São Martinho: um grande europeu

Homilia pronunciada em Ligugé, a 11 de novembro de 2011,
por ocasião da celebração do Jubileu de Ouro da AIM
Dom Notker Wolf, OSB

homelieSão Martinho é uma das personagens mais fascinantes da transição entre a antiguidade pagã e a Idade Média cristã.

A história de sua vida, por si só, já é surpreendente: com 15 anos torna-se soldado, aos 18 é batizado; faz-se discípulo do grande doutor da Igreja, Santo Hilário de Poitiers, em seguida, missionário; faz-se eremita durante um breve período, aos quarenta e cinco anos funda o mosteiro onde estamos e aos cinquenta e cinco anos é nomeado bispo de Tours, onde funda ainda um mosteiro, Marmoutier, que teria um importante significado para o monaquismo ocidental.

1- São Martinho foi um dos primeiros «europeus». Nascido na Panônia, atual Hungria, foi educado em Pavia, na Itália; tornou-se militar na França, foi batizado em Worms, às margens do Reno, exerceu sua atividade em Poitiers e abriu para Cristo a Ilíria, a Dalmácia e a Eslovênia atuais. Seu principal centro de atividade tornou-se, enfim, a diocese de Tours.

Mais tarde, houve ainda um grande «europeu» idêntico, Santo Anselmo, padroeiro de nossa escola beneditina em Roma: nascido no Piemonte e educado na Borgonha, ingressou no mosteiro do Bec, na Normandia, do qual foi eleito Abade, e morreu como Arcebispo de Cantuária. Este outro «europeu» se distinguia de São Martinho pelo fato de poder se deslocar num Ocidente já cristianizado e marcado pelo Evangelho, enquanto São Martinho e seus monges foram os primeiros a preparar o terreno para tanto.

Caros irmãos e irmãs! Se estou pondo em evidência essa particularidade, é para reconhecermos o patrimônio cristão e europeu no qual estamos inseridos; a fim de tornarmos novamente possível o que existiu na Idade Média graças à cultura cristã comum. Tratava-se de europeus que não apenas tiravam proveito da unidade econômica e política, mas moldaram, eles próprios, a cultura europeia fundamentada na Antiguidade greco-romana e na fé cristã.

É incrível o que São Martinho tomou sobre si por causa de Jesus Cristo. Imaginemos todas as viagens realizadas com os meios de circulação daquela época. Na verdade, os romanos haviam construído estradas que sulcavam a Europa inteira. Tinham estabelecido locais para a troca de cavalos em cada cidade, mais ou menos a cada 40 quilômetros um do outro. Contudo, não havia nenhum sistema de segurança como atualmente. Os perigos espreitavam por toda parte e as taxas de alfândega a serem pagas eram caras. Com certeza, o fato de ter servido como soldado durante quinze anos foi muito útil para São Martinho. Ele sabia como se desembaraçar nas dificuldades e se defender.

São Martinho foi um desbravador, além de possuidor de uma energia formidável. Como jovem soldado, foi adestrado na mais severa disciplina. Os romanos não eram muito condescendentes com seus soldados. Com gente fraca eles não poderiam avançar em suas conquistas nem proteger suas fronteiras. Precisavam de homens resistentes, corajosos, decididos; mais ainda, que fossem treinados numa disciplina comum e dessem provas do mais alto nível de solidariedade uns para com os outros.

Deus estava olhando, evidentemente, para um personagem assim. Para o trabalho missionário, para a edificação de sua Igreja na Europa e para a fundação de mosteiros, Deus precisava de um homem enérgico e de temperamento bastante firme. São Martinho nos lembra São Paulo. Ele também era dotado daquele temperamento desejado por Deus para proclamar a Boa Nova a Israel e à Samaria e conseguir se impor nas regiões do Mediterrâneo, alguém que não tivesse receio algum em face do perigo e fosse capaz de resistir.

Jesus não o deixou escapar, mas o escolheu como seu instrumento especial. Deus quer que os homens sejam salvos, que todos saibam que o caminho para a felicidade e a paz passa tão somente através da oferta de sua salvação. Por isso ele enviou seu Filho ao mundo, para dar a própria vida pelo mundo como sinal do amor misericordioso de Deus. Deus foi até o fim; ele quer que este amor se torne conhecido e acolhido no mundo inteiro e em todos os tempos. Ele não quer se servir de nenhum «pato manco» para este anúncio, mas procura homens e mulheres corajosos que, também em nossa sociedade, assumam fato e causa em prol da veracidade e da dedicação desinteressada para com os outros homens e deem testemunho disso com a própria vida.

