Haiti

HAITI: NO CENTRO DO TERREMOTO

Dom Jean-Michel Grimaud, OSB

 

Trecho de um e-mail enviado por Dom Jean-Michel, datado de 10 de janeiro de 2010, quando estava fazendo a visita canônica no Mosteiro do «Morne Saint-Benoît», não muito distante de Porto Príncipe, ao sobrevir o terremoto(1).

Por enquanto tudo está bem conosco, no «Morne(2) Saint-Benoît». O tremor de terça-feira à tarde foi violento, mas não tivemos nenhum dano material aqui. De imediato compreendemos que a situação era dramática em Porto Príncipe. Os jovens irmãos haitianos ficaram muito inquietos por causa de suas famílias. Nesta sexta-feira, cada um voltou para sua casa.

Estamos vivendo horas em que as pessoas querem se encontrar com seus próximos para se ajudarem mutuamente. Quarta-feira à tarde encontramos testemunhas do tremor de terra e, através delas, ficamos sabendo da morte de numerosos amigos religiosos e religiosas da comunidade. O Arcebispo de Porto Príncipe, Dom Serge Miot, encontra-se entre os mortos. Vejo nisso o sinal de uma Igreja que acompanha seu povo em suas desgraças. No «Morne Saint-Benoît», tomamos providências para acolher as pessoas: ontem chegou um grupo de religiosos redentoristas. Estão com as fisionomias marcadas pelo que viram e viveram. Um deles viu morrerem sua mãe e sua irmã; os demais perderam alguns de seus colegas de estudos. O centro de formação teológica dos religiosos foi destruído.

Os edifícios de diversas comunidades ruíram. Hoje chegou um grupo de uma quinzena de meninos de rua que P. Jacques e Ir. Pierre foram buscar em Porto Príncipe. Ambos puderam entrar na cidade sem dificuldade, pela manhã, apanhar os meninos com seus acompanhantes e regressar ao Mosteiro.

Quero crer que não teremos outra missão atualmente, em semelhante caos, a não ser proporcionar abrigo a quem nos pedir. A cidade está destruída, suas instituições também, e a ajuda internacional está demorando a chegar; os feridos estão morrendo por falta de socorro ou já morreram antes que estes cheguem até eles.

P. Jacques (Prior), P. Anselme e P. Michel (de La Pierre-qui-Vire) vão bem. Dom Abade Jacques, de Belloc, também. Mas, seguramente, estamos indo dia após dia. Grato pela oração de todas as comunidades de nossa família de Subiaco. O povo haitiano e a Igreja do Haiti estão sofrendo e têm necessidade de nossa ajuda. Eles estão nos dando uma lição de coragem diante da morte e da esperança a seguir.

 

Dom Jean-Michel Grimaud, OSB, é Abade da Abadia de Landévennec (França).

 

Traduzido do francês por Maria Luísa Laranjeiro de Souza.

 

(1) Durante o terremoto que sinistrou o Haiti, em janeiro de 2010, o autor estava no país acompanhando Dom Jacques Damestoy, OSB, Abade da Abadia de Belloc (França). Naquela exata ocasião, ambos efetuavam a visita canônica regular ao Mosteiro do «Morne Saint-Benoît», Dom Jacques na qualidade de Visitador da Província Francesa da Congregação de Subiaco, e Dom Jean-Michel, como Abade do Mosteiro fundador da pequena comunidade monástica haitiana.
(2) A palavra «Morne», proveniente do francês antigo, significa «morro».