A vida monástica na Terra Santa

A VIDA MONÁSTICA NA TERRA SANTA

Sinal frágil de uma presença única
e objeto de nossa comum responsabilidade

 

desertjudaDesde os primeiros séculos de vida monástica cristã houve mosteiros, lauras e eremitérios na chamada Terra Santa. Assim, quando São Jerônimo, no final do século IV, começou a escrever em Belém a história dos primeiros monges, já existiam no país testemunhos de vida monástica há quase um século. O deserto de Judá, a região de Gaza e o Monte Carmelo, bem como os arredores da Cidade Santa, foram povoados por monges e monjas na época bizantina e quase sem interrupção até os nossos dias, apesar de algumas duras provações.

No século XX, percebemos como muitas linhas da mais antiga tradição simplesmente permaneceram e se desenvolveram. É o caso da presença grega ortodoxa: sobretudo no Mosteiro de Mar Sabas, no deserto de Judá, é notável a continuidade, enquanto em outros Mosteiros há geralmente um ou dois monges ou monjas para manter a presença (como em Mar Elias, Mar Teodósio, São Jorge de Koziba, no Wâdi Qilt, o Monte da Quarentena, perto de Jericó...). Quanto à ortodoxia russa, constatamos alguns Mosteiros russos repovoados, como os dois Mosteiros de monjas do Monte das Oliveiras, um vinculado ao Patriarcado de Moscou, o outro não. Mais recentemente, uma nova fundação monástica romena tomou forma em Jericó. Notemos ainda a presença discreta de monges ortodoxos sírios, coptas e etíopes, todos na Cidade Santa, mais ou menos próximos do Santo Sepulcro.

MtOliviersDo lado ocidental, a partir do século XIX, vimos beneditinos e trapistas povoar ou repovoar lugares como Latroun (trapistas de Sept Fons, França), Abu Gosh (ocupado primeiramente por monges de En-Calcat, França, que também se encarregavam da formação do futuro clero sírio católico, na chamada «Casa de Abraão», numa colina a leste de Jerusalém), a Dormição, no Monte Sião (pertencente na origem à Congregação de Beuron), as monjas do Monte das Oliveiras (da Congregação das Beneditinas de Nossa Senhora do Calvário, agregada à Congregação de Subiaco), Tabgha, na Galiléia (dependência da Dormição), Deir Hanna (Lavra Netofa, com o trapista P. Jakob Willebrands, de Zundert, na Holanda), as Beneditinas originárias de Loppem-Bruges (Bélgica), mas procedentes da Argélia (Médéa), passando pelo Líbano até se incrustarem na entrada de Belém, não distante da Tumba de Raquel (Mosteiro do Emanuel, monjas de rito melquita). Esta mesma Igreja melquita tem ainda um outro Mosteiro de monjas em Nazaré, na Galiléia. Em tempos mais recentes, chegaram os Olivetanos do Bec-Héllouin (França), monges e monjas, para reocuparem os lugares em Abu Gosh. Também os monges de Montserrat vieram para se ocupar da acolhida no centro ecumênico de Tantur, criado pelo Papa Paulo VI, às portas de Belém. Ele queria igualmente monges ou monjas para se encarregarem da hospitalidade no grande centro de peregrinos que é «Notre Dame de Jérusalem», nos arredores da Cidade Velha, desejo que nunca se realizou plenamente. O Papa via nesse trabalho a conjunção entre hospitalidade beneditina e oração de adoração e intercessão. Tantur, por ora, não tem mais presença monástica.

Poderíamos ainda mencionar tudo o que surgiu do ramo carmelita, que tem suas origens no monaquismo bizantino do Monte Carmelo, no século XIII, e que historicamente foi «uma lâmpada do Oriente trazida para o Ocidente». O mesmo acontece com a presença das Clarissas ou dos Irmãozinhos e das Irmãzinhas de Charles de Foucauld, também tão próximos da vida monástica. Em Aïn Karem todo mundo conhece bem «La Solitude», onde vivem as religiosas do ramo contemplativo das Irmãs de Sion. Recentemente as Brigidinas chegaram em Belém e em Jerusalém. Deixemos a lista em aberto sem querer fazer um levantamento exaustivo.

SinaiDiversas comunidades novas, de inspiração monástica, fundaram uma ou mais casas na Terra Santa: os Irmãos de Bose, vindos da Itália, se estabeleceram em Jerusalém há um quarto de século; as Irmãs de Grand Champ (Santa Elisabeth, perto de São João do Deserto); também membros do grupo de Dosetti: a «Piccola Famiglia dell’Annunziata», instalada em Ain Arik, ao norte de Jerusalém, e a «Piccola Famiglia della Risurrezione», na própria Jerusalém.

