Waegwan

WAEGWAN CELEBRA SEU CENTENÁRIO!

Os Beneditinos Missionários comemoram cem anos
de presença na Coréia e no Nordeste da China

Dr. Johannes Mahr

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A vida beneditina começou na Coréia no dia 1º de dezembro de 1909 com um Priorado recém fundado em Seul. Naquela data, havia na casa um único habitante: o próprio Prior. Este aguardava a chegada de seus confrades da Alemanha, ainda na longa viagem de navio. A 25 de setembro de 2009, uma celebração festiva, na Abadia de Waegwan, recordou os cem anos de presença beneditina naquele país. Além de numerosos representantes eclesiásticos e amigos da comunidade, estiveram presentes os membros das três comunidades beneditinas coreanas cujas origens remontam a este acontecimento: os monges da própria Abadia de Waegwan, a maior da Congregação dos Beneditinos Missionários de Sankt-Ottilien, presente no mundo inteiro; as Irmãs do vizinho Priorado de Sasudong, próximo a Taegu, fundação das Beneditinas Missionárias de Tutzing (Alemanha), que antes da perseguição comunista tinham sua sede na cidade e Diocese norte-coreana de Wonsan; e as Irmãs de Pusan, fundação das Olivetanas de Cham, no lago de Zug (Suíça), cujo grupo fundador teve que fugir da Diocese de Yenki, na China, em 1948.

A festa em Waegwan foi celebrada na nova igreja abacial, inaugurada apenas há três semanas antes. Com efeito, a igreja é nova, pois, Waegwan foi provada por uma dessas inúmeras catástrofes das quais os beneditinos da Coréia e da China, há cem anos, se recuperam sempre mais fortalecidos. Na Sexta-feira santa de 2007, a Abadia de Waegwan foi completamente destruída por um incêndio durante a noite. 

Agora, no entanto, os beneditinos e beneditinas coreanos puderam se reunir para celebrar esse Centenário sob a magnífica luminosidade da nova igreja: os vitrais coloridos foram realizados no ateliê do Mosteiro pelo Irmão Polykarp e os bancos em madeira marrom clara, que se refletem no chão de pedras polidas, são obra do Irmão Nikolaus. Foi nesse ambiente que o Cardeal-Arcebispo de Seul, Nicholas Cheong Jinsuk, oficiou uma missa pontifical, concelebrada por todos os Bispos da Conferência episcopal coreana, pelos Abades Presidentes das Congregações beneditinas e pelos representantes da cada um dos Mosteiros da Congregação de Sankt-Ottilien. Dentre estes, naturalmente, estava o Abade de Münsterschwarzach, um dos (então) pequenos Mosteiros alemães que, em 1909, ousaram se lançar num começo de vida beneditina tanto austero quanto arriscado.

Uma retrospectiva desses cem anos de vida beneditina na Coréia nos ajudará a compreender a realidade atual. Quando, em outubro de 1908, apareceu em Sankt-Ottilien um sacerdote francês que se apresentou como Gustave Mutel, Bispo de Seul, essa visita teve o efeito de um «kairós», de um acontecimento inspirado por Deus. Na verdade, ela permitiu que se encontrasse uma solução comum para duas realidades que, de início, pareciam diametralmente opostas. De um lado, os beneditinos missionários de Sankt-Ottilien, que trabalhavam em um vasto território missionário na África Oriental, estavam ameaçados em sua existência. Dentre eles, eram muitos os que faziam pressão para se desligarem da Ordem e poderem trabalhar livremente. O Bispo de Dar-er-Salaam proibia toda ingerência do Abade de Sankt-Ottilien em suas atribuições. O Abade Norbert Weber não tinha praticamente mais influência alguma sobre as atividades da Missão. Foi quando repentinamente surgiu o Bispo de Seul que precisava organizar em novas bases a Igreja da Coréia. Durante os anos de perseguição, no século XIX, esta se tornara uma Igreja de pobres empurrados para aldeias distantes, sem ligação com o exterior. Símbolo dessa situação era a esplêndida catedral de Myongdong que, desde 1898, despontava sobre as casas de Seul, mas carecia de ornamentação interior. Os missionários franceses eram padres seculares. Cada um devia cuidar de si mesmo e de sua comunidade, o que significava repartirem heroicamente a própria pobreza com a pobreza de suas comunidades. Contudo, a Igreja coreana precisava tornar seus fiéis capazes de se adaptarem a uma sociedade em rápida mutação, ainda mais que o Japão, em 1910, declarara que a Coréia seria uma província japonesa a fim de poder explorar o país.

