A formação permanente do Superior

A formação permanente do Superior

Dom Eamon Fitzgerald, OCSO

 

meresetDomsConsiderando a presente assembléia, composta principalmente de superiores da Ordem aqui reunidos para discutir a salvação de suas próprias almas e das que lhes foram confiadas (C 77.1), achei que seria útil compartilhar alguns pensamentos sobre a formação permanente do superior.

O modo de vida monástico do monge e do abade

O abade é um monge, e não deixa de sê-lo ao assumir o ministério abacial. Ele segue o mesmo caminho: ser transformado pela vida monástica de forma que a graça do batismo frutifique nele tornando-o um filho de Deus, alguém que verdadeiramente se assemelha a Cristo. É o itinerário do temor de Deus para o amor sem temor, conforme o capítulo 7 da Regra. É tornar-se uma pessoa que ama verdadeiramente, cujas características estão descritas no capítulo 72 da Regra. O abade, assim como os monges, deve se empenhar para chegar ao reino de Deus através da fé, da perseverança nas boas obras e guiado pelo Evangelho. O abade tudo deve fazer com temor de Deus e observância da Regra (RB 3).

O temor de Deus é uma disposição fundamental na Regra, que São Bento exige de todos os monges, mas ele deve ser particularmente evidente naqueles que receberam uma posição de responsabilidade na comunidade (abade, celeireiro, enfermeiro, porteiro). É uma percepção de Deus, uma reverência para com Deus e um reconhecimento de sua existência. Esta é a rocha sobre a qual a se assenta a virtude, segundo a Regra. É a força motriz de como reagimos às outras pessoas e às tarefas que temos que executar. É a fé na realidade de Deus, em sua existência, em seu cuidado para conosco e no fato de que lhe devemos prestar contas. Isso se aplica ao abade em particular. Deus está acima de tudo, tudo vê e é aquele a quem prestamos contas. Somos criaturas e ele é o nosso Criador. Ele é aquele que enviou seu Filho ao mundo para redimi-lo, e somos chamados a imitar o Filho ao viver conforme a vontade do Pai. Desta forma, nos tornarmos verdadeiramente seus filhos; não escravos, mas filhos e filhas. É rumo ao seu Reino que viajamos nesta vida, e a viagem não faz sentido algum se nos esquecemos disso. É esta disposição na fé que determina nossos relacionamentos com os outros e com as coisas. É uma atitude que consiste em reverenciar Deus, respeitar os outros e respeitar tudo o que ele criou. Esta é então a base da formação permanente tanto para o abade como para o monge.

Formação para o que? Alguns modelos

O monge está a caminho, bem como o abade. A formação é permanente, mas ao mesmo tempo São Bento nos dá alguns exemplos do tipo de pessoa que ele consideraria santa e um bom modelo. Quando fala do celeireiro, ele está à procura de alguém com as seguintes qualidades: que possua bom julgamento, seja maduro de caráter, sóbrio, não seja cheio de si, não seja turbulento, alguém que seja um pai para todos, compassivo e que tenha respeito pelas pessoas e pelas coisas, alguém que não entristeça os outros mas que seja humilde, amável e bondoso em suas palavras. As qualidades do abade seguem um veio semelhante. Menciono algumas: ele deve ser útil aos irmãos ao invés de apenas comandá-los, precisa conhecer a lei divina, ser casto, equilibrado e misericordioso; que seja perspicaz e solícito, moderado, saiba discernir. Esta listagem impressiona pelas qualidades humanas que apresenta e pelo nível de maturidade que ela testemunha. Tais pessoas receberiam uma classificação bastante alta na maioria das avaliações contemporâneas de personalidade. Isso não deve surpreender, pois elas se baseiam na vivência da imitação de Cristo como é descrita nos graus de humildade. As qualidades são o fruto de uma vida vivida no espírito evangélico de imitação de Jesus, no colocar a vontade do Pai em primeiro lugar em sua vida e na entrega de si mesmo no serviço aos outros. É uma vida modelada naquele que foi verdadeiramente humano e verdadeiramente divino. A apreciação deste mistério da kenosis de Cristo que nos dá a vida é a energia que torna possível a vida que São Bento propõe a seus monges na Regra. È uma vida fundamentada em um relacionamento – «Cristo me amou e se entregou por mim» – e que é vivida na consciência de que se é amado. O abade vive essa vida assim como os outros monges: seguindo a Regra, a rotina de oração e leituras, de refeições e descanso, e de trabalho; é seu trabalho (seu ministério) que o distingue dos demais monges – seu trabalho sendo um serviço particular à comunidade, que São Bento reconhece como uma tarefa difícil. O serviço do abade para a comunidade é descrito nas seguintes imagens: pai, mestre, pastor, médico e responsável. Ele exerce um ministério de atenção para com a comunidade, uma atenção que alimenta a vida da comunidade, de forma que os irmãos possam tornar-se pessoas moldadas e guiadas pelo Espírito e sejam capazes de viver uma vida de amor que conduz à vida eterna. A conclusão que tiro disso tudo é que, para o abade e para o monge, a formação permanente acontece na vivência da vida da comunidade, com tudo o que isso envolve; e a diferença importante no caso do abade é o ministério que ele tem na comunidade e para com a comunidade.

