Colóquio ecumênico

27º Colóquio ecumênico internacional
de espiritualidade ortodoxa

P. Adalberto Mainardi

 

«Existe um lugar preciso onde se realiza o combate espiritual... Este lugar é o órgão central do homem que a Bíblia chama de ‘coração’ (lev, kardía)». Com estas palavras, o Prior de Bose, Enzo Bianchi, traçou, em sua conferência de abertura, o espaço e o tempo interiores que caracterizam o combate espiritual na antropologia bíblica. Pois, foi precisamente «O combate espiritual na tradição ortodoxa» o tema abordado na 27ª edição do Colóquio ecumênico internacional de espiritualidade ortodoxa ocorrido no Mosteiro de Bose (Itália), de 9 a 12 de setembro, em colaboração com as Igrejas ortodoxas.

bosecolloqueA conferência de abertura do Prior Enzo Bianchi e a conferência do Metropolita Filareto de Minsk, Exarca patriarcal da Bielo-Rússia e Presidente da Comissão Teológica do Patriarcado de Moscou, demonstraram uma profunda convergência entre o conceito bíblico e a compreensão ortodoxa do significado do «combate espiritual». O hino da Carta do apóstolo Paulo aos Filipenses, particularmente, proporciona o fundamento teológico da luta que o cristão trava em si contra tudo o que o aliena de sua própria humanidade e o afasta de Deus. Com efeito, o cristão é chamado a reviver a luta que o próprio Cristo travou contra o mal e contra a morte, fazendo brilhar a luz da ressurreição nas profundezas infernais que a humanidade conheceu e conhece na história. «Ele, de condição divina, não reteve ciosamente sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se... fazendo-se obediente até à morte, e morte de cruz. Por isso, Deus o exaltou acima de tudo e lhe deu o Nome que está acima de todo nome, para que... toda língua proclame: ‘Jesus Cristo é Senhor’, para a glória de Deus Pai» (Fl 2,6-11).

Os quatro dias do Colóquio exploraram os múltiplos significados da luta espiritual entre os Padres (João Clímaco, Máximo o Confessor, Barsanufo de Gaza) e nas diferentes tradições ortodoxas (russa e grega, sérvia e búlgara), no decurso de suas histórias milenares, mas também nas diferentes situações do mundo contemporâneo caracterizado pelo individualismo, a indiferença com relação ao outro, uma surpreendente fragilidade interior do homem pós-moderno. Neste sentido é que foram orientadas as conferências finais do Metropolita Jorge do Monte Líbano (sobre «O combate pela unidade na Igreja») e do Metropolita Kallistos de Diokléia, delegado do Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu I, que aprofundou a significação desse tema fundamental da tradição ascética para o homem contemporâneo.

O Colóquio foi, sobretudo, uma ocasião para encontros e intercâmbios fraternos entre cristãos de diferentes confissões, na escuta da grande tradição da Igreja do Oriente acerca do tema do discernimento e da luta contra os maus pensamentos, verdadeiro terreno experimental para a liberdade interior, à qual são chamados todos os cristãos. O importante alcance ecumênico do encontro tornou-se visível, de modo particular pelas palavras de saudação e de estímulo recebidas da parte do Papa Bento XVI, através do Cardeal Tarcísio Bertone, Secretário de Estado, do Cardeal Leonardo Sandri, Prefeito da Congregação para as Igrejas Orientais, e do Cardeal Kurt Koch, Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos. Mas também do Patriarca de Moscou, Cirilo I, do Patriarca de Antioquia, Inácio IV, do Patriarca da Igreja Ortodoxa romena, Daniel I, do Arcebispo Jerônimo, de Atenas, do Catholicós de todos os armênios, Karekin II, do Primaz da Igreja da Inglaterra e Arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, do Metropolita de Malta e da Itália, Gennadios, do Metropolita de toda a Ucrânia, Volodymir, e do Secretário Geral do Conselho Ecumênico das Igrejas, de Genebra, Reverendo Samuel Kobia.

Da parte da Igreja católica, tomaram parte nos trabalhos do Colóquio de Bose, o Bispo Brian Farrel, Secretário do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, o Padre Milan Žust, do mesmo Dicastério, o Cardeal Roger Etchegaray, vice-decano do Colégio dos Cardeais, o Arcebispo Antonio Mennini, Núncio Apostólico, representante da Santa Sé junto à Federação Russa, Dom Gabriele Mana, Bispo de Biella e Ordinário do lugar, e Dom Arrigo Miglio, Bispo de Ivrea e Secretário da Conferência dos Bispos do Piemonte.

