Testemunho

TESTEMUNHO

Madre Françoise de Ville d’Avray, OSB

 

Nos dias que precederam a canonização de Bernardo Tolomei (26 de abril de 2009), realizou-se em Roma, convocada pelo Abade Geral da Congregação de Monte Oliveto(1), uma reunião dos Superiores e Superioras olivetanos, aberta aos demais monges e monjas vindos para a canonização, tendo como tema: «O que o Espírito diz à Congregação» por ocasião deste acontecimento de graça? Neste contexto, foram dados diversos testemunhos. O de Madre Françoise é um deles.


Meu testemunho se insere numa história, a do ramo feminino da Congregação de Monte Oliveto, cuja pedra fundamental é o Mosteiro de Palo del Colle (Itália). Este Mosteiro foi fundado em 1348, o mesmo ano da morte do Bem-aventurado Bernardo Tolomei. Foi uma morte imprevista, mas não a fundação do Mosteiro, pois São Bernardo a queria – e isso é importante. É o mais antigo dos nossos Mosteiros femininos na história da Congregação. Meu próprio Mosteiro somente ingressou na família de Monte Oliveto seiscentos anos mais tarde. Fundada em 966, minha comunidade viveu novecentos e oitenta e dois anos sob o hábito negro e a Regra de São Bento, antes de se tornar olivetana.

Questão de vocabulário: no decurso desta comunicação, utilizarei de modo equivalente as duas expressões: «Bem-aventurado Bernardo» ou « São Bernardo Tolomei».

 

Em que sentido eu me percebo como uma olivetana?

Meu testemunho pessoal começa aqui: quando ingressei na Abadia de Poyanne, em 1966, a comunidade estava festejando o milenário de sua fundação e já havia dezoito anos que ela estava usando o hábito branco. Com as jovens que ingressaram ao mesmo tempo que eu, nós éramos as primeiras vocações «olivetanas». Em que sentido nos percebíamos como postulantes, em seguida como noviças, e mais tarde como monjas olivetanas?

Em primeiro lugar, tínhamos consciência de estar entrando numa família maior do que nossa comunidade. Já conhecíamos Le Mesnil-Saint-Loup (o vilarejo atual e sua história, não a comunidade atual que não havia ainda retornado), conhecíamos também Maylis; logo conhecemos a Prioresa de Moustier-en-Fagne, Dom Paul Gramont vindo em visita à Abadia, em seguida o Abade Geral, Dom Zilianti, nossas Irmãs da Coréia e as do Bec-Hellouin(2). Enfim, uma família vasta e diversificada, mas unida em torno de um Pai sucessor do Bem-aventurado Bernardo e ao redor de uma Mãe, a Santa Virgem. Por causa dela usamos o hábito branco.

Este sinal visível de uma consagração marial é muito forte para mim, para as irmãs que entraram comigo e depois de mim. Lembramo-nos com satisfação dos termos da Crônica da Chancelaria onde se diz que o Bem-aventurado Bernardo havia escolhido a Santa Virgem «como única e primeira soberana», que ele a havia estabelecido como «sua advogada particular», que rezava a ela todo dia e, sobretudo, «se esforçava para lhe agradar com todas as suas forças»(3). É sob o olhar desta Mãe e guiadas por um tal Pai, Bernardo Tolomei, que desejamos viver nossa vida beneditina. A proteção da Santa Virgem sobre nossa Congregação e sua maternal solicitude são um grande conforto e um convite a permanecer pequenas como ela e magnânimas em nossa esperança. Se for preciso, a «Bambina» de Monte Oliveto nos lembrará! 

O segundo ponto, que me tocou desde o início de minha vida religiosa, foi o nome de nossa Congregação e o mistério para o qual ele remete: Monte Oliveto, Monte das Oliveiras, o lugar onde Jesus se retirava para rezar em particular e na solidão durante a noite; o lugar onde ele viveu sua agonia; o lugar de onde ele partiu de nossa terra para o céu. Este nome, Monte Oliveto, é para mim um convite a entrar na intimidade de Jesus em seus mistérios.

Mais tarde, ao descobrir a vida do Bem-aventurado Bernardo e dos primeiros Irmãos, reconheci esta atração profunda que eles tiveram pela vida contemplativa e a escolha que fizeram para segui-la: procuraram, longe do mundo, a solidão e a tranqüilidade propícias à contemplação, quiseram viver unicamente para Deus. Foi no «segredo do silêncio», «no segredo do silêncio do coração» que o Bem-aventurado Bernardo se entregou «aos abraços da divina contemplação»(4).

