AIM: cinquenta anos e continua a ser a força
que impulsiona a vida monástica na Ásia

Irmã Irene Dabalus, OSB

Celebrar a memória do impulso original da AIM para relançar e manter esse mesmo impulso na situação concreta dos dias de hoje, é o propósito de Irmã Irene nesse artigo claro e bem estruturado.


DabalusOs parabéns estão na ordem do dia no Jubileu de Ouro de Fundação da AIM. Anteriormente chamada «Ajuda à Implantação Monástica», tornou-se mais tarde «Ajuda Inter-Monástica» e agora «Aliança Inter-Monástica».

O que eu sabia com relação à AIM nesses cinquenta anos, era algo que não havia experimentado pessoalmente. Quando regressei da Europa para o meu país, em 2007, fui incumbida de programar cursos de espiritualidade em Tagaytay, nas Filipinas. Foi quando uma graça valiosa me foi oferecida pela AIM, na forma de subsídio, para um curso de três semanas destinado aos beneditinos do lado asiático do Pacífico: estudar a Regra de São Bento com Irmã Aquinata Böckmann. Queimei as pestanas estudando o significado da A.I.M. e o que ela representava. Vejam, descobri que a AIM é aquela espécie rara de visão e otimismo cuja colaboração se realiza através de inspiração e trabalho duro. Desde então, a A.I.M. tem sido um amparo vital. Portanto, quando me pediram que dissesse algumas palavras no Jubileu de Ouro da AIM, eu respondi SIM, pois era a hora de retribuir. Somos muito gratos!

Quem quer que tenha tido a ideia dar vida à AIM, sabia o que estava vendo: uma visão sólida da vida monástica crescendo e se desenvolvendo desde o continente europeu até outros continentes, sim, e para o resto do mundo. Esta visão sólida não foi apenas a de uma expansão da vida monástica em território e número, mas criando raízes e brotando, florescendo e dando fruto em climas e culturas diferentes, para que ali Deus estivesse presente e fosse louvado no espírito de São Bento.

Há cinquenta anos a AIM vem trabalhando para levar «crescimento e desenvolvimento» às comunidades monásticas pelo mundo afora. Esta é a expressão declarada de sua missão.

Apoiar o desenvolvimento da vida monástica pelo mundo afora

• na África, América Latina, Ásia e demais continentes,
• graças a uma colaboração internacional.

Eu vejo isto refletido na história da AIM desde os inícios em 1959 quando

• mudou de nome em momentos significativos de sua história,
• se deslocou da África em direção a todos os continentes até o presente,
• empregou suas energias na direção de uma variedade de serviços e competências em projetos materiais e espirituais,
• e solidificou globalmente sua liderança e seus órgãos associados.

Só no período de 1997-2007, já havia cento e três novas fundações monásticas florescendo sob o «patrocínio» da AIM: doze trapistas, sete cistercienses e oitenta e quatro beneditinas. Que crescimento! Estou convencida de que essas comunidades monásticas novas e jovens são uma força estabilizadora e vital na Igreja e nos países onde elas estão se desenvolvendo.

Atualmente a AIM acompanha mais de 450 comunidades monásticas em todos os continentes com uma média de cerca de dez novas fundações a cada ano. Infelizmente, o decréscimo no número de monges e monjas em muitos dos grandes mosteiros mantém-se constante.

Só na Ásia, as comunidades monásticas jovens tanto claustrais como não-claustrais, surgidas na década de 1997-2007, somam dezenove. Elas dão testemunho do frescor e da continuidade de um antigo carisma que data do século quinto. A Índia fundou sete, a Coréia cinco e as Filipinas, quatro. Números atualizados não estavam disponíveis quando estas linhas foram escritas.

