Solesmes e Cluny

DOIS ANIVERSÁRIOS COMO ECO UM DO OUTRO:
O MILENÁRIO DE SOLESMES E O 11o CENTENÁRIO DE CLUNY

Dom Thierry Barbeau, OSB

 

No dia 11 de outubro de 2009, com as I Vésperas da Dedicação da igreja abacial, em presença de Dom Yves Le Saux, bispo de Le Mans, a Abadia de Solesmes inaugurou solenemente um ano jubilar, em preparação ao milésimo aniversário de sua fundação que será celebrado no dia 12 de outubro de 2010.

solesmesexteO Mosteiro de Solesmes, às margens do rio Sarthe, na divisa entre o Maine e o Anjou, foi, com efeito, fundado no começo do século XI, por iniciativa e nas terras do Senhor Geoffroy de Sablé. A grande Abadia de Saint-Pierre de La Couture, em Le Mans, à qual foi confiado o novo estabelecimento, enviou para lá os primeiros monges beneditinos. Durante oito séculos, Solesmes permaneceria como Priorado dependente da Abadia de La Couture.

A Carta de doação do Mosteiro foi redigida por ocasião da Dedicação da sua nova igreja, celebrada sem dúvida em um 12 de outubro, entre 1006 e 1015. A data de 1010, mantida tradicionalmente como ano da fundação, o foi por simples conjectura.

Do primitivo edifício do Mosteiro, resta o conjunto da igreja abacial; as pilastras e as arcadas que serviam de elo entre a nave central e as naves laterais, desaparecidas durante a guerra dos Cem Anos, foram substituídas no século XIX pelas capelas laterais. Apesar das sucessivas transformações que a desfiguraram, a igreja é a mesma de Geoffroy de Sablé, de onde se eleva a oração dos monges há quase mil anos. E se o jazigo que se supõe representá-lo, no transepto da igreja, é uma obra bem mais tardia, o corpo do fundador repousa, com os de membros de sua família e de muitos outros monges e benfeitores, no solo da igreja que ele mandou edificar em honra de São Pedro, «para a redenção de sua alma e as de seus parentes, dos que o precederam e dos que o seguirão».

 

As grandes etapas de uma história milenar

solesmesnordOs dois primeiros séculos da história do Mosteiro foram prósperos. Os monges ampliaram o desbravamento do areal e da floresta, desenvolveram a cultura vinícola que fizera outrora a reputação do vale do Sarthe e fundaram aldeias em derredor.

Depois das destruições causadas pela guerra dos Cem Anos, Solesmes conheceu um novo período esplendoroso de sua história. Na capela meridional do transepto, o Prior Dom Guillaume Cheminart mandou executar o conjunto escultural do «Sepultamento de Cristo», datado de 1496, que é um ostensório monumental destinado a receber uma insigne relíquia da Coroa de espinhos do Salvador, trazida para Solesmes na Idade Média, e que os monges oferecem ainda hoje à veneração dos fiéis, todos os anos, na segunda-feira de Páscoa. Dando continuidade à obra de Dom Cheminart, um de seus sucessores, Dom Jean Bougler, mandou fazer, entre 1530 e 1556, um conjunto iconográfico de dimensão ainda mais vasta, a «Belle-Chapelle» ou «Notre-Dame-la-Belle», que testemunha a mais profunda veneração para com a Virgem Maria, onde a exuberância da decoração da Renascença se faz intérprete dos privilégios da Mãe de Deus, evocando notadamente de maneira surpreendente a Assunção e a Imaculada Conceição de Maria. Obra-prima da arte francesa dos séculos XV e XVI, mas também uma verdadeira teologia através da imagem, os «Santos de Solesmes» tornaram célebre por muito tempo o Priorado de Solesmes. Eles continuam surpreendendo os visitantes e lhes falam à alma.

