Tibhirine

Tibhirine

Dom Armand Veilleux, OCSO

O texto seguinte não é um comentário sobre o filme «Homens e Deuses», mas um testemunho comovente de Dom Armand Veilleux por ocasião de sua visita aos monges de Tibhirini três meses antes de serem seqüestrados.

 

AVeilleuxO filme «Homens e Deuses», de Xavier Beauvois, procura mostrar o que a comunidade de Tibhirine viveu nos três últimos anos de sua vida, em Tibhirine – três anos durante os quais a Argélia esteve mergulhada numa espiral de violência. Em janeiro de 1996, no fim daquele período, visitei nossos irmãos.

O Prior, Dom Christian de Chergé, havia pedido ao Abade Geral que ele próprio fosse visitá-los ou enviasse algum outro para fazê-lo em seu nome. Dom Bernardo Olivera [1] me designou para essa tarefa. Fui o único membro da Ordem Cisterciense a visitá-los durante aqueles três anos. O que Dom Christian desejava deste Visitador era, em primeiro lugar, que fizesse o balanço e avaliasse com as comunidades as decisões tomadas nos anos precedentes e, por outro lado, preparasse com os irmãos a eleição do Prior que deveria ocorrer alguns meses mais tarde.

Cada mosteiro da Ordem recebe, normalmente, a cada dois anos uma visita chamada «Visita Regular» do Abade da casa-mãe, chamado «Padre Imediato». Como há muito tempo não tinha havido Visita Regular em Tibhirine, o Padre Imediato da comunidade pediu que minha visita fosse, ao mesmo tempo, a Visita Regular daquele ano.

No final de uma Visita Regular, o Visitador deixa para a comunidade um documento, chamado no jargão cisterciense «Carta de Visita» (do latim Carta Visitationis), na qual consigna as conclusões de sua visita.

A Carta de Visita de Tibhirine, do ano de 1996, poderá ser lida a seguir. É a primeira vez que a torno pública, em homenagem ao que viveram nossos irmãos. O texto aqui publicado é o mesmo que li para a comunidade, na sala capitular de Tibhirine, na manhã de 19 de janeiro de 1996, sem fazer nenhuma modificação.

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Carta de Visita de Tibhirine – ano de 1996
Comunidade de Nossa Senhora do Atlas
(Fez, 20-28 de novembro de 1995 – Tibhirine, 12-19 de janeiro de 1996)

 

TibhirineCaros Irmãos,

O elemento essencial de uma Visita Regular não é o documento chamado Carta de Visita que o Visitador deixa para a comunidade: é muito mais a visita em si mesma, isto é, o fato de um irmão visitar os irmãos. Foi com alegria que pude passar uma semana inteira em cada um de vossos dois Mosteiros; e é para mim uma graça visitar-vos nesse momento importante de vossa história.

A fim de melhor compreender esse momento da história de vossa comunidade, é preciso reconsiderar o contexto de sua implantação gradativa na Argélia. Implantada numa Argélia francesa, vossa comunidade conseguiu passar pela guerra da independência, e tendo por pouco escapado ao fechamento, ela se reconstituiu com a ajuda de monges vindos de diversas comunidades. Gradativamente, no decorrer dessa história, vossa comunidade lançou raízes profundas na terra da Argélia e no seu povo.

Mais recentemente, em resposta a um apelo da Igreja do Marrocos, vós estabelecestes ali uma casa dependente que dá continuidade, nesse outro país muçulmano, a uma presença cristã semelhante à que mantendes aqui. Do ponto de vista da sabedoria humana, esta divisão de vossas forças pode não ser um gesto prudente. Mas a inserção gradual dessa pequena cela monástica na Igreja e na sociedade do Marrocos parece de acordo com o plano de Deus. De qualquer modo, ao longo da atual crise na Argélia, este anexo serviu, e continua a servir como um possível «lugar onde cair», caso sejais forçados a deixar a Argélia – um pouco como os numerosos refúgios que os Mosteiros da França abriram na América e alhures, no começo do século, muitos dos quais se tornaram, em seguida, fundações. Manter essa casa dependente sem empobrecer demasiadamente vossa comunidade de Tibhirine irá requerer de vossa parte, sem dúvida, um sério discernimento nos próximos anos.