O impulso original

É impressionante perceber como o impulso original da AIM foi lançado pela visão do Congresso dos Abades Beneditinos reunidos em Roma em 1959. Com o Abade Primaz Benno Gut ao leme, eles resolveram criar um «centro de informação e coordenação para a implantação do monaquismo em terras de missão». O Abade Benno encorajou a criação de um secretariado. Juntos, Dom Marie de Floris, antigo Abade de En-Calcat (França), o Abade Cornelius Tholens, de Slangenburg (Holanda), e o Abade Théodore Ghesquière, de Zevenkerken, em Bruges (Bélgica), empreenderam um estudo do projeto. O secretariado foi instalado em Vanves, no Priorado de Santa Batilde, com a Irmã Maura Esquerré de Rosny, beneditina de Vanves, como primeira secretária geral.

Esse grupo fundador mal podia imaginar que, depois dele, a energia e o impulso que geraram seriam apoiados por outros Abades e secretariados gerais. A história mostra que seus esforços caminharam no sentido de uma incansável renovação, para semear, plantar, fazer crescer, colher e partilhar os frutos da vida monástica pelo mundo inteiro. Durante cinquenta anos a AIM levou os ideais e a tradição do monaquismo a inúmeras comunidades, primeiro na África, depois na América Latina e Ásia, e a seguir de volta à Europa e América do Norte, alcançando assim o mundo todo.

O que significa, na visão da AIM, criar um impulso e mantê-lo na vivência monástica? Uma publicação intitulada «Momentum in Ministry», de J. Smith e D. Church, observa que esse impulso é uma «massa em movimento». No mundo natural, quando um objeto está se movendo, então tem impulso. «O impulso ocorre quando uma força que é maior que a resistência do objeto é aplicada». (J. Smith e D. Church, «Momentum in Ministry», 25).

Ganhando impulso

«Assim como o impulso funciona no mundo natural, funciona também em nossos ministérios e vida espiritual. Quer se trate de um trabalho ou de um ministério, devemos saber que a criação desse trabalho ou ministério demanda um impulso ou uma concentração de força» (25). Acredito que isso também aconteceu na história da AIM. Levou algum tempo para que nossas comunidades multiculturais e interculturais mudassem para a visão de uma colaboração internacional sob a direção da AIM Em seus cinquenta anos a AIM realmente manteve este impulso para a colaboração, tanto material quanto pastoral, de formas maravilhosas, a julgar pelos registros de suas realizações.

Quero crer que, se tanto foi realizado, isto se deve a três características que podem ser deduzidas dos seguintes dados:

A AIM teve, antes de tudo, o zelo:

• de inovar incansavelmente, fazendo do monaquismo um projeto de colaboração internacional. Durante os últimos cinquenta anos, a AIM tem encorajado iniciativas para firmar a tradição monástica em países próximos e distantes, como na Tanzânia, na Ucrânia, no Congo, na República Dominicana, na Romênia, na Nigéria, na Nicarágua, no Equador, no México, na República Tcheca, sem mencionar os países da Europa. A influência constante da AIM os apoiou em sua caminhada rumo a uma identidade monástica forte, tanto com recursos financeiros quanto no plano da formação.

• em se dedicar às novas comunidades monásticas em crescimento, auxiliando em suas necessidades e desenvolvimento. Na Ásia, lar de antigas culturas e crenças vivas, a existência dessas comunidades monásticas, indica seu rico contexto, mas também suas dificuldades para sobreviver como presença minoritária num ambiente politicamente conflituoso, como acontece no Vietnã e na Índia. Em meu país, que é predominantemente católico, seu crescimento não encontra obstáculos, visto que as vocações continuam a se encaminhar para os mosteiros, vivendo na solidão ou comprometidas no serviço apostólico das Igrejas locais. No entanto, o flagelo da pobreza tem impossibilitado vocações e conventos, especialmente os femininos, de seguir a tradição monástica com um mínimo de segurança e conforto. Foi aqui que a AIM nos apoiou de maneira eficaz, mas sem interferência. Isto é verdade principalmente na formação de jovens membros, em projetos rentáveis para os mosteiros pobres e no treinamento de lideranças jovens. No meu caso, em Tagaytay, nossos cursos sobre a Regra de São Bento deixaram sua marca nos monges e monjas que frequentaram a «escola da Regra», através da exegese e da leitura das fontes primitivas da Regra.

