Monaquismo e desafios

MONAQUISMO E DESAFIOS DE NOSSO TEMPO

P. Martin Neyt, OSB

 

«Nestes tempos de incerteza é preciso ler a famosa «Regra» de São Bento, cuja finalidade é estabilizar o homem na paz. O espírito beneditino, aparentado ao de Virgílio, é a medida dos gregos, a ataraxia dos estóicos; é a fé de Abraão e de Moisés penetrada de sentido humano, é a hospitalidade, o espírito de abertura a tudo e a todos; é a intimidade afetuosa; é, sobretudo, a beleza de todas as horas do dia, como se cada uma já fosse uma pequena eternidade»(1).

«Estas palavras de Jean Guitton definem plenamente – escreve o P. Frédéric Debuyst – a imagem repleta de memória que podemos conservar de um contacto positivo com a vida beneditina. A visão do cotidiano, ensinada pela Regra, é apreendida a partir de seu interior, com uma simpatia e uma sutileza que conseguem unir o presente e a história...»(2).

Qual é o segredo da tradição monástica cuja instituição perdura desde o século IV, que povoou a Europa de Mosteiros, os quais participaram ativamente do desenvolvimento cultural de seu território, que se espalha, em nossos dias, pelo mundo inteiro, e que se defronta com novos desafios?

As comunidades monásticas não cessam de aumentar, de se implantar em novos territórios, em meio a novas culturas e, nesses quarenta anos de aniversário dos «Amis des Monastères dans le monde», o número de 400 Mosteiros só faz crescer. Essas comunidades que surgiram fora da Europa e dos Estados Unidos manifestam o quanto a regra beneditina, em seu profundo respeito pelo humano, pode se inserir em todas as culturas e atingir o ponto central do Evangelho, escola de serviço do Senhor que São Bento quis instituir. Será que a vida beneditina se apresenta ainda em nossos dias como uma escola de sabedoria, uma escola de oração, uma escola de hospitalidade e de abertura na qual o monge reza e trabalha em meio a seus irmãos? Gostaria de abordar com franqueza diante dos senhores quais os desafios de nosso tempo que atingem o âmago da vida beneditina. Contudo, antes disso, fixemos como cenário, essa vasta constelação monástica sobre os vários continentes.

 

Desde o surgimento das comunidades fora da Europa, de 1960 até os nossos dias, a AIM contabilizou 465 novas fundações(3). Esses números por certo derrubam nossas idéias preconcebidas e anunciam uma nova primavera espiritual para nosso tempo. Atualmente, 30.486 pessoas vivem nas Ordens e nas famílias monásticas dependentes de São Bento: Cistercienses da Comum e da Estrita Observância; Bernardinas; Beneditinos e Beneditinas.

Nesses dez últimos anos, um recenseamento efetuado pelo organismo fundado pelas Ordens monásticas nascidas de São Bento, a Aliança Inter-Monástica (AIM), revela um duplo movimento semelhante ao fluxo e refluxo das marés. O fluxo se manifesta pelas 103 novas fundações realizadas entre 1997 e 2007. O refluxo sublinha uma tendência inversa: a diminuição do número de monjas e monges no Ocidente, particularmente nas grandes e médias comunidades surgidas nos séculos XIX e XX. Essas 103 fundações se repartem da seguinte maneira: 30 na África, 19 na Ásia, 14 na América Latina, às quais podemos acrescentar cinco fundações na América do Norte e 35 na Europa. Paradoxalmente, é a Europa (países nórdicos e Europa do Leste) que teve o maior número de fundações! Outros dados devem ser considerados. O entrelaçamento intercultural é um aspecto novo impressionante. Durante muito tempo a Europa olhou para o mundo, pode-se dizer, em sentido único; doravante o Ocidente é interpelado a se deixar olhar e habitar pelas outras culturas. Em um encontro recente do Conselho internacional da AIM com o Conselho americano, constatou-se que ultimamente foram realizadas fundações nos Estados Unidos pela França (Fontgombault); os monges coreanos de Waegwan recomeçaram a vida monástica na Abadia de Newton (New Jersey); os cistercienses e os beneditinos do Vietnã se estabeleceram na Califórnia. Há dois séculos, Bonifácio Wimmer e alguns monges alemães se fixaram nos Estados Unidos e, uma geração mais tarde, a adaptação e a inculturação inscreviam novas páginas monásticas. Esse movimento continua em nossos dias. Os desafios contemporâneos são múltiplos.

