Editorial

OS MOSTEIROS DE SÃO BENTO NA TERRA SANTA

P. Martin  Neyt, osb

 

Nuvens, fogo, luz... Quando Abraão se pôs a caminho, percebeu no horizonte um palácio que parecia em chamas. Interrogando-se acerca de sua visão, ele se aproximou e descobriu um palácio de luz onde morava o Três vezes Santo. Moisés, por sua vez, viu no meio da sarça uma chama de fogo que não se consumia. Depois de ter tirado as sandálias de seus pés, ele se aproximou e ouviu a voz d’Aquele que tinha visto a miséria de seu povo e o chamava para libertá-lo. Longa caminhada de libertação, longa marcha no deserto, coluna de nuvens durante o dia, coluna de fogo durante a noite.   

Este Boletim apresenta os mosteiros oriundos de São Bento que existem na Terra Santa, abrasada em conflitos, abrasada de fé em um Deus único e três vezes Santo. Cada um desses mosteiros quis explicitar a história por vezes movimentada de sua fundação, as razões de sua presença atual, as interrogações que se fazem. Esses testemunhos interpelam e nos convidam a tê-los mais presentes na oração e na vida de todos os dias.

A história do monaquismo cristão nesse país é longa, desde as figuras dos grandes fundadores Santo Hilarião e São Caritão. O primeiro viveu perto de Gaza, «amiga das musas», célebre por sua escola de sofistas e também renomada por grandes figuras monásticas tais como Barsanufo e Doroteu. Gaza provavelmente foi também o lugar onde as palavras e os atos dos Pais do Egito foram compilados e publicados. Hoje ela é o cenário de tantos sofrimentos e misérias. O segundo, São Caritão, viveu nas solidões do deserto de Judá; outros o seguiram: Santo Eutímio e seus discípulos, São Sabas e São Teodoro. É longa a listas de eremitas, como São Jerônimo, peregrinos, lauras e mosteiros que floresceram nesta Terra Santa. Em toda parte a lembrança deles aflora. E seria de todo impossível compreender o sentido da presença dos atuais mosteiros sem inscrevê-los nesta imensa tradição monástica que remonta às próprias fontes do cristianismo. É importante lembrar os traços principais: presenças ortodoxas grega, romena, siríaca, copta, etíope, sem esquecer as dos católicos repartidos em cinco ritos.

O leitor descobrirá pouco a pouco o tesouro que encerra cada uma das comunidades monásticas nascidas de São Bento. Em 1890, foram os monges cistercienses da Abadia francesa de Sept Fons os primeiros a chegarem a Jaffa, logo se estabelecendo em Latroun. Eles estiveram presentes em momentos cruciais da história daquele país. «Sabor bíblico e amargura das guerras ensinaram-lhes a viver na confiança e no abandono total à graça de Deus». Sentinelas da história, sentinelas da Igreja, os monges nem por isso esquecem o presente, produzindo um vinho de qualidade e óleo de oliva que evocam o Cântico dos Cânticos e a aliança bíblica com o Amado. A doze quilômetros de Jerusalém, na estrada dos peregrinos de Emaús, eis que surgem os dois mosteiros de monges e monjas de Abu Gosh. É preciso reler a mensagem de fundação, enviada por Dom Grammont, quando os três primeiros monges chegaram, em 1976, seguidos, em 1977, pelas monjas-oblatas então instaladas em Qiriath Yearim. Considerando as diferentes tradições que os cercam, o Abade do Bec-Hellouin os convida à abertura de espírito e de coração, embora conservando um autêntico amor pela tradição de Monte Oliveto. «Premidos entre muçulmanos e judeus, os cristãos vivem aqui numa situação minoritária que é um convite à afirmação de sua identidade na autenticidade do amor a Cristo».

