Formar para a unidade na verdade

Formar para a unidade na verdade

Madre Giovanna Garbelli, OCSO

MGarbelliSe, no séc. XX, a humanidade centralizou com precisão na palavra «liberdade» seu maior valor, podemos também dizer que a caminhada em direção à liberdade – percorrida apaixonadamente pelo homem moderno – não criou um mundo mais livre de verdade. Contraditoriamente, ela produziu um mundo mais injusto e confuso, posto que a liberdade fora identificada com a possibilidade de fazer o que se queira. Ao fazer isto, a volição humana foi deslocada de sua meta: a verdade, a bondade, a beleza e a vida eterna!

Se tivermos que identificar o problema do pensamento contemporâneo marcado pelo Relativismo, deveremos dizer que ele jaz na palavra «verdade», ou melhor ainda, na relação entre verdade e liberdade. A falsidade do projeto educacional moderno reside em afirmar que «eu sou meu próprio projeto». Desta forma, a satisfação do desejo se torna meu direito. Cada um tem o direito de perseguir seu próprio desejo e ninguém pode interferir nesse plano, se não quiser ser tido como tirano.

É evidente que, se a verdade imposta do exterior (autoridade, família, Igreja, sociedade, etc) entravar meu desejo, a verdade é percebida como opressiva e, assim, não corresponde ao meu eu, a minha consciência. Desta forma, deixamos os jovens à mercê de seus próprios desejos. Não apenas isto, mas também nos dobramos a eles e os manipulamos mediante a mídia e os modismos, colhendo um fruto de morte nos paraísos artificiais das drogas, do sexo, do alcoolismo e do prazer. A eliminação da autoridade é a abolição do princípio do crescimento, da transmissão de uma experiência, da possibilidade de receber um legado com o qual se possa confrontar o próprio eu de modo a construir, a seu tempo, o bem que se quer transmitir.

A eliminação do «pai» e, consequentemente, da relação entre liberdade e verdade é o grande desafio a ser enfrentado caso queiramos educar nossos jovens. A falta do pai é o grande vazio que descobrimos sob sua escolha de não se confiar a alguém e sua recusa «gentil» em seguir alguém. Eles temem ser enganados uma vez mais e de se submeter a uma violência adicional.

Por outro lado, encontramo-nos ante fenômenos tais como a Jornada Mundial da Juventude no qual centenas de milhares de jovens tomam parte e concluímos que a Igreja ainda pode ser seu lar. Talvez tenhamos que nos preocupar mais em ouvi-los ou compreender como encontros como esses os atraem.

Um adolescente de Moscou, por exemplo, dá este testemunho: «Porque estou tão ansioso em ir à Madri? [1] A resposta é simples: na Igreja encontrei algo de belo e minha vida virou ao contrário. Portanto, vou rezar para que esse encontre dure para sempre. Entretanto, esta jornada não é possível percorrer sozinhos: precisamos de pontos estáveis».

Para Tim, um adolescente australiano de Sandhurst, esse ponto estável foi a palavra de seu bispo, Dom Joe Grech. Depois da morte repentina deste último, Tim decidiu continuar seu trabalho com os jovens e devotar-se à prepará-los e guiá-los na Jornada Mundial da Juventude de Madri, bem como acompanhá-los em peregrinação a Ávila e a Segóvia apenas porque seu bispo era devoto de Santa Teresa e de São João da Cruz.

No fundo, o coração ou a consciência dos jovens deseja preenchimento: nomeadamente, um projeto que preencha seu desejo e o preencha para sempre. Eles desejam um propósito verdadeiro que possa mudar suas vidas, que lhe possibilite experimentar algo de belo, que traga esperança, que seja real e significativo. Eles desejam isto de nós, adultos, mesmo que não saibam como expressá-lo ou como confiar-se a alguém: eles desejam encontrar pessoas verdadeiras e dotadas de autoridade. Alguém que lhes diga a verdade.

