Abu Gosh

A ABADIA DE SANTA MARIA DA RESSURREIÇÃO
DE ABU GOSH

P. Louis-Marie Coudray, OSB

 

AbuGoshEm 1º de maio de 1976, os Padres Jean-Baptiste, Charles e Alain celebraram sua Primeira Missa na igreja construída no século XII pelos Cavaleiros de São João do Hospital, hoje situada no centro da cidade muçulmana de Abu Gosh, a 12km de Jerusalém. Eles acabavam de ser enviados para Israel por Dom Paul Grammont, Abade de Bec-Héllouin, com a finalidade de ali criarem uma presença monástica, no espírito de abertura ecumênica e de atenção para com as raízes da Igreja. Por uma graça recebida na oração e discernindo o apelo de Deus na leitura de acontecimentos relacionados com a vida destes três irmãos, foram eles enviados e, depois de algumas semanas de observação, se instalaram como uma antena da Abadia fundadora na propriedade nacional de Abu Gosh, então abandonada. Qual era o sentido exato desta nova presença monástica na Terra Santa? Dom Paul Grammont nos responde:

«O ressurgimento dos conflitos que dilaceraram a Igreja em confissões separadas, remontam à primeira ruptura entre a Sinagoga e a Igreja nascente. A atenção dirigida ao mesmo tempo às nossas raízes comuns do mistério de Israel faz parte desta retomada da memória de tudo o que nos é comum e do que nos diferencia e daquilo que nos opõe... Esta presença monástica é orante e de escuta... Trata-se para a comunidade monástica beneditina de estar humildemente à escuta desta terra santa, na qual as próprias pedras gritam e cantam a expectativa de todo o Orbe... Viver assim, em uma fervorosa oração de sentinela, não acontece sem um conhecimento cordial do meio no qual se encontra e uma como que familiaridade com esse meio.  

Reencontrando assim, a terra das origens, a dos nossos pais na fé, os monges se sentem em casa no país dos Patriarcas, dos Profetas, dos cantores do Altíssimo. Estar ali, pobre e silenciosamente, acolhedores das ressonâncias misteriosas da Palavra de Deus e fiéis à esperança escatológica da Igreja, é toda a vida deles. Isto pode parecer algo gratuito, e de fato é o desejado, no respeito à raiz que nos sustenta, e ao futuro de Deus.

Ao falarmos de retorno às fontes, é bom voltar a atenção ao ponto germinal da Igreja e do monaquismo cristão, sem arqueologismos, nem ideologias, mas dentro de uma lógica da tradição, que guarda sempre o valor atual de uma fonte em seu nascedouro. Por outro lado, há uma atitude de humildade em viver cada dia em contato com Israel, que nos obriga a purificar nosso cristianismo de toda auto-suficiência e de todo triunfalismo, sem renegar, contudo, nossa identidade.

Não se trata de judaizar, mas de reconhecer ʹa pedra da qual formos talhadosʹ, e de dar a nossos irmãos judeus o testemunho de uma vida verdadeira, perpassada por uma bela oração, da qual nos foram dados os poemas, especialmente nos salmos.

É, aliás, uma sabedoria repleta de um sentido agudo do homem e de sua vocação universal, que faz a unidade tanto da Bíblia em sua totalidade como da existência do monge e do cristão, e permanece para o mundo como a grande esperança de paz.

No momento em que o próprio capital humano está ameaçado, e no qual o universo busca a sua coesão, como se o planeta Terra se encolhesse, é importante escutar a grande voz dos Profetas e dos Sábios, a mensagem dos doutores da Lei de Israel, em uma terra onde espaço e tempo se contraem, e onde o Verbo de Deus recapitula em si mesmo todos os caminhos e expectativas da história. Ele veio não para abolir, mas para cumprir, reunindo em si o imenso memorial de Israel e dando a ele sua expansão cósmica que nada deixa fora dele.

Escuta... amarás... Estas duas palavras da Regra beneditina, no começo do Prólogo e do Capítulo IV, são o eco do «Shemá Israel» – «Escuta Israel», e também  seu prolongamento.