A vida religiosa, nos dias atuais, se interroga sobra a formação. A vida monástica, em si mesma, é formadora e geradora de uma transformação progressiva da pessoa. Não há necessidade de documentos para darem a fórmula mágica de uma boa formação. Esta é orgânica, pessoal e comunitária. Ela se insere, conforme a Regra beneditina e os costumeiros monásticos, no ritmo das estações, da semana, do dia. «Reza e trabalha em meio a teus irmãos» é a chave de toda vida comunitária alicerçada no Evangelho. A cada novo dia, a pergunta fundamental pode voltar: «Por que eu entrei no Mosteiro? Por quais motivos eu continuo nele?»; ou ainda, como afirmava um velho monge antes de morrer: «Hoje eu estou começando». Assim, de começo em começo até os começos que não têm fim, a busca do Eterno nunca ficará saturada. «No silêncio, na meditação das Escrituras, na recitação do Ofício divino, na Eucaristia e no trabalho manual, os monges realizam juntos essa busca do Filho muito amado que seu Pai revelou por ação do Espírito Santo». Aí está a originalidade da vida monástica: na prática da busca do essencial, sem nenhuma dissociação entre a procura de Deus na oração e a qualidade das relações fraternas.

Essa dimensão da fé, fundamentada na sabedoria, na repetição do cotidiano, implica uma capacidade e um aprendizado para o despertar e a escuta. Escuta e despertar são para a vida interior de cada pessoa o que os primeiros raios de sol são para a aurora, ao nascer do dia. Colocar-se à escuta é um chamado para sair de si, comunicar-se, transformar-se, formar-se e converter-se. O despertar conduz à iluminação por meio da metamorfose dos ritmos cotidianos, ascese, provações purificadoras, alegria, admiração. Os desafios são legiões: o silêncio? a clausura? como não se tornar dependente de celulares, telefones, skype, Internet? encontrar um equilíbrio entre o despojamento e a disponibilidade? trazer tudo de volta ao essencial, nada preferir ao amor de Cristo? ensinar ao candidato e aos membros de uma comunidade a viver com humanidade, no respeito e na atenção para com os outros e os mais frágeis? Certos Mosteiros se apresentam como belas realidades; mas a relação para com o outro parece ignorada. Um monge me confiava: «Eu entrei neste mosteiro porque vi nele uma atenção mútua, os monges se respeitavam e se amavam. Foi o que me determinou a entrar aqui.» A «humanitas», atenção calorosa impregnada de simpatia e de respeito, cria raízes no coração da vida beneditina. A vida do monge se abre, então, como as pétalas de uma flor, para a luz do Evangelho, na oração e na Eucaristia.

São Bento dá tempo para a leitura, a meditação, a recitação dos salmos, mas acrescenta: «Saibamos que seremos ouvidos, não com o muito falar, mas com a pureza do coração e a compunção das lágrimas. Por isso, a oração deve ser breve e pura»(4). É a oração que conduz o coração humano a esta profundeza virginal onde o Espírito de Deus se exprime. «O vento sopra onde quer; ouves-lhe o ruído, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito»(5). Pela oração, o monge nasce do Alto. Ele se abre para o sentido último das coisas e dos seres, ele adquire uma nova maneira de agir e de ser. Esta, como as duas asas de um pássaro, se fundamenta no louvor e na intercessão.

Como homens ou mulheres poderiam viver juntos sem transcender o que faz suas diferenças, suas oposições, suas fragilidades, suas pertenças cultural e social? São inumeráveis os pontos de fricção latentes em cada um a se manifestarem inconscientemente ou conscientemente. A história do monaquismo não é menos triste a esse respeito. Cada comunidade, cada Ordem, a própria religião cristã em suas sucessivas gerações, com freqüência se escorou sobre uma fratura da sociedade.