• e finalmente em ajudar monges e monjas – individualmente e coletivamente – a procurar  um caminho de renovação, imaginativa, mas orientada para a realidade, numa Igreja «em fermentação» e num «mundo em reviravolta». Posso citar os esforços visionários dos «movimentos» dos beneditinos da Ásia e Oceania (BEAO), do Instituto Monástico Beneditino-Cisterciense, das Beneditinas da Ásia, nas Filipinas (ABWP), em encontros diversos realizados na Ásia. A AIM apoiou esses grupos para criar uma consciência de comunhão e de paz entre eles e para partilhar suas experiências espirituais com o mundo.

Dabalus2Este é um campo rico para os historiadores explorarem, mas por hora, para mim, a ideia propulsora é a de pressagiar, como a Cassandra dos tempos antigos, o significado e o momento deste jubileu da AIM para os próximos cinquenta anos. Qual é o significado e a promessa desse jubileu? Significa um kairós nessa altura do caminho – a oportunidade única de aumentar o impulso para o crescimento e o desenvolvimento monásticos, onde quer que o Senhor semeie – em ambas as formas, a da antiga e a da nova vida monástica.

Estou interessada em lançar à AIM um grande desafio quando ela entra na segunda metade desse seu centenário; pois a AIM é uma instituição de grande qualidade, com força moral para causar mudanças significativas na vida monástica pelo mundo afora.

Assim, qual é a contribuição da AIM para a presença e a renovação monástica no mercado de valores da pós-modernidade liberal?

Se nos referirmos mais uma vez ao impulso como a força e a velocidade de um corpo em movimento, então podemos deduzir que o mundo ao nosso redor tem o seu próprio impulso em termos de ideias e direcionamento. Mais vezes do que se pensa, tal impulso vai de encontro à intuição fundamental da AIM e a ela se opõe.

Podemos pensar, por exemplo, em situações vivenciadas em nosso «mundo ameaçado» que verdadeiramente afetam nossa realidade e nos fazem perguntar: como a AIM pode assegurar seu impulso num mundo «em reviravolta», numa Igreja «em efervescência»?

Essas situações incluem acontecimentos dramáticos se passando à nossa volta, numa marcha ameaçadora e inexorável rumo a uma degradação moral. Nas palavras de Sven Giegold, o «Representante dos Verdes» no Parlamento Europeu, as múltiplas «crises» que nos confrontam hoje podem ser reduzidas a três pontos:

• crise do clima e de recursos (devastação da criação, mudança climática e destruição da multiplicidade de espécimes e recursos)

• crise de justiça (o crescimento da desigualdade social, os direitos sociais básicos sendo mais e mais difíceis de serem assegurados)

• crise econômica e financeira (mercados globais sem nenhuma política econômica global, a falta de controle para o desenvolvimento global indesejável, entre outros, devido a problemas de distribuição). (Notas de uma assembleia do Conselho da Missão Católica Alemã sobre o tema «Igreja Profética» realizada em janeiro de 2011).

Sven Giegold está convencido de que não se pode lidar com esta situação mundial pela ação fragmentada por parte de indivíduos honestos e influentes, mas somente por uma ação comum internacionalmente orquestrada, direcionada para uma mudança de paradigmas na Igreja e na sociedade. Ele acredita que «todas essas crises têm sua origem comum no paradigma do “crescimento” que permeia todo o pensamento global, como um instrumento de medida para o progresso e desenvolvimento, e para “mais, mais e mais” de consumo, ganho e avanço tecnológico».

O impulso revertido

Se «o impulso ocorre quando é aplicada uma força que é maior do que a resistência do objeto, pode também funcionar de maneira inversa e negativa» (26). Assim, nós podemos imaginar dois cenários para a AIM nos próximos cinquenta anos. Ou ela exerce força suficiente para compensar o impulso criado pelas forças opostas e sustentar seu trabalho em prol de uma aliança monástica internacional na próxima metade de século; ou seu impulso pode ser anulado pelas forças contrárias de um mundo descontrolado com seu paradigma de uma existência sem valores. Tais forças contrárias também podem ser encontradas nas próprias comunidades monásticas, e nos seus membros individuais, sucumbindo ao ativismo, à preocupação com a carreira e com a superficialidade globalizada, num falso ímpeto de «crescimento».

