Monges e Monjas em Jerusalém

MONGES E MONJAS EM JERUSALÉM

P. Marcel Dubois(1), OP

 

Religioso, chamado há quase trinta e cinco anos para viver em Israel, em meio ao povo judeu, o Senhor deu-me a graça de descobrir as comunidades de monges e de monjas que estabeleceram sua morada nesta terra. Beneficiado pelo seu acolhimento fraterno, gostaria de dar meu testemunho sobre a presença da vida monástica na terra da Bíblia e do Evangelho, muito freqüentemente desconhecida ou simplesmente ignorada pelos cristãos. Uma presença cuja irradiação é única e necessária.

Aliás, seria importante lembrar que esta terra é um dos lugares altos onde a vida monástica começou. Do deserto de Judá ao Neguev, ainda subsistem inumeráveis vestígios deste fato. É lá que se enraíza a grande tradição da qual nossos Mosteiros são herdeiros. Mas eu gostaria de sublinhar um outro aspecto desta presença que está em singular consonância com a vida atual da Igreja, a saber, a profunda harmonia que une a vida dos monges e monjas à vocação do Povo de Deus. A contemplação do mistério de Israel, à qual a Igreja nos convida a partir do Concílio Vaticano II, nos ajuda a perceber esta afinidade.

Para fazer com que meus irmãos e irmãs em Cristo compreendam a importância do conhecimento deste mistério na revelação de nossa identidade cristã, costumo recorrer ao seguinte argumento: que poderíamos dizer se nos fosse pedido dar um testemunho, em poucas palavras, a respeito de nossa fé, àqueles que dela não partilham, incrédulos, ateus, indiferentes, ou fiéis de outras religiões ? Não falo dos judeus, compreende-se por quê. Esclareço que não se trata do conteúdo do nosso credo, mas do testemunho de nossa atitude existencial diante de Deus e diante de sua Palavra. Parece-me que a melhor resposta consistiria em desenhar nossa face cristã com alguns traços puros e exatos, à maneira de um desenho de Matisse. Creio que seis traços serão suficientes para um tal esboço.

Primeiro traço
Como cristão, eu escuto. Deus falou, ele me convida a escutar, presto atenção ao que ele diz. «Fides ex auditu».

Segundo traço
Como cristão, eu faço memória. Deus falou, Deus agiu, não somente me lembro do que ele disse e do que ele fez, mas, pela memória de sua Presença, no sentido em que dizia Santo Agostinho, eu atualizo na minha vida o mistério de sua Palavra e de sua Ação.

Terceiro traço
Não sou o único a escutar assim e a fazer memória, estou cercado de irmãos e irmãs atentos à mesma Palavra e ligados pela memória da mesma Presença. Pertenço a uma comunidade, sou membro de um Povo, sou filho da Igreja.

Quarto traço
Vivo, com estes irmãos e irmãs, na fidelidade a uma tradição que nos reúne através do espaço e do tempo.

Quinto traço
Dou graças, pois aquele que me falou e a quem escuto, quis me revelar a felicidade para a qual me chama, a salvação na qual me convida a entrar.

Finalmente, um último traço

Espero, pois aquele que me falou e a quem escuto, prometeu que voltaria; eu o  aguardo, eu vivo na esperança de seu retorno.

A escuta, a memória, a comunidade, a tradição, a ação de graças, a esperança, tais são, incontestavelmente, os traços que caracterizam a face do cristão em seu encontro com Deus. Se perguntarmos: A quem pertencem estes traços, originalmente? De que semelhança são reflexo? Quando se vive em Israel, quando se lê a Bíblia e o Evangelho em meio ao povo judeu, à luz do Antigo e do Novo Testamento, pode-se responder com toda certeza: são os traços do povo que Deus escolheu para preparar a vinda de seu Filho a este mundo, o povo da escuta, o testemunho da memória, o cantor da ação de graças, o modelo da esperança. Estes são os traços que herdamos em Jesus Cristo e por Jesus Cristo. Uma semelhança à imagem da face de Jesus e de sua Mãe.