A verdade, não a satisfação dos desejos, liberta-nos.

O carisma cisterciense é tão profundamente radicado na verdade que São Bernardo resumiu os doze degraus da humildade em seus quatro graus da verdade. Na espiritualidade cisterciense, a restauração da semelhança divina toma a forma de uma caminhada da miséria do autoconhecimento (conhecer-se a si mesmo na verdade mediante a humilhação) a uma renovada aceitação de si mesmo, sacramentalmente nas mãos da Misericórdia (mediante a qual a própria miséria de cada um é aceita e amada), à partilha da miséria na comunidade daqueles que estão nas mãos da mesma Misericórdia (mediante a qual a miséria do outro é aceita e amada), à contemplação da própria Misericórdia. Esta experiência é descrita como uma contínua conversão do que é individual para o que é comunitário, isto é, do orgulho para a misericórdia que todos recebemos, vivida em uma comunidade estável, dedicada à contemplação de Deus.

Contudo, como transmitir este carisma para as novas gerações que talvez nem entendam mais os termos que usamos para descrevê-lo? Só se pode transmiti-lo se o ofertamos como a experiência que deu consistência e alegria a nossas vidas, tanto no âmbito pessoal quanto comunitário. Não é uma questão de competências ou de estratégias específicas, mas de imergir na ação criativa e recreativa do Espírito Santo. É uma questão de fidelidade para com aquilo para o qual fomos chamados antes de tudo como homens, para com nosso destino original de mediação sacerdotal entre Deus e a criação, de filhos no Filho mediante Quem todo o universo adquire voz para louvar a Deus.

Afirmar a vida monástica e o carisma cisterciense como fundamentalmente ordenados para fazer brilhar a vocação essencial do homem é o desafio que nos lança o mundo contemporâneo, que parece ter dela perdido completamente a percepção. Eis porque a questão antropológica é mais essencial do que nunca. A educação pressupõe sempre um conceito de homem, uma filosofia e, a partir dessa visão, desenvolve um método, isto é, o caminho, o modo de realizá-la (vide o documento de trabalho de Me. Lúcia, de Nasí Paní).

Nossas Constituições expressam sinteticamente o conceito antropológico cisterciense ao declarar que o objetivo da formação cisterciense é restaurar a semelhança divina naquele que entre no mosteiro para buscar o Senhor. É evidente que esse trabalho de restauração – e as Constituições o especificam prontamente – é um projeto de fé e só pode ser levado a bom termo dentro da esfera da fé e com o auxílio do Espírito Santo. Essa «forma» que queremos restaurar em quem quer que venha para o mosteiro pressupõe uma visão do homem em relação com seu Criador, definida pelo plano da Salvação que é completado no Cristo, conduzindo a pessoa de volta ao Pai do qual se afastara. Deste conceito antropológico fundado na Revelação é derivado o método, o caminho.

Para nós, o método, o caminho, é dar precedência à vida litúrgico-sacramental cuja estrutura já é uma imagem daquilo que um dia será a vida no céu, um povo sacerdotal. Nesse caminho, que é o plano de Deus para nós, redescobrimos nossa verdadeira dignidade, isto é, existir para o «louvor e glória» do Pai e não para o poder, o sucesso, o prazer e a aparência.

Ao permanecer no cerne desta vocação fundamental, compreendemos quem somos finalmente: somos filhos no Filho para o louvor da glória do Pai e, com esta dignidade, desempenhamos todos os gestos da conversatio monastica, orientando-os para a glória de Deus.