O Patriarcado de Moscou foi representado pelo Bispo Ambrósio de Gatčina, Reitor da Academia de Teologia de São Petersburgo, que chefiava a delegação oficial, pelo Padre Dimitri Ageev e pelo Dr. Alexis Dikarev, do Departamento para as Relações Exteriores do Patriarcado. Também participaram dos trabalhos do Colóquio o Arcebispo Zózimo de Elista e Kalmukija e o Padre Pavel Velikanov, da Academia Teológica de Moscou. A Igreja da Grécia se fez presente nas pessoas do Padre Savvas, delegado do Santo Sínodo, e do Arquimandrita Iakovos (Bizaourtis), Higumeno do Mosteiro de Petraki.

Participaram ainda do simpósio os Bispos Porfirije de Jegar (Igreja Ortodoxa da Sérvia) e Marcos de Neamţ (Igreja Ortodoxa de Romênia), o Metropolita Gregório de Veliko Tarnovo e o Bispo Cipriano de Traianopol (Igreja Ortodoxa da Bulgária), o Bispo Eulógio de Sumy, o Arquimandrita Cirilo (Hovorun) e o Professor V. Bagrana (Igreja Ortodoxa da Ucrânia – Patriarcado de Moscou), o Padre  Adam Makaryan, (Igreja Apostólica da Armênia), delegado do Catholicós de todos os armênios, Karekin II, o Cônego Johathan Goodall (Igreja da Inglaterra), representante do Arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, e o Dr. Michel Nseir, delegado do Conselho Ecumênico das Igrejas, de Genebra.

iconeboseDentre os numerosos participantes provenientes de vinte e um países, convém citar particularmente Dom Michel Van Parys, OSB, o Padre Hervé Legrand e o Professor Antonio Rigo, do Comitê Científico, Dom André Louf, OCSO, o Padre Basile Grolimund, o Padre John Chryssavgis, o Padre Andrew Louth, o Padre Georges Kočetkov e os Professores Anatoli Krasikov e Alexis Bodrov, de Moscou, o Professor Petros Vassiliadis, decano da Faculdade de Teologia de Universidade de Salônica (Grécia), o Professor Spyridon Kontoyannis, da Universidade de Atenas, o Professor Nikitas Aliprandis, da Universidade de Komotinì, o Professor Gelian M. Prochorov, da Academia de Ciências de São Petersburgo, o Professor Kostantin Sigov, de Kiev, o Professor Vassilis Saroglou, de Louvain-la-Neuve, e o Cônego Hugh Wybrew, de Oxford.

Como testemunhou a presença de inúmeros monges e monjas provenientes de Mosteiros ortodoxos (Grécia, Rússia, Sérvia, Bulgária, Romênia, Monte Sinai, Geórgia, Armênia), católicos e protestantes (Bélgica, França, Itália, Suíça, Hungria), os Colóquios ecumênicos de espiritualidade ortodoxa desejam oferecer um espaço de encontro fraterno entre as diferentes Igrejas cristãs e constituir um lugar de comunhão e de partilha de suas múltiplas tradições espirituais. Foi o que realçou, em suas conclusões, em nome do Comitê Científico, Dom Michel Van Parys:

«Há mais felicidade em receber do que dar»: será que compreendemos bem esta palavra de Jesus? Ao longo da história da Igreja, mesmo depois das rupturas e anátemas, os intercâmbios continuam. A Igreja latina muito deve às tradições gregas, siríacas, coptas... O Espírito Santo, com a maior evidência, não leva em conta as barreiras confessionais. Como explicar de outro modo que Isaac, Bispo «nestoriano» de Nínive, tenha sido acolhido e é acolhido por nossas Igrejas como um santo doutor da vida espiritual? Ele está nas mãos dos monges da Santa Montanha do Athos, dos monges de Optina, dos monges de Sihastria, dos monges coptas da Cétia, dos monges etíopes... Nós acolhemos «santos» que o Espírito suscita nas Igrejas divididas, nós os traduzimos, nós os recebemos. Podemos confiar na ação do Espírito Santo. Nós a vivenciamos juntos aqui, nesta semana, em Bose. A troca de dons, sim. Pois, o diálogo da caridade precede e acompanha o diálogo teológico da verdade.

O combate espiritual será o nosso combate até o suspiro derradeiro. Já era essa a advertência do grande Santo Antão. Com São João Cólobos, um outro gigante espiritual do deserto, aprendemos que a luta espiritual nos é necessária, pois ela nos recorda nossa miséria de pecados: «Senhor, dá-nos a paciência (hypomoné) nos combates» (João Cólobos 13).

Após ter exprimido seus calorosos agradecimentos, ao final do Colóquio, o Prior Enzo Bianchi anunciou que a 28a  edição do Colóquio ecumênico internacional de espiritualidade ortodoxa, dedicado ao tema «Comunhão e Solidão» na tradição ortodoxa, terá lugar em Bose, de 8 a 11 de setembro de 2010: ele pretende ser um convite para redescobrir a comunhão e a solidão como dimensões da vida espiritual, que interpelam toda busca autêntica de sentido.

 

P. Adalberto Mainardi é monge da Comunidade de Bose (Itália).

Traduzido do francês por Maria Luísa Laranjeiro de Souza.