Nesse contexto, a proposta do Bispo de Seul ao Mosteiro de Sankt-Ottilien indicou o caminho para uma solução dos problemas, tanto dos beneditinos como da Igreja coreana. Os beneditinos podiam recomeçar em Seul e, de maneira outra como na África, primeiro fundar um Mosteiro. Quando, impulsionados pelo Bispo, começaram a construir escolas, alguns padres permaneceram na nova Abadia para manter o Ofício coral, sem negligenciar o trabalho missionário. Uma Abadia beneditina podia oferecer ainda muito mais do que o Bispo esperava, pois dispunha de Irmãos conversos que abriram uma escola profissional e formavam trabalhadores qualificados. Além disso, semelhante empreendimento assumia para a Coréia um caráter nacional. Enquanto as classes dirigentes do país enviavam seus filhos para estudarem no Japão, esperando receberem, em tempo oportuno, a bênção do poder colonial, a Diocese investia na classe média coreana. Um centro de formação para professores, um ginásio e uma escola profissional dirigida pelos beneditinos seriam os primeiros passos a serem dados. Estes se prepararam decididamente para exercerem seu papel. O Mosteiro construído em dezembro de 1909 próximo à Pequena Porta Oriental, inaugurou a observância monástica completa a 1º de janeiro de 1910 e, em 1913, tornou-se Abadia. Com Sankt-Ottilien e Seul, os beneditinos missionários contavam agora com duas Abadias: uma na Alemanha e outra na Coréia.

waegwan2Em 1913 começaram negociações com o objetivo de assumir um território missionário próprio. O resultado foi espantoso. Os beneditinos obtiveram, em 1920, um Vicariato Apostólico que se estendia por cerca de 1.500 km – ninguém sabia exatamente – da cidade portuária de Wonsan até à fronteira com a Sibéria. Na origem do projeto estava a vontade do P. Bonifaz Sauer(1) de provar que o trabalho missionário na Coréia podia se realizar a partir de uma Abadia. Daí a insistência em manter seus monges em Seul. Seu novo território missionário era efetivamente tão vasto que ele só poderia «estacionar» um padre a cada 100 km!

A situação da Congregação de Sankt-Ottilien mudara bastante desde a derrota alemã na Primeira Guerra Mundial. A Inglaterra não tolerava mais os missionários alemães em suas colônias, chegando mesmo a expulsá-los da Índia. No final de 1920, o Bispo de Dar-es Salaam, Thomas Speiter, então «internado»(2), teve que deixar a África Oriental com os últimos missionários sem perspectiva de retorno. Por conseguinte, era importante ter um território missionário na Coréia e na China e, daí por diante, concentrar na Ásia Oriental o conjunto da Missão beneditina. Planejou-se então fundar uma série de Abadias que deveriam agir como pequenas porções de fermento numa grande massa de farinha. «O nosso método beneditino é este: primeiramente, fundar um grande centro espiritual e, a partir daí, atingir o povo todo,» escrevia Bonifaz Sauer, em 1919, numa carta ao Abade Primaz, lembrando-se do pão que sua mãe cozinhava no forno. E explicava: «O missionário isolado sai para trabalhar nas cidades, mas quando muito é apenas visto e observado como qualquer outro europeu. Um centro, ou melhor, alguns centros de vida católica num país pagão e, digamos diretamente, algumas Abadias beneditinas interpelam a opinião pública mais do que 50 ou 60 missionários individualmente».

Apesar da resistência de alguns missionários, que teriam preferido primeiramente construir postos missionários, a Abadia de Tokwon foi edificada entre 1925 e 1931. Um grande número de Padres mantinha o Ofício coral enquanto outros realizavam a mais importante tarefa de qualquer missão, a saber, dedicar-se à formação de padres autóctones. A construção de um grande Mosteiro e de um Seminário consumiu todo o dinheiro obtido com a venda da Abadia de Seul. Assim, para a segunda Abadia que a missão coreana planejava construir no território chinês, nada restou. Bonifaz Sauer considerava Tokwon como o modelo de Igreja para a Ásia Oriental, bem como para a Ordem beneditina. Queria fazer ver aos monges budistas a existência de uma forma de monaquismo cujos membros não se escondiam dentro dos Mosteiros, mas iam até às aldeias com a finalidade de contribuírem para o bem corporal e espiritual de seus habitantes. Queria provar aos pregadores protestantes que não bastava ter muito dinheiro para construir escolas e igrejas, mas que a nova fé tinha necessidade de exemplos vivos que a encarnassem. Queria mostrar, dentro de sua Ordem, que era possível conciliar a vida segundo a Regra de são Bento e a Missão junto aos pagãos. Finalmente, considerava que os missionários das outras comunidades católicas deviam enxergar que não era suficiente agir isoladamente, pois a fé se exprime e se enraíza graças à liturgia celebrada em comunidade.