Este panorama está, aliás, em constante movimento. Um dos fenômenos típicos desses últimos vinte e cinco anos na Igreja universal se verifica igualmente aqui: algumas comunidades novas vêm substituir ou reforçar as comunidades exauridas pela idade ou pela falta de vocações. É o caso das Irmãs e dos Irmãos de Belém, de inspiração cartusiana, de São Bruno, que começaram uma nova fundação perto de Beth Shemesh (nas proximidades de Latroun, a meio caminho entre Jerusalém e Tel Aviv), e assumiram, na Galiléia, a colina de Lavra Netofa, do P. Willebrands, falecido. São João do Deserto, durante algum tempo mantida pelos membros da comunidade da Teofania, não tem mais presença monástica como tal. Atualmente, são os franciscanos que se responsabilizam pelo local.

Uma das perguntas feitas, ao se considerar este panorama, é a seguinte: onde esses monges e monjas estão situados no plano eclesial? Podemos destacar dois pólos de presença: no centro da Igreja local e a serviço das Igrejas que visitam os lugares santos em peregrinação.

No centro da Igreja local. Percebemos que, em geral, a Igreja local tem uma grande estima pelas comunidades monásticas. É o caso específico das monjas de rito melquita em sua respectiva Igreja.

A serviço das Igrejas que vêm à Terra Santa em peregrinação: as comunidades oferecem um local para se recolherem, meditarem as Escrituras, celebrarem a Eucaristia, a Liturgia das Horas, se confessarem ou ainda encontrarem uma hospedagem agradável.  

Se dissermos que qualquer lugar monástico tem necessariamente este duplo enfoque, na prática as diferenças são, por vezes, muito grandes. Com efeito, nem todas as comunidades monásticas puderam desenvolver o mesmo tipo de presença nessas duas frentes. Algumas enfatizam mais o segundo pólo: vivendo, por exemplo, em um meio majoritariamente muçulmano, não têm nas proximidades uma comunidade cristã local precisa. De igual modo, rezar na língua do país é, sem dúvida, um desejo maravilhoso e um verdadeiro desafio, mas bem difícil de ser realizado levando em conta os contextos de inserção. Algumas comunidades o têm conseguido de maneira admirável.

De resto – e isto justifica a afirmação que todo lugar monástico funciona conforme os dois pólos mencionados – a vida monástica na Terra Santa constitui um pulmão, uma abertura em um tesouro milenar, uma maneira bem concreta de lá encontrar a Fonte onde o coração chora, intercede e, com lágrimas, purifica tudo, reconcilia tudo, unifica tudo no Único divino. De vez em quando, nas últimas décadas um ou outro monge tem se destacado como homem de paz entre árabes e judeus, muçulmanos e cristãos, pequenos e grandes. Monges e monjas constituem uma força espiritual no país, e mesmo para aqueles que passam lá apenas uma semana, eles lhes proporcionam uma alegria, uma semente de paz, uma humildade que absorve a violência reinante. São, sem sombra de dúvida, subestimados por várias instâncias políticas e até mesmo religiosas do país, enquanto no plano ecumênico ou no plano inter-religioso e intercultural, bebem sem cessar da única fonte que comunica a paz. Sabem melhor do que ninguém e têm demonstrado ao longo da vida que para serem uma mulher ou um homem de paz é necessário penetrar no sofrimento do outro, evitar julgamentos, não tomar partido, mas chorar com uns e com outros, descendo ao nível mais baixo, onde somente Deus pode reconciliar e «faz nascer o sol tanto sobre os bons como sobre os maus», sem distinção de pessoas.

Quanto ao recrutamento vocacional, há mais de mil anos este provinha essencialmente de fora – embora não devamos subestimar a vitalidade de algumas congregações apostólicas fundadas no país, como, por exemplo, as Irmãs do Rosário. Contudo, sempre houve peregrinos de passagem que se fixaram aqui e se tornaram eremitas vivendo algum tempo em lauras... Não se pode explicar de outro modo a origem dos monges do Monte Carmelo, no século XIII: eram eremitas que, querendo viver mais próximos, pediram ao Patriarca latino uma regra básica. O monaquismo romeno é outro exemplo: durante séculos os Mosteiros romenos foram apoiados e protegidos pelos príncipes da Moldávia. A proteção se estendia às casas e mosteiros tanto da Terra Santa como da Santa Montanha (o Monte Atos). Havia assim um acompanhamento – humano, social, econômico e político – desde a Romênia até Jerusalém (veja-se os escritos de J. Balàn, na Coleção de Bellefontaine).(1)

kyriakosTentemos um prognóstico quanto ao futuro. Tudo está continuamente em mudança no país. No plano político, nesta primavera de 2009, o futuro imediato é extremamente difícil de se prever, e a presença cristã é, sobretudo, impressionante devido a seu número pequeno.