Por ocasião do Capítulo Geral de 2004, descobri as ermidas dos primeiros companheiros do Bem-aventurado Bernardo às quais se sobe por uma vereda selvagem, em meio a uma natureza grandiosa. Esta experiência foi para mim, da parte de Bernardo e seus companheiros, um sinal muito forte da vida contemplativa para a qual a Igreja nos convida, repetindo a palavra de Cristo: «Venite seorsum, vinde à parte». Perante este sinal, não apenas me sinto «em casa» na família olivetana, mas me sinto fortemente estimulada em minha vocação monástica toda ela voltada para a vida contemplativa.

 

Fizeram-me esta pergunta: como a senhora vive esta dimensão «contemplativa pura» no unum corpus?

Minha resposta será bastante simples: eu a vivo e minhas irmãs também a vivem como no unum corpus da Igreja! Esta dimensão do unum corpus se aplica em primeiro lugar à Igreja e sua fonte se acha em São Paulo: «Como o corpo é um todo tendo muitos membros... O corpo não consiste em um só membro, mas em muitos... Se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Há, pois, muitos membros, mas um só corpo» (1Cor 12,12.14.19-20).

Há Mosteiros de enclausuradas e Mosteiros de clausura menos estrita ou sem clausura. Há irmãos e irmãs e todos formam um só corpo, a serviço uns dos outros. Este corpo nós não o «fabricamos», mas o recebemos e nele vivemos. Por conseguinte, é permanecendo plenamente aquilo que somos, fiéis ao que a Igreja nos pede, que assumimos verdadeiramente nosso lugar no unum corpus da Congregação. É por aí que nós também damos seqüência à oração solitária do Bem-aventurado Bernardo e a sua fuga para o deserto com Cristo.

 

Como permanecemos unidas a nossos irmãos e irmãs sem sair do Mosteiro?

Conforme os termos da Verbi Sponsa, n. 6: «A vida contemplativa é precisamente o nosso modo característico de ser Igreja, de realizar nesta a comunhão, de cumprir uma missão em benefício de toda a Igreja...» e, portanto, de toda a Congregação. Continua o texto: «Por isso, às contemplativas enclausuradas, não se lhes pede para fazerem comunhão através de novas formas de presença ativa, mas que permaneçam na fonte da vida trinitária, vivendo no coração da Igreja».

E tudo isto está a serviço da Congregação inteira. Não são nossas raras saídas que nos unem ao unum corpus olivetano, é nossa fidelidade ao nosso carisma específico, é sobretudo a caridade que tem sua origem na fonte trinitária.

Dito isto, não restringimos somente a nós o carisma do Bem-aventurado Bernardo! Somos apenas um componente desse carisma, por nossa vida escondida, a serviço do corpo inteiro.

 

Em que o fato de ser olivetana caracteriza minha vocação monástica beneditina?

A riqueza do carisma do Bem-aventurado Bernardo e da família por ele fundada em Monte Oliveto foi descoberta por mim no Symposium das beneditinas, em 1993. Este Symposium reuniu pela primeira vez, em Santo Anselmo (Roma), monjas e irmãs beneditinas. Ou seja: irmãs de clausura e irmãs de vida apostólica, umas e outras seguidoras da Regra de São Bento. Não sei se os monges têm uma situação equivalente. O sacerdócio requer sempre um certo apostolado, embora reduzido, entre os contemplativos. Além disso, as regras de clausura são diferentes. Em Santo Anselmo, durante aquele mês de setembro de 1993, a unidade entre os dois grupos, monjas e irmãs, colocava um problema e era difícil. Pareciam dois mundos que mal podiam se entender e, a cada momento, corriam o risco de se confrontar, embora todas procurassem estender a mão. Era evidente que a Regra de São Bento, por si só, não bastava para realizar a coesão, unir numa única família membros tão diversos.

Ora, naquele Symposium, nós éramos quatro representantes olivetanas: Madre Érica, Prioresa Geral de «Vita et Pax» (Bélgica), Madre Zoé, Prioresa de Turvey (Inglaterra), Madre Ângela Choi, Prioresa Geral de Pusan (Coréia do Sul) e eu própria. Nós todas éramos diferentes em nossas vocações quanto à forma. Contudo, de imediato nos identificamos próximas e unidas numa mesma família. O que parecia um problema difícil de ultrapassar na assembléia nós o vivíamos sem dificuldade sob a guia do Bem-aventurado Bernardo e de seu sucessor no seio da família olivetana.