Este argumento basta para colocar em evidência o vínculo que une o Novo Testamento ao Antigo, a vocação cristã da eleição de Israel, em suma, a continuidade do desígnio de Deus na História da Salvação e sua realização em Jesus Cristo. No entanto, de uma maneira mais resumida, podemos aplicar o mesmo argumento à vida monástica. Se quisermos, com efeito, definir por um lado a vocação do Povo de Israel, e por outro a vocação dos monges e das monjas na Igreja como ícone da santidade cristã, é notável o fato de podermos empregar a mesma fórmula: uma comunidade de pessoas chamadas por Deus a escutar sua Palavra, a meditá-la dia e noite, a colocá-la em prática na vida cotidiana, reunida por ela na ação de graças, em um testemunho vivo da esperança no Reino que vem.

Como não se deixar seduzir por esta semelhança! Reencontramos aqui e ali a mesma atitude diante de Deus: escuta da Palavra, memória, comunidade, tradição, observância, ação de graças, esperança do Reino. Considerados a partir desta luz, os monges e as monjas aparecem como aqueles que continuam na Igreja a vocação do Povo de Deus. Esta verdade é mais radiosa ainda por se tratar de uma vida monástica vivida na própria terra onde a Palavra foi pronunciada, em meio ao povo que foi o primeiro a ser chamado. Simples presença no silêncio, na escuta e no louvor, a vida dos monges e das monjas em Israel é certamente o testemunho mais radiante do amor do Senhor pelo seu povo e pelo mundo. 

Às vezes o apelo é mais singular ainda e seu ponto de aplicação mais preciso. É o caso daqueles e daquelas que o Senhor designou para viver sua consagração monástica em Jerusalém: «Sobre teus muros, Jerusalém, coloquei sentinelas» (Is 62, 2). Este é, ao mesmo tempo, o privilégio e a responsabilidade das monjas do Monte das Oliveiras. Elas contemplam o espaço que Deus escolheu para aí fixar sua morada. Elas dominam toda a paisagem onde se cumpriu o acontecimento da Redenção. Elas velam por meio da oração e do silêncio sobre o lugar onde a eternidade se inseriu no tempo. O lugar da Cruz e da Ressurreição.

Deste modo, noite e dia, as Irmãs Beneditinas estão lá, presentes diante da Presença, em nome da Igreja e do mundo dos homens. Com uma atenção tanto mais viva e uma compaixão tanto mais profunda, porque a cidade sobre a qual elas velam, sintetiza em si o destino do mundo, suas esperanças e suas angústias, suas feridas e sua aspiração à paz. Jerusalém é, simultaneamente, figura da Jerusalém do alto e uma cidade terrestre, onde se confrontam os homens com suas paixões e seus problemas, uma cidade onde estão entrelaçados o sagrado e o profano, a santidade e o pecado. 

Do alto do seu Mosteiro, por meio de uma presença silenciosa, no memorial e na esperança, as Beneditinas de Nossa Senhora do Calvário testemunham em favor de Jerusalém, da Igreja, e de todos os que esperam a salvação, que Jesus ficará conosco até o fim dos tempos, e que a «Cruz se mantém de pé, enquanto o mundo gira».


(1) No início dos anos 60, o P. Marcel-Jacques Dubois, OP, uniu-se em Jerusalém ao P. Bruno Hussar, fundador da «Casa Santo Isaías», em Jerusalém, com o qual começou a trabalhar, encorajando os cristãos a estudar as ciências judaicas e o judaísmo. Filósofo de formação, ensinou na Universidade Hebraica de Jerusalém, na qual como especialista na filosofia de Santo Tomás, procurou transmitir a sabedoria da metafísica a gerações de estudantes da Universidade Hebraica. Tornou-se, além disso, decano da Faculdade de Filosofia da mesma Universidade. Pediu e obteve a nacionalidade israelense em 1973. O P. Dubois foi consultor do Pontifício Conselho para as relações religiosas com o Judaísmo, de 1974 a 1995. Recebeu em 1988 o prêmio anual da amizade judaico-cristã da França. De 1989 a 1993, foi diretor do Instituto Ratisbonne. Faleceu em Jerusalém, a 14 de junho de 2007, com 87 anos de idade. Foi inumado em Beit Shemesh, em Israel, no seio da comunidade das Irmãs de Belém.

Traduzido do francês pelas monjas
do Mosteiro da Santíssima Trindade, Santa Cruz do Sul, RS.