O carisma monástico

O CARISMA MONÁSTICO NA VIDA DA IGREJA

Dom Jean-Pierre Longeat, OSB

 

jplongeatA vida monástica confere um acento particular a determinados aspectos da vida cristã e parece-me que, no contexto que é o nosso, a nível mundial, esses acentos podem ser da maior atualidade. É o que explica, em parte, o grande interesse de um certo número de nossos contemporâneos em passar temporadas num Mosteiro e os diversos contatos que se estabelecem, dessa maneira, para todas as espécies de colaboração. 

Insistirei em três pontos. O primeiro diz respeito ao fato da vida monástica se revestir em si mesma de um caráter de utopia, que faz dela uma parábola escatológica. O segundo refere-se ao desafio nela existente em manter o bom equilíbrio entre a pessoa, a busca de seus fundamentos e sua correta expressão e a vida em comunidade a ocasionar hoje tantas dificuldades. O terceiro, enfim, concerne à partilha espiritual que é como uma conseqüência dos dois outros acentos: inflamados pelo desejo do céu já começado na terra e pela feliz e difícil experiência pessoal em comunidade, os monges são instados a partilhar, de diferentes maneiras, o tesouro do qual são tanto herdeiros quanto atores.

 

Uma perspectiva escatológica

Em um mundo sempre obnubilado pelo imediatismo e a busca de sucesso nos limites de uma existência terrestre, os monges se apresentam como originais, ou mesmo marginais que preferem alcançar desde agora o Reino dos Céus em lugares de vida onde tudo é organizado em função dessa finalidade única. Existe nisso um radicalismo que não deixa de impressionar os espíritos.

A Regra de São Bento insiste nessa tensão voltada para o Reino que há de vir, que os monges gostariam de já vivenciar na terra. Nada de mais cristão em tudo isso, mas os monges acentuam particularmente essa dimensão; é, aliás, em vista dessa esperança que monges e monjas se sentem particularmente felizes durante o tempo do Advento, no qual, com toda a Igreja, oram intensamente pela vinda do Filho do Homem, não apenas no Natal, mas no dia a dia e até o fim dos tempos. É um dos aspectos mais característicos da vida monástica, com uma relação ao tempo e ao espaço que contrasta com a maneira habitual dos seres humanos em observá-la.

Concretamente, esse estado de coisas convida os monges a se mostrarem apressados e até a correrem para atingir uma tal finalidade. São Bento volta freqüentemente à questão.

O monge se volta de tal maneira para as realidades eternas que «seu coração se dilata e ele corre pelos caminhos do mandamento do amor» (cf. RB, Prólogo 49).

O Abade também «deve correr», «empenhar-se com toda sagacidade e indústria, para que não perca nenhuma das ovelhas a si confiadas» (RB 27,5).

De igual modo, os monges devem viver a obediência de maneira apressada. Aqueles que estão assim dispostos «desocupam logo as mãos e deixam inacabado o que estavam fazendo. Apodera-se deles o desejo de caminhar para a vida eterna» (cf. RB 5,8.10).

É o mesmo caso quando se ouve o sino chamando para o Ofício Divino: «Que estejam os monges sempre prontos e, assim, dado o sinal, levantando-se sem demora, apressem-se mutuamente e antecipem-se no Ofício Divino, porém com toda gravidade e modéstia» (RB 22,6). Essa menção é feita uma segunda vez na Regra: «Logo que for ouvido o sinal, deixando tudo que estiver nas mãos, corra-se com toda a pressa, mas com gravidade, para que a escurrilidade não encontre incentivo. Portanto, nada se anteponha ao Ofício Divino» (RB 43,3).

Enfim, um hóspede ou qualquer pessoa que bata à porta do Mosteiro seja acolhido com pressa: «Logo que um hóspede for anunciado, corra-lhe ao encontro o superior ou os irmãos, com toda a solicitude da caridade» (RB 53,3).

Tudo, no Mosteiro, tem por objetivo falar do Reino dos Céus tão esperado: a liturgia que une o canto do céu ao da terra, as refeições que fazem pensar naquelas que os profetas anunciam para o fim dos tempos, e que o Evangelho e o Apocalipse comparam a uma festa de casamento, o festim das núpcias do Cordeiro; e, sobretudo, o amor fraterno enfatizado na comunhão de bens e no celibato, como característica de disponibilidade para a fraternidade universal.