No cenário político da Ásia Oriental, Tokwon oferecia, conforme o modelo dos Mosteiros medievais europeus, uma evidente alternativa, do ponto de vista arquitetônico e ideal, aos majestosos edifícios coloniais japoneses. A Abadia manifestava a pretensão de viver a religião pensando e agindo livremente. Ela dominava a paisagem, mas não os homens. Ela convidava aqueles que desejassem a virem de boa vontade e encontrarem uma elevação espiritual, enquanto a política tendia a abaixá-los socialmente. Desse modo, a Abadia contribuiu, numa época de tremendas dificuldades, para preservar a identidade coreana. A partir de então, ninguém duvidava mais que a missão beneditina se tornaria uma realidade a partir de suas Abadias.

A partir de 1925, a Inglaterra permitiu novamente que os missionários alemães voltassem à África Oriental. Após a decisão de construir a Abadia de Tokwon, o Abade Norbert Weber deixou claro que enviaria de novo missionários para a África se lá houvesse uma Abadia. Foi assim que, em 1928, o Prefeito Apostólico, P. Gallus Steiger, tornou-se Abade da Abadia ainda inexistente de Lindi, um porto no Oceano Índico, que sequer possuía uma igreja. Era uma «Abadia no papel», como dizia Steiger gracejando, antes de se estabelecer definitivamente em Peramiho. Contudo, aquela fundação abriu caminho para as atuais quatro Abadias da Tanzânia e tornou possível a fundação de novos Mosteiros.

Os missionários a serem enviados para a África iriam fazer falta nos planos do Extremo Oriente. Constrangido, P. Bonifaz Sauer teve que devolver o território de Ilan, em Sungari, na região mais setentrional do Vicariato de Wonsan, pois não via mais possibilidade alguma de ali fundar uma Abadia. Difícil de entender é como ele se preparou mal para organizar corretamente a Missão coreana estabelecida em território chinês. Quando P. Theodor Breher foi nomeado Prefeito Apostólico de Yenki, em 1928, ele comparou sua situação à do pobre Lázaro do Evangelho. Nas cartas escritas a Dom Plazidus Vogel, Abade de Münsterschwarzach, entre os anos de 1929 e 1930, constam afirmações como estas: «A Missão não tem nenhuma propriedade, nenhuma possibilidade de acolhida no local; as esmolas são pouquíssimas; [...] não temos sequer casa onde possam morar dignamente mais de três Padres». Ou: «Yenki foi fundada sem a menor preparação humana e material».

Mais impressionante ainda foi o que se passou em Yenki no espaço de doze anos, até a Segunda Guerra Mundial, quando o facismo japonês impôs limites cada vez mais estreitos à Missão. Com efeito, esta vivia sempre sob o espectro da agressão japonesa contra a China. O ano de 1932 foi terrível. P. Honorius Traber só escapou de ser assassinado por ter pulado corajosamente de uma janela. P. Bonifaz Köstler andou errante pelos campos durante vários dias para fugir de ladrões que queriam exigir um resgate. Em Taeryongdong, dois jovens missionários morreram de tifo no espaço de um mês. P. Konrad Rapp, que ia a cavalo até Taeryongdong para o enterro de P. Sylvester, foi abatido por soldados japoneses a 5 de junho de 1932.

A obra da Missão de Yenki, em muitos aspectos, sobretudo a liturgia, era muito mais viva e audaciosa que a de Tokwon. A alma da Missão era o Abade-Bispo Theodor Breher. Homem vigoroso e muito dotado, pensava que nada jamais andava com bastante pressa. No entanto, ensinava a todos não apenas como professor de línguas complicadas, mas também a escutar as mais finas maneiras de expressão das outras pessoas. Era alguém que preferia fazer tudo sozinho, pois assim ganhava tempo, mas se confiava inteiramente à oração silenciosa daqueles que o acompanhavam. Percorria a cavalo milhares de quilômetros em condições as mais adversas e queria apenas uma coisa: «Uma vida inteiramente pessoal e íntima com Deus». Quando, certa vez, seu pai lhe disse: «Você tem mais fé em Deus do que inteligência,» ele concordou plenamente. Reconhecia poder «com freqüência ficar fora de si»; entretanto, era com incrível paciência que transmitia aos jovens recém-chegados sentimentos de segurança numa terra onde tudo lhes era estranho. Era impaciente e muitas vezes injusto com relação às fraquezas e os erros de seus co-irmãos; todavia, não havia doente que ele deixasse de cuidar com a maior dedicação. Nem todos se acomodavam a suas contradições, nem todos toleravam seus gritos, seus gestos violentos, sua dureza que os acabrunhava. Contudo, admiravam a obra que ele realizava e na qual se consumia inteiramente. Foi esta a razão pela qual a Missão de Yenki conseguiu sobreviver, apesar das dificuldades: a comunidades, os padres, os irmãos e as irmãs se mantinham numa incondicional solidariedade.