Nos dois últimos séculos do Antigo Regime, o Mosteiro se afiliou à Congregação de São Mauro. Os edifícios conventuais foram inteiramente reconstruídos cerca de 1720: é o chamado «Priorado», que permanece quase inalterado até os nossos dias, construção de estilo clássico, em cujo prolongamento foi edificada, no final do século XIX, a Abadia nova, cuja fachada bastante conhecida domina o rio Sarthe à semelhança de uma fortaleza medieval, evocando ao mesmo tempo o castelo dos Papas, de Avinhão, e o Monte Saint-Michel.

 

A grande figura de Dom Guéranger

Depois de mais de quarenta anos de ausência, devido à fratura da Revolução, Dom Prosper Guéranger, com alguns companheiros, recomeçou a vida monástica em Solesmes, em 1833. Alguns anos mais tarde, em 1837, o Mosteiro foi erigido em Abadia e sede de Congregação, constituída ela própria herdeira das antigas Congregações beneditinas anteriores à Revolução: Cluny, São Mauro e Santos Vanne e Hidulfo. Ainda em Solesmes, Dom Guéranger fundaria, em 1867, um Mosteiro feminino, a Abadia de Sainte-Cécile, com a colaboração de uma grande monja, Madre Cécile Bruyère (1845-1909), que se tornaria sua primeira Abadessa.

Dom Guéranger é a grande figura que domina toda a história de Solesmes. Sua obra é mais do que uma restauração. O Abade de Solesmes era dotado de um verdadeiro carisma fundador e foi exatamente um monaquismo renovado que ele propôs à Igreja de seu tempo. Dom Guéranger exerceu ainda um papel essencial no renascimento do catolicismo do século XIX, como um dos pioneiros do Movimento litúrgico – entre outros, pela restauração do canto gregoriano, do qual o nome de Solesmes se tornaria inseparável – mas também, o que é pouco conhecido, da renovação eclesiológica. Seus discípulos e sucessores, como Dom Paul Delatte, terceiro Abade de Solesmes, sempre tiveram o maior empenho em transmitir sua herança, tornando Solesmes, antes de tudo, uma casa de doutrina, de oração e de santidade.

Depois de sua morte, em 1875, Dom Guéranger repousa na cripta da igreja abacial. Seu túmulo foi cavado na rocha de mármore onde está igualmente sepultado o fundador do Mosteiro, Geoffroy de Sablé, entre os benfeitores e monges que se sucederam desde quase mil anos.

 

O sentido de um aniversário

clochersolesmesEm sua alocução, pronunciada por ocasião da abertura do ano jubilar, nas I Vésperas da festa da Dedicação, a 11 de outubro último, o Abade de Solesmes, Dom Philippe Dupont, assim se expressava: «A liturgia da Dedicação não concerne apenas o edifício de pedra, do qual ela festeja o aniversário da consagração, mas olha, sobretudo, a comunidade dos monges e o povo dos fiéis que nele se reúnem várias vezes ao dia para celebrar os mistérios do Senhor; etimologicamente, a igreja é o lugar da assembléia convocada pelo Senhor. Os materiais da Igreja de Cristo não são as pedras materiais, porém nós mesmos, as pedras vivas, como nos lembra o apóstolo São Paulo: “Sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus; pois, fostes integrados na construção que tem como alicerce os apóstolos e os profetas e como pedra angular, o próprio Cristo Jesus” (Ef 2, 19-20)».

E o Dom Abade de Solesmes prosseguia: «De igual modo, o Milenário de Solesmes não celebra somente as pedras da igreja abacial, mas, sobretudo a comunidade dos monges que se sucederam durante esse longo período e que deram sentido a esse lugar por sua vida inteiramente dedicada a Deus na oração e no silêncio, na caridade e no trabalho. Esse Milenário não é somente um aniversário que permite reler a história passada com ação de graças, o que já é muito; é ainda um ano jubilar, que nos convida a nos renovarmos em Cristo, para construir a Igreja de Cristo da qual somos os membros: “Em Cristo, a construção toda vai crescendo harmoniosamente e formando um templo santo no Senhor. Vós também fazeis parte dessa construção e vos tornais, no Espírito, morada de Deus” (Ef 2, 21-21). Para isso é que todos fomos chamados: para servir o Reino de Deus, a Igreja.»