Contudo, interroguemo-nos se é mesmo essa corrida que os monges e as monjas empreendem. Que se corre nos mosteiros, é uma evidência. Mas, de que corrida se trata? É mesmo a corrida de quem tomou consciência do único necessário pelo qual se está em condições de tudo deixar? Nossa agitação é muitas vezes marcada por pressões da sociedade contemporânea: trabalho, administração, lazeres são submetidos a ritmos que é preciso manter sob pena de desclassificação e de marginalização. É verdade que determinados setores devem respeitar imperativos incontornáveis. No entanto, seria grave parar por aí! É uma dimensão verdadeiramente própria do monaquismo estar voltado para o desejo último, o desejo da vida com Deus na comunhão da fraternidade humana, e manifestá-lo concretamente estando sempre prestes a responder a esse apelo sem nenhuma hesitação.

Os monges e as monjas são essencialmente como todos os cristãos, talvez de maneira ainda mais sensível, homens e mulheres do oitavo dia. Este dia situa-se além dos dias, além da história na história. O sentido da vida monástica se conserva numa saída do século em tempo e lugar, mas para estar ainda mais unido a todos: os monges querem manifestar esta possibilidade de estar no mundo sem ser do mundo. Vivem com um pé na terra e um outro já no céu. E correm sem cessar para manter o equilíbrio precário de uma tal situação.

 

Solidão e comunhão

Uma outra característica da vida beneditina é manter juntas, de maneira harmoniosa, a solidão pessoal e a comunhão fraterna.

Ao apresentar o modo de vida dos eremitas, São Bento mostra com exatidão o dinamismo profundo da ascese monástica orientada para uma perpétua superação, sem outro termo que não seja a união a Deus no amor e a oração de fogo. Para tanto, é preciso reconhecer a importância do silêncio e de uma solidão escolhida e assumida com a finalidade de atingi-la.

Contudo, este ideal só pode ser vivido de maneira correta se for primeiramente provado na vida comunitária que verifica a qualidade de todo itinerário espiritual. É num Mosteiro que os cenobitas militam assim. Necessitam de um ambiente que lhes permita viver este combate pascal de morte e ressurreição na seqüela de Cristo. Por esse motivo, São Bento afirma que o Mosteiro é uma escola de serviço do Senhor.

É preciso tempo, crises e provações para alguém se tornar monge em comunidade. A provação no Mosteiro dura a vida inteira. É um trabalho de perspicácia. Trata-se de construir a vida pessoal partindo de uma fonte interior na qual se reconhece a presença divina em nossa carne. A imagem da fonte é, em si mesma, bastante evocadora, mas deve ser completada pela imagem do rochedo (do qual, aliás, pode jorrar água viva) e ainda muitas outras empregadas notadamente pelos salmos (como a morada, o templo, o refúgio, o coração, as entranhas...). Desta fonte tão querida espalha-se o Sopro santo que harmoniza todas as capacidades humanas de modo a atingirem sua feliz expressão. Esta consciência aguda da Fonte divina é o trabalho com o qual o monge se compromete para viver um enraizamento espiritual repleto de promessas. Nesta perspectiva, ele se torna o homem do silêncio para praticar uma escuta atenta. Ele fundamenta toda a sua vida nesta escuta íntima, a fim de realizar as obras de Deus.

Um trabalho assim se efetua com o apoio da vida comunitária, lugar concreto de sua realização. A comunidade é uma «fraterna acies», um exército fraterno. Ela permite um ambiente de treinamento e proporciona o eventual consolo de outrem nas inúmeras situações em que o desânimo pode tentar os «combatentes».

Esta vida comunitária necessita de uma Regra. As escórias de nossa natureza corrompida são extirpadas pelo exercício de uma outra vontade que não é a nossa própria; os monges procuram a vontade única do amor que dispõe cada coisa em seu exato lugar. Esta Regra é um ponto de apoio que permite um real avanço no sulco de uma longa tradição: não partimos do nada, mas sim nos inscrevemos numa linhagem de memória onde outros, antes de nós, experimentaram a vida monástica e aprenderam as lições das quais fazem seus sucessores se beneficiarem.