E é aqui que eu desejaria propor um grande desafio à AIM no seu trabalho de dar forma ao futuro que se desenvolve nas comunidades monásticas na Ásia e em outras partes, à medida que se encaminha para o seu centenário.

Para começar, a AIM, como todo ministério, tem que possuir uma força maior do que a resistência que encontra. Deve ter um único objetivo no seu empenho inovador.

• Realizar uma mudança paradigmática

1. Isto requer uma compreensão científica do mundo econômico no qual vivemos e das suas dinâmicas, incluindo o modelo de sociedade que desejamos.

2. Isto inclui um modo de usar os bens que levam em conta o que é necessário para o meio-ambiente e nada mais além do necessário, de sorte que os outros possam também viver de maneira justa.

3. Isto compreende na prática a determinação de usar a energia que seja, em nossos dias, energia renovável, assim como a determinação política para exercitar nossa responsabilidade global de promover uma procura e um consumo conscientes e ecológicos, de acordo com a dignidade de todos os seres humanos e suas condições humanas de trabalho.

• Ajudar a dar credibilidade e relevância à que a vida monástica

1. Isto implica uma renovação intensa da ESPIRITUALIDADE BENEDITINA.

- Enraizar a espiritualidade num estudo profundo da Palavra de Deus e da Regra.
- Re-imaginar os fundamentos da vida e expressão monásticas no mundo de hoje.
- Construir a vida ao redor da Liturgia – Eucaristia, Ofício Divino e Lectio Divina como fontes da energia e do poder do ministério.

2. Isto implica inculturar a profissão de estabilidade, conversatio e obediência.

- Equilibrar a cultura e a vida de pobreza, celibato e obediência.
- Questionar o estilo de vida «não tão simples» de comunidades estabelecidas junto à população pobre e com um mínimo para a subsistência em países em desenvolvimento.

• Trabalhar para a promoção de uma formação cenobítica multicultural/intercultural nas comunidades monásticas.

1. Isto exige uma teologia sólida.

- Dar aos formandos e formandas uma base em exegese bíblica, teologia fundamental e ministério pastoral.
- Desenvolver a sua consciência histórica.

2. Isto requer uma espiritualidade profunda.

- Mergulha-los numa contemplação atenta.
- Dar-lhes habilidades para os três «D»: diálogo, discernimento e disponibilidade para o serviço.
- Conduzi-los a uma inteireza espiritual e a uma tomada de consciência do mundo global.

3. Isto inclui uma formação para a vida de communio.

- Fazê-los aprofundar a convicção de seu chamado ao cœnobium.
- Mostrar-lhes que a communio é substancialmente beneditina e, como tal, é a resposta apropriada e urgente ao «economismo» globalizado, ao fundamentalismo e ao hedonismo descontrolado de nossos dias.

Tarefas práticas ao nosso alcance

Para não nos deixarmos abater por tarefas gigantescas que estão à nossa espera, nas Filipinas e na Ásia, para o futuro do monaquismo, o mesmo Sven Giegold citado acima, nos encoraja a procurar «projetos chaves, boas iniciativas possíveis e ações credíveis e consequentes, para fortalecer e motivar iniciativas» que conduzam a uma transformação social e espiritual. Devemos nos voltar para tarefas práticas ao nosso alcance a fim de evitarmos ser engolidos num vórtice de mudança. Essas tarefas práticas incluem iniciativas modestas que – se permanecerem consistentes e mantiverem a diretiva de vivenciar os valores da Regra – podem ocasionar uma mudança considerável.