Estima-se que haja um pouco menos de 200.000 cristãos em toda a Terra Santa, incluindo todas as confissões: entre 140.000 e 150.000 em Israel (sobretudo na Galiléia) e 40 a 50.000 na Cisjordânia e em Gaza. Em Jerusalém, é difícil ter um número exato, porque os próprios limites da Cidade Santa não são os mesmos para todos. Alguns (em Israel) falam de 12 a 13.000 cristãos, outros de 9 a 10.000 (nos ambientes cristãos). Em termos de evolução, é preciso distinguir os cristãos em Israel: aqui há um certo aumento numérico, mas nos Territórios sob a Autoridade Palestina e em Jerusalém, devido ao êxodo constante, o número total exato é mais ou menos o mesmo (isto é, o crescimento natural da população cristã não evolui). Como as populações muçulmanas emigram menos e têm mais filhos, a proporção de cristãos no conjunto da população continua diminuindo.

Dos cerca de 200.000 cristãos, os gregos ortodoxos constituem a maior comunidade. Já os católicos (representados pelos cinco ritos: latino, melquita, maronita, sírio e armênio) formam juntos um pouco mais da metade.

Seguramente, esta comunidade local se encontra diante de uma tarefa muito pesada se, de algum modo, ela deve garantir uma permanência para todos os Mosteiros e Conventos disseminados na Terra Santa. As Igrejas do Oriente e do Ocidente, tanto do hemisfério norte como do hemisfério sul, têm, por conseguinte, uma responsabilidade com relação    a esta comunidade eclesial local em seu empenho de ser Igreja, de acolher as Igrejas do mundo inteiro e de continuar a transmitir o tesouro dos séculos. A idéia de São Paulo, de que as Igrejas de longe devem contribuir para o sustento da Igreja-Mãe, deveria ser repensada pelas conferências episcopais e pelos capítulos gerais das congregações religiosas.

Se compararmos a constelação de monges ou monjas de trinta e cinco anos atrás com a de hoje, veremos que em muitas comunidades já se vislumbra uma grande variedade de procedências: Irmãs e Irmãos da Polônia, do Kerala, da Romênia, do Brasil, do continente africano (Congo, Burkina-Faso), Madagascar, até da Coréia ou do Vietnã, vêm reforçar as fileiras de comunidades outrora fundadas sobretudo pela Europa ocidental. Nos lugares onde há muitas vocações, deveriam se interrogar sobre o sentido de uma presença-substituição, a médio ou longo prazo, na Terra Santa, lugar de vida sacramental inspirada na Bíblia, terra onde a vida monástica, desde seus primórdios no século IV, experimentou nascimentos e renascimentos contínuos.

Relativamente ao futuro desses lugares monásticos na Terra Santa, todos nós somos responsáveis. Ora, o mais comovente é que, graças a essa presença de monges e monjas nesses mesmos lugares onde foram redigidos os textos antigos, podemos ver e respirar novamente o clima específico da literatura que nos alimenta através do mundo inteiro. Vivendo o caminho monástico à maneira oriental, alguns, vindos do Ocidente ou de outros lugares, redescobriram o acesso aos tesouros antigos e nos fazem deles participar por sua própria vida e sua hospitalidade. A ser verdade, como alguns ousam profetizar, que a vida da Igreja hoje, para renascer, deverá passar de novo por um período de deserto, essas pequenas células vivas de monaquismo na Terra Santa pedem para ser envolvidas com maior atenção e apoiadas em sua fragilidade. Até já surgiu uma idéia: por que não tentar abrir amanhã uma casa monástica na faixa de Gaza, território dos monges João e Barsanufo, Doroteu e Dositeu, Zósimo e Hilarião? Os cristãos, muito  minoritários (2.000 no total, dos quais 500 católicos, com uma Fraternidade de Charles de Foucauld e outra das Irmãs da Caridade, de Madre Teresa de Calcutá), encontrariam nela um local de oração, de hospitalidade e de diálogo ecumênico e inter-religioso. Aguardemos. E neste país e por este país, com Abraão, «esperemos contra toda esperança»

 

Este artigo foi escrito pelo P. Benoît Standaert, OSB, monge da Abadia de Sint-Andries, Zevenkerken, (Bélgica), com a colaboração de Me. Christine Marie Devillon, OSB, Prioresa do Mosteiro das Beneditinas de Nossa Senhora do Calvário, no Monte das Oliveiras, em Jerusalém (Israel), e do P. Frans Bouwen, da Sociedade dos Missionários da África (Padres Brancos), missionário na Terra Santa.

 

Traduzido do francês por D. Matias Fonseca de Medeiros, OSB.

 

(1) N. do T.: Chama-se Coleção de Bellefontaine uma coleção de livros de espiritualidade monástica oriental e ocidental, publicada pela Abadia trapista de Bellefontaine (França).