E como foi prometido ao povo de Abraão, de Isaac e de Jacó, de Moisés e de Elias, ao povo de Maria e de Jesus, chegar à Jerusalém do alto, do mesmo modo a nossa Regra beneditina termina: «chegarás...».  

 

Nossa comunidade 

Em 15 de agosto de 1977, as três primeiras monjas-oblatas vieram juntar-se aos monges. Elas ficaram um ano com as Irmãs de São José, em Qiriat Yearim. Com a autorização do Patriarca, instalaram-se, no ano seguinte, em um edifício restaurado no interior da propriedade. Podíamos, então, cantar cotidianamente o Ofício juntos e ter a graça de viver cada dia o carisma de Santa Francisca Romana, imagem da Igreja em sua união com Cristo, em resposta ao desejo do Criador, expresso no livro do Gênesis: «Deus criou o homem a sua imagem, à imagem de Deus ele os criou, homem e mulher ele os criou».

AbuGoshliturgieAssim exprime-se esta característica particular das monjas-oblatas. A oblação monástica da monja passa pela mediação da Abadia dos Irmãos, da qual ela é oblata. Não há senão um único altar para as duas comunidades e ambas sob uma única paternidade do Abade, mas guardando cada uma sua autonomia e sua própria gestão. Um só corpo, mas duas comunidades diferentes, em comunhão, mas sem confusão.

Depois, cada uma das comunidades cresceu e adquiriu um terreno, restaurando edifícios antigos, e construindo novos em função das necessidades e organizando a horta.

Em 1981, a comunidade foi estabelecida pelo Abade Presidente da Congregação, como Priorado autônomo com noviciado próprio. A seguir, em 1999, a Santa Sé erigiu-nos em Abadia com o nome de Santa Maria da Ressurreição. Em 2003, nosso Abade, D. Jean Baptiste Gourion, foi nomeado Bispo Auxiliar do Patriarca, encarregado da comunidade de língua hebraica. Ele exerceu esta função apenas por dois anos, pois voltou à casa do Pai em 23 de junho de 2005. A 29 de setembro de 2005, a comunidade monástica elegeu para dirigi-la D. Charles-Eugène Galichet.       

Somos uma comunidade de Irmãos e de Irmãs, em uma cidade muçulmana, em Israel! Encontrar-se no coração desta cidade, em uma pequena propriedade, não favorece a forma tradicional de vida monástica de silêncio e de solidão.

Nossa vida se organiza a partir dos quatro pólos tradicionais, que são a oração, a vida fraterna, o trabalho e o acolhimento.

Os momentos fortes de oração são os Ofícios, quando toda a comunidade louva a Deus. Eles são em número de seis: Irmãos e Irmãs encontram-se na igreja para as Laudes, a Missa e as Vésperas; e cada comunidade separadamente, para as Vigílias, Noa e Completas.

Com o objetivo de responder a esta missão particular em Israel, introduzimos o hebraico, língua da Bíblia, em nossos Ofícios. Assim, todo o ofício de Noa é cantado nesta língua com melodias próprias, adaptadas de Keur Moussa(1).

A pequena dimensão de cada uma das comunidades de Irmãos e de Irmãs, permite nos aproximarmos uns dos outros, nos conhecermos, nos ajudarmos mutuamente em nossa busca de Deus. No interior de cada uma delas oramos, tomamos as refeições e trabalhamos. As reuniões de comunidade permitem-nos um intercâmbio entre Irmãos e Irmãs em intervalos regulares. As saídas fazem-nos descobrir o país e viver a Bíblia em seu próprio solo. O retiro anual e os diferentes encontros de formação permanente são vivenciados pelas duas comunidades juntas.

Como diz São Bento: «Serão verdadeiros monges se viverem do trabalho de suas mãos»; assim, são nossas atividades artesanais que nos permitem viver. As Irmãs possuem um ateliê de velas. Por seu lado, os Irmãos fabricam cerâmica, e o conjunto da produção, é vendido na loja, que se encontra no recinto do Mosteiro.

Nossa lectio divina é beneficiada pela contribuição extraordinária do país, que pela geografia e a história, empresta uma outra vida aos textos. A proximidade com o povo judeu e sua maneira de viver a Palavra de Deus constitui um real enriquecimento.