Em sua Regra, São Bento faz um apelo à unidade da fé que transcende os diferentes níveis da sociedade. Houve no Ocidente e no Brasil irmãos conversos e monges de coro; há tensões de raça, de etnia, de casta, de educação, de cultura e de classe social. O cristianismo na Índia, na África, na América Latina continua confrontado a esses desafios nos casamentos, nos empregos, nas condições sociais. A palavra «América Latina», devida às línguas dominantes, espanhol e português, exprime as profundas divisões que marcam suas populações. A África e a Ásia, esta em menor escala, também refletem diferenças lingüísticas, sociais e culturais. Quando falamos da África, nos referimos aos Mosteiros de língua inglesa e de língua francesa, apesar das línguas locais serem utilizadas na liturgia. O colonialismo marcou com seu timbre a presença européia. Uma releitura do que Aimé Césaire escreveu em 1955 pode ser fonte de humildade e de conversão. Os regimes comunistas influenciaram, à sua maneira, o número de vocacionados: poucas entradas na Lituânia, inúmeras vocações no Vietnã, presença discreta na China onde nada é secreto, mas permanece misterioso. A fundação dos beneditinos de Sankt-Ottilien, em Cuba, dirigida por um monge do Togo, abre ainda um outro caminho. O princípio fundamental continua o mesmo: não pode haver vida comum em um Mosteiro sem transcender estes aspectos.

O ritmo da oração, mediante a recitação da Liturgia das Horas e a oração pessoal, engendra uma presença contínua diante do Senhor da História. Firme no presente, o rosto do orante está resolutamente voltado para um porvir baseado na fé, na esperança, no amor. Podemos afirmar que as novas fundações, pequenas sementes lançadas na terra e destinadas a se tornarem árvores frondosas, nas quais os pássaros do céu vêm fazer seus ninhos, têm uma perspectiva de futuro? Serão elas como vigias que esperam pela aurora para as sociedades em plena decadência?

A acolhida discreta e respeitosa do outro habitado por uma presença que vem de fora, já se desenvolve no interior da comunidade: «Honrem os mais moços aos mais velhos que eles, e os mais velhos amem aos irmãos mais moços... a fim de que se faça o que está escrito: “Antecipem-se mutuamente em honra”»(6). A acolhida comporta em si mesma uma dimensão bíblica, à semelhança de Abraão que acolheu os três estrangeiros sob o carvalho de Mambré. É o próprio Cristo que é acolhido. Foi desta hospitalidade sagrada que nasceu, dentro da Aliança Inter-Monástica, o Diálogo Inter-religioso Monástico (DIM-MID). A partir de 1978, foram instauradas comissões primeiramente nos Estados Unidos e, a seguir, na Europa, na Índia, na Austrália. Esses intercâmbios espirituais privilegiavam o silêncio, a hospitalidade, a experiência vivida. «A hospitalidade recebida entre os monges zen – escreve o P. Pierre-François de Béthune – reavivou em mim o espírito beneditino de acolhida cordial e magnânima. Descobri no Evangelho energias de acolhimento muito pouco desenvolvidas». Esta hospitalidade sagrada ainda é praticada, em nossos dias, no Japão, na Índia e no Ocidente; a memória dos monges trapistas que deram sua vida, na Argélia, presença em terras do Islã, continua viva em nossos corações. Uma nova experiência acaba de começar na Síria: as monjas trapistinas de Vittorchiano, na Itália, fizeram uma fundação em Alepo. 

A acolhida dos jovens se desenvolveu através da educação beneditina, desde a mais tenra idade até às universidades americanas e às Filipinas. Quando as beneditinas congolesas se lançaram, por sua vez, numa fundação em terras muçulmanas, no Chade, elas ficaram surpresas ao ver tantas crianças desocupadas que se aglutinavam às portas do Mosteiro. Alfabetização e formação progressiva estão se impondo à sua presença. Em Santiago do Chile, apoiando-se na tradição beneditina, leigos abriram três escolas (Movimento Manquehue) em relação com as Abadias e Colégios de Saint Louis (Estados Unidos) e Ampleforth (Grã-Bretanha), que as acompanham. Convém ainda citar as numerosas escolas beneditinas na Alemanha (tais como Sankt-Ottilien), na Áustria, na Suíça, os cursos de inglês ministrados por Collegeville (Estados Unidos) em Taiwan e na China, as aulas dadas na Universidade Fu Jen, em Beijing, as traduções de obras bíblicas e teológicas em chinês... São muitas as realidades ativas que ultrapassam o âmbito da AIM, mas tornam patente a irradiação dessa formação orgânica que brota da comunidade e da vida litúrgica dos monges.    