Quando o Exército Vermelho invadiu o país, foram assassinados o P. Witmar Farrenkopf, em 22 de agosto de 1945, e o Ir. Engelmar Zellner, em 2 de setembro de 1945. Logo de início, o Exército Vermelho procurou provar que, nos países dominados por Stalin, reinava a liberdade de religião. Depois de sua retirada, os missionários foram entregues ao arbítrio dos comunistas chineses e coreanos. Na noite de 26 de maio de 1946, em Sichan, o chefe local do Partido mandou simplesmente fuzilar o P. Servatius Ludwig. No dia 20 de maio de 1946, a Abadia e o Priorado das Irmãs, em Yenki, foram confiscados. Seguiram-se dois longos anos de tormento, tanto para os monges quanto para as irmãs, em uma aldeia longínqua, na região fronteiriça com a Coréia, e um tempo ainda mais difícil por causa dos constantes maus tratos perpetrados pelos funcionários comunistas. Enfim, entre dezembro de 1949 e agosto de 1952, os missionários foram autorizados a deixar o país. Em 9 de maio de 1949, a polícia fechou a Abadia de Tokwon e o Priorado as Irmãs Beneditinas Missionárias de Tutzing, em Wonsan. Uma parte dos monges alemães e coreanos foram detidos como grandes criminosos, na prisão de Pyöngyang, e assassinados em agosto de 1950, entre eles nosso Irmão Gregor Giegerich. O restante desapareceu em uma região inacessível das montanhas do norte coreano. O primeiro a morrer no campo de Oksadok foi o Irmão Petrus Gernert.

Suponho que haja entre os senhores alguns que ainda se recordam daquela manhã de 24 de janeiro de 1954, quando, na praça defronte à Igreja, apareceu um pequeno grupo de oito homens cansados e pálidos, com pobres vestes cinza: eram os sobreviventes do campo de concentração que estavam de volta a Münsterschwarzach.  

Na verdade, a morte e a destruição que os Mosteiros fundados pelos europeus sofreram, e ainda sofrem, seguramente ocultaram durante muito tempo suas grandes realizações. Quando em 1946 e 1949 os comunistas chineses e coreanos aprisionaram e fizeram os missionários padecer longamente, primeiro em Yenki e depois em Tokwon e Wonsan, na Europa muitos pensaram que a missão na Ásia Oriental estava morta. Por certo não contavam com a tenacidade dos jovens coreanos e coreanas, que tinham sido membros das comunidades beneditinas e permaneceram fiéis à sua vocação.

Os Mosteiros de Tokwon, Wonsan e Yenki haviam transmitido uma tamanha força a seus membros coreanos que a destruição de suas comunidades não os aniquilou. A herança espiritual recebida por eles foi suficiente para que se adaptassem a uma região inteiramente nova e preparassem a fundação dos Mosteiros na Coréia do Sul que hoje admiramos. A reconstituição de um grande território missionário foi decisiva para Waegwan. Tal fato permitiu-lhe novamente se reintegrar no país e, desde o final dos anos 60, assumir cada vez mais paróquias, com suas belas igrejas e centros paroquiais, e entregá-las ao clero secular coreano. Permitiu também fazer da missão de Waegwan a pátria dos beneditinos coreanos, onde eles revivem, em novas condições, o ideal monástico de São Bento.

Traduzido do alemão por Cristiano Schalberger.

 

(1) Bonifaz (Bonifácio) Sauer, OSB, nasceu na Alemanha em 20 de novembro de 1877. Fez-se monge beneditino no Mosteiro de Sankt-Ottilien, em 1903, tendo sido enviado para as Missões da Coréia, em 1909. Tornou-se Abade «nullius» de Tokwon e posteriormente eleito Bispo titular de Appiaria, recebendo a sagração episcopal em 1921. Com a tomada do poder pelos comunistas, em 1949, tornou-se prisioneiro destes e depois de sofrer muitas humilhações e torturas na prisão de Pyöngyang, capital da Coréia do Norte, foi assassinado em 7 de fevereiro de 1950 por ódio à fé católica. Sua causa de beatificação, juntamente com a dos outros monges e irmãs beneditinas missionárias de Tutzing, mártires do regime comunista, está em andamento.
(2) N. do T. – Palavra para designar alguém detido em um campo de internamento.