A chegada a Jerusalém pelo Monte das Oliveiras oferece um dos mais belos panoramas das colinas de Sião e da Cidade Santa. Madre Christine, Prioresa das Beneditinas de Nossa Senhora do Calvário, conhece muitíssimo bem a história de sua Congregação e de seu estabelecimento neste lugar que encima o Getsêmani, ao lado do cemitério judeu. Foi necessária a intervenção pessoal do Papa Leão XIII que lhes deu a autorização de virem para a Terra Santa. Aos 27 de abril de 1897, elas reassumiram este local onde viveram Santa Melânia, a Jovem, e suas companheiras. Também elas tiveram que atravessar os infortúnios das guerras, exílio, depredação, retorno... mas, continuam a dar seu testemunho tão pertinho daquele lugar onde Cristo desposou nossa humanidade para salvá-la. Sobre a colina de Sião, ao sudoeste da cidade, os monges beneditinos da Congregação de Beuron celebram a Liturgia das Horas desde 21 de março de 1896. Acolhem inumeráveis peregrinos, vindos para visitar este lugar tão venerável da Dormição de Maria. Em contato com a Faculdade de Teologia de Santo Anselmo, em Roma, o ecumenismo proporciona à comunidade uma dimensão essencial. O projeto de construir uma Universidade da Paz lhe dará a plena realização de sua vocação. A missão do Mosteiro se estende também à Galiléia, em Tabgha. Neste lugar santo, onde aconteceu a multiplicação dos pães, existe um Priorado de recente fundação. Irmãs Beneditinas vindas das Filipinas ajudam os monges a acolherem milhares de peregrinos e hóspedes que passam por este lugar tão célebre.

O Mosteiro das Beneditinas do Emanuel, em Belém, que teve início em 1967, se insere numa longa história antecedente; com o passar dos anos, a comunidade experimentou algumas dificuldades, das quais a mais dolorosa foi a construção do muro de separação entre Israel e a Palestina. Mais da metade da população das vizinhanças vive no limiar da pobreza. Isolamento, miséria e sofrimentos envolvem este lugar de acolhida, de oração e de comunhão. Sua construção de tipo oriental, o Typicon, as situa dentro da Igreja melquita, na vida de renovação no Espírito e nos laços de fraternidade especialmente com seus vizinhos árabes. Quanto à Fraternidade dos monges de Bose, estabelecida no centro de Jerusalém, há 25 anos, em uma humilde habitação, ela é um precioso sinal de escuta do mundo judeu e dos cristãos do Oriente.

Cada uma dessas comunidades monásticas vive sob a nuvem divina que as acompanha dia após dia. As chamas que Abraão percebeu de longe poderiam se extinguir um dia? É longa a espera do dia em que a luz do Deus três vezes Santo brilhará com um clarão eterno. Monges e monjas estão lá, vigilantes na oração, na acolhida e na espera da vinda do Senhor Jesus. É também isso que vivem as monjas cistercienses que começaram uma nova fundação em Alepo, na Síria. Novo testemunho em terra muçulmana. Alguns extratos das palavras do Santo Padre, por ocasião de sua viagem à Terra Santa, confirmam a vocação de cada uma dessas comunidades monásticas. «Como podemos deixar de dirigir – declara ele – os nossos pensamentos à vocação universal de Jerusalém? (...) Como um microcosmos do nosso mundo globalizado, esta Cidade, se tiver que viver a sua vocação universal, deve ser um lugar que ensine a universalidade, o respeito pelo próximo, o diálogo e a compreensão recíproca; um lugar onde o preconceito, a ignorância e o medo que os alimenta sejam superados pela honestidade, pela integridade e pela busca da paz».

Que o testemunho tão corajoso de cada uma dessas comunidades, fiel à sua vocação própria de acolhimento, de paz, de trabalho e de oração, encontre nas palavras fortes de nosso Papa Bento XVI um conforto e uma nova esperança, pois, com toda a discrição que as caracteriza, elas são lugares únicos de abertura, de reconciliação e de comunhão muitas vezes desconhecidos.

Traduzido do francês por D. Matias Fonseca de Medeiros, OSB.