «mestre» aplicado a Antão se encontra somente na seguinte passagem onde, depois de mencionado o desejo do santo de testemunhar sua fé pelo martírio, se diz:

O Senhor o guardava para o bem dos outros, para fazer dele, na ascese que aprendera nas Escrituras, mestre de grande número (Vida de Antão 46, 6).

Antão é definido, sobretudo, como um pai (patér: 7 vezes) ou um ancião (ghéron: 12 vezes), uma vez «médico» (iatrós). Também o verbo «ensinar» é pouco frequente (6 vezes); o mesmo quanto ao verbo «imitar» (mimeîsthai: 6 vezes). Na coleção sistemática grega dos Apftegmas, o termo «mestre» aparece somente quatro vezes. Note-se que, exceto uma única vez, fala-se sempre de «mestres», no plural. Isso me parece significativo, pois, em certo sentido, nós nunca encontramos na literatura monástica antiga um único mestre que forme um ou vários discípulos. O quadro é bastante complexo. No que concerne o monaquismo oriental não podemos, de fato, comparar rigorosamente a forma eremítica e a forma cenobítica; entre as duas havia uma multiplicidade de formas intermediárias, de associações de diversos «Abbas» sob formas variadas e não necessariamente ligados na perseverança com os mesmos companheiros. A escolha do pai espiritual ou do mestre era livre. Nas diversas narrativas de peregrinações aos lugares monásticos, vai-se à procura de vários mestres, e se, às vezes, fica-se um certo tempo na companhia de um determinado pai, entretanto, a função de mestre é atribuída a muitas outras pessoas. Nunca houve um mestre único, inclusive para Antão, cuja vida, «regra de vida monástica na forma de narrativa» (Gregório de Nazianzo, Discurso 21, 5), tornou-se um modelo para gerações de monges. Conta-se dele o seguinte:

Vivia então na aldeia vizinha um ancião que desde a juventude levava vida solitária. Antão o viu e rivalizou com ele no bem. Antes de tudo, começou, também ele, a habitar nos arredores da aldeia. De lá, quando ouvia falar de um zeloso, ia procurá-lo, como uma abelha diligente, e não retornava ao eremitério sem tê-lo visto; tendo recebido dele como que um viático, a fim de caminhar, para a virtude, voltava. ... Comportando-se assim, Antão era amado de todos. Submetia-se de bom grado aos zelosos (ascetas) que ia ver, e se instruía junto deles na virtude e na ascese próprias de cada um. Contemplava em um a amabilidade, em outro a assiduidade em orar; neste via a paciência, naquele a caridade para com o próximo; de um notava as vigílias, de outro a assiduidade à leitura, admirava a um pela constância, a outro pelos jejuns e pelo repouso na terra nua. Observava a mansidão de um e a grandeza de alma de outro; em todos notava, ao mesmo tempo, a devoção a Cristo e o amor mútuo. Assim satisfeito, voltava para o lugar onde se entregava à ascese, condensando e esforçando-se por exprimir em si mesmo as virtudes de todos (Vida de Antão, 3, 3; 4, 1).

Uma pluralidade de mestres e não necessariamente um mestre único. Não apenas isso; poderíamos afirmar que o verdadeiro mestre é a tradição monástica transmitida de Abba para Abba, revista num lugar e num tempo preciso por quem quer «entrar» na tradição monástica. Antão, antes de morrer, envia seu manto a Atanásio (Vida de Antão, 91) e a outra «pele de carneiro» a Serapião, quer dizer, ele transmite à Igreja a vida monástica na forma solitária daquele que é considerado como seu fundador. Porém, a seus discípulos deixa a túnica de crinas, a indumentária de quem se vestiu à imitação de João Batista, considerado o precursor da vida monástica por ter vivido no deserto sua espera daquele que vem, numa vida sóbria e austera. Essa pobre túnica de crinas é transmitida de discípulo para discípulo. Ela é recebida de outros e não improvisada para si.

Os mestres nem sempre estão à altura de sua tarefa. Não existe nos ditos nenhuma idealização do mestre ou do discípulo. Encontramos, às vezes, maus mestres ou maus discípulos, e mesmo maus mestres aliados a maus discípulos. Pode-se até chegar a querer procurar um ancião de acordo com sua vontade própria – «Procuraste bem, meu senhor!», comenta o pai a quem é manifestado um determinado pensamento (N 245) – como também pode-se recorrer a um pai-mestre sem discernimento, que afunda o discípulo no desespero, ao invés de conduzi-lo para a esperança e a fé em Deus (cf. N 217). Os maus pais são também aqueles que não se curam a si mesmos antes de pretenderem curar os outros. Abba Antão dizia:

Os antigos Pais partiram para o deserto e foram curados; tornaram-se médicos e, se debruçando sobre os outros, os curaram. Entretanto, nós, ao mesmo tempo em que saímos do mundo, antes de sermos curados, queremos cuidar dos outros e temos uma recaída, e o último estado é pior que o primeiro; e ouvimos o Senhor nos dizer: «Médico, cura-te antes a ti mesmo» (Lc 4,23) (N 603).

Mas, de qualquer maneira, ao lado do mestre e pai, por mais santo e bom que ele seja, há sempre outros mestres; parece-me que podemos distinguir pelo menos dois nas diversas coleções de ditos. O primeiro mestre é a própria realidade, as vicissitudes da vida, da qual podemos tirar lições, advertências, uma consolação. Esse tema é ilustrado pelas palavras do Bispo Teófilo a quem Amma Teodora havia pedido que explicasse o significado da expressão resgatando o tempo (Ef 5,16; Cl 4,5).

Este respondeu-lhe: «O Apóstolo indica o que se lucra. Assim: vives um tempo de injúrias? Resgata esse tempo de injúrias com a humildade e a paciência, e tira daí um lucro para ti. Vives um tempo de infâmia? Com a resignação resgata esse tempo e lucra-o. E assim tudo o que nos é adverso, se o queremos, se torna para nós um lucro» (Teodora 1).

A ofensa é mestra de humildade e de paciência; a injúria, de resignação; a falsa acusação, de resistência e de esperança. Em qualquer circunstância, feliz ou adversa, está escondido um mestre. Um outro precioso mestre, ou mais exatamente um médico, nos é mostrado por Zózimo, monge em Tiro, na Fenícia, que viveu entre o fim do século V e o início do século VI. Aquele que faz o mal, quem de uma maneira ou de outra faz sofrer, realiza uma obra de purificação, ensina a se libertar da preocupação de si mesmo, faz emergir nosso orgulho, nossos desejos de vingança, nossa incapacidade de perdoar e nos ensina a olhá-los defrente. Abba Zózimo dizia:

Se alguém concebe ressentimento contra aquele que o aflige, o prejudica, o calunia ou lhe faz qualquer mal, se trama pensamentos contra ele, provoca contra si mesmo uma cilada como o fariam os demônios. Que digo eu: ele trama? Se não se lembrar do outro como de um médico, pratica contra si mesmo a maior injustiça... Deves lembrar-te dele como de um médico que te foi enviado por Cristo (Conversações, 3).

continua no próximo número 104

Irmã Lisa Cremaschi
é monja da Comunidade de Bose (Itália)

Traduzido do francês por Dom Matias Fonseca de Medeiros, OSB