Nenhuma outra Congregação presente conhecia a mesma situação: elas eram todas ou de irmãs de clausura (Solesmes, Subiaco, etc.) ou de irmãs dedicadas ao apostolado. Que eu saiba, somente nossa Congregação agrupa em uma única família, sob um só Abade Geral, vocações beneditinas de várias expressões.

Foi aí que o carisma do Bem-aventurado Bernardo se me afigurou como o mais forte e o mais profético. O unum corpus, que redescobrimos neste último decênio com os estudos da CoReCo, é um CORPO que une membros diversos. Todos os nossos Mosteiros, nossas comunidades, na diversidade de suas formas de vida, de liturgia, até mesmo de hábito, são unidas pela graça fundadora de um mesmo Pai. Esse carisma do fundador não reproduz um modelo único, mas desenvolve ou integra vocações múltiplas em uma só família. Nesta unidade reside a graça fecunda do Bem-aventurado Bernardo.

O Bem-aventurado Bernardo certamente conheceu e quis a fundação de Palo del Colle; ele não poderia prever, cerca de um século mais tarde, a vocação de Santa Francisca Romana e tudo o que daí surgiu. Ele não poderia pensar que um dia, na Coréia, 44 professas perpétuas, 51 professas temporárias, 25 noviças, 12 postulantes e 10 aspirantes... 532 irmãs no total seriam agregadas a sua Congregação, e felizes de tê-lo como Pai. Poderia ele ainda imaginar que seis séculos depois, a Congregação «Vita et Pax», trabalhando pela unidade dos cristãos, faria parte da família olivetana? E as irmãs de Jonesboro? E as «Stabilite nella Carità»? Ou as Oblatas olivetanas dos Estados Unidos?... Talvez seja esta fecundidade do unum corpus que nossas vocações femininas, em sua diversidade, querem recordar à Congregação e a nossos irmãos monges.

Voltando ao Symposium de 1993: o que mais me impressionou foi o aspecto profético de nossa Congregação. Naquele momento, quando outras lutavam para estabelecer uma unidade entre monjas e irmãs, nós vivíamos esta unidade em nossa família olivetana, sem falsa hierarquia, num respeito pelas diferenças e a convicção de sermos todas filhas de um mesmo Pai: o Bem-aventurado Bernardo e seu sucessor, o Abade Geral. Este não é nem moderador nem Abade Presidente, ele é Pai, por vontade do Bem-aventurado Bernardo (Const. MO no 1), e é esta paternidade que fundamenta nossa unidade. Gostaria aqui de agradecer a nosso Abade Geral por esse rosto paterno que ele sempre nos mostrou. Quando, em 1995, o Abade Geral veio a nosso Mosteiro para a visita canônica, eu lhe falei da experiência que tivera no Symposium e de meu desejo em aprofundar os laços entre nossas comunidades de irmãs. Partiu daí sua decisão de nossos encontros de Superioras por ocasião dos Capítulos Gerais de 1998 e 2004, depois em Picciano, em 2007. Neste último encontro nós resistimos à tentação de nos «organizarmos» e criarmos estruturas. Por um instinto feminino, sentimos que isso tornaria artificiais nossas relações: em um CORPO tudo já está organizado para a vida e basta viver para que esta vida circule.

A união dentro de uma mesma família em torno do Abade Geral, no respeito de nossas diferenças, sem «hierarquia» entre nós, eis o que, para mim, é a herança monástica de São Bernardo Tolomei, o que caracteriza minha vocação beneditina enquanto olivetana.

 

Madre Françoise de Ville d’Avray, OSB
é Abadessa da Abadia de Notre-Dame de Saint-Eustase – Eyres Moncube (França)

 

Traduzido do francês por Dom Matias Fonseca de Medeiros, OSB

(1) Dom Michelangelo Maria Tiribilli, OSB.
(2) Le-Mesnil-Saint-Loup, Maylis e Bec-Hellouin são os três mosteiros franceses masculinos pertencentes à Congregação Olivetana.
(3) Manuscrito A Ch Ca 5.
(4) Ch Ca 26.