Os 50 anos da AIM

Os 50 anos da AIM

Conferência do P. Martin Neyt, OSB

 

Caro Dom Eamon, caras Madres, caros Padres,

É com alegria e entusiasmo que me encontro aqui, em Assis, para partilhar convosco alguns aspectos importantes do trabalho atual da AIM e, sobretudo, para me colocar à escuta das perguntas que são as vossas nesse ano de 2011. Agradeço vivamente ao Senhor Abade Geral, Dom Eamon Fitzgerald, por seu convite tão cordial. Que o Espírito de São Francisco nos acompanhe nesses dias de encontro e de comunhão.

Celebrar o aniversário (50 anos) da Aliança Inter-Monástica (AIM) é celebrar a história de uma aliança lentamente costurada entre as comunidades monásticas ligadas às tradições beneditinas. Ela viu a luz do dia graças à coragem visionária de homens e de mulheres que dedicaram suas vidas para tornar possível essa grande aventura; e não teria podido se desenvolver sem o sopro do Espírito Santo. Sinal que não mente: na primeira metade do século XX, existiam alguns raros Mosteiros fora do Ocidente, enquanto em nossos dias a AIM interliga mais de 450 Mosteiros em todos os continentes.

Em 1961, por ocasião do XVI Centenário do apóstolo das Gálias, São Martinho, foi decidida oficialmente a criação da «Aide à l’Implantation Monastique» («Ajuda à Implantação Monástica»). Desde o início, Dom Gabriel Sortais, Abade Geral da Ordem dos Cistercienses da Estrita Observância, infelizmente já bastante doente, deu seu apoio por meio de um longo e extraordinário relatório. Evidentemente, o Primaz dos Beneditinos, Dom Beno Gut, e outras personalidades estavam presentes. Os primeiros tempos foram modestos: um humilde Secretariado em Vanves, dirigido por Dom Abade Marie-Robert de Floris, surgimento do Boletim, desenvolvimento dos vínculos de união entre os Mosteiros da África, da Ásia e da América Latina.

Veio, em seguida, o tempo dos grandes colóquios: Bouaké (1964) e Abidjan (1979), na Costa do Marfim, os colóquios de Bangkok (1968), Bangalore (1973) e Kandy (1980), na Ásia, abertura também para a América Latina. Desses múltiplos contatos, sobre os quais se falou como sendo um novo Pentecostes, surgiu o «Diálogo Monástico Inter-religioso» (DIM-MID) que se tornaria independente alguns anos mais tarde. O esforço da AIM se concentrou então na vida cotidiana e nos laços entre as comunidades.

Nesse início do século XXI, o pano de fundo do mundo político e sócio-econômico, extremamente mutável, tem levado os Mosteiros a enfrentar numerosas correntes contraditórias. O Ocidente, com suas comunidades idosas e numerosas, permanece com o peso de suas tradições seculares; nos outros continentes, as fundações, muitas vezes isoladas, sem verdadeiras referências identitárias, trazem sangue novo e suscitam novos questionamentos. A vocação de cada um e de cada uma é vivida nelas de maneira única, fruto de um chamado, de uma conversão, de uma urgência interior direcionada para a volta de Cristo. Estar aí para se consagrar plenamente a Deus e a seu louvor. O aprendizado de uma vida em comum nesse mundo em mutação, que provoca ondas de pobreza e de riqueza, de violência e de paz, de ditaduras e de esforços democráticos, revela-se tremendo e exigente quando se trata de transcender os obstáculos de nosso tempo (1), mas é a passagem obrigatória para se construir uma comunhão fundada sobre Cristo, onde faz bem viver, trabalhar e rezar.

A autonomia de cada Mosteiro dá testemunho da originalidade de uma tradição monástica beneditina ou cisterciense, surgida num contexto particular, voltada para a simplicidade, sempre diversa em sua expressão, sempre igual em sua busca do Reino de Deus. A identidade monástica se revela assim de uma riqueza imensa, tão variada como a biodiversidade natural. Essa realidade maravilhosa deve ser salvaguardada; e a Aliança vem confortá-la e enriquecê-la.