O serviço do abade: desafios

O serviço do abade tem suas próprias pressões e tensões, como São Bento admite; e tem também seus riscos – alguns dos quais ele menciona. Os desafios particulares são assim mencionados:

- Evitar preferências pessoais por qualquer razão (exceto a virtude) em sua forma de se relacionar com os irmãos, porque todos são um em Cristo. Em uma era de diálogo e de votos comunitários, o perigo pode estar em cultivar pessoas com mentalidade semelhante, que se alinham ao seu ponto de vista.

- Adaptar-se ao temperamento e à personalidade dos outros, ao invés de esperar que eles se adaptem ao seu. Isso pode ser um grande desafio.

- Colocar o bem estar das almas acima de considerações de ordem material. Em uma época como a nossa, com as crises econômicas, quando há muitas adaptações de edificações, remodelamentos e atividades semelhantes acontecendo nos mosteiros é muito fácil para um abade ficar ocupado com tais projetos com as melhores intenções do mundo e para o bem da comunidade. Mas isto pode levar a outras tensões e tornar a vida difícil para os irmãos. Pelo que tenho visto, isso tende a ser mais sentido em mosteiros de monjas do que de monges – talvez porque as monjas estejam mais acostumadas ao contato com a abadessa do que os monges com o abade?

- Lembrar que ele é chamado a cuidar das almas enfermas e não apenas das sadias. Trabalhar com as pessoas que ele tem, ao invés de contar só com aquelas que gostaria de ter, é um desafio não apenas para os abades. Aqui o perigo da esquiva é real — evitar aqueles que são mais cansativos e difíceis e ficar com os mais motivados e apoiadores.

- Compreender que ele nem sempre é a melhor pessoa em qualquer situação para ajudar alguém – e ter suficiente liberdade para confiar em outros na medida que surge a necessidade. Ele precisa reconhecer suas limitações.

- Sabendo como curar suas próprias feridas ele pode curar as dos outros. Como uma pessoa consegue curar suas próprias feridas? Voltaremos a esse assunto.

- Ser útil para os irmãos e não apenas comandá-los. O perigo de se gostar da glória mais do que do trabalho. Podemos ficar encantados com a nossa posição e começarmos a nos ver como sendo importantes — nos tornarmos preocupados com a própria imagem. Grande parte disso pode depender do lugar que o mosteiro particularmente ocupa numa determinada sociedade e do desejo em corresponder às expectativas das pessoas.

- Obviamente, o orgulho também é um risco grave, que pode facilmente se imiscuir no nosso modo de ser – seja no início, quando em nossa inocência temos certeza que sabemos do que a comunidade precisa; seja mais tarde, quando adquirimos alguma experiência e por isso sentimos que temos todas as respostas.

- São Bento alerta especificamente sobre os ciúmes (em relação ao prior) e o fato de ignorar as suas próprias fraquezas — enxergar os defeitos dos outros, mas não os seus próprios.

Assim, São Bento fala sobre a necessidade de se zelar pela própria alma, e as nossas Constituições (C. 33.3) falam da sua renovação através das Escrituras e dos escritos dos Padres. Logo, se por um lado São Bento vê o mosteiro e a vida nele vivida como sendo capazes de oferecer um caminho que leva ao crescimento na santidade e humanidade – e chega mesmo a falar dele como um caminho que leva diretamente ao Criador – ele também reconhece que a fragilidade humana é aqui muito evidente e que há muitas ciladas ao longo do caminho. Michael Casey terá falado, alguma vez, sobre o modo de vida monástico como sendo a arte da «cambaleologia»: ao invés da pessoa se dirigir em linha reta rumo ao objetivo, ela vai cambaleando de um lado para o outro pela estrada que conduz ao Reino.

O serviço do abade: algumas pistas

Para nós, hoje em dia, é muito menos evidente que todo o auxílio de que necessitamos para a nossa transformação em Cristo esteja disponível dentro do claustro do mosteiro, seja no nível material, seja no espiritual. Quero aqui voltar à questão da necessidade do abade de zelar pela sua própria alma, de estar consciente de suas próprias feridas e de saber como curá-las.