Nossa Europa secularizada atual tem necessidade de homens e mulheres dessa verve, que construam sobre esta herança, tornando-se para o nosso continente instrumentos de uma unidade espiritual renovada.

2- São Martinho é conhecido de muitos por ter repartido com um mendigo sua capa de soldado, como narra sua biografia. Esta generosidade e magnanimidade o conduziram ao batismo. Na primeira Carta de São João lemos o seguinte: «Quem age como Deus, conhece a Deus». Por ter sido tão generoso, São Martinho pôde conhecer a Cristo, o amor de Deus que se fez homem e pedir o batismo. Esse Cristo o havia fascinado e não o deixou mais escapar. Era para ele o novo «senhor de guerra» a quem queria servir, um Senhor que não subjugava mais os povos, porém os conduzia juntos para a paz, um Senhor que não reduzia mais à escravidão, mas guiava para a liberdade.

messeDuzentos anos mais tarde, São Bento irá igualmente falar, em sua Regra, do serviço militar, não mais para o rei-imperador romano, mas para Cristo, o verdadeiro Senhor e Rei, domino Christo vero Regi militaturus. Trata-se de nada absolutamente preferir a Cristo. Foi este o compromisso de São Martinho, na mais verdadeira acepção do termo. Ele percorria o país para anunciar a fé, mas também para, como monge, seguir pessoalmente a Cristo. Ele confirmou sua pregação por meio do que ouvimos no evangelho de hoje: cuidando dos doentes e dos prisioneiros, dos pobres e dos necessitados.

Agora, não devemos necessariamente deixar o mosteiro para fazer jus às instruções de Jesus. Trata-se de realizá-las em primeiro lugar no ambiente da própria comunidade. São Bento se refere a essa passagem do evangelho quando fala do modo como se deve cuidar dos irmãos doentes, receber os hóspedes como ao próprio Cristo, sobretudo nos pobres e peregrinos, guardar na rouparia as roupas usadas para os pobres e, mormente, o amor com que o porteiro deve se desvelar para com as pessoas que batem à porta. Servir os pobres, vestir os nus, visitar os doentes constam entre as boas obras da Regra de São Bento (RB 4, 14-16).

3- O que precisamos em nosso tempo é de pioneiros, de beneditinos e beneditinas de visão. Tomemos como modelos um Dom Guéranger , um P. Muard , os irmãos Wolter , de Beuron, ou mesmo Boniface Wimmer  e Andreas Amrhein , homens inspirados e entusiasmados por Cristo que queriam realizar alguma coisa de sua mensagem e sua missão.

Nós também conhecemos homens e mulheres que, em tempos mais recentes, realizaram novas fundações na África, na Ásia, na Austrália, na Oceania e na América Latina ao longo dos últimos cinquenta últimos anos. Eles queriam dar a riqueza do monaquismo às suas respectivas Igrejas locais, mesmo enfrentando dificuldades ou de maneira modesta. Foram apoiados por mosteiros e benfeitores na Europa e nos Estados Unidos. A AIM foi fundada há cinquenta anos para coordenar esta ajuda. A todos, sobretudo ao Secretariado de Paris, dirigimos nosso mais sincero reconhecimento. Não somos uma organização poderosa, no sentido do mundo, mas eficaz, no sentido do Evangelho.

Iremos continuar nossa caminhada. Contudo, ela só logrará êxito se surgirem novamente pioneiros, homens e mulheres dotados de coragem e de imaginação. Eles e elas são necessários não somente para as novas fundações, mas também para a renovação sempre necessária de nossas comunidades. Não apenas a Igreja deve sempre ser reformada – Ecclesia semper reformanda – mas também nossos mosteiros, para que a vida continue a ser protegida e cresça sempre mais. O mesmo ocorre com a mensagem de Jesus, com a realização da salvação dos homens. Possam a «bondade e a humanidade» permanecer visíveis no meio de nós, sobretudo em e através de nossas comunidades monásticas.

Dom Notker Wolf, OSB,
é Abade Primaz da Confederação Beneditina

Traduzido do francês por Dom Matias Fonseca de Medeiros, OSB