A nível local, regional e internacional, a AIM tem por missão favorecer a escuta mútua, extrair o melhor das experiência vividas, comunicá-las, partilhá-las, manter a identidade monástica de cada comunidade. Da autonomia à aliança, da aliança à autonomia, novas linhas de partilha vão sendo descobertas: elas concernem a hospitalidade e o respeito do outro em suas convicções, uma maneira nova de criar laços, de dar e de receber (2). Nessa escola de serviço do Senhor, se revela um caminho de silêncio, de oração, de comunhão e de humanização, plenificado pela experiência cotidiana da palavra de Deus.

O que seria da AIM – Aliança Inter-Monástica – se a falta de recursos se fizesse sentir de mais em mais? Decerto, seria preciso, antes de tudo, salvaguardar os montantes indispensáveis para sustentar a formação, o Boletim como agente de formação e de ligação, os encontros entre as comunidades das diferentes Ordens. No entanto, outros pontos essenciais de nosso serviço deveriam continuar.

Um acompanhamento fraterno das comunidades em sua vida cotidiana. Alguns Mosteiros vivem bastante isolados e sem muitos recursos como, por exemplo, na América Latina (acabo de experimentar pessoalmente esta realidade ao visitar as comunidades beneditinas da Amazônia).

Reforçar os laços entre os Mosteiros de uma região, de um país ou de vários países. A AIM apóia, assim, a criação de uma união de Mosteiros da África Central (ou da região dos grandes lagos): República Democrática do Congo, Ruanda, Burundi, Uganda...).

Reuniões de formação em Roma (Dom Mark Butlin vos falará sobre elas), Paris e outros lugares trazem sangue novo a nossa velha Europa e oferecem também possibilidades de acolhida aos monges e monjas, tais como Santo Anselmo, Vanves e o «Centre Jean XXIII». Em Paris, uma monja que passou três anos em formação, tornou-se Abadessa de Santa Maria, em São Paulo (Brasil); ela pôde criar laços com outras estudantes, dentre as quais uma jovem monja do Mosteiro do Encontro, próximo de Curitiba, no Paraná (Brasil)... Assim, as relações pessoais se multiplicam entre nossas comunidades, nossas Congregações, nossas Ordens monásticas. A formação de celeireiros é igualmente útil.

A AIM se apresenta, dessa forma, como uma presença fraterna que acompanha a vida cotidiana dos Mosteiros. Essa experiência é partilhada a cada três meses durante as reuniões da equipe internacional, e todos os anos pelo Conselho da AIM. Por conseguinte, nós nos beneficiamos de um conhecimento aprofundado dos sucessos e das dificuldades que ocorrem nas comunidades e esta experiência única, nós a colocamos, por nossa vez, a serviço das outras comunidades. Pouco a pouco, esse mistério de uma Aliança vai se aprofundando, habitado pelo mistério de Cristo Ressuscitado que não cessa de suscitar novas comunidades e que está sempre presente onde dois ou três estão reunidos em seu Nome.

Enfim, nesses tempos de crise, no sentido de um novo discernimento mundial, nossos Mosteiros continuam sendo lugares de silêncio, de meditação, de oração, de solidariedade, de comunhão e de desenvolvimento duradouro. Mais do que nunca nós temos necessidade uns dos outros e a quer ainda AIM vos agradecer por vossa ajuda, especialmente através da solidariedade cisterciense e o apoio de Dom Abade Armand Veilleux, e conta convosco no presente e no futuro.

 

P. Martin Ney, OSB, é monge do Mosteiro de Saint-André de Clerlande (Bélgica) e Presidente da AIM.

Traduzido do francês por Dom Matias Fonseca de Medeiros, OSB

 

(1) Laços afetivos, inimizades, meio cultural, étnico...
(2) Nada de espírito colonialista, vontade de converter o outro. Simplesmente estar lá, viver de Cristo.