Irmãos de Tibhirine e Irmãos de Fez, vós formais uma única comunidade vivendo em dois lugares distintos e em situações bastante diferentes o mesmo carisma cisterciense e o mesmo diálogo com os irmãos muçulmanos. A vós, Irmãos do Marrocos, deixei por escrito, em novembro último, algumas reflexões e recomendações que serão anexadas à presente Carta de Visita. Permiti-me agora dirigir-me aos vossos Irmãos da Argélia.

Caros Irmãos de Tibhirine, os acontecimentos dos quatro últimos anos vos inquietaram de maneira particular. Depois do drama do assassinato dos doze croatas, em Tamezguida, há apenas quatro quilômetros do mosteiro, e a visita dos «irmãos da montanha», na noite de Natal de 1993, fostes levados a tomar decisões importantes, em particular a de permanecer. Tomastes essas decisões na oração e no diálogo; e em vosso discernimento, feito sob a direção de vosso Prior, que todos vós respeitais e estimais, também escutastes o Pastor de vossa Igreja diocesana. Parece que esse processo de discernimento e a importância das conclusões vos tenham profundamente unido uns aos outros. Sois uma comunidade muito unida, apesar de vossas diferenças pessoais consideráveis e apesar de vossas proveniências diversas.

Vós pertenceis a uma Igreja local que já sofreu muito, tendo perdido um número considerável de seus membros, que partiram para a Europa, e se enriqueceu com onze mártires. Vós estais muito presentes ao que vive essa Igreja de Argel e ela própria está muito presente a vós, sobretudo através de seu Bispo e do Pároco de Médéa. Foi para mim uma alegria e uma graça que o vosso Bispo, Dom Henri Teissier [2], viesse passar um dia conosco durante a Visita Regular.

VitrailTibhirineVós estais igualmente próximos do sofrimento do povo argelino, que assumis em vossa oração. O ministério de vosso Irmão médico [3] junto ao povo, sem distinção de pertenças políticas, contribuiu, sem dúvida, para manter e até mesmo reforçar esses laços. A atual experiência de trabalho com os associados na utilização de vosso terreno é também uma bonita forma de partilha e de comunhão. Embora pessoas que vos eram próximas tenham tido uma morte violenta, sorte que também sofreram milhares de argelinos, não vos encontrei atormentados pelo medo. Tendes certamente vossas preocupações e também, sem dúvida, vossos temores nos corações, mas o Senhor vos deu a graça de administrá-los com serenidade.

Há um testemunho, um martyrion, que enquanto cristãos e monges, sois com certeza chamados a dar: é o de uma generosidade alicerçada na observância de vossa vida de oração, de caridade e de comunidade. O heroísmo, quando exigido de nós, não consiste em praticar atos extraordinários, mas em continuar fazendo as coisas ordinárias, mesmo quando as circunstâncias mudaram radicalmente e incluem a possibilidade de conseqüências trágicas.

No decurso desses acontecimentos, continuastes vivendo uma vida monástica regular e normal: Ofício divino celebrado com dignidade e orante, ao qual todos participam com bastante regularidade; lectio divina que parece bem feita por todos; solidão acrescida pelo fechamento quase total de vossa hospedaria, mas que não impede uma comunhão estreita com vossos vizinhos mais próximos. Trabalho, ao qual devem ser dadas novas formas.

Vossa situação, mesmo hoje, não está fora de perigo. Viveis este perigo com serenidade e maturidade. Não acredito que nenhum dentre vós deseje uma morte violenta; mas creio que todos a admitis como uma possível conseqüência de vossa escolha. Essa aceitação serena vos dá uma paz real.

Deveis saber que é a Ordem inteira, por vosso intermédio e pelo de vossos irmãos de Fez, que continua a dar testemunho nesta parte da África do Norte, que recebeu a mensagem cristã desde as primeiras gerações cristãs, e que conheceu uma cristandade tão florescente no tempo de Agostinho de Hipona.

O Senhor vos protegeu. Não apenas por estardes todos ainda vivos e não terdes sidos forçados a partir, mas também porque vos tornastes uma comunidade mais fortemente unida e vossos laços com a população e com a Igreja local são mais sólidos que nunca. Na lógica da história cristã, a Igreja da Argélia, que sairá desta crise como um pequeno resto dolorosamente marcado, deveria também sair com um dinamismo interior renovado. Vós tereis um papel importante a desempenhar nela enquanto monges contemplativos abertos ao diálogo com o Islã. Vossa comunidade é chamada a ser como um pequeno grão semeado na terra da Argélia e que continuará, sem dúvida, a nela germinar lentamente, no ritmo de Deus.