Uma tarefa prática assim me foi dada quando fui incumbida de organizar um Instituto Beneditino para a Formação Litúrgica e Espiritual, em Tagaytay. Foi um desafio, porque eu sonhava em partilhar as riquezas do nosso carisma «ad intra», entre as diferentes comunidades beneditinas nas Filipinas, e «ad extra», na área da Igreja local onde os leigos estão famintos de uma tal partilha. Foi fácil entusiasmar alguns animadores beneditinos, na maioria nossas irmãs, para organizarem seminários de finais de semana com sabor beneditino sobre temas como oração, liturgia, lectio divina, Eucaristia, a questão das mulheres, o lugar da mulher na liturgia, justiça ecológica e feminismo, Maria em nossa vida, cura e perdão, bem como uma gama ainda maior de tópicos inspiradores para a vida. Quando há quatro anos iniciei a referida tarefa, nossos visitantes vinham na sua maioria de nossas escolas. Agora o meu sonho se tornou realidade. Fizemos conexão com a «Igreja local» e surpreendentemente, com os setores pobres das paróquias: ministros leigos, catequistas voluntários, jovens paroquianos, agentes de pastoral e organizações mandatadas. Presentemente, eu subsidio esses cursos, quando os participantes não são ricos e não teriam condições de pagar acomodações num centro de retiro como o nosso. Um comentário a propósito desse ministério me aquece o coração: «Agora eu conheço São Bento e ele é um guia maravilhoso para a minha vida». Houve mais comentários análogos ao longo dos anos desse ministério. O Senhor nos presenteou com o dom desse ministério e enquanto ele não retirar esse dom, continuaremos a rezar e trabalhar para que a sabedoria de São Bento toque os corações de nossa gente através dessa formação do coração.

É claro que a joia na coroa de nossa formação espiritual beneditina neste Instituto são as Semanas de Estudo da Regra de São Bento que se realizam anualmente, e que duram duas a quatro semanas de envolvimento sério com a Regra, como mencionamos acima. Em média, umas quarenta monjas, monges e irmãs, tanto cistercienses quanto beneditinos se juntaram a nós nesse estudo nos últimos quatro anos. Por duas vezes tivemos como professora a Irmã Aquinata Böckmann, uma vez a Irmã Margaret Malone, da Austrália, e na fase inicial eu mesma e alguns formadores locais, sobre as fontes primitivas da Regra. Para esse programa de quatro anos, a AIM nos manteve no caminho certo, porque sem a sua ajuda financeira todo o esforço teria permanecido um sonho vazio. As monjas e irmãs comentavam muitas vezes: «Se pelo menos tivéssemos aprendido mais sobre a Santa Regra quando éramos jovens», querendo dizer que a sabedoria da Regra nunca deixa de atrair jovens e velhos de qualquer idade ou país.

Podemos afirmar, a justo título, que a AIM ajudou, nas diversas instituições monásticas na Ásia, muitas iniciativas similares à nossa em Tagaytay. Essas não foram exaltadas de nenhum púlpito.

É certo que os beneditinos em meu país e onde quer que floresçam em outros países da Ásia, incluindo a Austrália, sempre trouxeram consigo uma qualidade de excelência na educação e na formação. Esta educação para a vida é transmitida nas escolas e instituições sociais que eles gerenciam, sem precisar dizer que o fazem com competência profissional e níveis elevados. No meu país temos treze escolas do primário à faculdade, ensinando a cerca de quarenta mil estudantes. As «marcas de nossa educação beneditina» são visíveis em nosso trabalho e nos estudantes. Eu própria fui educada por nossas Irmãs Beneditinas alemãs e, inconscientemente, bebi da sabedoria da Regra para toda a minha vida. Em nossos dias, os valores da Regra de Bento são abertamente ensinados nas salas de aula, de maneira que mesmo os meninos pequenos terminam as suas aulas com a clássica frase: «Para que em tudo Deus seja glorificado»! Ou, na tradição da verdadeira educação beneditina, elas fazem a sua «lectio divina» nas salas de aula da escola com os seus professores! Que tesouro para a vida, num país que é pobre em economia e política mundial, mas rico nos valores da Regra. O mesmo se aplica ao trabalho de nossos monges e monjas no norte e sul das Filipinas. Seja na catequese, nos programas de bairro para adultos ou nas comunidades eclesiais de base, o toque beneditino está ali como uma marca registrada. Está presente na estrutura da liturgia, da Palavra de Deus e da comunidade que dá as boas-vindas.

