Editorial

A formação entre os cistercienses

P. Martin Neyt, OSB

mneytNa vasta esplanada defronte à Basílica de Santa Maria dos Anjos, em Assis, ao cair da tarde, passeiam homens e mulheres vestidos com uma túnica branca e um escapulário preto. Uns saem do Centro de acolhida franciscano e se dirigem àquele venerável lugar de oração que encerra a Porciúncula onde viveu e morreu São Francisco de Assis; outros continuam trocando idéias relacionadas com as reuniões sobre a vida das comunidades; outros ainda aproveitam para descansar depois de uma longa jornada de trabalho.

Foi ali que se realizou o Capítulo Geral dos Cistercienses da Estrita Observância, entre os dias 6 e 29 de setembro de 2011. Foi um encontro histórico, pois os dois Capítulos, masculino e feminino, conhecidos pelo nome de «reunião geral mista» acabavam de se tornar oficialmente uma única entidade reunindo 105 Abades ou Superiores e 78 Abadessas ou Prioresas Titulares. No centro de suas reflexões estava a formação. O presente Boletim pretende fazer ecoar esses caminhos mergulhados no silêncio. Mas, seria possível apresentar suas linhas mestras, entrar na intimidade dessas comunidades?

portionculeEssa compreensão passa por três pórticos e a silhueta da Basílica ilustra muito bem essas etapas espirituais. É preciso atravessar resolutamente o portal, adentrar-se até à Porciúncula, deter-se diante do ícone da Anunciação. Comecemos por descobrir a história desse edifício lentamente construído, entre 1569 e 1679, em homenagem a São Francisco. De estilo maneirista, parecendo o barroco, ele foi, em parte, destruído por um terremoto e reconstruído, entre 1836 a 1849, transformado em estilo neo-clássico e vítima de outro terremoto em 1997. Entrando na Basílica, o visitante se dirige para a Porciúncula, frágil habitação de madeira milagrosamente preservada. Era aqui que São Francisco vinha rezar e permanecer ao lado do Transitus, dispensário onde morreu em 1226. Na parede de madeira dessa capela está fixado um quadro notável da Anunciação: o anjo ajoelhado diante de Maria que esboça delicadamente um movimento de abandono e recuo perante a grandeza do mistério que lhe é proposto.

annonciationA vocação virginal de Maria, Mãe de Deus, honrada tanto pelos monges como pelas monjas cistercienses, envolve o mistério de graça contido em cada vocação monástica, graça inicial, alegria dos começos. A Porciúncula, por sua vez, é sinal de uma vida de oração inteiramente fundamentada no silêncio, na pobreza, na humildade; ela não separa de modo algum o cuidado das almas com o dos corpos, de que o Transitus é testemunha. Enfim, a Basílica pode encarnar cada uma das comunidades monásticas em seus edifícios, sua história movimentada através dos séculos, aquilo que está sempre por reconstruir ou restaurar. À graça dos inícios se acrescenta a do combate cotidiano, sempre a recomeçar. A cada idade e a todo instante da vida, a conversão se reveste de facetas diversas e, ao sopro do Espírito Santo, traz o nome de «formação».

É uma grande alegria poder apresentar tantas palavras veneráveis, discernimento para a nossa época, testemunhos vivos dessas comunidades espalhadas pelo mundo inteiro. Ora são as duas exposições de Dom Eamon Fitzgerald, Abade Geral da OCSO, sobre a formação contínua do Superior e o estado das comunidades; ora são as palavras de Dom Mauro-Giuseppe Lepori, Abade Geral O.Cist, sobre a Regra Beneditina como uma proposta de humanidade. São também as notas perspicazes de Dom Patrick Olive, Abade de Sept-Fons, sobre a experiência da formação. As diferentes etapas da formação são apresentadas uma após outra por vários Superiores/as de comunidades: os candidatos, a formação permanente, a comunidade, o superior. Trata-se de fixar pontos de referência, de transmitir a vida, de formar para a unidade na verdade, a fim de «que Cristo seja formado em todos» (Gl 4,19). O comovente testemunho de Dom Armand Veilleux, Abade de Notre-Dame de Scourmont, relata a «Carta de visita de Tibhirine», por ocasião da semana que ele passou com os monges daquela comunidade entre 12 e 19 de janeiro de 1996.

Dom Timothy Wright, OSB, da Abadia de Ampleforth, destaca o desafio e a promessa do diálogo islamo-cristão, provindo de um encontro com muçulmanos xiitas iranianos. Outras comunicações vêm da África e da Amazônia. Cada uma das comunidades evocadas atravessa, à sua maneira, esse tríplice pórtico da história de sua comunidade, de um compromisso cotidiano que requer constante renovação, da graça dos inícios sempre por acolher com a proteção de Maria, Mãe de Deus.

 

Traduzido do francês por Dom Matias Fonseca de Medeiros, OSB.