O aniversário dos mil anos de Solesmes é ocasião para render graças pela obra das gerações sucessivas de monges que, nesse lugar, responderam ao chamado de Deus. É, sobretudo, um autêntico Ano Jubilar, que se estende de 11 de outubro de 2009 até 12 de outubro de 2020. Para tanto, o Santo Padre Bento XVI dignou-se conceder o benefício de uma indulgência plenária que podem receber todos os fiéis que visitarem a igreja abacial e nela, após terem recebido o sacramento da Penitência e a Comunhão eucarística, rezarem pelas intenções do Soberano Pontífice. Esse ano oferece, portanto, a todos que desejarem, a graça de uma verdadeira renovação da vida cristã e de um amor sempre maior à Igreja. 

A celebração do Milenário de Solesmes reveste também um alto significado, bem como a celebração do 11º Centenário da Abadia de Cluny, igualmente festejado em 2010. Em primeiro lugar, é uma excelente oportunidade para falar das raízes cristãs de nossa cultura, nascida, em grande parte, da «Procura de Deus», o Quærere Deum, a que São Bento convida os monges em sua Regra, como sublinhou de maneira tão magistral o Papa Bento XVI, a 12 de setembro de 2008, em Paris, em seu grande discurso no Colégio dos Bernardinos, e em diversas outras circunstâncias. É igualmente ocasião de insistir sobre o lugar, sempre essencial, do problema de Deus no mundo de hoje e na vida da humanidade de amanhã. Enfim, num mundo onde Deus parece estar cada vez mais desaparecendo de seu horizonte e onde o homem vive como se Deus não existisse, o simples testemunho, inclusive o da vida monástica, deve proclamar que Deus é Deus e, em todas as coisas, ele deve ser preferido e glorificado – como nos ensina São Bento.

 

O 11o Centenário de fundação da Abadia de Cluny

O Milenário de Solesmes coincide com o 11º Centenário de Cluny, fundado em 909 ou 910. O Mosteiro de Solesmes nunca foi afiliado, de uma maneira ou de outra, à Abadia de Cluny. Mas o Solesmes restaurado por Dom Guéranger tornou-se, em 1837, por vontade expressa do Papa Gregório XVI, legítimo herdeiro de Cluny. Desde então, os monges solesmenses procuram permanecer fiéis, seguramente de maneira mais modesta, à grande tradição cluniacense da oração litúrgica – celebrada com toda a solenidade possível –, do sufrágio em favor dos defuntos, das obras de misericórdia, notadamente com relação aos mais pobres, e da hospitalidade.

clunyagnusÉ uma feliz coincidência que os dois aniversários, de Solesmes e de Cluny, sejam celebrados nesse mesmo ano de 2010, um como eco do outro. Eles mostram, cada um a sua maneira, como a vida monástica nunca faltou à Igreja e que, em todas as etapas de sua história, sem cessar, a Igreja se renova com a vida monástica, como Dom Guéranger gostava de sublinhar. Assim, na programação das festividades de Cluny e de Solesmes, está sendo organizado um evento monástico, em Cluny, previsto para 14 de junho de 2010. Esse evento reunirá os Abades beneditinos e cistercienses, sob a presidência de Dom Benoit Rivière, bispo de Autun(1), para uma Missa de ação de graças na igreja paroquial e as vésperas solenes no que resta de Cluny III.

Não é possível apresentar aqui, mesmo em resumo, a história de Cluny; nem evocar a vida dos monges cluniacenses. O desenvolvimento extraordinário da grande Abadia borgonhesa pode ser explicado por sua excepcional situação histórica, na qual ela esteve inserida no século X. Mas seu prodigioso sucesso pode também ser compreendido pela total liberdade, tanto no plano temporal como no espiritual, de que gozava a Abadia desde suas origens. Com efeito, Cluny foi colocada sob a dependência e a proteção diretas da Igreja de Roma. A partir daí, toda uma série de privilégios viriam se acrescentar e terminariam por constituir um verdadeiro corpo autônomo no interior da Igreja e da sociedade, a Ecclesia cluniacensis.