Entretanto, para se viver como monge, não basta somente a Regra; é preciso também um pastor que represente Cristo, nosso único Pastor: ele encoraja a caminhar para verdes pastagens e permite o retorno ao redil, num feliz vai-e-vem. Portanto, o pastor aí está como um fator de crescimento e de liberdade, mais do que de sufocação e de fechamento, como infelizmente a sede e o abuso de poder podem tentá-lo.

Por fim, a estabilidade é igualmente uma grande característica dessa vida segundo São Bento. Viver um semelhante compromisso necessita um enraizamento profundo em um lugar e mais ainda em uma comunidade ou em uma congregação.

Finalmente, a oração tanto particular como litúrgica é o tempo e o espaço privilegiado desta concretização da comunhão fraterna nutrida pela relação com a fonte que nos dá fundamento. A oração particular e litúrgica encerra todas as dimensões que permitem encontrar o equilíbrio entre o recolhimento pessoal e a partilha fraterna. Aliás, muitas vezes o testemunho da liturgia, em nossos Mosteiros, é o que em primeiro lugar chama a atenção de nossos hóspedes.

Estes pontos são de grande atualidade, parece-me, na vida do mundo e da Igreja de nosso tempo. Eles permitem atacar de frente a difícil questão da individualidade voltada sobre si mesma até a angústia de uma solidão insuportável e a dificuldade encontrada em todo lugar para se viver juntos, harmoniosamente, e mais ainda para se construir uma comunidade tanto na família quanto no mundo profissional ou na sociedade.

 

Partilha espiritual

É evidente que as monjas e os monges são chamados a partilhar com seus irmãos e irmãs em humanidade este tesouro do qual eles não são apenas seus exóticos guardiães, mas, sobretudo, seus atores muito vivos.

Não podemos deixar de sublinhar aqui a atração atual pelos retiros monásticos. É verdade que o capítulo 53 da Regra de São Bento dá, a esse respeito, uma interpretação teológica de primeiríssima importância. Faz da recepção dos hóspedes um encontro onde Cristo se torna manifestamente presente: «Todos os hóspedes que chegarem ao Mosteiro sejam recebidos como o Cristo, pois ele próprio irá dizer: "Fui hóspede e me recebestes"» (RB 53,1). A referência a Cristo é feita várias vezes, neste mesmo capítulo: «Em todos os hóspedes que chegam e que saem, adore-se, com a cabeça inclinada ou com todo o corpo prostrado por terra, o Cristo que é recebido na pessoa deles» (RB 53,7). «Mostre-se principalmente um cuidado solícito na recepção dos pobres e peregrinos, porque sobretudo na pessoa desses, Cristo é recebido» (RB 53,15).

Há também uma referência a Cristo lavando os pés de seus discípulos na última Ceia. Todo o capítulo 53 da Regra de São Bento é um encontro de Cristo por Cristo. É Cristo que é recebido e é Cristo quem recebe através do Abade e da comunidade reunida. Como poderia ser diferente, se o Mosteiro é uma comunidade eclesial: ela representa o Corpo de Cristo? No centro deste sinal eclesial se encontram os membros de Cristo, cada um, por sua vez, a representá-lo.

Há toda uma teologia que se desenvolve no conjunto desse processo de acolhimento: o primeiro contato, a introdução na oração, a partilha da refeição, o encontro pessoal.

Quem são os hóspedes recebidos nos Mosteiros hoje em dia? Seguramente, pessoas comprometidas na vida da Igreja que vêm para um retiro individual ou em grupo; mas há também pessoas que não pertencem à comunidade eclesial. Estas dizem que estão em busca e vêm passar alguns dias de silêncio, de reflexão, de recolhimento ou de oração. Muitas pessoas em dificuldade batem também à porta: problemas familiares, perda de emprego, vazio existencial, estado depressivo... Os monges não são assistentes sociais nem psicólogos nem conselheiros conjugais, são apenas testemunhas de um amor que vai muito mais além de sua única boa vontade: eles colocaram tudo sobre a Palavra de Cristo e, por isso, repartem com todos o amor que eles próprios receberam e recebem, a cada dia, por meio ela. O mais belo acompanhamento espiritual que os monges podem oferecer é o testemunho de uma comunidade fraterna, sinal do amor universal no meio do mundo.

