O priorado de Tabgha

O PRIORADO DE TABGHA

P. Elias Pfiffi, OSB

 

Tabgha1O milagre da multiplicação dos pães, às margens do lago de Tiberíades, é um dos mais conhecidos milagres de Jesus. Depois de um longo ensinamento, Jesus deu de comer à multidão que o seguira até aquele lugar solitário, com cinco pães e dois peixes (Mc 6, 30-31; Mt 14, 3-21). Por essa razão, desde os tempos mais antigos, o referido lugar era venerado pelos peregrinos. A pedra sobre a qual Jesus colocara os pães e os peixes tornou-se o altar da pequena igreja construída em torno do ano 350 d.C. A monja espanhola Etéria (ou Egéria), que viajou pela Terra Santa, cerca do ano 390 d.C., descreve, em seu célebre «Diário de Viagem», o lugar, a igreja e a veneração da pedra-altar. Como naquela região brotam sete nascentes, o lugar foi chamado, em grego, «Hepta-Tpegon» (Sete Fontes), palavra que, «deformada», transformou-se em Tabgha, seu nome atual. Situado nas proximidades de Cafarnaum, aos pés do monte das Bem-aventuranças, esse lugar é um pequeno jardim do Éden devido à abundância de água.

Na segunda metade do século V, no lugar da antiga igreja, construiu-se uma maior, em estilo bizantino. Seu piso foi decorado com esplêndidos mosaicos representando a fauna e a flora ao redor do lago. Esta basílica bizantina foi destruída na primeira metade do século VII, durante a invasão dos persas, e permaneceu soterrada por mais de 1300 anos.

No final do século XIX, a Associação Alemã da Terra Santa adquiriu o terreno para nele instalar uma casa de fazenda e uma plantação de limoeiros. No entanto, notava-se sob o terreno vestígios arqueológicos. Os restos da igreja bizantina, descobertos em 1911, foram sistematicamente escavados, nos trinta anos seguintes, e protegidos por uma igreja provisória. Em 1982, foi consagrada a atual igreja, inspirada e restaurada no estilo bizantino. Às margens do lago foi construído um altar para nele celebrar a Santa Missa, ler a Bíblia ou contemplar o entorno (Dalmanutha) em silêncio.

Tabgha2A Associação Alemã da Terra Santa confiou Tabgha primeiramente aos Padres Lazaristas alemães. Em 1939, os Beneditinos da «Dormitio» assumiram esta missão. Em meados dos anos 50, um pequeno Mosteiro foi construído ao lado da igreja provisória. Até então, os monges viviam na casa de fazenda no meio das plantações. O encargo da igreja e a assistência aos peregrinos, bem como a ocupação com as plantações dos limoeiros e oliveiras foram durante muitos anos as principais tarefas da pequena comunidade. 

Em meados dos anos 80, depois da consagração da nova igreja, as multidões de peregrinos aumentaram. A antiga casa dos empregados árabes foi transformada em uma pequena hospedaria e o terreno em volta do antigo estábulo numa área para «camping». O pequeno riacho que atravessava a propriedade foi represado para se construir um dique; assim, a parte do terreno entre a igreja e o lago tornou-se um oásis. O antigo estábulo, que recebeu o nome de «Beth Noah» (Casa de Noé), serviu, durante vários anos, como casa de acolhida para grupos de jovens e, principalmente, pessoas deficientes. Destarte, inúmeras pessoas da Terra Santa (tanto israelenses como árabes) e da Europa podem encontrar aqui um lugar de paz, de descanso e de oração. Por isso, chamamos este local de «Centro de Encontro para jovens e deficientes». A hospedagem para os grupos de deficientes é gratuita, pois, no sopé do Monte das Bem-aventuranças, sobretudo esses «pobres» devem encontrar um lugar onde possam sentir-se como em sua própria casa. Há alguns anos o velho estábulo foi demolido e, em seu lugar, foi construída uma nova «Beth Noah» adaptada para eles.      

Uma vez por ano, convidamos os católicos do país e os outros cristãos, juntamente com o Patriarca latino, para um grande evento: a Festa da Multiplicação dos Pães. É importante para nossa comunidade mantermos uma relação viva com as outras comunidades religiosas e a Igreja oriental.

A vida beneditina em Tabgha não é simples. As grandes massas de peregrinos impõem diariamente à pequena comunidade tarefas pesadas. A esplanada da Missa, em Dalmanutha, está sempre reservada para os grupos que vêm celebrar a Eucaristia. Por isso, em 1994, vieram das Filipinas para Tabgha algumas Irmãs Beneditinas a fim de ajudarem os monges na assistência aos peregrinos e aos hóspedes. Mesmo unindo as forças, com freqüência mal conseguimos dar conta dos trabalhos que deveriam ser feitos. O Centro de Encontro recebe por ano muitos visitantes e inúmeros pernoites. Durante o verão, na maior parte do tempo, são mais grupos locais que vêm, ao passo que, no inverno, são grupos da Alemanha (Seminários Diocesanos, Escolas Bíblicas, etc.). Se conseguimos e podemos tornar isso aqui possível, para os visitantes do lugar da multiplicação dos pães, nós o devemos à ajuda de estagiários e voluntários.    

Do outro lado das plantações de Tabgha, a Associação da Terra Santa construiu uma grande «Casa do Peregrino». Outros projetos de construções seguem acompanhando nossa vida monástica, inclusive em 2009. Havíamos previsto para março de 2009 a demolição da hospedaria de nosso Mosteiro, a fim de construirmos outra nas proximidades. A casa antiga estava ameaçando cair em seguida a fortes movimentos tectônicos.

Os monges se esforçam para manterem com fidelidade a vida monástica nesse lugar. Isso nem sempre é fácil de conseguir com uma pequena comunidade e as numerosas exigências. Além disso, acrescente-se no verão o imenso e úmido calor.

Tabgha3Como na época de Jesus, o lugar vive na tensão entre solidão e comunidade. Trata-se de um local afastado onde inúmeras pessoas, como Jesus, procuram o silêncio e a oração. Por outro lado,  Tabgha é inundado por massas humanas que buscam a comunidade, o repouso e o alimento para sua vida intelectual e espiritual. Essas necessidades contraditórias nem sempre são simples de satisfazer. Com freqüência temos somente «cinco pais e dois peixes» para os numerosos peregrinos. Mas com a bênção de Deus, esperamos continuar a saciar a fome e a sede dos homens que vêm a Tabgha.

 

Traduzido do alemão por Cristiano Schalberger.