Esta visão litúrgico-sacramental, isto é, esta orientação clara para o Cristo torna-se transparente no modo como a comunidade vive a conversatio monastica. O caminho da liturgia é também o caminho da Palavra de Deus, da lectio ordenada para o Mistério, do trabalho para nos mantermos e para permanecermos livres de condicionamentos exteriores, da tradição, do amor pela beleza do lugar e do serviço da comunidade. Nesta perspectiva, tudo se unifica e adquire sentido, do gesto mais humilde ao mais grandioso de nossa vida. É o caminho da unidade. Deste modo, no fim todos nos redescobrimos na Casa do Pai como filhos, todos pródigos, perdoados e convidados para a celebração da misericórdia. Este caminho que nos é oferecido pela Tradição da Igreja e por nossos Pais Cistercienses que fizeram dele o centro de sua espiritualidade contemplativa é o caminho real que leva à caridade e à unidade.

Dom Timothy, em nossa carta de visitação de julho passado, escreveu que Padre Chrysogonus, de Gethsemani [2] frequentemente dizia que os louvores de Deus eram tão importantes para os primeiros cistercienses quanto a caridade, e que ambos não poderiam ser separados. Este caminho precisa ser continuamente retomado e tornar-se o projeto comum da comunidade, sua visão comum, a visão a partir da qual tudo é ordenado em direção à celebração da glória de Deus, para cujo fim todas as observâncias são continuamente referidas. Em nossos diálogos, por conseguinte, recordamo-nos uns aos outros com simplicidade os elementos essenciais de nossa vocação; com paciência, amizade e essa mútua exortação contínua relativa a nosso destino comum, cria-se uma comunhão forte e duradoura.

Neste sentido, parece-me que esta visão ultrapasse a dicotomia aparente contida na afirmação: «passamos de uma comunidade de observâncias para uma comunidade de comunhão». Seria preferível dizer que somos uma comunidade de comunhão através de observâncias ou que vivemos as observâncias em (um espírito de) comunhão. A espiritualidade de comunhão, como dizia o Bv. João Paulo II, consiste em permanecer no coração do mistério trinitário que habita em nós e em ver a luz de Deus brilhar na face de cada irmão e irmã que está a nosso lado, em ver nossos irmãos e irmãs na fé como parte do Corpo Místico e, portanto, parte de mim mesmo, a quem eu possa oferecer uma amizade genuína. Ofertar uma amizade genuína, prossegue o Bv. João Paulo II, significa afirmar o aspecto positivo e dar lugar ao outro; em uma palavra: viver a misericórdia.

Esta visão, por conseguinte, permite-nos superar a dicotomia entre Lectio Divina e Liturgia e reencontrar a unidade experimentada por nossos Pais Cistercienses entre a Palavra «ruminada» e a palavra «celebrada».

O futuro brota de convicções comuns e de experiências comuns, capazes de dar forma a nossa existência de uma visão comum fundada na tradição e reencarnada no presente de como que ela possa se tornar uma experiência para os outros. Uma liturgia vivida de modo pessoal e também comunitário fala aos jovens. Muitos de nossos jovens entram [no mosteiro] porque foram tocadas por ela, por sua beleza, pela experiência da glória de Deus que as instigou a buscar mais, a questionar-se acerca de seu futuro.

Entretanto, esta visão comum a respeito do propósito da observância monástica não é transmitida automaticamente. Implica um esforço constante de reflexão e escolha de modo que a fidelidade a Cristo seja continuamente renovada e sustentada. Somente desta forma a visão se torna experiência. Ela se torna experiência pelo cotejo de si mesmo com a tradição da casa e sua autoridade, com a patrística e a tradição cisterciense e com o Magistério da Igreja. Esse cotejo deve ser feito mediante diálogos honestos e partilhas de pensamento e responsabilidade de modo que possamos nos apoiar mutuamente na vivência comum do mistério de ser o Corpo Místico de Cristo. A unidade objetiva da comunidade é o fundamento da educação para a verdade na liberdade, posto que essa unidade é sempre uma celebração da misericórdia que nos constitui e nos mantém unidos. Educar para a verdade significa introduzir (uma pessoa) em uma vida de misericórdia.

