A CATEDRAL de Rodin
Uma Igreja local e a vida monástica

Dom Albert Rouet

Apoiando-se numa figura simbólica: «A Catedral», do escultor Auguste Rodin, Dom Rouet nos diz como ele compreende o lugar da vida monástica numa Igreja local.

Rouet1No começo deste ano, ao deixar Poitiers, onde fui bispo durante dezessete anos, permiti-me fazer uma confidência a meus diocesanos: «Vocês fizeram de mim um bispo feliz!» Dois colaboradores tomaram esta frase e deram-na como título a uma entrevista transformada em livro. As confidências são, às vezes, perigosas. Dentre as mais verdadeiras fontes de alegria estão em bom lugar as seis comunidades contemplativas que um pobre secular como eu nunca soube qualificar! Vida religiosa, vida consagrada, mosteiro, convento, priorado, abadia... e passo adiante! É também complicado designar uma comunidade, bem como reter as expressões de comunhão peculiares a cada uma. Portanto, renuncio. Contudo, há uma coisa que eu conservo: essas seis comunidades, a abadia de Ligugé, que nos acolhe, a abadia beneditina de Sainte-Croix, as beneditinas do Calvário, os dois carmelos de Migné-Auxances e de Niort e o mosteiro das Agostinianas do Santíssimo Sacramento (que partiram), essas seis comunidades foram irmãos e irmãs autênticos durante todo o meu ministério aqui e para a diocese inteira. Minha presença entre vós é motivada por uma imensa gratidão. Permiti-me exprimi-la publicamente com a confiança que nos manteve unidos e com grande alegria.

Fui convidado para vos dizer como vejo o lugar dos mosteiros na Igreja local. Contentar-me-ei, com o vosso consentimento, em refletir sobre alguns pontos que me chamaram a atenção durante meus vinte e cinco anos de episcopado. Como eles estão interligados uns aos outros, vou agrupá-los um pouco artificialmente em torno de dois temas principais. O primeiro diz respeito à natureza da Igreja à qual pertence a vida religiosa. O segundo abordará o significado dos mosteiros para a vida das comunidades cristãs. Para me limitar ao assunto proposto, não tratarei da vida religiosa apostólica, exceto num aspecto sobre o qual falarei de imediato.

Os mapas religiosos mostram bispados e paróquias, decanatos e comunidades locais, com uma diversidade, segundo as dioceses, de nomenclaturas e classificações que fariam desesperar qualquer geógrafo. Entretanto, há um outro mapa onde constam comunidades de três ou quatro religiosas vivendo em apartamentos populares, morando em lugares do interior ou no centro das periferias, com diferentes modelos de presença evangélica e de relações fraternas, humildes e ativas. Esse mapa retraça uma fisionomia da Igreja próxima dos pobres, dos estrangeiros e dos esquecidos. Ela é essencial para o Evangelho e, mesmo não tendo uma estrutura institucional definida, assegura uma presença apostólica.

Justamente, para começar, falemos de instituições. Não exatamente do ponto de vista canônico, mas de maneira existencial.

1 – O espaço vazio entre as duas mãos da Igreja

Pouco depois de minha chegada a Poitiers, o Abade de Ligugé, fiel aos pedidos do Cardeal Pie[1] por ocasião da restauração da abadia[2], comunicou-me que a comunidade deveria disponibilizar dois monges sacerdotes para o serviço da diocese. Eu me lembro de ter-lhe respondido serem tantas as urgências que não era só questão de dois padres a mais; o que a diocese tinha realmente necessidade era de monges que vivessem sua vocação específica. Por que respondi assim?

Entre as responsabilidades que me foram confiadas como bispo auxiliar de Paris, eu devia me ocupar dos religiosos e religiosas. As celebrações litúrgicas previstas para as ordenações de diáconos e padres assim como para as profissões religiosas, fizeram-me descobrir o que deveríamos, por analogia, denominar «concelebrações». O chamado às ordens ou à profissão, a promessa de obediência, o engajamento numa Congregação, competem ao Superior maior. Mas, a imposição das mãos ou a bênção competem ao bispo. Entretanto, este não faz tudo. Por outras palavras, a estrutura hierárquica sacramental não esgota a totalidade da Igreja. Nenhuma realidade exprime tudo o que a Igreja é. Parafraseando um escrito paulino, ela comporta os apóstolos, os profetas, os evangelistas, os pastores e os doutores para organizá-la (Ef 4,11-12), mas essas estruturas, por mais essenciais que sejam, deixam inteiros seu conteúdo, seu centro e seu funcionamento, donde, na mesma epístola, a referência à realidade do matrimônio como forma do mistério: «É grande este mistério: refiro-me à relação entre Cristo e sua Igreja» (Ef 5,32).