Mantemos o acolhimento tradicional dos Mosteiros beneditinos por meio de duas pequenas hospedarias para pessoas em retiro ou peregrinos desejosos de prolongar, na meditação, a descoberta da Terra Santa. As Irmãs têm um recinto no qual podem receber seis pessoas, os Irmãos podem hospedar oito. Um segundo aspecto do acolhimento é a recepção de inúmeros visitantes: turistas que vêm admirar o belo monumento, peregrinos que querem evocar o encontro com o Senhor em Emaús e orar neste lugar santo, e muitos israelenses que descobrem em família, em grupo ou pelo serviço cultural do Exército uma das mais belas igrejas românicas do seu país, um mosteiro e seus monges. Serviço enriquecedor, em que por meio do contato pessoal, há uma descoberta recíproca, e pela criação de laços acontece uma certa integração na sociedade local e a realização da nossa vocação de presença cordial.

 

Inserido na Igreja, em um país

Todas as Igrejas, todos os ritos estão presentes em Jerusalém. Esta concentração é um convite à abertura de espírito e de coração às diferentes tradições, com suas riquezas e seus limites, mas igualmente a um autêntico amor pela nossa própria tradição na humildade.

A Terra da Bíblia, da Encarnação e da Páscoa do Senhor age como um imã que atrai numerosos peregrinos de todo o mundo. Por isso nossa comunidade é internacional.

O conjunto da Igreja local é palestinense. O contexto conflitivo das relações sócio-políticas entrava toda iniciativa teológica e espiritual com relação à História da Salvação. Existe uma pequena comunidade de língua hebraica (da qual fazemos parte). Mas sua vida é difícil e ela busca a própria identidade, ao passo que o sentido da Igreja local continua sendo territorial.

Ser uma presença monástica à escuta do mistério de Israel reveste-se de uma dupla dimensão: histórica, que, voltando no tempo, deseja estar atenta à tradição do povo de Jesus, para melhor compreender a nossa fé e ter um melhor conhecimento da comunidade primitiva; e atual, pela atenção prestada ao cotidiano do povo de Jesus que, depois de ter vivido dois mil anos de exílio, retorna à sua terra. Esta atenção implica em uma atitude positiva consciente de todos os problemas teológicos e políticos, e deve ser solidária para com os dramas humanos gerados por esta situação.

Vivendo neste país, cada um situa-se ou do lado palestinense, ou do lado israelense, com o risco de «diabolizar» o outro lado.

É um combate incessante recusar esta simplificação fácil e procurar manter contato com todos. Premidos entre muçulmanos e judeus, os cristãos vivem aqui numa situação minoritária que é um convite à afirmação de sua identidade na autenticidade do amor a Cristo.

A sociedade israelense, considerada na complexidade de sua evolução, de suas relações entre religiosos e leigos; a sociedade árabe, submissa à pressão muçulmana, são um apelo constante a não confundir fé e religião, a sempre defender e viver a vida fraterna aberta ao próximo e à sua cultura. Como gota d’água no oceano da complexidade local, cada encontro é um pequeno passo no caminho da paz e da justiça, na fraternidade. É certo que a evolução das relações entre as populações judias e árabes nos últimos anos torna esses encontros cada vez mais difíceis. É guardando no coração o lema de Dom Abade Paul: «Spes autem non confundit», que desejamos colocar nossa confiança em um futuro de paz sempre possível. Nesta terra se ouviu uma voz que disse, em Belém: «Paz aos homens de boa vontade». Em nossa posição de monges e monjas, como todos os cristãos, queremos ser testemunhas disso.

 

P. Louis-Marie Coudray, OSB, é monge
da Abadia de Sta. Maria da Ressurreição, Abu Gosh (Israel).

Traduzido do francês pelas monjas
do Mosteiro da Santíssima Trindade, Santa Cruz do Sul, RS.

 

(1) A Abadia de Keur Moussa («Casa de Moisés») é um Mosteiro beneditino no Senegal, pertencente à Congregação de Solesmes, célebre pela música litúrgica em ritmo africano composta e cantada pelos monges.