Pessoas que procuram a Deus artesaos de paz

PESSOAS QUE PROCURAM A DEUS, ARTESÃOS DE PAZ

Extratos dos discursos do Papa Bento XVI
por ocasião de sua viagem à Terra Santa

 

Não sendo possível reproduzir aqui todas as palavras pronunciadas pelo Santo Padre Bento XVI nos diferentes lugares por onde esteve, privilegiamos as passagens que servem de estímulo aos cristãos e que lembram a vocação única e universal de Jerusalém.


Visita de cortesia ao Presidente de Israel, Shimon Peres – Palácio Presidencial – Jerusalém, segunda-feira, 11 de maio de 2009.

A minha peregrinação aos Lugares Santos constitui uma peregrinação de oração em prol da preciosa dádiva da unidade e da paz para o Médio Oriente e para toda a humanidade. Na verdade, rezo todos os dias a fim de que a paz que nasce da justiça se restabeleça na Terra Santa e em toda esta região, trazendo consigo segurança e renovada esperança para todos.

A paz é em primeiro lugar um dom divino. Efetivamente, a paz é a promessa do Onipotente a todo o gênero humano e salvaguarda a unidade. No livro do profeta Jeremias, lemos: «Conheço os meus projetos a respeito de vós – oráculo do Senhor – são projetos de felicidade, e não de sofrimento, para vos conceder um futuro repleto de esperança» (29, 11). O profeta recorda-nos a promessa do Todo-Poderoso que «se deixará encontrar», que «dará ouvidos», que «nos reunirá». Mas para isto existe também uma condição: temos o dever de «procurá-lo», de «buscá-lo de todo o coração» (cf. ibid., 12-14).

Aos chefes religiosos hoje aqui presentes, gostaria de dizer que a contribuição particular das religiões na busca da paz se funda primariamente na procura apaixonada e concorde de Deus. Temos a tarefa de proclamar e de dar testemunho de que o Todo-Poderoso está presente e é reconhecível também quando parece oculto à nossa vista, que Ele age no nosso mundo para o nosso bem, e que o futuro da sociedade se distingue pela esperança, quando vibra em harmonia com a ordem divina. É a presença dinâmica de Deus que congrega os corações e garante a unidade. Com efeito, o fundamento último da unidade entre as pessoas encontra-se na unicidade e universalidade de Deus, que criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança a fim de nos conduzir para o interior da sua vida divina, de tal forma que todos possam ser um só.

Por conseguinte, os líderes religiosos devem estar conscientes de que qualquer divisão ou tensão, qualquer tendência à introversão ou à suspeita entre crentes ou entre as nossas comunidades pode facilmente levar a uma contradição que ofusca a unidade do Onipotente, atraiçoa a nossa unidade e contradiz o Único que se revela a si mesmo como «rico de amor e de fidelidade» (Ex 34, 6; Sl 138, 2; Sl 85, 11). Queridos amigos, Jerusalém, que desde há muito tempo tem sido uma encruzilhada de povos de diferentes origens, é uma cidade que permite a judeus, cristãos e muçulmanos assumir o dever e, ao mesmo tempo, gozar do privilégio de dar testemunho conjunto da coexistência pacífica há muito tempo almejada pelos adoradores do único Deus; revelar o desígnio do Onipotente, anunciado a Abraão, para a unidade da família humana; e proclamar a verdadeira natureza do homem, que procura Deus. Portanto, comprometamo-nos a assegurar que, mediante o ensino e a orientação das nossas respectivas comunidades, as sustentaremos na sua fidelidade àquilo que verdadeiramente são como crentes, sempre conscientes da bondade infinita de Deus, da dignidade inviolável de cada ser humano e da unidade de toda a família humana.

 

BenoitXVINo campo de Aida, 13 de maio de 2009 (campo de refugiados nos territórios palestinos onde vivem cristãos e muçulmanos).

Instrumentos de paz. Como as pessoas deste campo, destes Territórios e de toda a região aspiram à paz! (...)

Vós, ao contrário, sentis-vos presos numa armadilha, como muitas pessoas nesta região e no mundo, numa espiral de violência, de ataques e de contra-ataques, de vinganças e de destruições contínuas. (...)