RodinEsse mistério de amor entre Cristo e sua própria carne, seu Corpo (Ef 5,28-29), diz respeito a todos os membros da Igreja. Não existe, de um lado, o aspecto estrutural, a instituição, e de outro, os contemplativos e os monges. Mas, trata-se de «mistério», portanto, de sacramento. Ao mesmo tempo, a unidade desse mistério deve ser colocada em Cristo e na pluralidade dos sinais que o tornam visível e eficaz para a vida do corpo. Na escultura de Rodin[3], «A catedral», as duas mãos que formam a ogiva são duas mãos direitas. É preciso duas pessoas para figurá-la. Vede sua pertinência para nossa reflexão. A união dos cristãos vivendo no mundo e os consagrados por um compromisso religioso encontram-se magnificamente representados nessa escultura.

Exceto que essas duas mãos não se tocam. Não estão juntas. Elas como que formam um casulo, um ninho, uma arca da aliança, mantendo ao centro um espaço vazio. Um largo espaço as mantém afastadas. União e separação estão juntas. As duas mãos não se encaixam nem cruzam os dedos. Mantêm aberto um espaço, como o que separa o dedo de Deus do dedo de Adão na «Criação do homem», de Michelangelo; ou ainda como o espaço que separava as duas pontas das asas dos Querubins sobre a Arca da Aliança, onde Deus fez repousar sua presença, sua Shekina. Os esposos, no Cântico dos Cânticos, estão sempre à procura um do outro.

Assim sendo, os dois modelos de vida cristã se unem para conter, no coração que eles parecem estar desenhando, uma abertura, abertura de um Deus que nada possui e que ninguém pode conter: «Não me retenhas», disse Cristo Ressuscitado a Maria Madalena quando ela quis abraçá-lo (Jo 20,17). Nós todos aqui conhecemos bem os elementos da eclesiologia que fazem a distinção entre a estrutura sacramental e as vocações pessoais, entre a organização territorial das dioceses e as isenções de que os mosteiros são beneficiários. Mas esse funcionamento não diz tudo. Com efeito, uma organização, por mais razão de ser que ela tenha, permanece – e essa é a palavra exata – uma instituição cujos risco e tentação consistem em se imaginar como englobando o conjunto da realidade que lhe diz respeito. Ora, isso não existe, inclusive no seio da Igreja, pois é preciso, no próprio âmago de sua vida, fender e abrir esse elemento de sua dimensão institucional para que ele seja atravessado por um sopro imprevisível (cf. Jo 3,8). A Igreja precisa de um espaço vazio. Sim, de um espaço vazio para experimentar a alegre leveza da graça[4], a viva soberania de um Deus que «os céus e os céus dos céus não podem conter» (1Rs 8,27).

A leveza da graça: uma diocese é um grande edifício que precisa de um vasto espaço para realizar sua missão. Ela possui suas estruturas, suas orientações, suas múltiplas problemáticas. Um semelhante entrelaçamento onde muitas coisas são feitas para Deus, desde as mais puras, como as celebrações e o anúncio do Evangelho, até as mais terrestres, como as finanças e o gerenciamento dos bens, pode esquecer Deus enquanto tal, em si mesmo. Pois, podemos fazer as coisas de Deus e nada fazer para o próprio Deus. Uma diocese tem uma imperiosa necessidade de gratuidade entre suas muitas obrigações, necessidade de leveza em meio a muita sobrecarga. Ela precisa respirar tão somente Deus, procurá-lo e se deixar encontrar pela graciosa gratuidade da graça, quaisquer que sejam os sucessos ou os fracassos – palavras que não são evangélicas. Devemos, portanto, nos lembrar do único necessário (cf. Lc 10,42).

É esse o recado que as comunidades monásticas mandam para uma diocese. Elas não servem para nada, pensam alguns que ainda se espantam por encontrar nos mosteiros tantos padres sem paróquias. Essa aparente inutilidade é mais do que necessária: ela faz respirar. Era isso o que eu esperava dos mosteiros do Poitou[5]. Gostaria agora de discorrer concretamente sobre a relevância deles.

2 – Uma brisa suave

A expressão é tirada da passagem da vida de Elias quando, perseguido e desanimado, ele chega ao Horeb onde Deus o aguarda (cf. 1Rs 19,12). Perdoai-me se começo com uma confissão que pode até parecer divertida! Para saber quais são as últimas novidades da diocese, o mais simples é ir a um mosteiro. Ora são os detalhes minuciosos dos regulamentos e costumes, ora é a excentricidade incompreensível de um irmão ou de uma irmã... todos esses detalhes, além de assuntos mais sérios e bem mais complicados, dão um ar de família onde nos sentimos à vontade! 

