Vida fraterna no Mosteiro da Bonne Nouvelle

Madre Paul Galland, OSB

MerePaulComo vivemos a vida fraterna em nossa comunidade? Provavelmente, com as mesmas dificuldades e alegrias que as outras comunidades beneditinas ao redor do mundo! Entretanto, tentar responder a essa pergunta permitiu-nos tomar consciência do belo quotidiano que Deus nos oferece para viver e agradecermos o comitê de redação do Boletim da AIM pelo pedido feito.

«Nossa casa» é o Mosteiro da Bonne Nouvelle (Boa Nova), em Bouaké, na Costa do Marfim, fundado há quase 50 anos pela Abadia de Pradines, na França. Somos cerca de 20 Irmãs, de 30 a 78 anos, de cinco nacionalidades diferentes (Costa do Marfim, Benin, Congo, Burkina Faso e França). Entre as Irmãs da Costa do Marfim, ao menos 7 etnias são representadas; uma linda diversidade, com uma língua comum, o francês, exceto na liturgia onde os cantos em diversas línguas são frequentes para a Eucaristia.

A história da Costa do Marfim nesses últimos 10 anos tem tido repercussão sobre nossa vida fraterna: os acontecimentos nos tornaram ao mesmo tempo mais unidas; maltrataram-nos, provocaram-nos, fragilizaram-nos e, finalmente, assim o esperamos, fortificaram-nos. Damos graças a Deus por tudo aquilo que Ele nos permitiu viver juntas.

A – O primeiro elemento à pergunta proposta diz respeito à relação da comunidade com nossas famílias.

Trata-se da importância da justa relação com a família para uma justa e verdadeira relação fraterna na comunidade. Nós conhecemos nossas respectivas famílias: na primeira visita da família, todas nós geralmente vamos saudá-la; na reunião da tarde, em comunidade, partilhamos normalmente as notícias familiares importantes; no falecimento dos pais, a irmã enlutada é sempre acompanhada por algumas irmãs. Às vezes, juntas, procuramos e ajudamos alguma irmã a discernir como viver, em tal e tal circunstância, a solidariedade familiar necessária. De fato, nós assumimos muito as responsabilidades dos cuidados familiares, quer afetiva quer espiritualmente e, às vezes, isso não se realiza sem dificuldade.

As etapas do encaminhamento monástico são também momentos fortes de nossa vida fraterna: o «sim» da profissão é dado pela jovem diante de toda a comunidade que responde com um beijo da paz e um canto; para viver seus últimos anos de votos temporários a jovem professa deixa o noviciado, ladeada por suas jovens irmãs que trazem seus pertences e ela é acolhida em um «cruzamento estratégico» por suas irmãs mais antigas da comunidade e tudo isso envolvido por cantos e danças; na véspera de sua profissão perpétua, ela é convidada a ir ao Capítulo das professas solenes e cada uma lhe oferece uma palavra para o caminho; é um momento muito lindo.     Na noite da sua profissão, ela é acompanhada com cantos apropriados à sua cela onde são colocados presentes e cartas.

BouakeNós comemoramos também os aniversários de profissão (temporária ou perpétua segundo o desejo de cada uma): a irmã canta no Capítulo o «Suscipe», retomado por todas e seguido de uma prece pelas vocações. Durante o dia ela encontra, por onde passa, flores ou outros pequenos sinais de afeição.

Na vida cotidiana, tentamos manifestar nossa afeição fraterna, fortificá-la ou repará-la! Há ainda certamente o onomástico de cada irmã: no recreio da véspera, ela é abraçada na alegria com cantos e flores; em seu lugar no refeitório, ela encontra flores e um pequeno «acréscimo», oferecido pela ecônoma que a festejada, aliás, se apressa em partilhar.

Tentamos também não deixar de pedir perdão e de agradecer: os pedidos de perdão (além daqueles que são feitos entre duas irmãs) e a acusação das culpas podem ser feitas em cada reunião da noite; os agradecimentos, desejamos que sejam feitos publicamente e reservados para o domingo à noite. Um pedido de perdão particularmente forte é o da Quinta-Feira Santa, após o comentário do Evangelho pela Prioresa, e depois o Lava-Pés de cada uma. Aos sairmos desse pedido de perdão, o clima comunitário torna-se outro, leve, aberto, arejado, cheio de benevolência. E abre-se uma linda estrada para as celebrações pascais.

Procuramos também estar particularmente atentas às irmãs ausentes: elas são frequentemente mencionadas nas preces, o telefone permite muitas vezes contatá-las. Ao voltar, cada uma encontra sua cela limpa e florida, mesmo se a ausência não foi longa. Nós nos esforçamos para melhor atualizá-la após sua volta e permitir-lhe facilmente reintegrar-se ao cotidiano.