É claro que as Filipinas são apenas uma pequena gota no continente de muitas religiões vivas e culturas como é a Ásia. Embora sejamos o único país cristão no Extremo Oriente e o único realmente católico, nós estamos acompanhados pelo Islã ao sul das ilhas. Ali nossos irmãos e irmãs muçulmanos têm lutado desde sempre pela sua autonomia como território muçulmano. Certamente que nesta situação de uma vida em comum altamente dividida e deprimente, nossa visão beneditina de paz e hospitalidade é um elemento muito necessário. Lembro-me de haver feito uma conferência sobre cristologia para uma assembleia cristã num vilarejo muçulmano no sul, tomando conhecimento de que somente as mulheres habitavam a região, os homens estando ausentes. Eles viviam nas montanhas em roupa de combate. Havia uma atmosfera desconfortável, mas o sentimento de comunhão estava presente porque havia respeito mútuo de uns pelos outros, entre nós e as mulheres dali. Atualmente a nossa presença como beneditinas no diálogo inter-religioso com nossos irmãos e irmãs muçulmanos é mínima, mas a conscientização está certamente crescendo. Deus permita que um dia possamos nos estabelecer ali, não para fazer proselitismo, mas para partilhar a vida como filhos de Deus, habitando a mesma terra e, entretanto, vivendo com culturas diferentes.

Assim, são inúmeras as tarefas para os beneditinos na Ásia, onde o «ora et labora» é um estilo de vida, a hospitalidade sempre um caminho para a evangelização e a «communio» uma força a contrabalançar a degradação da dignidade humana, em função da integridade eco-feminina e da religião. E é isto o que realmente esperamos da AIM: trabalhar para manter a força motriz do monaquismo, não apenas nas Filipinas ou na Ásia, mas numa colaboração internacional através do mundo inteiro.

Conclusão

Faço minhas as palavras de Dom Donato Ogliari, OSB («Além de sobreviver, qual é o futuro da presença monástica no Ocidente?)», e lanço à AIM o desafio de espalhar o seu zelo na tarefa de alinhar os mosteiros na sua visão de uma colaboração internacional.

«É preciso vigiar atentamente para não nos deixarmos submergir pelo peso das dificuldades, da tristeza, do desânimo, do medo, à diferença daqueles que não têm esperança (cf. Ef 2,12). Ora, se colocamos verdadeiramente o Deus de Jesus Cristo no centro de nossa vida, não devemos nunca cessar, um só instante, de ter confiança nele e de desejar a sua luz, mesmo quando ao redor de nós parece prevalecer a obscuridade. Um sadio e necessário realismo nos confrontos com a precariedade que experimentamos não deve nos fazer escorregar na lógica de uma sobrevivência inerte, empalidecendo a beleza de nossa vocação, a generosidade do nosso empenho e o vivo "desejo" que o alimenta. De fato, sem o desejo que nos faz olhar ao redor e ao mesmo tempo para além das dificuldades, tudo acabaria por se entristecer e se apagar».

Concluindo, gostaria de reiterar o que disse de certa feita a pessoas investidas de autoridade como os senhores na AIM É importante que o nosso olhar tenha um largo alcance da realidade para além das nossas instituições. Abramo-nos para molduras maiores do mundo lá fora «ad gentes» e «inter-gentes» e tenhamos uma visão e perspectiva que estendam nossa imaginação para além de nossos objetivos mais próximos até às fronteiras do universo, ao Reino universal de Deus.

Irmã Irene Dabalus,OSB,
foi Prioresa Geral das Beneditinas Missionárias de Tutzing
e atualmente dirige o St. Scholastica’s Center of Spirituality, em Tagaytai, Filipinas

Traduzido do inglês por Aline Torres Monteiro