Rouet2Falando mais seriamente (será que estou faltando com a seriedade?), a vida monástica possui virtudes que o povo cristão teria interesse em se beneficiar. Não mencionarei aqui as mais faladas: a oração, a meditação, o silêncio, a paz dos lugares, etc. Sem dúvida, são coisas muito importantes, mas que, por serem óbvias, acabam se assemelhando a museus de curiosidades que as pessoas gostam de visitar nas férias. Minha atenção irá deter-se em outros aspectos: a vida em comunidade, o confronto com Deus e a pobreza.

A vida em comunidade: os cristãos leigos estão habituados com assembleias e encontros, reuniões e peregrinações. Essas concentrações são motivadas por um tema específico ou por uma programação. Elas se realizam sob a autoridade de um pároco, de um líder ou de um animador. Tudo isso, entretanto, não forma uma comunidade, mesmo se abusamos da palavra. Uma paróquia é inevitavelmente colorida por matizes e sensibilidades que, mesmo não sendo majoritárias, lhe dão a tônica. Se alguém não está de acordo, ele ou ela pode sair e é livre de fazê-lo. Uma cidade, mesmo pequena, inclui sempre uma centena de «borboletas» prestes a sugar as últimas flores desabrochadas, sem imaginar um instante suas responsabilidades locais. Ela se deixa levar pelo sentimento. Um exemplo tomado ao acaso: quando surge um conflito entre o organista e a equipe de liturgia, o pastor intervém. Às vezes, até mesmo antes, ele já resolve o conflito. As relações horizontais entre irmãos (quando eles se conhecem) se reduzem às relações amigáveis, aos conhecimentos e às velhas inimizades! Por outras palavras, a maioria dos cristãos leigos nunca aprendeu a viver em comunidade, ou seja, em reciprocidade. É isso que provoca apetites de poder, mesmo a título de prestar serviço, ainda mais ácidos quando escondidos, sem mediação e, por vezes, inconscientes. A diocese logo se deu conta disso criando comunidades locais.

Ora, vós estais condenados a viver em comunidade. Senão o mosteiro explode. Para tanto, desenvolvestes procedimentos que criam a fraternidade. Primeiro, as eleições. Votar para constituir a equipe de animação das comunidades locais foi uma novidade para os cristãos leigos e alguns padres. O exemplo dos mosteiros que elegem seu Abade, seu Prior, sua Prioresa, os conselheiros, o fato de um Abade não ser de direito divino, mas ter o dever de ouvir o parecer do seu capítulo, numa palavra, o poder regulamentado pelas regras, quantas coisas das quais os cristãos estavam bastante longe. Tais procedimentos conferem a cada um seu reconhecimento e suas responsabilidades. Questão de dignidade.

Vós cultivais com apreço a vida fraterna, sempre a construir, pelo lugar dado ao menor dentre vós. Isso é profundamente evangélico, pois Deus olha muito além das qualidades humanas. Essa fraternidade se manifesta igualmente pela acolhida dos hóspedes, mesmo aqueles que estão passando por situações difíceis e suscetíveis de críticas. Sempre encontrei nos mosteiros da diocese, com relação a casos penosos, uma hospitalidade sem concessão, mas cheia de esperança. Homens e mulheres puderam neles aprender a carregar suas faltas e assumi-las e, por conseguinte, descobrir que eram superiores a elas. «Deus é maior que o nosso coração» (1Jo 3,20).

Não gostaria de esquecer o trabalho. É ele que sustenta a vida da comunidade sem esmagar o operário. Ele humaniza sem sujeitar, na medida do necessário e não na do rendimento. Isso é uma grande lição para hoje.

O confronto com Deus: não é simples viver na companhia de Deus. A liturgia é bela e nos atrai. Nela cantamos e nos movemos. Mas o silêncio, esse grande silêncio de Deus, esse interminável deserto com seus frutos salgados ou secos, seus ventos de areia... Por alguns minutos de consolo, quantos tormentos antes de conquistar a paz, uma paz que eu entendo como a paz dos corações e não a tranquilidade do lugar!