Como aspiramos a ver os frutos da tarefa muito mais difícil de edificar a paz! Como nós oramos ardentemente, a fim de que terminem as hostilidades que causaram a construção deste muro!

De ambas as partes do muro é necessária uma grande coragem para superar o medo e a desconfiança, se quisermos contrastar o desejo de vingança por perdas ou ferimentos. É necessária a magnanimidade para buscar a reconciliação, depois de anos de conflitos armados. E, todavia, a história ensina-nos que a paz só chega quando as partes em conflito estão dispostas a ir além das recriminações e a trabalhar em conjunto, visando finalidades comuns, levando a sério os interesses e as preocupações dos outros e procurando decididamente construir uma atmosfera de confiança. Deve haver uma determinação a empreender iniciativas fortes e criativas para a reconciliação: se cada um insistir sobre concessões preliminares da parte do outro, o resultado será somente o impasse das negociações. (...)

Ao mesmo tempo, porém, os esforços diplomáticos só poderão alcançar bom êxito se os próprios palestinos e israelenses estiverem dispostos a interromper o ciclo das agressões. Vêm-me à mente estas maravilhosas palavras, atribuídas a São Francisco: «Onde houver ódio, que eu leve o amor; onde houver ofensa, o perdão... onde houver trevas, que eu leve a luz; onde houver tristeza, a alegria».

A cada um de vós renovo o convite a um profundo compromisso em cultivar a paz e a não-violência, seguindo o exemplo de São Francisco e de outros grandes construtores de paz. A paz deve ter início no próprio ambiente, na própria família e no próprio coração. Continuo a rezar para que todas as partes em conflito nesta terra tenham a coragem e a imaginação para percorrer o caminho exigente mas indispensável da reconciliação. Possa a paz florescer mais uma vez nestas terras! Deus abençoe o seu povo com a paz! 

 

Homilia no Getsêmani, 12 de maio de 2009.

Reunimo-nos aqui sob o Monte das Oliveiras, onde nosso Senhor rezou e padeceu, onde chorou por amor a esta cidade e pelo desejo de que ela pudesse conhecer «o caminho da paz» (cf. Lc 19, 42), aqui de onde Ele regressou ao Pai, dando a sua última bênção terrena aos seus discípulos e a nós. Acolhamos hoje esta bênção. Ele concede-a de modo especial a vós, queridos irmãos e irmãs, que estais ligados numa linha ininterrupta àqueles primeiros discípulos que encontraram o Senhor Ressuscitado na fração do pão, que experimentaram a efusão do Espírito Santo no Cenáculo, que foram convertidos pela pregação de São Pedro e dos demais Apóstolos. Dirijo as minhas saudações a todos os presentes, e de modo especial àqueles fiéis da Terra Santa que, por vários motivos, não puderam estar hoje conosco.

Como Sucessor de São Pedro, voltei a percorrer os seus passos para proclamar o Senhor Ressuscitado no meio de vós, para vos confirmar na fé dos vossos pais e invocar sobre vós a consolação que é o dom do Paráclito. Encontrando-me aqui diante de vós hoje, desejo reconhecer as dificuldades, a frustração, a pena e o sofrimento que muitos dentre vós padeceram por causa dos conflitos que têm afligido estas terras, e também as amargas experiências do deslocamento que muitas das vossas famílias têm conhecido e – Deus não o permita – ainda podem vir a conhecer. Faço votos por que a minha presença aqui seja um sinal de que vós não fostes esquecidos, que a vossa presença e o vosso testemunho perseverantes são efetivamente preciosos aos olhos de Deus e constituem um componente do futuro destas terras. Precisamente por causa das vossas profundas raízes nestes lugares, da vossa antiga e forte cultura cristã, e da vossa confiança duradoura nas promessas de Deus, vós cristãos da Terra Santa sois chamados a ser não apenas como um farol de fé para a Igreja universal, mas também como fermento de harmonia, sabedoria e equilíbrio na vida de uma sociedade que tradicionalmente foi e continua a ser pluralista, multiétnica e multirreligiosa. (...)