Se o caminho do autoconhecimento que se empreende nos anos iniciais da formação é, claramente, um caminho de fé mediante o qual se encontra a Misericórdia de Deus que nos salva de nossa miséria e espalha sua luz sobre nossa pobreza existencial no poder e beleza da graça; se essa caminhada é o retorno à dependência de criatura e é experimentada na acolhida de uma comunidade que me recebe como filho/filha e é vivida no espírito de abertura a um pai ou mãe espiritual que é sinal do perdão do Pai Celestial, guia para a internalização da conversatio e intermediário nas relações de amizade com a comunidade inteira, então a pessoa encontra o caminho para a verdade e pode se exprimir livremente com total dedicação e responsabilidade.

Apenas o filho é livre, adverte-nos Jesus, e São Bernardo sabe-o bem quando afirma que para amar gratuitamente precisamos ser filhos, não escravos ou mercenários. O filho é livre porque ele pertence a e reconhece um centro fora de si mesmo. Esse centro fora de si mesmo se torna o princípio de discernimento através do qual ele pode julgar e decidir, ele pode sanar a ambivalência de sua vontade e submetê-la decididamente ao bem comum. Assim, a experiência da misericórdia se torna uma fonte de pensamento, uma capacidade de nos interrogarmos cotidianamente sobre as questões essenciais (Ad quid venisti, Bernarde [3]), tanto no âmbito pessoal quanto comunitário, e, assim, gera pessoas responsáveis por suas próprias escolhas e capazes de autodoação.

Eis porque para ensinar a misericórdia aos jovens é necessário ensinar-lhes, antes de tudo, a discernir, isto é, a fazer um julgamento correto da realidade e das pessoas. Os jovens não sabem mais como pensar porque sua educação é altamente técnica e eles estão acostumados a se fixar nas aparências. Apenas aqueles que aprendem a discernir podem fazer escolhas responsáveis. Frequentemente, os jovens não são livres, mas condicionados por medos e por aquilo que os outros dizem deles, mesmo os que parecer ser mais independentes. O relacionamento com uma pessoa dotada de autoridade que encoraje a abertura de coração e proponha todas as questões existenciais bem como os diálogos, começando do período do Noviciado, educam para um verdadeiro discernimento.

Quando uma pessoa conhece as razões, ele/ela pode caminhar sozinho(a) e se torna uma fonte de autoridade para os outros. Ele/ela sabe nadar contra a correnteza (conversatio) e abraça a obediência sem passividade, mas de modo a edificar. Além disto, essa pessoa não teme mais acolher pessoas que sejam pobres ou frágeis. Sempre fico encantada com a variedade de pessoas que São Bernardo acolhia em seu mosteiro com a convicção de que a Casa de Deus é o lugar de paz para todos, até mesmo para os criminosos...

Penso que essa acolhida seja o tributo que podemos ofertar como contradição à violência do mundo. Uma comunidade que assume seus membros mais fracos é verdadeiramente uma comunidade na qual a formação (para ser uma escola da caridade) foi internalizada. Perdão mútuo e aceitação paciente de todos: não é esta, talvez, a antecipação da vida eterna para a qual corremos?

Madre Giovanna Garbelli, OCSO, é Abadessa da Abadia de Our Lady of Matutum, em Landan, Polomolok, Província de South Cotabato (Filipinas).

Traduzido do inglês por Irmão Tomás de Aquino Santos Nonato (Oblato Secular da Arquiabadia de São Sebastião, Salvador, BA).

 

[1] N. do T.: Jornada Mundial da Juventude de Madri, realizada de 16 a 21 de agosto de 2011.
[2] N. d. T.: Padre Chrysogonus Wadell, OCSO, monge da Abadia de Nossa Senhora de Gethsemani, mosteiro trapista fundado em 1848 na Arquidiocese de Louisville e situado próximo a Bardstown, no Condado de Nelson, Estado do Kentucky (Estados Unidos).
[3] N. do T.: A que vieste, Bernardo?