Eu recearia que nossa época acredite ser fácil ter acesso a Deus e que seja suficiente apenas cantar aleluias. Aqui também ideias simplistas confundem o espírito. Que uma espécie de telefone vermelho dê acesso direto a um Deus imediatamente disponível. A vida espiritual se tornaria então uma familiaridade fácil com uma divindade adorável: chegamos finalmente a envolvê-la e conhecer de maneira expeditiva suas últimas vontades. Uma miragem emocional tomaria conta dos fiéis e os saciaria de certezas. Infelizmente, não estou gracejando nem exagerando os traços. Essas tendências satisfarão, em pouco tempo, os fundamentalistas sectários mais estreitos: só irão subsistir o rigor, os costumes e os ritos. É algo que satisfaz os corações amedrontados. A dimensão mística se evapora nesses modelos super-aquecidos.

O povo cristão que quer permanecer fiel percebe esses excessos e essas emoções. Com boa vontade, acredita honestamente. Ignora os êxodos onde, por vezes, se encontra aquele que, indo adiante, o atrai um pouco mais para longe. Há muitos guias, mas pouco horizonte. A vida espiritual se alimenta de fórmulas. Podemos supor uma razão histórica para isso: resquícios de um jansenismo envelhecido a insistir sobre uma ética rígida e práticas obrigatórias, confundidas com vestígios de Iluminismo, nos quais um Deus anônimo governa a história. Muitos fiéis são mais deístas que cristãos. Aí está o desabamento dessa construção a que estamos assistindo. A procura de Deus e o seguimento de Cristo são menos empenhativos que a conformidade a normas exteriores. Partindo disso, podemos compreender o desejo que muitos têm de reencontrar uma verdadeira vida espiritual. Em minha opinião, é este o maior problema de nossa situação eclesial. As respostas imediatas seduzem; mas ninguém garante que elas se enraízem no mais profundo dos corações.

A vida monástica, por sua ruptura com a vida ordinária, se posiciona diretamente em face de Deus para viver do desejo de encontrá-lo. Ela coloca a fé adiante, como perante um dom exigente, uma constante purificação do coração para recebê-lo e dar seus frutos. Nesse aspecto ela manifesta o desdobramento da vida batismal no fiel. O monge se abandona em sinal da doação de si nas mãos de Deus. O celibato, privando-o de descendência, o confronta com a morte para indicar que Deus é a fonte de vida inesgotável.

O povo cristão precisa desse testemunho. Melhor ainda, pois um testemunho pode às vezes tornar-se apenas uma bela imagem que faz sonhar e mostrar somente o aspecto exterior. Esse povo deve acolher, em seu íntimo, a atração de Deus (cf. Jo 6,44). A atração exercida por Cristo provoca o coração para um deslocamento, um êxodo. No decurso dessa caminhada são purificadas as representações de Deus, o aprendizado da entrega de si em suas mãos, por mais duras que sejam suas etapas. Por isso, a diocese organizava regularmente dias de formação espiritual nos mosteiros para os responsáveis das Comunidades locais, que acudiam com presteza. Efetivamente, os verdadeiros requisitos da formação não dizem respeito às técnicas de catequese ou de animação, mas, sim, à vida espiritual. Que respostas dar a essas questões: «Eu sou um agente de pastoral e meus filhos riem de mim». «Eu não entendo como a leitura da Palavra de Deus pode alimentar minha fé». «Eu sou catequista e não vejo nenhum resultado»... As respostas são de ordem espiritual.

Pobreza: viver de amor e de água fresca é uma utopia que não vai muito longe. A existência humana requer o gerenciamento de meios que lhe permitam durabilidade. Nossa sociedade não sofre de consumismo. É um diagnóstico facílimo! Ela está bem mais gravemente atingida por uma doença que se chama saturação. Tudo é disponível: portanto, algumas pessoas adquirem o que querem, enquanto outras consideram que por serem mais pobres falta-lhes até o indispensável e não podem obter o que lhes é oferecido. Semelhante contradição marca violentamente a nossa época. Assim sendo, o que está em jogo é o justo gerenciamento do consumismo, pois tanto a riqueza quanto a miséria ferem o ser humano. Os ricos esperam que a religião caucione a ordem que lhes é favorável, donde provém o seu conservadorismo. Os outros gostariam de encontrar uma Igreja que estivesse no nível deles. O orçamento de uma diocese, por mais exíguo e insuficiente que seja, não está na medida comum das pessoas. O orçamento da diocese de Poitiers equivale ao de uma cidade de 5.000 habitantes, de um colégio de 600 alunos ou de um time de futebol de uma cidade mediana. Na opinião corrente, a pobreza é algo de individual. Sob esse aspecto, a vida do monge é significativa.