No que diz respeito ao recrutamento, deveis continuar abertos à possibilidade de receber vocações e também acreditar em vossa capacidade de lhes transmitir a tradição monástica.

Em Tibhirine, herdastes estruturas materiais relativamente grandes, mesmo vos tendo desfeito de uma parte importante da propriedade há mais de trinta anos. Deveis ser fiéis administradores e continuar mantendo com zelo vossos imóveis e gerindo bem vossa propriedade, conforme a tradição cisterciense. A situação econômica atual é precária, tanto para vós como para todo o povo argelino. Estais procurando novas fontes de renda e precisais reorganizar vossa economia. Mas é claro que esta reorganização vai depender da evolução da situação geral do país nos próximos anos.

Durante esta Visita, tivemos ocasião de celebrar três memória monásticas representando três fases importantes de nossa tradição: Antão, representando o momento carismático do monaquismo do deserto; Mauro e Plácido, representando a tradição beneditina das origens; e Elredo, testemunha da tradição propriamente cisterciense e do seu caráter profundamente humano [4].

Esta Visita termina no momento em que começa a Oitava de Orações pela Unidade dos Cristãos [5] – uma unidade que só poderá se realizar no contexto de um diálogo sempre mais aberto do conjunto dos cristãos com seus irmãos e irmãs das outras tradições não cristãs, a começar pelas duas outras grandes tradições monoteístas, de Israel e do Islã.

Concluindo, quero vos assegurar a certeza de minha oração, pedindo a Deus que continue a vos proteger e vos iluminar como ele tem feito até agora.

Durante esta Visita quis vos confirmar, sobretudo, na fidelidade às graças recebidas. Não creio que isso vos torne orgulhosos, pois vós mesmos sabeis que não sois perfeitos. Creio, no entanto, que vossa comunidade está, espiritualmente e monasticamente, em um dos melhores momentos de sua história. Tendes ainda necessidade de conversão, sem dúvida, mas a melhor conversão para vós consistirá na aplicação em viver sempre melhor e mais intensamente o que o Senhor já vos concede viver: uma vida de comunidade unida nos laços da caridade; a afeição e o respeito para com vosso Prior que Deus sustentou e guiou durante os anos difíceis que estão a transcorrer; uma vida de contínua oração e celebração assídua do Opus Dei; um trabalho sério para ganhar vossa vida; e, finalmente, a abertura para o diálogo na oração e nos serviços materiais com vossos vizinhos.

Enquanto Visitador e, sobretudo, sendo o primeiro a poder visitar-vos desde o começo da crise atual no país, sinto ser em nome da Ordem que vos dirijo a palavra. É uma palavra de gratidão a Deus que vos protegeu e conduziu, e a vós que soubestes responder com coragem a seus apelos. É também uma palavra de estímulo. E conto com vossas orações.

Dado em Notre-Dame de l’Atlas, Tibhirine, Argélia, 19 de janeiro de 1996.

Dom Armand Veilleux, OCSO, Procurador Geral e Visitador delegado

 

Dom Armand Veilleux, OCSO,  é atualmente Abade da Abadia de Notre-Dame de Scourmont, em Chimay (Bélgica).

Traduzido do francês por Dom Matias Fonseca de Medeiros, OSB.

[1] N. do T.: Dom Bernardo Olivera foi Abade Geral da Ordem dos Cistercienses da Estrita Observância (Trapistas) de 1990 a 2008. É atualmente Abade da Abadia de Nuestra Señora de los Ángeles, em Azul, Província de Buenos Aires (Argentina), seu Mosteiro de profissão.
[2] Dom Henri Teissier foi Arcebispo de Argel de 1988 a 2008.
[3] Irmão Luc Dochier.
[4] N. do T.: Referência às memórias litúrgicas de Santo Antão, Pai dos monges, celebrada a 17 de janeiro; São Mauro e São Plácido, primeiros discípulos de São Bento, celebrada a 15 de janeiro; e Santo Elredo, abade de Rievaulx, celebrada a 12 de janeiro.
[5] N. do T.: A Oitava de Orações pela Unidade dos Cristãos celebra-se em todo o mundo entre os dias 18 e 25 de janeiro. No Brasil, por determinação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) esta Oitava ou «Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos» é celebrada todos os anos nos dias que ocorrem entre os Domingos da Ascensão e de Pentecostes.