Mas a partilha espiritual se faz também de outras maneiras.

O trabalho manual dos monges e das monjas é ocasião de inúmeras relações com fornecedores, clientes, colaboradores que, todos, apreciam a maneira pela qual o meio monástico encara esta atividade como um serviço da comunidade. Muitas vezes, o fruto desse trabalho possui uma etiqueta de qualidade que o mundo industrial circundante tem bastante dificuldade para assimilar: uma taxa adicionada ao valor humano. Com efeito, não é raro que a clientela consinta em um real esforço econômico para adquirir produtos dos quais ela sabe estarem a serviço de um ideal humano e espiritual.

Muitos Mosteiros através do mundo fazem jus à menção da Regra que evoca a presença de meninos nas comunidades e assumem sua educação, como já ocorria na sociedade medieval. As escolas beneditinas são numerosas no mundo inteiro e o organismo da Confederação Beneditina que as estimula é particularmente ativo(1). Pode-se bem imaginar o suporte humano e espiritual que deve haver nessa partilha educativa.

A tradição monástica tem igualmente um cuidado particular para com os pobres e peregrinos, considerados pela Regra de São Bento. São igualmente numerosos os Mosteiros que praticam esse gênero de acolhida, particularmente exigente, porém de uma atualidade clamorosa. A atenção aos que vivem à margem da sociedade é incontestavelmente uma fonte profunda de renovação muito característica da mensagem do Evangelho.

É preciso dizer ainda uma palavra relacionada à atenção dada à promoção cultural e social em sentido largo. Os monges sempre foram promotores do desenvolvimento tanto no plano dos recursos da terra, por meio dos trabalhos de desbravamento, agricultura e artesanato, como no do coração e do espírito. Nesses domínios, alguns monges e monjas são chamados a servir de ponte em certos meios nem sempre permeáveis às coisas da fé.

Enfim, a vida monástica comporta um aspecto missionário original. Os monges e as monjas anunciam o Evangelho, antes de tudo pelo testemunho de uma comunidade reunida que trabalha, que reza e partilha fraternamente. A comunidade monástica se assemelha destarte às primeiras comunidades cristãs descritas pelos Atos dos Apóstolos. Se um ou outro indivíduo se destaca do grupo, ele permanece de qualquer modo membro de uma comunidade bem concreta, sem a qual seu testemunho seria mais limitado.

 

Conclusão

A vida monástica é particularmente desejável onde, em nosso mundo, o horizonte da esperança se limita, onde o indivíduo pode ser tentado a se curvar sobre si mesmo e onde as relações humanas se tornam difíceis a ponto de ameaçar o equilíbrio das instituições e das sociedades através do mundo e entre os povos.

Os monges e as monjas certamente não têm a pretensão de dar lições a quem quer que seja. Eles são, no meio de todos, pessoas que procuram a Deus e apaixonados em humanidade. Eles gostariam de ser pela oração, o contato com a Palavra de Deus, a liturgia, a vida fraterna e a partilha, testemunhas da Fonte que emana do Coração amoroso de Cristo que tudo recebe do Pai e lhe dá toda graça no Sopro que os une. Esta fonte profunda é aquela onde Deus se mantém escondido no âmago de nosso coração e da qual pode se desenvolver tudo o que somos. Nesta perspectiva, os monges e as monjas aspiram como Igreja pela Vinda do Senhor na glória já iniciada num hoje todo de mistério e de beleza, em nossa condição de carne permeada por um desejo infinito de unidade bem-aventurada.

 

Dom Jean-Pierre Longeat, OSB
é Abade da Abadia de Saint-Martin de Ligugé (França)

Traduzido do francês por Dom Matias Fonseca de Medeiros, OSB

 

(1) N. do T. – O autor do artigo faz aqui referência à International Commission of Benedictine Education (ICBE), organismo da Confederação Beneditina, cuja finalidade é promover a visão beneditina da educação e servir como elemento de aproximação entre as escolas e colégios beneditinos do mundo inteiro. A Comissão é atualmente presidida por Dom Christopher Jamieson, Abade emérito da Abadia de Worth (Reino Unido).