A partilha de bens, o valor dado a cada coisa (desde um prato a uma estátua quebrada) transpõem a posse pessoal dos objetos para a utilidade que eles representam. Os objetos adquirem uma certa dignidade devido à utilidade que têm. Essa transposição se refere à beleza. A beleza, longe de ser lucrativa, escapa à comercialização, portanto à especulação. Quero dizer que a beleza, embora o comércio de obras de arte reivindique suas manifestações, não depende de sua estimativa comercial tão variável. Pobreza e beleza, o objeto em sua nudez, caminham juntas como justiça e paz. É também o que vêm procurar num mosteiro as pessoas que aspiram à liberdade com relação ao haver. Uma outra dimensão do elemento humano, uma fome que duzentos denários não podem esgotar, mas que alimentam a partilha (cf. Mc 6,35-44).

Cada um sabe bem o que deve plantar, comer e construir (cf. Lc 17,28). Cada um deseja igualmente encontrar esse espaço, esse impulso, nos quais o humano se revela maior que um universo de coisas. Cada um está dividido entre sua obrigação de ganhar o pão e produzir objetos que, quando bem utilizados, tornam o mundo mais humano («Fazer e, fazendo, fazer-se a se próprio», escrevia Jules Laquier) e o levam a desejar uma «vida do espírito» que é evidência dessa humanidade.

Uma tal fragmentação aponta para um objetivo que está ligado ao monaquismo, desde suas origens: a escatologia. Gostaria simplesmente de citar aqui uma frase de São Serapião de Thmuis: «Vós que viveis em comunidade, vós também antecipais o futuro de vosso desejo»[6].

Antecipação: Concluirei com uma palavra. Não se trata aqui nem de previsões metereológicas ou financeiras, tampouco de orientações sobre o futuro. Assim como a origem, qual uma fonte, se distingue do começo cronológico, a antecipação se distingue da previsão. Onde a previsão calcula e planeja, a antecipação já vive, saboreia e anuncia (cf. Ef 1,12). A relação do monge com o batismo não se exprime num sentido de «mais» (mais pobre, mais obediente, mais retirado...), como algo que outros cristãos leigos menos favorecidos não pudessem viver. Ela se fundamenta numa esperança, numa vida futura, mas já atual, a vida do Reino. Por conseguinte, numa liberdade interior. Aliás, este sinal diz respeito tanto à Igreja, que é sacramento desse Reino, quanto ao mundo onde o Espírito está agindo e nos direcionando para esse mesmo Reino. A antecipação coloca a vida monástica na articulação das duas mãos. Pois, essas duas mãos que, por suas palmas, formam um ninho, um jardim fechado, por seu dorso estão voltadas para o exterior. O mundo se apoia nelas. O dorso das mãos oferece um apoio. A palma se fecha, o dorso se expõe. Assim, a mão é lida do interior para o exterior.

Uma diocese e um mosteiro se apoiam no mundo de seu tempo. O mundo, vendo essas mãos erguidas, das quais percebe apenas o dorso, à semelhança de Moisés por trás de Deus (cf. Ex 33,23), talvez deixe nele nascer o desejo de descobrir o espaço vazio, disponível, que as palmas abertas cobrem com suas asas (cf. Gn 1,2). É aqui que se estabelece a mais forte solidariedade entre uma diocese e um mosteiro. As duas instâncias evangelizam, ambas rezam e trabalham. Mas, nas rupturas consentidas para com a vida de cada dia, por sua procura comum de Deus que está sempre adiante, por essa pobreza que desposa a beleza, parece-me que um mosteiro se obriga a aprofundar em si a presença do Reino, essa terra nova da paz. Foi esta antecipação que eu esperei de cada um dos mosteiros da diocese.

Dom Albert Jean-Marie Rouet
é Arcebispo emérito de Poitiers (França)

Traduzido do francês por Dom Matias Fonseca de Medeiros, OSB

[1] Louis-Édouard-François-Désiré Pie (26.9.1815 - 18.5.1880), Cardeal-Bispo de Poitiers.
[2] Em novembro de 1853, monges provenientes da Abadia de Solesmes restauraram a vida monástica em Ligugé, supressa pela Revolução Francesa em 1793.
[3] Auguste Rodin (1840 – 1917), um dos maiores escultores franceses da segunda metade do século XIX, considerado um dos fundadores da escultura moderna.
[4] Esse espaço vazio é também o mesmo que Simone Weil afirmou ser preciso criar em si mesmo para que seja tanto um chamado de Deus como um sopro de ar (A Sobrecarga e a Graça, evidentemente).
[5] Poitou: região administrativa da França, localizada no centro-oeste do país, cuja capital é Poitiers.
[6] SÃO SERAPIÃO: Carta aos monges, 7, em Lettres des Pères du Désert, Abbaye de Bellefontaine, Spiritualité Orientale 42, 1985, p. 137-138