(...) Como podemos deixar de dirigir os nossos pensamentos à vocação universal de Jerusalém? Anunciada pelos profetas, esta vocação manifesta-se como um acontecimento inquestionável, uma realidade irrevogável, fundada na história complexa desta Cidade e do seu povo. Judeus, muçulmanos e cristãos qualificam em conjunto esta Cidade como sua pátria espiritual. Quanto ainda é necessário realizar para a tornar verdadeiramente uma «cidade de paz» para todos os povos, onde todos possam vir em peregrinação à procura de Deus, e para ouvir a sua voz, «uma voz que fala de paz»! (cf. Sl 84 [85], 8).

ruelle(...) Aqui gostaria de referir-me diretamente à trágica realidade – que nunca pode deixar de ser fonte de preocupação para todos aqueles que amam esta Cidade e esta terra – da partida de um número tão elevado de membros da comunidade cristã nos anos mais recentes. Não obstante algumas razões compreensíveis levem muitos, especialmente jovens, a emigrar, esta decisão acarreta consigo como conseqüência um grande depauperamento cultural e espiritual da cidade. Hoje, desejo reiterar quanto eu disse em outras ocasiões: na Terra Santa há lugar para todos! Enquanto exorto as Autoridades a respeitar, apoiar e valorizar a presença cristã aqui, desejo assegurar-vos a solidariedade e, contemporaneamente, o amor e o apoio de toda a Igreja e da Santa Sé. (...)

(...) Na basílica do Santo Sepulcro, os peregrinos de todos os séculos veneraram a pedra que a tradição nos diz que estava no ingresso do túmulo na manhã da Ressurreição de Cristo. Voltemos com freqüência a este túmulo vazio. Reconfirmemos ali a nossa fé sobre a vitória da vida e oremos a fim de que cada «pedra pesada» posta à porta dos nossos corações, para bloquear a nossa entrega total à fé, à esperança e ao amor pelo Senhor, possa ser tirada com a força da luz e da vida que, a partir daquela primeira manhã de Páscoa, resplandecem de Jerusalém sobre o mundo inteiro. Cristo ressuscitou, aleluia! Ele ressuscitou verdadeiramente, aleluia!

 

Na Concatedral Latina de Jerusalém, 12 de maio de 2009.

Caros Irmãos e Irmãs em Cristo, estou feliz por estar hoje aqui convosco nesta Concatedral, onde a comunidade cristã de Jerusalém continua a congregar-se como tem feito há séculos, desde os primeiros dias da Igreja. Aqui, nesta cidade, Pedro foi o primeiro que anunciou a Boa Nova de Jesus Cristo no dia de Pentecostes, quando cerca de três mil almas se uniram ao número dos discípulos.

Também aqui os primeiros cristãos «eram assíduos no ensinamento dos Apóstolos e na comunhão, na fração do pão e nas orações» (At 2, 42). De Jerusalém, o Evangelho difundiu-se «por toda a terra... até aos confins do mundo» (Sl 18 [19], 4), e em todas as épocas o esforço dos missionários do Evangelho foi sustentado pelas orações dos fiéis, congregados ao redor do altar do Senhor para invocar o vigor do Espírito Santo sobre a obra da pregação.

Acima de tudo, foram as orações daqueles cuja vocação, segundo as palavras de Santa Teresa de Lisieux, consiste em ser «o profundo amor no coração da Igreja», que sustém a obra da evangelização. Desejo expressar uma particular palavra de apreço pelo apostolado escondido nas pessoas de vida contemplativa, que estão aqui presentes, e agradecer-vos a vossa generosa dedicação a uma vida de oração e de abnegação. Estou particularmente grato pelas preces que recitais pelo meu ministério universal e peço-vos que continueis a recomendar ao Senhor o meu serviço ao Povo de Deus no mundo inteiro. Com as palavras do Salmista, também eu vos peço que «oreis pela paz de Jerusalém» (Sl 121 [122], 6), que rezeis continuamente pelo fim do conflito que trouxe tantos sofrimentos às populações desta região. E agora concedo-vos a minha Bênção.

 

Visita ao Santo Sepulcro, 15 de maio de 2009.