- Alguns dos fatores de influência mais importantes em nossas vidas são os acontecimentos sobre os quais não temos controle algum: quem foram nossos pais; quem são nossos irmãos e irmãs caso os tenhamos; nossa origem social e o tipo de pessoa que somos em decorrência disso. São realidades que devemos aceitar, e conviver com elas da melhor forma possível, para o bem ou para o mal – nenhum de nós provém de famílias perfeitas. Então temos as posições básicas em relação à vida e aos temperamentos, dons e limitações em particular. É a partir dessas e de outras experiências de vida, e das escolhas que fazemos com o passar do tempo, que somos quem somos. Chegar a aceitar-se a si mesmo e sua própria história é um importante fator de maturidade e sabedoria humana. Mas para o cristão e para o monge é também um ato de fé na providência de Deus em nossa própria vida. No passado, costumávamos falar sobre o nosso «defeito predominante»; hoje em dia poderíamos falar sobre características de personalidade das quais talvez nunca seremos capazes de nos livrar. São Paulo falou sobre um espinho na carne. Algumas feridas que temos felizmente podem ser curadas, através da graça e com a ajuda de outras pessoas; outras feridas, temos não apenas que conviver com elas mas, de acordo com São Paulo, nos regozijarmos nelas. Tal disposição é obra de Deus em nós. Então é importante para aquele que exerce o ministério de abade estar consciente de sua própria fraqueza, de modo que esta não interfira em seu serviço para com os outros. O sacramento da reconciliação, a orientação espiritual e a oração são caminhos que podem levar à cura ou à vivência mais pacífica com quem somos. O importante é que somos capazes de ser verdadeiros com nós mesmos diante de Deus. Ser verdadeiro com as outras pessoas pode ser uma grande ajuda para se chegar a isso.

- Assim como não há famílias perfeitas, não existem mosteiros perfeitos ou uma formação monástica perfeita – apesar de alguns mosteiros serem evidentemente mais ricos em recursos materiais e humanos do que outros. Assim, às vezes pode ser difícil para um abade encontrar alguém que possa ajudá-lo neste nível dentro do mosteiro. Isso pode significar buscar ajuda de alguém de fora, no nível profissional ou no espiritual. Isso pode ser algo necessário em um dado momento, ou algo regular a longo prazo. Pode ser um curso que se faz em um determinado momento, um repouso sabático, uma reunião pastoral de superiores. Alguns podem obter proveito reservando para si dias de retiro ou algo semelhante. O importante é que, seja lá o que for, não se torne apenas uma fuga, mas nos ajude de fato a sermos mais livres em nosso serviço para com Deus e os nossos irmãos, que sejamos mais úteis para eles e nos permita vivermos nossa ascese monástica com zelo renovado. 

- Por causa de seu ministério, o abade está mais exposto às pessoas – tanto aos irmãos quanto aos contatos externos – do que a maioria dos demais na comunidade; e isso pode ser ao mesmo tempo um serviço para os outros e uma verdadeira escola de formação permanente para ele. Um recente documento da Santa Sé sobre o serviço da autoridade e obediência afirma: «Será responsabilidade das pessoas em posição de autoridade manter um alto nível de abertura para ser formadas, assim como a capacidade para aprender da vida. Isso é particularmente importante em relação à liberdade de se deixar formar por outros e para que cada um se sinta responsável pelo crescimento dos demais». Aprendemos sobre nós mesmos em nossos relacionamentos com as outras pessoas, e às vezes esse aprendizado significa cometermos erros, pedirmos desculpas, sermos humilhados assim como experimentarmos uma verdadeira fraternidade ou amizade. É aqui que a expressão «maturidade afetiva» se torna evidente. Podemos aprender muito com a maneira pela qual as outras pessoas se relacionam conosco e nos tratam, assim como pela maneira pela qual respondemos ou reagimos conforme o caso. Manter um alto nível de abertura não é fácil, mas é um caminho de humildade e de vida.

- Aqui talvez seja o bom momento para dizer algo sobre um desafio em particular para muitos hoje em dia. E no documento que acabo de mencionar, há uma citação que o expressa bem: «Pessoas em posição de autoridade também podem se tornar desanimadas e desiludidas. Diante da resistência de alguns membros da comunidade e de certas questões que parecem insolúveis, elas podem ser tentadas a considerar inútil qualquer esforço para melhorar a situação e desistir. Estamos aqui diante do perigo de nos tornarmos gerentes da rotina, resignados à mediocridade, impossibilitados de intervir; tendo perdido a coragem para apontar a finalidade da vida consagrada autêntica, corremos o risco de perder o fervor do primeiro amor e o desejo de testemunhá-lo». Continua o documento: «O modo de lidar com isso é nos lembrarmos de que o serviço da autoridade é um ato de amor ao Senhor Jesus, daí a necessidade da paciência no sofrimento, da perseverança na oração, e da continuidade no esforço».

Alguns desideratos para a formação/conversão permanente do abade:

• Acreditar e responder ao chamado de Deus, utilizando livremente e de boa vontade os meios fornecidos pela nossa vida – liturgia, lectio, trabalho, vida fraterna – liderando a vida da comunidade.

• Abertura de coração para consigo mesmo e para com Deus. Ter alguém com quem ser transparente acerca de tudo o que acontece dentro de si.

• Servir aos outros como abade da melhor forma possível – sabendo que o seu serviço como abade um dia acabará!

• Saber que a nossa formação permanente não será perfeita, mas aceitar na fé e na confiança que há uma Providência que tudo tem nas mãos, e cujos caminhos e propósitos serão realizados apesar de nós, para o nossa alegria e para a sua glória!

Dom Eamon Fitzgerald, OCSO, é Abade Geral da Ordem dos Cistercienses da Estrita Observância (Trapistas).

Traduzido do inglês por Paulo Maciel.