Entretanto, a grandeza de Cluny, ou, sobretudo, «o segredo de Cluny», para retomar o título de um belíssimo livro de Raymond Oursel, reside quanto ao essencial numa linha quase ininterrupta de grandes Abades, cujos longos e fecundos abaciados presidiriam os destinos da Abadia durante mais de dois séculos e meio. Seus méritos, aos olhos de Deus e dos homens, lhes valeram a auréola dos santos que a Igreja lhes concedeu.   

Porém, definitivamente, o grande segredo de Cluny, desse foco de caridade brilhando ao longe e fecundando a Igreja e a sociedade de seu tempo, é que ali Cristo foi servido com esse amor preferencial para com o Senhor, ao qual, ainda hoje, São Bento nos convida: Nihil amori Christi præponere, «nada preferir ao amor de Cristo».

 

Para saber mais(2):

Sobre Solesmes

Como visão de conjunto da história de Solesmes, podemos referir a obra abundantemente ilustrada que acaba de ser publicada por ocasião do milenário da Abadia: Dom Thierry Barbeau, Sub titulo Petri. Mille ans d'histoire à l'Abbaye de Solesmes, coll. Bibliotheca Vincentiana, Le Mans/Solesmes, ITF Éditeur/Éditions de Solesmes, 2009.

Mais particularmente sobre a figura do restaurador de Solesmes, Dom Guéranger:

Dom Paul Delatte, Dom Guéranger, Abbé de Solesmes, rééd. Abbaye Saint-Pierre de Solesmes, 1984.
Dom Louis Soltner, Solesmes et dom Guéranger (1805-1875), Abbaye Saint-Pierre de Solesmes, 1974.
Dom Guy-Marie Oury, Dom Guéranger. Moine au cœur de l'Église, Solesmes, Éditions de Solesmes, 2000.
Mélanges dom Guéranger. Histoire. Liturgie. Spiritualité, Solesmes, Éditions de Solesmes, 2005.
Le Charisme de dom Guéranger. Autour de la pensée du restaurateur de Solesmes sur l'Église, la vie monastique et la liturgie, Actes des Journées d'Études, Solesmes, les 4-8 avril 2005, dir. Dom Philippe Dupont, Solesmes, Éditions de Solesmes, 2008.

Sobre Cluny

Vários livros foram consagrados à Abadia de Cluny. Damos prioridade às seguintes obras  de leitura e acesso fáceis:

− Raymond Oursel, Le Secret de Cluny, Le Barroux, Éditions Sainte-Madeleine, 2000, que apresenta em diversos capítulos a figura dos santos abades Bernão, Odão, Aimard, Majolo, Odilão, Hugo et Pedro Venerável.
Prières de Cluny, Paris, Éditions du Seuil, 2010, que apresenta uma antologia de textos: sermões, meditações, poemas, hinos e orações litúrgicas, orações particulares... compostas em sua maior parte pelos Santos Abades ; textos traduzidos (em francês) pelos monges de Solesmes.

Enfim dois livros recentes que tratam mais especificamente da história de Cluny e de sua Ordem:

− Dominique Vingtain, L'Abbaye de Cluny. Centre de l'Occident médiéval, Paris, CNRS Éditions, 2009.
− Odon Hurel et Denyse Riche, Cluny. De l'abbaye à l'ordre clunisien (Xe-XVIIIe siècles), Paris, Armand Colin, 2010.

 

Dom Thierry Barbeau, OSB, é monge da Abadia de Saint-Pierre de Solesmes (França).

Traduzido do francês por Dom Matias Fonseca de Medeiros, OSB.

 

(1) N. do T. No «Annuario Pontificio» consta que o Bispo de Autun detém o título abacial de Cluny.
(2) N. do T. Infelizmente, não existe bibliografia especializada sobre Solesmes e Cluny, em língua portuguesa. As melhores edições são em língua francesa