Encontrando-nos neste lugar santo e refletindo sobre aquele acontecimento maravilhoso, como poderíamos deixar de sentir «arder o nosso coração» (cf. At 2, 37), à maneira daqueles que foram os primeiros a ouvir a pregação de Pedro no dia de Pentecostes? Aqui Cristo morreu e ressuscitou, para nunca mais voltar a morrer. Aqui a humanidade foi transformada definitivamente. O longo domínio do pecado e da morte foi destruído pelo triunfo da obediência e da vida; o madeiro da cruz revela a verdade a respeito do bem e do mal; o juízo de Deus foi pronunciado sobre este mundo e a graça do Espírito Santo foi derramada sobre a humanidade inteira. Aqui Cristo, o novo Adão, ensinou-nos que o mal nunca tem a última palavra, que o amor é mais forte que a morte, que o nosso futuro e o da humanidade está nas mãos de um Deus próvido e fiel. (...)

Esta antiga igreja da Anástasis traz um seu testemunho silencioso, quer do peso do nosso passado com todas as suas faltas, incompreensões e conflitos, quer da promessa gloriosa que continua a irradiar do túmulo vazio de Cristo. Este lugar santo, onde o poder de Deus se revelou na debilidade, e os sofrimentos humanos foram transfigurados pela glória divina, convida-nos a olhar mais uma vez com os olhos da fé o rosto do Senhor crucificado e ressuscitado. (...)

Também agora a graça da Ressurreição está em ação em nós! Possa a contemplação deste mistério estimular os nossos esforços, quer como indivíduos quer como membros da comunidade eclesial, a crescer na vida do Espírito mediante a conversão, a penitência e a oração. Possa, além disso, ajudar-nos a superar com o poder deste mesmo Espírito, todo o conflito e toda a tensão nascidos da carne e remover todos os obstáculos, tanto dentro como fora, que se interpõem ao nosso testemunho conjunto de Cristo e ao poder do seu amor que reconcilia.

Queridos amigos, é com estas palavras de encorajamento que encerro a minha peregrinação aos lugares santos da nossa redenção e do nosso renascimento em Jesus Cristo. Rezo para que a Igreja que está na Terra Santa receba cada vez mais força da contemplação do túmulo vazio do Redentor. Neste túmulo ela é chamada a sepultar todos os seus anseios e temores, para voltar a ressurgir todos os dias e dar continuidade à sua viagem pelas ruas de Jerusalém, da Galiléia e mais além, proclamando o triunfo do perdão de Cristo e a promessa de uma vida nova. Como cristãos, sabemos que a paz à qual esta terra dilacerada por conflitos aspira, tem um nome:  Jesus Cristo. «Ele é a nossa paz!», que nos reconciliou com Deus num único corpo mediante a Cruz, pondo fim à inimizade (cf. Ef 2, 14). Por conseguinte, nas suas mãos confiemos toda a nossa esperança para o futuro, precisamente como na hora das trevas Ele mesmo confiou o seu espírito nas mãos do Pai.

Permiti-me concluir com uma especial palavra de encorajamento aos meus Irmãos Bispos e sacerdotes, assim como aos religiosos e às religiosas que servem a amada Igreja na Terra Santa. Aqui, diante do túmulo vazio e do próprio coração da Igreja, exorto-vos a renovar o entusiasmo da vossa consagração a Cristo e o vosso compromisso no serviço amoroso ao seu Corpo místico. Imenso é o vosso privilégio de dar testemunho de Cristo nesta terra, que Ele santificou através da sua presença terrena e do seu ministério. Com caridade pastoral, tornai os vossos irmãos e irmãs e todos os habitantes desta terra, capazes de sentir a presença do Ressuscitado que purifica e o seu amor que reconcilia. Jesus pede a cada um de nós que sejamos testemunhas de unidade e de paz para todos aqueles que vivem nesta Cidade da Paz. Como novo Adão, Cristo é o manancial da unidade à qual toda a família humana é chamada, esta mesma unidade da qual a Igreja é sinal e sacramento. Como Cordeiro de Deus, Ele é a fonte da reconciliação, que ao mesmo tempo é uma dádiva de Deus e um dever sagrado que a nós foi confiado. Como Príncipe da Paz, Ele é a nascente daquela paz que supera toda a compreensão, a paz da nova Jerusalém. Possa Ele sustentar-vos nas vossas provações, confortar-vos nas vossas aflições e confirmar-vos nos vossos esforços em vista de anunciar e de propagar o seu Reino. (...)

Tradução de «L’Osservatore Romano»