Seria bom também falarmos de nosso trabalho como lugar de vida fraterna, mas seria longo demais para este artigo. Notemos simplesmente: o trabalho numeroso para nosso pequeno número de irmãs, as numerosas solicitações do exterior, em particular os pedidos de ajuda oriundos de uma pequena comissão de ajuda mútua, tudo isso obriga cotidianamente a trocar ideias, a nos ajudarmos mutuamente. E diante de um aumento de trabalho, diante de um imprevisto que transtorna o programa, é sempre uma alegria passar do «como faremos isso?» um pouco assustado, à ação de graças da «irmã ajudada por sua irmã!».

Uma palavra referente à hospedaria, onde se poderia dizer, transborda a vida fraterna da comunidade. Nossas construções favorecem certa proximidade com os hóspedes, com as vantagens e os inconvenientes daí decorrentes. Nossos hóspedes dizem sentir-se verdadeiramente acolhidos pela comunidade e, ao mesmo tempo, certo estilo de relações se estabelece facilmente entre os hóspedes.

B – Na segunda parte deste artigo, gostaríamos de evocar rapidamente o indispensável húmus que nutre esta vida fraterna tão forte e ao mesmo tempo tão frágil.

Primeiramente, a prece litúrgica cotidiana, essa volta ao «coro» que dá ritmo a nossos dias – a Eucaristia e o Ofício – que é um retorno ao «coração» da cada uma, da comunidade, retorno ao «coração» de Deus, de Jesus Cristo, onde haurimos amor, perdão, respeito, missão. A fonte vivificante de nossa vida fraterna está sempre aqui.

Notamos também que nossa comunidade, sem ter procurado, recebe regularmente «Irmãs de outros lugares», de outras comunidades, de outros países, de outras confissões cristãs, por diversas razões. Esta acolhida é uma grande graça para nós: dilata-nos, simplifica-nos, enriquece-nos e provoca-nos também: possamos nos acolher umas às outras como acolhemos as irmãs de outros lugares!

Parece-nos também que nossa vida fraterna nutre-se, fortifica-se, por um conjunto de elementos provenientes todos da Palavra.

• As partilhas do Evangelho de 15 em 15 dias, que retomamos há pouco mais de um ano, após um retiro em que todas descobriram a que ponto uma comunidade cristã constrói-se em torno da Palavra de Deus, acolhida em comunidade. Esta é dividida em três grupos que se reúnem ao mesmo tempo, em três lugares diferentes, mas próximos uns dos outros. Mesmo se não chegamos a manter o ritmo dos 15 dias, não queremos perder essas partilhas.

• Uma outra partilha importante: depois de um encontro de formação no qual uma ou outra tomou parte, ou após dois anos de estudos de duas entre nós, partilhamos o que pode ser transmitido. Isso faz muito bem; apenas é necessário encontrar tempo, o que, por vezes, é difícil!

• Há muito tempo temos a ocasião de viver, seja no noviciado, seja na comunidade inteira, sessões de «autoconhecimento», «gestão de conflitos», «cura das feridas», etc... É certamente uma graça para a vida fraterna. Aprendemos assim, pouco a pouco, a situar as coisas em seu nível, a não misturar tudo, a não dramatizar logo, a melhor nos conhecermos de fato. Isso nos permite uma palavra um pouco mais livre, mais franca e respeitosa, e uma escuta da outra também mais aberta e mais respeitosa. Com certeza, isso está longe de ser perfeito, mas esta graça de podermos nos falar e nos escutarmos, nos alegra cada vez que nos é dado fazer a experiência disso.

No início deste artigo, evocamos os anos difíceis vividos por nosso país[1]. Foram também anos difíceis para nossa comunidade monástica, como para todas as outras comunidades cristãs. Mas durante esses anos, muitas vezes pudemos, com ajuda exterior, falar com franqueza, confiança, respeito e nos escutarmos igualmente com respeito, abertura e confiança. Foram reais momentos de graça, de onde saímos, nós assim o esperamos, um pouco mais «enxertadas uma na outra pela ferida». Deus é bom!

Sim, na vida religiosa, o mais belo é a vida fraterna em comunidade! «Eis como é bom e alegre viverem juntos os irmãos!» (Sl 132[133]).

Madre Paul Galland,OSB
é Prioresa do Mosteiro da Bonne Nouvelle, em Bouaké (Costa do Marfim)

Traduzido do francês por Irmã Maria Cruz, OSB
(Mosteiro Nossa Senhora da Paz, Itapecerica da Serra, SP)

[1] Referência à guerra civil que assolou e dividiu a Costa do Marfim nos últimos anos.