O trabalho dos monges é um outro aspecto da vida comunitária. Quantos projetos não terá ele dado origem! «É um trabalho de beneditino», costuma-se dizer: solo cultivado, pântanos assoreados, irrigação, fabricação de produtos leiteiros, queijo; as cervejas trapistas nasceram da curiosidade e da engenhosidade dos monges, sem falar das cópias de manuscritos e do trabalho erudito dos Maurinos. São Bento, em sua Regra, preconiza que «seja dado a cada um segundo suas necessidades»(7). O Papa Bento XVI, em sua Encíclica «Caritas in veritate», sublinha o quanto as instituições humanas devem, também elas, seguir essas regras de eqüidade e de caridade.

A AIM, em sua modesta posição, é testemunha das disparidades que existem entre ricos e pobres. Tais disparidades só fazem aumentar. A propósito da Conferência de Copenhague sobre o clima, o jornal parisiense «La Croix» coloca na linha de frente do aquecimento da terra a África, a Índia, Bangladesh e Burkina Faso. Os Mosteiros da África, da América Latina e da Ásia experimentam atualmente grandes dificuldades econômicas. Como ajudá-los a garantir o próprio ganha-pão? Como dar-lhes a possibilidade de se inserirem numa perspectiva dinâmica de participação no desenvolvimento de suas regiões? De mais em mais, especialistas competentes prestam sua colaboração inestimável e vão, devagarzinho, ajudando a AIM a ultrapassar alguns desafios, a avaliar a fundamentação de determinados planos econômicos, de construções, de projetos de desenvolvimento. Assim como o formato de uma árvore é decorrência de sua livre interação com o ar, o solo, o sol e a chuva, cada Mosteiro é semelhante a um arbusto plantado numa determinada cultura com sua história própria... Possam essas comunidades frágeis se tornar lugares de desenvolvimento sustentável e ponto de apoio para as populações pobres dos arredores.

Cada Mosteiro beneditino faz parte de uma Congregação e as vinte Congregações atuais formam a Confederação Beneditina(8). O segredo da vida monástica está inserido na solidão e na identidade própria de cada Mosteiro, com seus usos e costumes. A autonomia é uma verdade incontornável, marcando a vida com uma profunda diversidade, fundamentada em sua maneira peculiar de viver o Evangelho.

Numa época em que o mundo inteiro está se tornando uma «aldeia global», os laços de solidariedade são indispensáveis. A AIM contribui à sua maneira na promoção de encontros regionais, nacionais e internacionais entre os Mosteiros masculinos e femininos oriundos de São Bento. Ela apóia a formação humana, cristã e monástica; procura, com alguns especialistas, contribuir da melhor forma para o desenvolvimento dessas comunidades. É um serviço que prestamos também com os amigos de nossos Mosteiros, na AMTM. São pessoas devotadas, eficientes, promovendo o desenvolvimento de mais de 400 Mosteiros. Que seu Presidente, Vice-Presidente e cada membro da AMTM creiam na certeza da oração e da profunda gratidão da AIM em suas intenções. Quarenta aos de presença, de dedicação, de serviço, de criatividade. O caminho percorrido desde o começo é imenso e imensas são também as necessidades atuais.

Uma nova era está a se abrir e a vossa presença aqui, nesta tarde, é um convite a enxergar mais além, com mais abrangência, a partilhar conosco vossa oração, vossas competências e vossas possibilidades. Que o Cristo vivo esteja no meio dessas comunidades. Que as ajude a se voltarem para ele, no louvor e na intercessão, acolhedoras, criativas, a fim de que as populações dos arredores possam também receber desses lugares de oração e de trabalho um apoio constante para o seu próprio desenvolvimento.

P. Martin Neyt, OSB
é monge do Mosteiro de Saint-André de Clerlande (Bélgica) e Presidente da AIM

 

Traduzido do francês por Dom Matias Fonseca de Medeiros, OSB

 

(1) Jean Guitton, prefácio de J. H. NEWMAN, Les Bénédictins, Paris, 1980; citado por F. DEBUYST, in Saint Benoît, p. 5.
(2) Frédéric DEBUYST, Saint Benoît. Un chemin de discrétion, Cahiers de Clerlande n°1.
(3) 136 comunidades na África, 143 na América Latina, 186 na Ásia.
(4) RB 20,3-4.
(5) Jo 3,8.
(6) RB 63,10.17 (cf. Rm 12,10).
(7) Cf. RB 55,20.
(8) A Confederação Beneditina é regida por uma Lex propria e presidida pelo Abade Primaz, Dom Notker Wolf, OSB.